1. A "rua" faz parte da democracia. Se a democracia não souber ouvir a "rua", estará doente. Isto não quer dizer que os manifestantes possam fazer tudo o que lhes apetece, nem que possam desrespeitar as leis ou atropelar os direitos dos outros cidadãos. O que quer dizer é que o instinto de repressão, partir para uma interacção com os manifestantes na base da declaração "seremos implacáveis", é demonstração de falta de senso democrático. Essa arrogância, que alguns dos actuais detentores do poder exibiram face às acampadas do Porto e de Lisboa, acaba por ser cúmplice e alimentar os infiltrados - não sei se há infiltrados nas manifestações portuguesas, mas há, de certeza, nas francesas. Estas manifestações, com ou sem excessos, são expressão de um problema real e devem ser tratadas como tal, não devem ser tratadas primariamente como um problema de ordem pública ou de segurança: esse olhar primariamente securitário é típico dos autoritarismos e só serve para lançar gasolina sobre o incêndio (embora, com a crise dos combustíveis, não sobre muito dinheiro para comprar gasolina para este efeito).
2. Quando se chega ao ponto de o poder político não ser capaz de lidar com a rua é porque falhou, a montante, o plano das instituições. Por acção dos reaccionarismos múltiplos que se impuseram na nossa sociedade, incluindo os liberais radicais que odeiam tudo o que seja representação sindical e glorificam o individualismo egoísta (são uma ideias soltas liberalóides na cabeça de Montenegro que o levam a rotular de egoístas quem luta pela habitação), foram sendo enfraquecidas, ou mesmo destruídas, as pontes que eram capazes de sentar à mesa partes contrárias. O sindicato é, tipicamente, a ferramenta que permite aos trabalhadores lutar contra o patrão e permite, também, no momento seguinte, negociar com o patrão e, eventualmente, chegar a acordo com o patrão. Esse é apenas um exemplo das ferramentas da vida social em democracia que foram atacadas pela direita mais radical e pelos liberais das motosserras e, chegados os momentos difíceis, encontramos muros e fossos profundos entre as partes. A precarização radical do trabalho também tornou insuficientes os instrumentos tradicionais de gestão do conflito: isso esvazia a democracia e aperta as instituições no beco das impossibilidades de conversar, na praça das bastonadas.
3. A culpa do falhanço das instituições não é, porém, exclusiva dos políticos em sentido restrito. A culpa é, também, da falta de cultura democrática generalizada. Pensar em destituir o edil do Porto por um abaixo-assinado, por exemplo, é demonstração de quem está fora do quadro de uma democracia representativa, assente em eleições livres. Sim, a democracia não pode ser só representativa, tem de ser também participativa, e tem ainda de ser uma democracia deliberativa: temos de dar razões, temos de ouvir as razões dos outros, temos de argumentar seriamente, não podemos apenas tentar impor a nossa força. Isso é tudo verdade, mas sem a base mínima da democracia representativa não há democracia nenhuma. A pretensão de que uma “assembleia popular” de umas dezenas de pessoas representa “o povo” não é um disparate inovador: é um disparate antigo e antidemocrático. As pessoas que se manifestam têm o direito de se manifestarem e têm direito a ser respeitadas por isso e a serem ouvidas, mas não têm o direito de tentar açambarcar a representação popular: não podem os manifestantes, em democracia, tratar o poder político legítimo como se vivêssemos no tempo da ditadura. É legítimo dizer-se revolucionário, mas há uma grande diferença entre ser revolucionário face a uma ditadura ou ser revolucionário face a uma democracia. Não estamos em tempo de namorar com os que estão contra “o regime” quando “o regime” é o regime democrático.
4. Infelizmente, nada disto é um epifenómeno passageiro. A crise das instituições é uma das facetas de uma crise do capitalismo como forma social total. O capitalismo tornou-se cada vez mais selvagem, cada vez mais os que têm muitíssimo dinheiro são deixados livres para espoliar os que trabalham ou trabalharam para viver, cada vez mais quem trabalha não encontra no trabalho o caminho para uma vida decente. Isso deixou de ser "apenas" um problema económico e é também um problema político, isto é, um problema de organização social. Este capitalismo selvagem corrói a democracia. Isto não é um episódio, é uma dinâmica de base. Um dos problemas com estas questões é que os chavões escondem partes da realidade. É evidente que os jovens são muito afectados com a crise da habitação, porque estrangulamos, por aí, a sua aspiração a uma vida independente. Mas isso não nos pode fazer esquecer que há outros, por exemplo mais velhos que, face aos imprevistos da vida, apostaram em ter um, dois ou três apartamentos para garantir uma vida com menos insegurança do que aquela que adviria de uma dependência total de uma pensão baixa e, por vezes, incerta. São, por isso, capitalistas a abater? Não me parece. O discurso populista vem sempre tentar desviar o caminho das soluções: não é que haja políticos que sejam proprietários que impede que se resolva o problema da habitação. Até porque, se há políticos que são proprietários e votam contra soluções legislativas que poderiam contribuir para resolver o problema da habitação, também há políticos que, sendo proprietários, votam diferente: votam a favor de soluções legislativas que poderiam ajudar a resolver. O problema é mais fundo: ao longo de décadas, o Estado desistiu de ter as ferramentas necessárias para introduzir racionalidade social nos mecanismos de mercado. Demorámos muito tempo a compreender isso. E as consequências disso não se mudam de um dia para o outro. A habitação é um direito e o Estado tem de ter ferramentas capazes para domar o mercado naquelas dimensões em que o mercado impede a realização do direito. O Estado tem de ser proprietário e ter o peso suficiente para influenciar o comportamento de mercado. Aí, a social-democracia andou demasiado tempo demasiado distraída. Temos de apressar a passo, para que a rua e as instituições possam convergir numa mudança real da vida. Não é só o problema da habitação. É o problema da democracia.
Porfírio Silva, 20 de outubro de 2026





