05/07/17

Ciência 2017

12:08



Estive esta manhã a intervir no Ciência 2017, tal como os demais representantes dos diferentes grupos parlamentares na Comissão Parlamentar de Educação e Ciência.Nos poucos minutos que nos foram dados, procurei focar os seguintes pontos:

1. A ciência atinge o seu melhor quando não está fechada em fronteiras, quando se abre ao mundo - e isso coloca a questão da internacionalização da actividade científica. Também por aqui somos europeístas, porque não será produtivo estarmos sozinhos no mundo global: participando no espaço da UE, estaremos de forma mais proveitosa no mundo global.

2. Não obstante, no plano dos diferentes territórios no país, é preciso democratizar o acesso à internacionalização. Não pode haver outra divisão litoral/interior no acesso do conhecimento à internacionalização, não podemos aceitar que viver em certos territórios implique ficar para trás no acesso da investigação à internacionalização. Por isso é importante, por exemplo, o actual investimento em intensificar o esforço de investigação feito nos Politécnicos.

3. Outro caminho que é preciso traçar, ao mesmo tempo, é aprofundar a interacção entre ensino e investigação. Há espaços onde essa interacção é forte, mas também há espaços de resistência a essa interacção. Precisamos que o ensino (e a aprendizagem) seja mais robustecido com a prática da investigação, precisamos que a investigação contribua para robustecer o ensino (e a aprendizagem). Essa questão coloca-se no plano das carreiras (de docência e de investigação), mas também se coloca como desafio às próprias instituições, em termos de estratégia e de governação. Esse acréscimo de interacção entre ensino e investigação deve ser benéfico quer para os profissionais, quer para o desenvolvimento institucional.

4. Precisamos também ultrapassar algumas dicotomias improdutivas. Por exemplo, excessiva insistência na utilidade da investigação aplicada, com menor apoio à investigação fundamental, seria um erro. Apostar só (ou quase só) em investigação aplicada seria, a prazo, matar a ciência como um todo. Os sistemas de produção de conhecimento não podem guiar-se quase exclusivamente pela “competitividade à vista”, imediata – mesmo que esse enviesamento nos seja apresentado com as roupagens da inovação.

5. O chamado “mercado” não pode ser o único, ou quase exclusivo, destinatário da produção científica. A comunidade nacional organizada, o Estado, precisa de recorrer mais assídua e intensamente ao conhecimento, para que tenha oportunidade de melhorar a qualidade da decisão. Isto implica escolhas acertadas quanto à configuração da rede de unidades de investigação, na sua diversidade e coerência.

6. Aprofundar a ligação entre conhecimento e sociedade passa, também, por responder ao desafio da multidisciplinaridade – pelo menos, quando essa multidisciplinaridade é necessária para considerar os aspectos societais dos problemas. Neste Ciência 2017 já houve um interessante debate em torno da questão dos incêndios – e esse é um bom exemplo para o que quero dizer. A questão dos incêndios não é só a questão da propagação do fogo, nem só a questão da meteorologia. Como muitos já assinalaram, também é a questão da organização territorial do país, a questão social das transformações do mundo rural, a questão do ambiente no sentido mais vasto. E aqui já precisamos de uma ampla multidisciplinaridade para compreender o que está em causa. Mas há também – e aqui temos outro alargamento – a questão política da forma como uma comunidade nacional se organiza para resolver problemas complexos e que só podem ser enfrentados com sucesso num prazo longo. Há a responsabilidade política (como é que não resolvemos isto depois de 30 anos?), mas é uma responsabilidade política que não é só dos chamados políticos. É uma questão da comunidade como um todo, como é que organizamos um processo de decisão tão complexo – e esta questão também deve mobilizar conhecimento, provavelmente de áreas de conhecimento que alguns tendem a desvalorizar.



#Ciencia2017PT


Porfírio Silva, 5 de Julho de 2017
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02/07/17

Quando o país está melhor

21:35



Ontem participei na apresentação do Pedro Ribeiro como candidato do PS a Presidente da Câmara Municipal do Cartaxo. Foi um privilégio, quer pela mobilização que testemunhei, quer pela qualidade da obra e do projecto da candidatura, envolvendo também os candidatos às Juntas de Freguesia e à Assembleia Municipal. O discurso de Pedro Ribeiro foi bem um sinal dessa vitalidade. #CartaxoMelhor #PedroRibeiro2017

Na minha intervenção, além de temas autárquicos, foquei também aspectos da situação política nacional. Deixo parte do que disse nessa ocasião.

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Portugal está melhor.
Começámos a devolver rendimentos às famílias.
Voltámos a investir nos serviços públicos: nunca tivemos tantos profissionais no Serviço Nacional de Saúde desde o início da crise; há muitos milhares de portugueses que ainda não tinham médico de família e a quem está a chegar esse serviço; nunca houve tantos professores nas escolas como este ano.
Conseguimos dar um novo alento à economia: é por isso que o desemprego baixa e o emprego sobe. Em Abril, com 9,5 de taxa de desemprego, tivemos o valor mais baixo de desemprego desde Dezembro de 2008. O emprego continua a aumentar.
Afinal, não era preciso mandar as pessoas emigrar, nem dizer que os portugueses viviam acima das possibilidades, nem era preciso o sistemático desrespeito pela Constituição. O que era preciso era juntar a noção de progresso do país e a noção de qualidade de vida das pessoas. O que foi preciso foi deixar para trás aquela teoria de um alto dirigente do PSD, que dizia que o país estava melhor, embora a vida das pessoas não estivesse melhor. Para nós, o país só está melhor quando a vida das pessoas estiver melhor.

Afinal, até os mais céticos começam a dar sinal de finalmente compreenderem que o governo do PS está a fazer o que é preciso fazer. A Comissão Europeia começou a querer aplicar sanções a Portugal, pelos maus resultados de 2015, que não eram da responsabilidade da atual governação. Hoje, a Comissão Europeia confia que sabemos o que estamos a fazer.
E, temos de dizê-lo, conseguimos mudar a atitude da Comissão Europeia face a Portugal porque temos um governo europeísta, que quer mudar as políticas europeias quando essas políticas estão erradas, mas não está contra a Europa nem está contra os nossos parceiros europeus. E esse europeísmo esclarecido do nosso governo foi fundamental para o percurso que temos vindo a fazer.
E agora até o FMI, que teve o papel que se sabe no programa austeritário, acabou de fazer uma previsão de crescimento da economia portuguesa para 2017. A previsão é um crescimento de 2,5% para este ano. Ora, a verificar-se essa previsão, 2017 seria o melhor ano para a economia portuguesa desde a nossa adesão ao Euro.
Os níveis de confiança dos consumidores estão a bater recordes históricos. E todos sabemos como a confiança é importante.

Mas não nos equivoquemos: há ainda muito para fazer. Não é tempo de repousar sobre os louros dos sucessos alcançados. Porque, em boa verdade, estamos ainda apenas a firmar as bases do muito que tem ainda de ser feito. Até porque é preciso ainda percorrer um longo caminho para devolver aos poderes públicos todas as capacidades necessárias para que o Estado, no seu todo, a nível central e a nível local, seja eficaz e eficiente a prosseguir o bem público.
Uma certa Direita, e alguns comentadores de serviço, andaram décadas a defender o Estado Mínimo. À boleia das teorias do Estado Mínimo, o Estado foi enfraquecido e entregaram-se aos privados funções que deviam ser assumidas por um Estado Social de Direito, e até funções que, em bom rigor, deviam ser consideradas funções de soberania - num conceito robusto e democrático de soberania.
Nada temos contra a economia privada, cujos direitos fazem parte da nossa conceção de sociedade livre, aberta, de iniciativa. Nada temos nada contra quem, respeitando as regras, procura o lucro. Mas a prossecução das funções de soberania não pode ser confundida com a prossecução do lucro. Ambas são legítimas, mas são diferentes. Ora, não se respeitando essa diferença, enfraquece-se o Estado, enfraquecem-se os serviços públicos, desprotege-se o país e as pessoas.
E essas políticas inspiradas na ideologia do Estado Mínimo têm consequências. Não podemos descuidar o nosso automóvel, andar por aí com os pneus carecas, e depois ficarmos surpreendidos porque há um despiste.
E muito menos é admissível, como alguns fazem, que aqueles que deixaram os pneus carecas sejam os que mais barulho fazem a criticar o condutor.
O governo do Partido Socialista está a reconstruir o papel que o Estado deve ter numa sociedade democrática, livre, aberta à iniciativa de todos mas que cuida do bem comum, que cuida do interesse geral, que olha para as responsabilidades do futuro e não apenas para o momento presente.

Mas Roma e Pavia não se fizeram num dia. Enfrentamos uma tarefa imensa.
Precisamos muita humildade para fazer o que é preciso fazer. Não é só ter as políticas certas. Ter as políticas certas é muito necessário. Mas também é preciso ter a atitude certa.
Combater toda a arrogância. Evitar qualquer triunfalismo. Manter a humildade de ouvir e respeitar, e a humildade de sabermos que há muito ainda por fazer.
Mas também não nos resignamos face às dificuldades: mantemos a determinação de quem quer continuar a fazer cada vez melhor.

2 de Julho de 2017

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30/06/17

Para que serve a União Europeia?

14:18


Lemos nas notícias dos últimos dias que a Comissão Europeia aplicou uma multa de 2,42 mil milhões de euros à Google “por abuso de posição dominante enquanto motor de busca”. A acusação cai no perímetro do respeito pelas regras da concorrência e diz respeito ao putativo facto de que a Google usa o seu motor de busca para beneficiar os seus próprios produtos e serviços.

O montante da multa foi considerado astronómico pela generalidade dos observadores - uma sanção à medida da importância global da empresa.

Gianni Pittella, o líder dos Socialistas & Democratas no Parlamento Europeu, apoiou a decisão e disse que isto significa que "a Europa não é o faroeste" e que "nenhuma empresa está acima da lei".

Quero sublinhar este ponto: nenhum Estado-Membro da União Europeia, por si só, podia enfrentar assim os abusos das grandes empresas globais. Este não é o primeiro caso a demonstrar como a UE é importante para tentar controlar o lado selvagem da globalização. Nem a Alemanha poderia, por si só, fazer frente a estes poderios globais. Muito menos Portugal. A União Europeia é um factor de civilização no meio de uma globalização que tem potencialidades benéficas e, também, ameaças poderosas.

Por isto não percebo a cegueira anti-UE de alguns. Temos de corrigir muita coisa na UE, sem dúvida. Mas é pura cegueira política não entender que, sem a UE, a globalização tenderia a ser muita mais selvagem e muito mais perigosa.


(Uma explicação razoavelmente detalhada do caso: Anti-trust: Comissão multa a Google em 2,42 mil milhões de euros por abuso de posição dominante no mercado de motor de busca, ao dar uma vantagem ilegal ao seu próprio serviço de comparação de preços)

30 de Junho de 2017

29/06/17

O Estado de incêndio.

12:03


O incêndio de Pedrógão Grande continua a lavrar. Continua aceso na nossa vida comum. E, no essencial, muitos continuam a não perceber o que está em causa.

Não vou falar da dor e do luto, nem das extraordinárias circunstâncias meteorológicas, nem das coisas que não terão estado tão organizadas como deviam estar, nem da pobreza de espírito de quem confunde política com politiquice irresponsável, nem das erradas concepções do mundo que não entendem que vivemos rodeados de incerteza - uma irredutível incerteza que exige um tipo de preparação (planeamento) completamente diferente daquele que seria útil se o mundo fosse essencialmente previsível.

Não vou entrar na conversa partidária de tentar distribuir culpas ou louros por este ou aquele. A humildade que o problema exige não toleraria essa função de distribuidor de culpas. Os que tentam atribuir notas positivas ou negativas para premiar ou condenar este ou aquele agente político, passado ou presente, não compreenderam algo muito simples: o que está em causa é a ineficiência do sistema de governação do país como um todo em matérias de prazo muito longo.

Não vejo ninguém, fora dos agentes políticos no sentido estrito, que acredite que a "culpa" seja desta ministra de agora ou daquele ministro de ontem. As pessoas percebem que o problema é que colectivamente, todos, ao longo do tempo, nos governos e nos parlamentos, e mais em todos os órgãos e instâncias onde se podia contribuir para decidir bem, nunca conseguiram fazer o suficiente para tomar um rumo certo, partilhado, persistente, determinado. As dificuldades de pensar e agir colectivamente transformaram-se na insuficiência da decisão e na insuficiência da acção. As pessoas, em geral, percebem que culpar o político A ou o político B é estultícia, neste caso. As pessoas culpam é "os políticos", isto é, toda a gente que devia tomar decisões e não conseguiu, em décadas, fazer isso com todos os ingredientes necessários.

A crise da capacidade de pensar e agir colectivamente é, até certo ponto, a crise do Estado. O Estado anda há muito a arder, porque há muito que muitos têm conseguido enfraquecer o Estado em matérias que não podem ser entregues a privados cujo primeiro interesse é o lucro. Não tenho nada contra quem, respeitando as regras, procura o lucro. Mas tenho contra que se confundam as funções do Estado com agentes cuja motivação estatutária é maximizar o lucro. A noção de funções de soberania não pode ser infinitamente enfraquecida, não porque sejamos "estatistas", mas porque isso implica péssimas consequências para a nossa vida em comum.

O Estado é uma marca civilizacional. Termos Estado só é possível por termos saído da selva. Quem nos tem querido levar de volta à selva (ao salve-se quem puder) tem responsabilidades, porque a infinita privatização tem consequências. Isso está à vista, tal como está à vista como podemos pagar caro a incapacidade de decidir de forma suficientemente robusta. O fogo também tem isto a dizer-nos.

29 de Junho de 2017

12/06/17

Refugiados, Europa, Esquerda



Leio nas notícias que a «UE pode iniciar terça-feira processo contra países que rejeitaram a recolocação de migrantes».


O Público especifica:

«A União Europeia vai dar início a processos judiciais contra três Estados-membros do Leste por não aceitarem requerentes de asilo, o que ajudaria os países na linha da frente da crise migratória. Segundo três fontes oficiais em Bruxelas, a Comissão Europeia deverá aprovar já na terça-feira o envio de notificações para a Polónia e a Hungria. Outras duas fontes disseram que a República Checa também está na lista.
Esta decisão, a confirmar-se, marca uma súbita escalada na disputa entre Bruxelas e estes países devido aos refugiados e imigrantes - as cartas de notificação são o primeiro passo de um processo de infracção que a Comissão pode accionar contra Estados-membros que não cumpram as suas obrigações legais.»

Eu acho bem. A Europa tem de defender os seus valores - e as decisões que toma em matérias de interesse comum.

Espero que a Esquerda portuguesa concorde que a UE deve tomar esta acção. Quero dizer: espero que ninguém, na Esquerda portuguesa, venha dizer que isto são "imposições" da UE.

E, de caminho, espero que, à esquerda, se abandone a retórica de chamar "imposições" e "chantagem" quando a UE faz cumprir as decisões que todos juntos tomaram segundo as regras comuns. Porque uma coisa é concordar ou discordar de uma política, outra coisa é chamar "imposição" e "chantagem" aos mecanismos de fazer respeitar as decisões comuns.

12 de Junho de 2017

08/06/17

O estado da Educação.

22:15

"Quem diga que precisamos mais, está certo. Quem diga que isto é pouco, não está a olhar com sufiiciente proximidade para a realidade."

A minha intervenção parlamentar esta tarde, no Debate Quinzenal com o Primeiro-Ministro sobre Política de Educação.




8 de Junho de 2017

24/05/17

Emprego científico, um dia importante




Oito meses depois, o que mudou no diploma do emprego científico?


«Por seu turno, o deputado Porfírio Silva, do PS, defende que esta discussão só foi possível porque o Governo tinha dado antes um “passo de gigante” para tratar os bolseiros como trabalhadores científicos, com contratos com todos os direitos dos contratos.»

Já o PSD farta-se de fazer piruetas verbais para ver se nos esquecemos de uma coisa muito simples: o PSD foi o ÚNICO partido que não apresentou nenhuma proposta neste importante trabalho legislativo sobre emprego científico, nesta apreciação parlamentar do D.L. 57/2016. Isso: propostas, ZERO. A completa vacuidade. Só conversa: a política do bluff como "pensamento estratégico".

Pelo meu lado, faria, em resumo, a seguinte apreciação do processo.

A Lei vai confirmar a importância do Decreto-Lei, que foi um passo de gigante dado pelo Ministério da Ciência para acabar com os falsos bolseiros e tratá-los como trabalhadores científicos, com contratos com todos os direitos dos contratos - que as bolsas não tinham. Os concursos que vão ser abertos para contratar muitos actuais bolseiros serão um passo muito importante.

O Grupo Parlamentar PS empenhou-se em reforçar o diploma, no sentido de fazer com que estes contratos sejam passos no acesso à carreira. Ficou claro que não pode haver sucessão de séries de contratos fora da carreira e que 6 anos de contratos garantem concursos para acesso à carreira.
Em termos de remuneração, a negociação no seio da maioria parlamentar permitiu ir além dos nossos objectivos iniciais. Queríamos garantir que nenhum bolseiro perdia rendimento com a contratação, como disse no primeiro debate no plenário da Assembleia da República. Acabámos a garantir um aumento que abrangerá muitos.

O PS também teve a preocupação de dar às instituições as condições para aplicarem esta lei, porque isso é importante para o seu sucesso (sucesso da lei, sucesso das instituições). Por exemplo, facilitando a conjugação da actividade de investigação e da actividade docente.

Hoje damos um passo importante na promoção do emprego científico com direitos.


24 de Maio de 2017

23/05/17

Breve reflexão sobre a reeleição de Sánchez no PSOE

08:46


No fim-de-semana passado, Pedro Sánchez foi reeleito líder do PSOE por maioria absoluta (50,21% dos votos), contra 39,94% para Susana Díaz e 9,85% para Patxi López.

Duas observações rápidas sobre estes resultados e sobre o processo interno ao PSOE que trouxe as coisas aqui.

Em primeiro lugar, cabe verificar que "os generais" (a generalidade dos líderes históricos e da "aristocracia partidária" do PSOE) perderam esta batalha, onde tinham apostado na líder andaluza para varrer Sánchez. Acredito que as élites têm um papel a desempenhar, mas, manifestamente, para ser realmente élite é preciso merecer esse estatuto e cumprir a função. Claramente, aos barões do PSOE faltou perceber alguma coisa para ter sido tão desastrosamente derrotada na apreciação que fez da situação. É a segunda vez, em pouco tempo, que acontecem fenómenos destes em partidos da esquerda europeia ocidental. Há pouco tempo aconteceu no Partido Comunista Francês a propósito das presidenciais: a direcção do PCF decidiu não apoiar Mélenchon e, depois, os militantes, chamados a pronunciar-se, decidiram que o PCF apoiaria o ex-PSF. São dois momentos de desligamento entre as direcções e as bases partidárias, em dois partidos com grandes diferenças políticas e organizativas. Isto mostra que é preciso repensar o funcionamento dos partidos de esquerda, para evitar que se tornem cúpulas sem bases - mas, também, para evitar que se tornem meras multidões agregadas em torno de um líder pessoal, sem colectivo real a fazer o trabalho de construção política que cabe a um verdadeiro partido. O debate sobre o papel das primárias anda por aqui - tal como o debate sobre a necessidade de tornar mais colectivo e menos pessoalizado o funcionamento dos partidos de esquerda.

Em segundo lugar, Sánchez não deixou agora de ter os problemas que já teve na sua liderança anterior: como construir uma maioria progressista para governar em vez do Partido Popular, a partir da sua relativa fraqueza eleitoral como PSOE. Convém não esquecer que, no conturbado processo de gestão da maioria relativa alcançada pelo PP, o PSOE conseguiu fazer um acordo com os liberaia do Ciudadanos, mas não conseguiu nenhuma base séria de conversa com o PODEMOS. Por inabilidade? Por fraqueza programática? Por fraqueza táctica? Por falta de visão estratégica? Por culpa do radicalismo do PODEMOS? É difícil dizer, mas sempre lembramos uma diferença crucial entre o processo português de construção da "Geringonça" e a gestão de Sánchez: António Costa sempre disse muito claramente, desde a noite das eleições, que não deixaria o país sem governo - significando isso que só inviabilizaria um governo de direita se pudesse dar um governo de esquerda ao país. E assim fez: só derrubou o "governo de transição" de Passos e Portas depois de assinar os acordos à esquerda. Deste modo, nunca deixou o país suspenso à beira de ingovernabilidade - precisamente o que Sánches não soube fazer, com grande perda para o PSOE e com grande vantagem para o PP e o PODEMOS. No essencial, a equação não mudou. Resta saber se Sánchez terá regressado mais sábio.

23 de Maio de 2017

05/05/17

Autonomia e gestão das escolas (debate parlamentar)


Deixo os três momentos da minha participação, esta manhã, no debate parlamentar sobre autonomia e gestão das escolas.


Pedido de esclarecimento do Deputado Porfírio Silva ao Deputado Amadeu Soares Albergaria no âmbito do debate Marcação do PSD e Projecto de Lei (PSD) Gestão dos estabelecimentos públicos da educação pré-escolar e dos ensinos básico e secundário




Intervenção do Deputado Porfírio Silva no âmbito do debate Marcação do PSD e Projecto de Lei (PSD) Gestão dos estabelecimentos públicos da educação pré-escolar e dos ensinos básico e secundário




Resposta do Deputado Porfírio Silva aos deputados Ana Rita Bessa, Pedro Alves e Luís Monteiro, no âmbito do debate Marcação do PSD e Projecto de Lei (PSD) Gestão dos estabelecimentos públicos da educação pré-escolar e dos ensinos básico e secundário



5 de Maio de 2017

02/05/17

E a França aqui tão perto…

21:10


Reflexões, onde se fala da tragédia do PSF, da miopia de quem subavalia Le Pen, do que falta a Macron… e de como a França nos deve interessar a todos.

1. No espaço político do Partido Socialista Francês (PSF), apresentaram-se às presidenciais dois candidatos: um ficou em primeiro lugar (Macron), o outro em quinto (Hamon). Este era o candidato oficial, aquele era de facto um candidato da grande constelação a que pertence Hollande. Os vastos sectores do PSF que decidiram ignorar o processo oficial de escolha do candidato presidencial (as primárias) escolheram o caminho de uma provável implosão do partido. Mas essa não será sua culpa exclusiva, dado que é já longo o processo de “balcanização” do PSF. Por seu lado, o candidato oficial não quis, ou não foi capaz, ou não o deixaram, juntar as peças de um partido há muito tempo demasiado partido, tendo optado por tentar ocupar o espaço de outros candidatos de esquerda – com muito magros resultados.

2. Os dois candidatos presidenciais que resultaram de escolhas em primárias ficaram pelo caminho. A direita republicana, apanhada pelos escândalos do seu candidato, não encontrou maneira de definir e legitimar um candidato alternativo que não ficasse refém da circunstância dificilmente explicável de substituir uma escolha “popular” (as primárias) por uma escolha “de cúpula” (na direcção do partido). Os socialistas não foram capazes de levar para as primárias todas as escolhas possíveis no seu campo político, por opção de Macron e por deserção do perdedor Valls. Isto mostra que, sem deixar de reconhecer mérito ao instrumento “primárias”, esse mérito depende de muitos aspectos que estão bem para lá do simplismo do “plebiscito” a um rosto. As forças políticas precisam de mais democracia, mas esse acréscimo de democracia não virá de método plebiscitário focado em personalidades e em opções “preto ou branco”; esse acréscimo de democracia terá de vir de maior valorização dos colectivos, do debate com consequências, do aprofundamento da participação, do alargamento da decisão.

3. A “pasokização” dos partidos socialistas não acontece só quando estes se inclinam à direita. Muitos outros factores podem pesar na perda de influência dos socialistas, mesmo quando estes se inclinam para a esquerda, como os casos do PSF, do PSOE e do Labour nos devem fazer pensar (embora sejam casos muito diferentes entre si).

4. Em França, as presidenciais são importantes, mas muito se decidirá nas legislativas. Aí se verá se se consuma ou não a implosão do PSF, aí se verá o desdobramento da proposta política de Macron (transformará o En Marche num partido? e que partido será esse?), aí se verá se a esquerda consegue algum tipo de diálogo de que já foi capaz no passado e que será importante para sobreviver ao sistema maioritário a duas voltas, aí se verá se alguém em França é capaz de fazer um equilíbrio produtivo entre os compromissos europeus e as necessidades de uma política progressista a nível nacional, aí se verá se as esquerdas estão mais inclinadas para tentar alguma forma de convergência ou mais propensas às pequenas vinganças que tantas em vezes as desgraçam.
A diferença de atitude entre o Partido Comunista Francês (PCF), que não hesitou em apelar ao voto em Macron para derrotar Le Pen na segunda volta, e Mélenchon, que duvidou e levou muitos dos seus apoiantes a duvidar se é mesmo preciso votar Macron, é bem um sinal das dificuldades que vive a esquerda. Mesmo que Le Pen perca (e isso nunca está garantido sem os votos da esquerda), não será o mesmo se ela perder por muitos (por exemplo, por 70%/30%) ou se acabar a eleição com a esperança, sua e dos seus, de que será para a próxima (como se acontecerá se perder, por exemplo, por 55%/45%). Pormenor que muitos não apanharam a seu tempo, hoje ganha novo significado o percurso acidentado do apoio do PCF a Mélenchon: os dirigentes decidiram não o apoiar, mas uma espécie de referendo interno decidiu pelo apoio. Fenómenos de “popularidade” à esquerda que merecem reflexão.

5. Macron faz escolhas e tem propostas que, do ponto de vista de um socialista, não nos podem deixar descansados. Desde logo, e no plano simbólico, a sua recusa da diferença entre direita e esquerda é bem a marca de todos os perigos: é o caminho habitual da raposa no galinheiro da esquerda, nunca o contrário. E a sua visão do mercado do trabalho também não é de nos deixar descansados, porque recauchutar as ilusões de “flexibilidade” não promete nada de bom. Mas, evidentemente, estas são divergências que nada têm a ver com o outro lado da barreira: Le Pen é a pugna por fechar as fronteiras, negar asilo aos refugiados, tratar os imigrantes como criminosos, muscular a luta antiterrorismo numa lógica que a confunde com uma “guerra de civilizações”, cultivar a cultura do seguidismo ao chefe. Quem confunde estas duas propostas, e vacila em definir a necessidade de votar Macron contra Le Pen, está mal se pretende estar do lado da esquerda.
O sectarismo, evidenciado por exemplo por Mélenchon, não merece contemplações. Vamos lá a ver: Macron é criticado por querer respeitar os compromissos europeus – mas não é disso que muitos acusavam (e acusam) o PS em Portugal? E isso justificaria deixar de votar num candidato do PS (mesmo que dos mais europeístas) contra um candidato fascista? Nunca! O documento dos “Economistas Aterrados” de análise e crítica ao programa de Macron é um documento que faz lembrar as críticas da esquerda da esquerda portuguesa ao último programa eleitoral do PS – e isso justificaria uma hesitação entre votar contra um candidato fascista ou ficar por um “meio voto” do tipo abstenção ou voto branco ou nulo, como querem muitos dos apoiantes de Mélenchon? Nunca! Essa hesitação terá de ser paga politicamente – mas esperemos que não tenhamos de ser todos a expiar colectivamente tal erro monumental.

6. Importa identificar a principal e a mais decisiva questão que está em jogo em França – e por toda a Europa. Essa questão é a da globalização – e a questão da União Europeia enquanto a nossa possível cartada na globalização. A principal fraqueza de Macron é ser o candidato dos ganhadores da globalização. Eu não estou contra os ganhadores da globalização – mas estou contra as forças políticas que ignoram os perdedores da globalização. Ora, Macron fala como se estivesse nesse caso. É impossível ao socialismo democrático e à social-democracia sobreviver na Europa se não tomar para si a realidade dos perdedores da globalização, encontrando caminhos para que passem a fazer parte dos ganhadores da globalização. E isso implica trabalhar para que a União Europeia seja uma ferramenta política de regulação da globalização. Sou dos que acreditam que, face à globalização, não pode nenhum país querer ficar mais isolado do que já estamos. Seria suicida. Precisamos é de estar em “regiões”, em grupos de países que se apoiam mutuamente para fazer da “navegação global” uma oportunidade. No nosso caso, é a UE que pode jogar esse papel – mas, para que isso seja perceptível, a UE precisa de outro rumo e outra determinação, caso contrário funcionará como factor de agravamento da globalização face aos seus elos mais frágeis cá dentro. Essa é a questão central do debate em França, por aí passam as escolhas mais difíceis. Nesse ponto, as propostas de Macron têm muito caminho para andar. Propostas como a de um Ministro das Finanças do Euro ou de um Orçamento próprio da Zona Euro, há muito que fazem parte do arsenal francês na frente europeia e não são novidade. Mas só fariam sentido, e só poderiam ter algum efeito positivo no grande debate entre nacionalismo e europeísmo, se fossem enquadradas numa visão política para a Europa que fosse capaz de enfrentar a fractura entre perdedores e ganhadores da globalização e fosse capaz de equacionar a UE nessa encruzilhada – algo que Macron, até ao momento, não quis, ou não soube, fazer.

7. Em todo o caso, estes são debates que só fazem sentido se Macron ganhar e ganhar bem. Se Le Pen ganhar, ou ficar lá próximo, estaremos mais perto de questões mais básicas de sobrevivência da democracia. Algo que, inexplicavelmente, parece que nem todos à esquerda são capazes de compreender.

2 de Maio de 2017