Xinto. caderno de Tóquio (13).

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Há em Ueno, já relativamente longe do centro, um dos grandes parques públicos de Tóquio: grande pela dimensão, pela afluência (uma multidão), pela diversidade de estruturas que abriga (alguns dos grandes museus, por exemplo, o jardim zoológico e muito mais). Hoje passei lá algum tempo: não muito, porque já tinha algumas horas de caminhada pelo bairro de Yanaka e decidi deixar a verdadeira visita ao parque para outro dia.

O tempo que lá passei foi dedicado ao santuário xintoísta de Hanazono Inari, um dos cerca de 30.000 dedicados ao kami (espírito, divindade) do arroz e da fertilidade, Inari, que tem como animal simbólico a raposa. Entra-se por um típico túnel de torii (portais), que são a forma própria do xintoísmo assinalar que se entra numa zona sagrada. Uma das peculiaridades deste espaço é a existência de um “pequeno santuário” escavado na rocha para honrar uma raposa que foi desalojada pela construção de um outro templo (uma ironia, sabendo-se que ali muito perto está o zoológico, que veio intrometer-se na rede de santuários deste parque).





Neste complexo xintoísta há um pequeno campo de tiro com arco, que é uma actividade ritual importante no quadro da espiritualidade desta terra, não apenas para o xintoísmo, mas também para o budismo: o kyūdo. Quer dizer, “o caminho (ou a via) do arco”. (A noção de “via”, expressa na palavra “dō”, tem um sentido filosófico, como na palavra “bushidō”, que significa “a via do guerreiro”. A origem é no taoísmo, “dōkyō”, “a Via”.) A actividade de tiro com arco começa por ser ritual logo no espaço onde se pratica (dojo), que se orienta pelos pontos cardeais (os alvos a sul, o altar e os assentos dos juízes a oeste). Mas, fundamentalmente, expressa um equilíbrio mental e corporal essencial para estas formas de pensar: a estabilidade do corpo, da mente e do arco estão ligadas essencialmente nesta prática, produzindo o bom tiro no alvo, mas valendo muito para lá desse objectivo exterior. Embora não pudéssemos entrar na zona de prática do tiro com arco, pudemos observar de fora, do que deixamos testemunho. O tiro com arco, praticado naquele equilíbrio antes mencionado, acredita-se que tem o poder de destruir o mal (e, de caminho, os inimigos em guerra). Na prática religiosa, supostamente atrai boa sorte. (Deixo, ao fundo, um vídeo – que não é meu – sobre esta prática.)



Não sei explicar o que era exactamente, mas, neste espaço, numa espécie de palco ao ar livre, estava a decorrer o que me pareceu simplesmente um espectáculo de teatro: actores que não falam com palavras, antes com gestos e dança e através das suas máscaras. Música japonesa, executada ao vivo, a compor. (O vídeo com que abre este apontamento foi lá feito hoje, com a minha maquininha de bolso.)











E por hoje é tudo, que amanhã é outro dia. (Fui ao teatro Noh, mas ainda não tive tempo de relatar. Sairá daqui a dias.)



uma criança de tipo novo. robótica do desenvolvimento no Japão.

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Este é o CB2 : Child-robot With Biomimetic Body.



fadiga japonesa. Caderno de Tóquio (12).

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Em qualquer parte do mundo se pode ver uma ou outra pessoa a dormir nos transportes públicos. Aqui vê-se muita gente nessas práticas (a minha experiência é do metro, onde dormir em pé é banal à hora de ponta, já que é impossível cair no meio de tanta gente). Uma frequência de dormentes claramente fora de qualquer padrão que me tenha sido dado observar anteriormente. O mais estranho, contudo, nem é isso.

Na universidade há gente a dormir por todo o lado. Tenho observado isso especialmente na biblioteca, onde passo a maior parte do tempo. Há sempre, em qualquer momento, entre meia dúzia e uma dúzia de pessoas a dormir na sala em que esteja. De repente, deitam a cabeça em cima da mesa e... toca a dormir. Há sonecas breves: dez minutos. Há sonecas médias: trinta minutos, uma hora. E já vi uma ou duas sonecas monumentais. Um destes dias esteve um rapaz a dormir a manhã toda num lugar perto de mim: estava a dormir quando cheguei, estava a dormir quando saí para almoçar... e, quando voltei no dia seguinte, lá estava ele outra vez na mesma... actividade. Hoje estavam dois marmanjos deitados, literalmente, no "lounge" dos audio-visuais. E não parece que seja proibido, já que há uns vigilantes que volta e meia circulam por todo o espaço.

Se pensam que é actividade exclusiva dos tontos dos rapazes, enganam-se. As raparigas com o ar mais bem-comportado deste mundo, pois também fazem a sua ginástica de recuperação. As mais campónias e as mais abonecadas. É um desporto nacional. Hoje à tarde, a que estava na mesma bancada que eu, enrolou o casaquinho de malha nos braços para aconchegar melhor a cabeça e aqui vai disto (mas despachou o assunto rapidamente, uns dez minutos).

Francamente, não encontro explicação para isto. E não parece fácil conseguir perguntar sobre isto a um japonês. Aqui, muitas casas são demasiado pequenas para as pessoas que abrigam. É por isso que os "hotéis do amor" não servem só para rapidinhas, nem apenas para relações "discretas", mas também para casais "clássicos" poderem gozar um pouco da intimidade que não é possível na respectiva habitação comum, com demasiada gente e/ou proximidade. Será por isto que os estudantes universitários vão dormir para a faculdade?

Tinha lido uma referência, que achei um pouco disparatada à partida, sobre a fadiga japonesa. Num livro (francês) de entrevistas a intelectuais japoneses (Penseurs japonais. Dialogues du commencement, de 2006), o Prof. Satoshi Ukai, um dos entrevistados, diz a certa altura:
Uma das intuições que tive seria uma certa experiência da fadiga. Quando eu tinha doze anos, e que comecei a ir à escola secundária, de comboio, descobri a massa de empregados que apanhavam diariamente o mesmo comboio. Era por volta de 1967. Normalmente, quando falamos sobre esse período, referimo-nos ao grande crescimento da economia japonesa e temos a impressão que os japoneses nessa época eram muito activos, vivos, vigorosos. Mas a imagem que eu tenho desse período é diametralmente oposta a este cliché histórico. A maioria das pessoas que via estavam verdadeiramente muito cansadas e dormiam nos comboios como hoje. A paisagem humana de há trinta anos atrás, ou de hoje, permanece a mesma. E eu pergunto-me sempre: de onde vem essa fadiga? Para mim, esta fadiga representa de alguma forma a invariante da vida japonesa. Eu próprio sinto, talvez, a mesma fadiga. Então, de onde vem esta fadiga? O Japão construiu-se, primeiro, em relação à China, depois, durante um século e meio, em relação ao Ocidente. Desde sempre que o Japão se encontra numa posição de recuperar a desvantagem face a uma outra cultura, num certo sentido mais avançada. Há talvez uma fadiga imemorial por causa dessa posição.

Isto, afinal, será uma questão metafísica?! Aqueles dormentes na biblioteca expressam uma condição civilizacional?!



a filosofia (Georges Moustaki).

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"Nous avons toute la vie pour nous amuser, nous avons toute la mort pour nous reposer."

Repousa, então.



génese.

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Nuno Júdice, Prémio Rainha Sofia de Poesia Ibero-Americana, 2013.

Passos, o presidente da câmara.

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(Uma ilustração de Dali para a Divina Comédia de Dante)


Um dos aspectos criticados no actual modelo de órgãos municipais é que a câmara não é carne nem peixe: é um misto de executivo e de assembleia. É o executivo, claro, mas, sendo formado por representantes da maioria e da oposição, pelos que executam e pelos que se opõem, é ao mesmo tempo uma espécie de assembleia, quando há uma verdadeira assembleia eleita para ser assembleia. Sem querer aqui entrar na questão de saber se isso é bom ou mau, ao nível do município, importa realçar que a actual coligação governante transpôs esse modelo para o plano nacional: o governo deixou de ser o executivo, a quem cabe aplicar o programa que o parlamento deixou que fosse a carta de rumo do país, para passar a ser uma reunião de executivo e oposição. Só falta que o "presidente da câmara de Portugal" retire pelouros aos "vereadores" do CDS. O actual PM tornou-se um presidente de câmara e o seu governo um teatro de tácticas. Com esta inversão institucional, quem será o presidente da junta?

design festa vol. 37. caderno de Tóquio (11).

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Num país envelhecido, as ruas parecem dos jovens e a economia parece correr atrás deles. A Design Festa 2013, no Tokyo Big Sight, é um universo de adolescentes.











efeitos das mudanças alimentares dos comunistas.

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Antigamente eram os comunistas que comiam criancinhas. Agora são os homossexuais. Pelo menos parece ser a tese desta senhora. (Desculpem a publicidade a uma posta idiota ao cúmulo.)

(O Miguel Abrantes diz que a autora é grande repórter do Diário Económico. Não acredito. Deve ser pequena repórter d'O Amigo do Povo.)

Janelas. Caderno de Tóquio (10).

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Koichi INAKOSHI, Maybe, maybe #8, 1971


Keiichi TAHARA, Fenêtres, 1975

Visto há pouco na exposição "The Aesthetics of Photography - Five Elements", no Tokyo Metropolitan Museum of Photography.

Uma cidade culturalmente intensa, diversificada e sofisticada.

Sanja Matsuri. Caderno de Tóquio (9).

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Sanja Matsuri é uma grande festa religiosa da espiritualidade tradicional do Japão, o Xintoísmo, que tem como uma das suas principais características o animismo. É um dos maiores “festivais” neste género em Tóquio e tem lugar no bairro de Asakusa, no terceiro fim-de-semana de Maio de cada ano. Esta realização existe, sob diversas formas, desde o século VII e, na forma actual, desde o período Edo, depois de, em 1649, o Shogun da família Tokugawa ter mandado construir o templo local. Evidentemente, aproveitámos para ir sentir o ambiente.
O animismo Xinto venera os espíritos (kami) de muitas coisas no mundo que são consideradas referências para a comunidade: o kami de uma árvore, de uma pedra, de uma pessoa, por exemplo. O Sanja Matsuri celebra os kami de três homens (miticamente) envolvidos na descoberta de uma estátua budista nas suas redes de pesca e na sua consequente conversão ao Budismo. Muitas religiões metidas no mesmo acontecimento? Não se espantem: no Japão, a maior parte do tempo histórico da espiritualidade destas ilhas foi preenchido por convivência activa entre diferentes tradições espirituais ou religiosas, o Xintoísmo original, o Budismo e o Confucionismo. A festa desenvolve-se em torno dos andores (altares portáteis) desses três kami, apesar de, na prática, haver dezenas de outros andores ao cuidado de grupos específicos de moradores. O templo Sensō-ji, que abriga a estátua da história, é o mais antigo de Tóquio.
A festividade dura três dias. Não vamos acompanhar toda a sua extensão. Estivemos na parte que diz respeito ao sábado, quando as dezenas de andores são transportados em público pelos seus adeptos, gritando “palavras de ordem” identitárias que nos são incompreensíveis. Em ambiente de festa (há muitos muitos milhares de pessoas nas redondezas), vemos ali coisas que não parecem nada japonesas no dia-a-dia: mulheres a desempenhar activamente um papel no carrego dos andores, intenso contacto físico em público entre os participantes na procissão, uma intensa exteriorização de alegria. No conjunto, temos umas dezenas de pequenas procissões, cada uma com o seu andor, sendo que claramente há habitantes locais que vão para apoiar a sua trupe. Na organização de cada pequena procissão sou capaz de identificar elementos das procissões católicas da minha aldeia natal: não os aspectos religiosos, mas os aspectos de “espectáculo social entre vizinhos”.