18.5.26

O POVO E A POLÍTICA






A convite da Associação Intervenção Democrática – ID, participei como orador no debate “O POVO E A POLÍTICA – Celebrar 50 anos da CRP”, que teve lugar na Casa do Alentejo, no dia 16 de maio de 2026. Partilhei o painel com João Ferreira, da Comissão Política do PCP, e Paulo Muacho, deputado e líder parlamentar do Livre. A moderação competiu a João Geraldes, presidente da direção da ID. Deixo aqui, para registo, o texto que serviu de base à minha intervenção.

***


O POVO E A POLÍTICA


Propuseram-nos hoje debater “O Povo e a Política”, em celebração dos 50 anos da aprovação da Constituição da República Portuguesa, que resultou do processo constituinte que foi possibilitado pelo processo revolucionário que foi possibilitado pelo 25 de Abril de 1974.
É uma oportunidade de nos questionarmos acerca da ascensão de fenómenos políticos de extrema-direita empurrados pelo voto popular. 

Os fenómenos de extrema-direita, designadamente as extremas-direitas populistas, têm várias causas, e, portanto, várias explicações possíveis, razão pela qual não é boa ideia fazer de conta que podemos dar explicações simples para o fenómeno.
Haverá causas económicas: aqueles cujas vidas são difíceis por causa da exploração que sofrem, podem, de várias formas, ser iludidos e votar nos que são financiados pelos exploradores e seus veículos políticos – iludidos pela mentira.
Há também uma linhagem reacionária que recusa legitimidade aos que discordam, recusa legitimidade aos procedimentos democráticos e se arroga a prerrogativa de usar de violência para defender a sua presunção de prioridade.
Foi essa linhagem reacionária que já mergulhou o nosso país numa guerra civil entre miguelistas e liberais.
Foi por causa dessa linhagem reacionária que (aqui entra um relato de experiência pessoal), me encontrei, com um pequeno grupo de pessoas, na escola primária da minha aldeia natal, no norte do país, nos primeiros anos a seguir ao 25 de Abril, cercado pela populaça arregimentada por alguns saudosistas , porque tinha ido assistir a uma sessão de esclarecimento de um partido de esquerda, que nem sequer era o meu partido, porque os saudosistas do antigamente não gostavam e não gostam da esquerda – e nesse tempo a extrema-direita já existia, embora não estivesse organizada na forma em que está hoje. 

Podíamos continuar a tentativa de identificação de vários fatores que favorecem a extrema-direita populista, mas queria focar-me, nesta ocasião, apenas num aspeto.
A extrema-direita populista entra pelas fraquezas do sistema imunitário do regime democrático, das próprias instituições da democracia.
O sistema imunitário da democracia está nas pessoas comuns terem poder para se autodeterminarem na sua vida concreta e não serem apenas destinatários das decisões dos órgãos de governo. O sistema imunitário da democracia está nos cidadãos participativos, que concretizam a democracia no seu território, no seu local de trabalho, no seu local de estudo.
O sistema imunitário da democracia está em instituições que integrem a ação dos cidadãos comuns, onde o poder do povo tenha lugares concretos de exercício contínuo.
A consciência cidadã só pode resultar da prática cidadã. É por isso que, por exemplo, é estranho que se fale de educação para a cidadania como disciplina nas escolas, mas não se invista na efetiva participação dos estudantes na vida das escolas.

É por isto que é importante sublinhar que a democracia não é o voto. Ou, mais precisamente, o voto faz parte da democracia, mas, só por si, o voto não é a democracia, o voto não garante a democracia. A democracia só existe num quadro institucional que defende os cidadãos por certas regras que não dependem do voto maioritário num dado momento. O atual chefe da extrema-direita portuguesa afirma muitas vezes que se ele mandasse este e aquele estaria preso. Isso é expressão do seu autoritarismo, mas é também expressão da ideia de que quem ganha eleições pode fazer tudo, manda em tudo, até descartando a Constituição, dispensando os procedimentos e dispensando a separação de poderes. É a ideia de que o voto pode tudo.
Essa ideia tem feito caminho, mas é uma ideia muito perigosa, porque permite usar o voto como argumento contra o Estado de Direito, contra os direitos, liberdades e garantias que a CRP prescreve. 
Além do mais, acima da letra expressa da CRP está ainda a dignidade da pessoa humana, e todos os direitos que dela decorrem – não por sermos nacionais deste país, mas simplesmente por sermos humanos – e que decorrem também do enquadramento legal internacional que a República Portuguesa reconhece sem necessidade de integração explícita textual na letra da Constituição. E os direitos que decorrem do primado da dignidade da pessoa humana também não estão disponíveis ao voto, isto é, não estão disponíveis à maioria circunstancial do momento.

A ferramenta central dessa garantia é a Constituição. A garantia de que não estamos à mercê do vento do momento. É por isso, e para isso, que a CRP é a base das instituições democráticas.

Vivemos numa democracia representativa – e importa refletir sobre a sua configuração pela CRP.
As democracias representativas, mesmo quando funcionam, têm os seus problemas.
A crítica clássica é que o povo limita-se a votar de quatro em quatro anos e, fora do momento eleitoral, não participa da decisão. Mesmo que vote mais do que isso, como acontece porque há eleições para diferentes órgãos e diferentes níveis de poder, ou porque há sucessivos ciclos políticos interrompidos, a questão permanece a mesma: como diziam os outros, se o voto é a arma do povo, não votes porque ficas sem a tua arma.
O certo é que se tem produzido uma certa separação entre representantes e representados, fenómeno que se torna visível pela existência do que se chama “a classe política”, pelo facto de termos a sensação de que certos representantes duram muitos anos na cena política, havendo a percepção de que o exercício da representação como um período limitado da vida intercalada numa vida profissional “normal” se transforma muitas vezes numa excessiva profissionalização. Isso é, precisamente, sinal de rigidez da separação entre representados e representantes.

Outro problema da democracia representativa acontece quando reduzimos a base institucional da democracia, ao concentrar o poder no topo da pirâmide. Quando as assembleias representativas é que deviam eleger e controlar os respetivos executivos, acabam por ser os executivos a controlar as assembleias que os deviam controlar - por exemplo, são os governos que mandam nos seus grupos parlamentares, ao contrário do que supunha a lógica democrática – e, muitas vezes, nos partidos de hoje, acaba por ser o “grande líder” e o petit comité a mandar em quase tudo. E, desse modo, tornamo-nos menos capazes de, coletivamente, entender e responder aos perigos que nos rodeiam.

Uma resposta que alguns deram ao problema da distância entre representados e representantes pode ser nomeada de várias formas: mandato imperativo, mandato revogável a todo o momento, o deputado como delegado.
A ideia do mandato imperativo é a ideia de que o representante age numa assembleia de acordo com instruções recebidas dos seus constituintes, dos seus eleitores e de que o representante age na defesa de quem o envia como representante e não pode usar o mandato para extravasar das instruções recebidas. É um pouco querer colocar o deputado na situação do embaixador de um país que segue as instruções estritas do seu governo.
Outra forma de colocar a questão é dizer que o deputado pode ser removido dessa função a qualquer momento, logo que os seus eleitores considerem que não defendeu os seus interesses.

Um conservador irlandês do final do século XVIII, Edmund Burke, formula vários aspetos de uma objeção clássica a esta conceção de representação, no discurso que profere ao receber a notícia da sua eleição como membro do parlamento inglês pela cidade de Bristol, a 3 de novembro de 1774.
Dizia Burke: “O Parlamento não é um congresso de embaixadores de interesses diferentes e hostis, que cada um deve assegurar, como um agente e um defensor, contra outros agentes e defensores; o Parlamento é uma assembleia deliberativa de uma nação, com um interesse, o da totalidade – onde nenhum propósito local, nem preconceitos locais, deveriam guiar, exceto o bem comum, resultante da razão geral do todo.” 
Formula, assim, a ideia de que o deputado não defende os interesses dos seus constituintes, defende os interesses do todo.
Burke enuncia também o princípio de que o parlamento é essencialmente deliberativo: é preciso trabalhar para encontrar saídas para os problemas que não serão, em princípio, resultantes de um único ponto de vista particular.
Em consequência, o representante tem de participar nesse processo deliberativo, não pode agir mecanicamente – e, nesse ponto, dizia Burke, referindo-se à distância geográfica entre os eleitores e o deputado:
“Que tipo de razão é essa em que a determinação precede a discussão, em que um grupo de homens delibera e outro decide e em que aqueles que formam a conclusão distam umas 300 milhas daqueles que ouvem os argumentos?” Ou seja: o deputado não vai apenas entregar a opinião dos eleitores, vai deliberar com os outros parlamentares e assim dar sentido ao próprio parlamento como representação do todo.
Escusado será dizer que Bristol não reelegeu Burke…

Esta discussão toca um ponto importante do debate acerca das fragilidades da democracia representativa – que é a fragilidade do sistema imunitário da democracia.
Uma resposta frequente é a necessidade de acrescentarmos democracia participativa à democracia representativa. E a CRP tem algo a dizer sobre isso.

No Capítulo da CRP dedicado aos “Direitos, liberdades e garantias de participação política” temos, a começar, o artigo 48º, “Participação na vida pública”, em cujo nº 1 se lê:
“Todos os cidadãos têm o direito de tomar parte na vida política e na direção dos assuntos públicos do país, diretamente ou por intermédio de representantes livremente eleitos.”
Há uma série de desdobramentos específicos deste direito espalhados pela CRP.

Temos direitos que fazem parte dos mecanismos da democracia representativa.
Desde logo, o direito de sufrágio, consagrado no artigo 49º e no artigo 113º: “O sufrágio direto, secreto e periódico constitui a regra geral de designação dos titulares dos órgãos eletivos da soberania, das regiões autónomas e do poder local.”
Temos o direito de constituir ou participar em associações e partidos políticos, no artigo 51º / 1: “A liberdade de associação compreende o direito de constituir ou participar em associações e partidos políticos e de através deles concorrer democraticamente para a formação da vontade popular e a organização do poder político.”
Bem como o direito de apresentação de candidaturas às eleições para os diferentes órgãos do poder central, regional e local. 

Temos, ainda, direitos a que eu chamaria direitos de “interferência” dos cidadãos na democracia representativa, na medida em que ultrapassam a separação rígida entre representantes e representados.
É bem conhecido o direito de petição e ação popular, que leva diretamente os pontos de vista de cidadãos junto dos órgãos de decisão, nomeadamente à Assembleia da República, previsto no artigo 52º.
Mais exigente é o direito de iniciativa de lei, previsto no Artigo 167º, conferindo a grupos de cidadãos eleitores a capacidade para apresentarem à Assembleia da República projetos de lei, não ideias gerais para leis, mas projetos de lei propriamente ditos, que serão tramitados basicamente segundo os mesmos procedimentos seguidos para os projetos apresentados pelos próprios deputados. Falamos das chamadas Iniciativas Legislativas de Cidadãos (ILC), que um mínimo de 20.000 eleitores podem apresentar à Assembleia da República. Ao longo dos anos, várias ILC foram apresentadas e algumas delas aprovadas.

Mas a CRP consagra, também, direitos de participação política dos cidadãos que vão além da democracia representativa. 
Isto é: há direitos de participação previstos na CRP que respondem diretamente a outra objeção clássica à democracia representativa: o atomismo dos processos eleitorais.
Isto é, o voto numas eleições é uma expressão essencialmente individual, o voto é de cada um, até é secreto, ninguém tem de dar razões do seu voto, o voto acontece no segredo da urna. Atomismo é isso: há um resultado agregado, o resultado da eleição, que, realmente, é produzido pela ação de cada um, mas a ação não é coordenada, cada um age individualmente e até secretamente. Para lá de todas as mobilizações que podem estar envolvidas numa eleição, o voto em si mesmo é puramente individual. Cada eleitor é um átomo no sistema.
Ora, há direitos de participação previstos na CRP que só podem ser exercícios coletivos, os quais, precisamente por isso, enriquecem a democracia na exata medida em que a afastam notavelmente desse atomismo, dessa visão individualista da cidadania. E são, além do mais, direitos de participação que se exercem para além dos órgãos estritamente políticos ou dos órgãos de soberania, constituindo um sólido fundamento da perspectiva de democratização real da vida em sociedade.

Falamos, desde logo, do direito a constituir comissões de trabalhadores, no artigo 54º, cujo número 1 diz: “É direito dos trabalhadores criarem comissões de trabalhadores para defesa dos seus interesses e intervenção democrática na vida da empresa.” É um direito bastante densificado no restante do artigo.
Temos, também, o direito ao associativismo sindical e os direitos dos próprios sindicatos, especificados no artigo 55º, entre os quais: participar na elaboração da legislação do trabalho; participar na gestão das instituições de segurança social e outras organizações que visem satisfazer os interesses dos trabalhadores; participar nos processos de reestruturação da empresa; e exercer o direito de contratação coletiva.
Estes direitos plasmam a importante ideia de que o trabalho humano não é uma mercadoria, mas sim uma expressão da própria humanidade da pessoa trabalhadora, pelo que os direitos dos trabalhadores são uma componente importante dos direitos humanos.

Temos também os direitos dos consumidores, que (artigo 60º) é um direito dos consumidores organizados. Lemos no nº 3: “As associações de consumidores e as cooperativas de consumo têm direito, nos termos da lei, ao apoio do Estado e a ser ouvidas sobre as questões que digam respeito à defesa dos consumidores, sendo-lhes reconhecida legitimidade processual para defesa dos seus associados ou de interesses coletivos ou difusos.”
Temos, no artigo 77º, a participação democrática no ensino: 1: “. Os professores e alunos têm o direito de participar na gestão democrática das escolas, nos termos da lei.”
Podemos referir ainda a participação na definição da política agrícola (artigo 98º): “Na definição da política agrícola é assegurada a participação dos trabalhadores rurais e dos agricultores através das suas organizações representativas.”
E termino esta elencagem incompleta com o direito a constituir e fazer parte de organizações de moradores (artigo 263º): “A fim de intensificar a participação das populações na vida administrativa local podem ser constituídas organizações de moradores residentes em área inferior à da respetiva freguesia.”

Sobre as comissões de moradores, já tivemos, no passado, o Provedor de Justiça a pronunciar-se no sentido de haver uma inconstitucionalidade por omissão, na medida em que o legislador nunca se ocupou de dar tradução concreta, em lei ordinária, a este direito previsto na CRP.
Mas, de forma mais geral, podemos avaliar que há, e não é de hoje, há na política dominante uma desvalorização da participação cidadã, da participação dos cidadãos organizados, dos cidadãos em diferentes coletivos, nas múltiplas decisões que afetam concretamente a sua vida. A participação enquanto trabalhador, enquanto consumidor, enquanto estudante, enquanto utente dos serviços de saúde, enquanto morador – ou é letra morta, ou moribunda, ou está continuamente sob ataque.
Ora, desprezar estes direitos de participação que ultrapassam o atomismo, que ultrapassam o individualismo, e estamos a falar de direitos de participação constitucionalmente garantidos, enfraquece o sistema imunitário da democracia. São direitos que só podem ser exercitados no coletivo, sendo que o coletivo é o próprio da civilização humana – apesar de, e a contrario, da leitura individualista que os liberais economicistas fazem da liberdade e dos direitos. 

Não gosto de metáforas biologizantes para falar de política e de sociedade, mas o sistema imunitário é o que permite reconhecer o que nos pertence e o que nos é estranho, identificar invasores para poder tomar medidas, e criar memória para noutras ocasiões termos presente o que no passado nos fez mal e pode, ressurgindo com variantes de especto, permanecer essencialmente como ameaça e potencial destrutivo.
Muitos destes direitos estão no centro da disputa política. 
Os direitos de exercício essencialmente individual (como o direito de voto) são menos atacados do que os direitos de participação cujo exercício é essencialmente coletivo.
Basta dar como exemplo a presente tentativa de contrarreforma laboral do governo e do patronato, onde não está apenas em causa o ataque aos direitos dos trabalhadores, mas também a tentativa de condicionar, dificultar, limitar a ação dos próprios sindicatos. É que limitar essas formas de defesa coletiva dos direitos é atacar o sistema imunitário da democracia.
A extrema-direita, especialmente na forma populista que é agora corrente, tem muitas faces e não encontrámos ainda nenhuma fórmula geral para a derrotar.

Mas, e é essa a minha sugestão aqui, dar mais espaço à participação das pessoas nas decisões nos diferentes espaços das suas vidas é uma das vias para fortalecer a resistência do coletivo à ameaça antidemocrática.
A cidadania pratica-se. Aprende-se praticando. Fortalece-se exercendo.  Pratica-se apropriando-nos dos nossos contextos, dos problemas que enfrentamos, das possibilidades de nos coordenarmos para os resolver, desenhar coletivamente possíveis soluções, confrontando as vantagens e os defeitos de diferentes hipóteses para resolver, tentando aplicar soluções e aprendendo com os êxitos e com os insucessos do caminho percorrido, tentando outra vez e cometendo erros novos, em vez de insistir no velho erro de deixar andar e esperar que outros resolvam por nós. Praticar, porque não há soluções meramente teóricas ou meramente tecnocráticas.
E isso tem tudo a ver com a CRP. Com as portas assinaladas no texto constitucional e que permanecem pouco abertas. Concretizar mais e melhor, em cada espaço de vida coletiva, os caminhos que a CRP abre para a participação política dos cidadãos.

Porque a política é demasiado importante para ser deixada ao que chamamos "os políticos".




Porfírio Silva, 18 de maio de 2026
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10.5.26

Notícias da luta de classes em Portugal

19:32




Parece que há dirigentes do PS para quem Deng Xiaoping é um modelo a seguir. E por isso querem que o PS alinhe na contra-reforma da legislação laboral. Pelo menos é o que se depreende desta notícia: Sérgio Sousa Pinto e Álvaro Beleza querem ver PS a dialogar na reforma laboral .

Diversamente, para mim, o capitalismo de Estado promovido na China comunista não é (não foi em momento nenhum, nem com Deng Xiaoping) um modelo a seguir por um socialista democrático. Por uma razão simples: contrariamente aos neoliberais, ou aos pretensos liberais economicamente radicais, a "liberdade" económica sem liberdade política e cívica é apenas um truque.

O objetivo do Governo com a contra-reforma da legislação laboral não é melhorar a produtividade e a competitividade da economia, porque essas dependem fundamentalmente dos empresários - e os empresários incompetentes e impreparados são o principal problema da nossa economia.

O objetivo do Governo com a contra-reforma é aumentar o domínio dos patrões sobre os trabalhadores. É aumentar o poder dos poucos sobre os muitos. A ministra do trabalho, e os patrões da CIP e aliados, acreditam na luta de classes. E estão a agir de acordo com a sua visão da luta de classes. 

Mas, claro, há sempre quem, mesmo no PS, ache que é boa ideia sacudir os sindicatos - não compreendendo que a extrema-direita está à espreita, também, de poder ser o bicho que rói a maçã sindical.


(Este apontamento publiquei-o primeiramente no Facebook.)

Porfírio Silva, 10 de Maio de 2026
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Podemos travar o revisionismo histórico da internacional reacionária

15:34



Passou despercebida em Portugal, mas a fracassada visita de Ayuso ao México foi uma derrota de uma provocação colonialista, instrumentalizada para a direita radical espanhola dar uma ajuda à direita radical mexicana, num fundo de revisionismo histórico típico de certas guerras culturais. A coisa correu mal à senhora Ayuso, mas o episódio serve para mostrar que vale a pena desmontar as manobras dos revisionistas reacionários. 

Vamos fazer uma revisão dos acontecimentos em torno da viagem de Ayuso ao México.

No centro da controvérsia da viagem esteve a leitura histórica defendida por Isabel Díaz Ayuso, presidente da Comunidade de Madrid, dirigente do Partido Popular (PP) e uma das figuras mais destacadas da direita conservadora espanhola, sobre Hernán Cortés, a Conquista e a relação entre Espanha e México. Ayuso apresentou a história comum como uma trajetória de cinco séculos de mestiçagem, língua, laços familiares e continuidade cultural. Defendeu que essa história deveria ser lida mais como encontro civilizacional do que como genocídio, e descreveu a mestiçagem como uma mensagem de esperança e alegria. No ato “Celebração pela Evangelização e a Mestiçagem no México: Malinche e Cortés”, na Cidade do México, afirmou que a relação entre Espanha e México era uma história de “cinco séculos de amor, não de ódio”, e pediu que a liberdade nunca tivesse de pedir perdão por ser liberdade. A tese de Ayuso, portanto, era que Cortés, Isabel a Católica, Malinche e a evangelização faziam parte de uma herança hispânica comum que não devia ser julgada apenas pela linguagem da culpa, do saque ou da reparação histórica.

A presidente mexicana, Claudia Sheinbaum, contestou essa leitura. Para ela, reivindicar Cortés significava minimizar a violência da Conquista contra os povos indígenas. Em 5 de maio, durante a comemoração da Batalha de Puebla, Sheinbaum afirmou que aqueles que reavivam a Conquista como salvação estão destinados à derrota, e que aqueles que procuram reivindicar Hernán Cortés e as suas atrocidades também estão destinados à derrota. Dois dias depois, em 7 de maio, na sua conferência diária, disse que a homenagem a Cortés revelava ignorância da própria história espanhola, sustentando que a violência exercida por Cortés e pelo seu exército contra os povos indígenas tinha sido documentada em Espanha, e caracterizando o conquistador como um dos invasores mais cruéis. Sheinbaum contrapôs a essa visão a ideia de que a grandeza do México vem dos valores dos seus povos originários. 

A viagem de Ayuso ao México estava prevista para decorrer de 3 a 12 de maio de 2026. A Comunidade de Madrid apresentou-a como uma visita institucional destinada a reforçar laços económicos e culturais com o país. A agenda anunciada incluía atos na Cidade do México, Aguascalientes, Monterrey e Riviera Maya, além da presença prevista nos Prémios Platino Xcaret, marcados para 9 de maio, no Parque Xcaret, na Riviera Maya. 

Ayuso iniciou a deslocação em 3 de maio, na Basílica de Guadalupe, na Cidade do México, onde assistiu à missa dominical. O cardeal Carlos Aguiar Retes saudou a comitiva espanhola e disse que rezavam pela relação entre Espanha e México. 

No dia 4 de maio, na Cidade do México, estava previsto o ato sobre “Evangelização e Mestiçagem no México: Malinche e Cortés”, inicialmente associado à Catedral Metropolitana. O ato acabou por ser transferido para o Frontón México, espaço ligado ao musical Malinche. A Arquidiocese explicou que a produção não reunia a totalidade das autorizações necessárias. Nesse contexto, Ayuso defendeu a mestiçagem, rejeitou leituras baseadas, segundo ela, no ódio, e afirmou que a liberdade não devia pedir perdão por ser liberdade. Há sempre quem preze a liberdade de explorar e esmagar o outro...

Em 5 de maio, durante a comemoração da Batalha de Puebla, em Puebla, Sheinbaum respondeu politicamente ao discurso de Ayuso, sem a nomear diretamente. Disse que aqueles que reavivam a Conquista como salvação estão destinados à derrota, e que aqueles que procuram reivindicar Hernán Cortés e as suas atrocidades estão igualmente destinados à derrota. No mesmo dia, Ayuso participou num encontro na Universidad de la Libertad, na Cidade do México.

Em 6 de maio, quando Ayuso chegou ao aeroporto de Aguascalientes, foi abordada pela deputada mexicana Anayeli Muñoz, do Movimiento Ciudadano, que lhe pediu que reconhecesse os abusos da Conquista. Mais tarde, no Palácio do Congresso do Estado de Aguascalientes, na Plaza de la Patria 109, Ayuso recebeu a **Medalla de la Libertad** do Congresso estadual.

Ainda em Aguascalientes, houve protestos no exterior e uma interrupção durante um ato por Martha Márquez, regidora de Morena, que exibiu uma faixa com a frase “Não temos água”. A contestação juntava críticas locais, ligadas à gestão da água, com objeções ao discurso de Ayuso sobre a Conquista e o período colonial.

Em 7 de maio, na sua conferência diária no México, Sheinbaum voltou a criticar diretamente o ato em torno de Hernán Cortés. Disse que a homenagem revelava ignorância histórica, argumentou que Cortés se caracterizara por ordenar massacres e afirmou que a grandeza do México vinha dos povos originários. Ao mesmo tempo, sublinhou que Ayuso tinha podido falar livremente no país, dizendo que ela tinha ido dizer o que quis e que no México há liberdade e democracia. 

Entre 7 e 8 de maio, Ayuso deslocou-se para a Riviera Maya, onde estava prevista a sua presença nos Prémios Platino Xcaret. A imprensa espanhola noticiou que a agenda institucional pública ficara sem atos nesse trecho da viagem.

O episódio central ocorreu em 8 de maio. A Comunidade de Madrid publicou um comunicado acusando o Governo mexicano de ter boicotado a presença de Ayuso nos Prémios Platino. Segundo essa versão, o Governo mexicano teria ameaçado fechar o complexo onde se realizaria a gala caso Ayuso comparecesse. No mesmo comunicado, a Comunidade de Madrid anunciou que Ayuso não iria à gala e que suspendia a parte final da viagem, incluindo a deslocação prevista a Monterrey, regressando a Madrid. 

Também em 8 de maio, o Grupo Xcaret, anfitrião do evento, negou ter recebido ameaças ou instruções da presidente mexicana ou de qualquer funcionário do Governo do México. A empresa afirmou que pedira aos organizadores a retirada do convite a Ayuso para evitar que a gala fosse usada como plataforma política, depois das suas declarações públicas durante a viagem.

No mesmo dia, a Secretaría de Gobernación mexicana também negou qualquer tentativa de impedir atos de Ayuso. Afirmou que a visita decorrera num ambiente de total liberdade e que em nenhum momento se tentara evitar qualquer uma das suas apresentações públicas ou privadas. 

A gala dos XIII Premios Platino Xcaret realizou-se em 9 de maio, no Teatro Gran Tlachco, no Parque Xcaret, na Riviera Maya, sem a presença de Ayuso.

Podemos, portanto, concluir: há um agressivo revisionismo de direita, querendo rever a história para promover as guerras culturas; é possível fazer frente a esse revisionismo; a ferramenta do revisionismo histórico faz parte da estratégia da internacional reaccionária; isso exige que sejamos, nós também, atentos a essa dimensão internacional.


Porfírio Silva, 10 de Maio de 2026
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20.4.26

Os princípios dos socialistas e os desafios de hoje




No dia do 53º aniversário da fundação do Partido Socialistas, 19 de abril de 2026, a Concelhia de Aveiro do PS, e a sua Presidente, Paula Urbano Antunes, promoveram uma sessão comemorativa, incluindo na ocasião uma apresentação do livro, de minha autoria, História das Declarações de Princípios do Partido Socialista. A apresentação da obra ficou a cargo de Filipe Neto Brandão, deputado do PS eleito pelo círculo de Aveiro, que se desempenhou da tarefa com a competência (e o bom humor) a que nos habituou. Tive a oportunidade, na ocasião, de dirigir algumas reflexões aos camaradas e outras pessoas presentes. O texto de base do que então disse é o que aqui se deixa, para registo e partilha.
 

Creio que esta História das Declarações de Princípios do Partido Socialista mostra que o nosso partido, ao longo da sua história, se manteve sempre fiel a um núcleo central de compromissos fundamentais, relacionados com a república democrática e com a procura de justiça social.
E, simultaneamente, creio que mostra também que fomos tentando adaptar as nossas modalidades de ação, e as nossas propostas, às mudanças do mundo — embora possamos discordar, ou duvidar, de que todas essas adaptações tenham sido avisadas.
O desafio, hoje, volta a ser o mesmo: fazermos valer os nossos princípios num mundo que mudou muito e que volta a exigir o melhor do nosso pensamento, o melhor da nossa ação, o melhor da nossa coragem para travarmos os inimigos da liberdade e da democracia.

A extrema-direita populista anda à solta, mas nós devíamos ter pensado nisso antes, quando deixámos avançar a disseminação de atitudes que, silenciosamente, favorecem a recepção de temas populistas. 
Por exemplo, a lengalenga populista que alimenta a polarização e o confronto assenta muito bem numa cultura que desvaloriza o compromisso, que desvaloriza a concertação. Quando as convergências e os compromissos entre diferentes forças políticas são vistos como sinais de fraqueza e de abdicação, abrimos caminho aos que vivem da rutura e do extremar de qualquer diferença.

A extrema-direita populista anda à solta e ameaça, mas nós devíamos ter pensado nisso antes, quando reduzimos a base institucional da democracia, ao concentrar o poder no topo da pirâmide: quando as assembleias representativas é que deviam eleger e controlar os respetivos executivos, acabam por ser os executivos a controlar as assembleias que os deviam controlar  - por exemplo, são os governos que mandam nos seus grupos parlamentares, ao contrário do que supunha a lógica democrática – e, aliás, acaba por ser o “grande líder” e o petit comité a mandar em quase tudo – e, com o tempo, tende a acostumar os demais a não fazerem ondas. E, desse modo, tornamo-nos menos capazes de entender e de responder aos perigos que nos rodeiam. 

É preciso dizer, e praticar, que a política é uma coisa demasiado séria para ser deixada ao que chamamos “os políticos” (no sentido de “os políticos profissionais”).
É preciso que os profissionais mandem menos na decisão política – tem de haver deputados e autarcas e outros que se dedicam a tempo inteiro durante algum tempo a essas funções, mas devem ser servidores do conjunto dos não profissionais da política.
Lembram-se, alguns, que a seguir ao 25 de Abril assistimos, em alguns sectores, àquelas assembleias ditas democráticas onde certas minorias faziam render a discussão até a maioria dos presentes se cansarem e irem embora, deixando essas minorias, então, ganhar as votações.
A democracia representativa, hoje, às vezes parece esse esquema em larga escala, ao nível nacional: parece que só ficam os que não têm mais nada para fazer.
Precisamos de mais cidadãos comuns na política, a decidir coletivamente e a sentirem que estão a decidir – para serem menos presas do discurso demagógico da extrema-direita.

Mas temos também a sereia liberal a rondar – e essa está a atrair muita juventude.
Quanto ao fascínio pelo liberalismo (ou, mais exatamente, pelo neoliberalismo, porque liberais políticos os socialistas também são), às vezes tentamos a escapatória de culpar os jovens, dizer que são “individualistas”, “egoístas”, que foram capturados pelas falácias da meritocracia. Mas não devemos ser tão simplistas. 
Pensem nisto: o nosso socialismo de hoje é mais estatista, mais centralista, menos diversificado do que já foi.
O PS, como podem avaliar pelo livro de história dos seus princípios declarados, já teve correntes mais libertárias, mais autogestionárias, mais cooperativistas e associativistas, mais trabalhistas do que temos hoje. É verdade que tivemos de lutar contra a destruição do Estado social, porque a nossa direita é maioritariamente muito primitiva e está sempre a ameaçar o Estado Social. Mas nós devíamos ser capazes de contrariar essa tendência destrutiva da direita e, além disso, fugirmos do binómio simplista “ou é Estado ou é privado”.
Vejam o exemplo da habitação. Como foi possível, nos anos mais recentes, não termos dado às cooperativas de habitação o relevantíssimo papel que elas já tiveram, no passado no nosso país, em construir casas para tanta gente e em condições mais favoráveis do que por outras vias? 
A esquerda democrática sempre teve, historicamente, ligações às ideias de autogoverno, de descentralização, de autonomia local, de cooperação, de mutualismo, de federação – e nós acabamos, hoje, não só no nosso partido, mas na maior parte dos partidos congéneres, por abandonar tudo isso e tornar-nos mais estatistas.
Dou um exemplo, talvez para vos chocar: porque é que a escola pública, para ser pública, tem de ser do Estado? Porque é que a escola pública não há de integrar escolas cooperativas, escolas emergentes da comunidade local, servindo toda a gente, mas organizadas segundo um princípio associativo?
Porque é que, por exemplo, não pode haver escolas que, sendo públicas, são geridas de acordo com movimentos pedagógicos inovadores, como há algumas privadas nessa base que são bem-sucedidas?
No plano do funcionamento, porque é que as escolas públicas têm de ter menos autonomia pedagógica e de organização do que as escolas privadas?

Se nós queremos convencer a juventude de que não somos tão rígidos como eles pensam — coisa que os afasta de nós – temos de ser mais ousados a admitir que a coisa pública não tem de ser coisa estatal, pode ser gerida de forma social, associada – aquilo a que em certas correntes da tradição socialista se chamava “autogoverno”.
Para combater o fascínio liberal sobre grupos sociais dinâmicos temos de aceitar que é possível prosseguir o bem comum fora da forma estatal – e desenvolver propostas políticas nessa linha. 
Há algo que nos afasta simultaneamente da extrema-direita populista e dos liberais economicistas radicais: é que nós sabemos que a agenda por uma vida melhor não é apenas uma agenda económica, é também uma agenda da luta política pela liberdade. Uma agenda de luta pelos direitos humanos. Uma agenda de luta pelas instituições da democracia. É que para nós não faz sentido que possamos ser servos e acharmos que nessa condição se vive melhor.

E, na prática, não há liberdade só para mim. A minha liberdade só existe e só subsiste ancorada na liberdade dos outros – e reciprocamente. Não há liberdade egoísta, não há liberdade individualista – e, por isso, nós, socialistas, precisamos de continuar a pensar a liberdade de forma diferente dos liberais economicistas. Porque a liberdade pela qual nós lutamos é a liberdade concreta. 

Há muito tempo que, no PS, nos curámos do socialismo autoritário. Mas ainda temos de nos curar do socialismo estatista e centralista.

Para nós, as instituições são centrais na nossa ideia de regime democrático: não somos anarquistas, somos das instituições. Mas não devemos ter medo do socialismo libertário como corretivo, que nos poderia ajudar a enfrentar o desafio neoliberal, embora tenhamos de encontrar soluções alternativas aos utopismos que não contam com a complexidade globalizada das sociedades do nosso tempo. A cura para os excessos liberais não será o estatismo dogmático; será, antes, a pulsão libertária e a pulsão do autogoverno no seio do socialismo mais tradicional.

O mundo está difícil para a esquerda, é verdade. Mas temos de ser capazes de olhar para a história e tentar evitar os erros já conhecidos – vamos tentar cometer erros novos em vez de voltar a repetir os mesmos…
No século XX, designadamente na Alemanha, o fascismo avançou por cima dos ódios entre comunistas e social-democratas. 
Depois disso, também na Europa, os comunistas, onde tomaram o poder, enviaram os socialistas para a oposição, quando não para a cadeia – os socialistas e outras oposições de esquerda.
Em Portugal, foi preciso explicar aos comunistas, nas ruas e nos votos, que para nós não há socialismo sem democracia. Mas também não deixámos que a direita ilegalizasse o PCP, porque não se limpa um erro com outro erro.
E hoje, numa política tão fragmentada, com a esquerda também tão fragmentada, devemos interrogar-nos: seremos nós, sozinhos, o futuro da esquerda democrática?
Ou precisamos de juntar forças para defender o essencial? E juntar forças, com quem?

Insisto sempre, como sempre insistiu Mário Soares, que somos um partido de esquerda. E isso dá-nos certas responsabilidades. Mesmo quando sabemos que a direita democrática é igualmente necessária a uma democracia funcional, não podemos desistir de pensar no futuro da esquerda.

O PCP, podendo ter razões em certas áreas das suas propostas, recusa-se a fazer uma reflexão aberta sobre o que foi o comunismo real – ou, como se dizia então, o “socialismo real”. No passado, expulsou ou destratou quem queria abrir e democratizar o partido – e isso não ajuda nada a confiarmos na sua adesão a princípios de democraticidade que são, para nós, essenciais.
Mas ser comunista não tinha de ser esta incapacidade para criticar a Rússia de Putin pela invasão da Ucrânia. Ser comunista não tinha de passar por fazer de conta que desconhecem o Gulag soviético. 
Houve comunistas que resistiram a tudo isso: 
Imre Nagy foi o comunista que liderou a Revolução Húngara de 1956 contra o governo apoiado pelos soviéticos, foi derrubado pelos soviéticos e depois condenado à morte e executado. 
Alexander Dubček foi líder do Partido Comunista da Checoslováquia e conduziu a Primavera de Praga, em 1968, que tentou humanizar o comunismo e introduzir liberdade e iniciativa no sistema. Foi esmagado pelos tanques soviéticos, mas sobreviveu com uma profissão humilde e veio a ser presidente do parlamento depois da Revolução de Veludo.
Por cá, o nosso PCP sempre apoiou os soviéticos contra as revoluções que queriam democratizar o comunismo. Mas não tinha de ser assim. Seria importante que fossem capazes de fazer uma leitura crítica do seu património.

Caso diferente é o BE. Cristalizou numa retórica muitas vezes inconsequente, numa prática que frequentemente não cuida da qualidade das propostas apresentadas, é muitas vezes primariamente anti-PS (o que ajudou muito a desmoronar a Esquerda Plural, ou Geringonça), mas – e vou chocar-vos com esta afirmação – nas suas propostas políticas não é, na maior parte dos casos, essencialmente diferente de muitos partidos da social-democracia mundial. O PSF (Partido Socialista Francês) é, em muitas coisas, mais radical do que o nosso portuguesíssimo BE…

E o Livre? É um partido que aborrece muito alguns camaradas nossos, até por parecer demasiado um partido de um homem só, que por vezes mistura uma certa ingenuidade com alguma arrogância intelectual – mas alguma coisa nos permite fundadamente negar ao Livre o estatuto de partido da esquerda democrática? Ainda por cima o único, além do PS, que é europeísta...

Quando a esquerda está em clara desvantagem, e vai demorar a sair dessa desvantagem no plano da hegemonia cultural, nós não podemos dar-nos ao luxo da sobranceria e da autossuficiência.

O PS soube fazer as boas misturas no passado: UEDS, ASDI, Lopes Cardoso, Sousa Franco, dois Secretários-Gerais que vieram do MES e um deles chegou a Presidente da República – para citar apenas alguns exemplos notáveis da capacidade agregadora do PS, que foi fazendo o partido amplo e plural que somos hoje. E para sermos agregadores temos de abandonar o pecado do sectarismo. (Sem esquecer que abandonar o pecado do sectarismo é também um caminho necessário na nossa vida interna.)
Também podem ler no livro como fizemos isso em outros momentos da vida do PS, até para sairmos de situações de grande dificuldade. Lembro, apenas, a Convenção da Esquerda Democrática, em 1986.

Para salvar a democracia do assalto dos extremistas precisamos de democracia deliberativa. Não apenas mais participação; também mais deliberação. À democracia não basta o voto, não basta a força, mesmo que seja a força de ter mais votos.
A democracia tem de ser um espaço de dar razões, de escuta das razões de uns e de outros, um espaço de argumentação racional, onde não podemos ser atropelados pelo mero turbilhão das paixões e pelo peso de quem manda mais num dado momento.
Precisamos disso para resistir à gritaria da extrema-direita.

Para termos democracia deliberativa precisamos que os cidadãos aprendam a deliberar. Como podemos ter cidadãos responsáveis se não deixamos, por exemplo, os jovens estudantes serem participantes ativos na gestão escolar? Queremos que estudem Educação para a Cidadania, mas limitamos o seu exercício de cidadania na vida concreta da escola.

A política real joga-se na vida das pessoas, não se resolve em debates de filosofia política. Mas as ideias contam. Nem os materialistas mais empedernidos negarão que as ideias contam – mesmo que digam que as ideias apenas refletem a infraestrutura material. As ideias contam se nos puserem em interação com os outros, se nos puserem a fazer coisas que nos movam no mundo.

Creio que este livro mostra um pouco do processo que o PS foi seguindo para apurar a nossa maneira de transformar ideias em ação.
Temos de voltar a olhar a sério para o mundo.
Temos de voltar a olhar para as nossas ideias sobre o que queremos para o mundo.
Temos, creio eu, de voltar a olhar para a nossa Declaração de Princípios.

Porfírio Silva, Aveiro, Sede do PS, 19 de Abril de 2026
 

(Este texto foi, depois, publicado como artigo de opinião no Ação Socialista, edição de 22-04-2026, o qual pode ser acedido aqui: Os Princípios dos Socialistas e os Desafios de Hoje )

Porfírio Silva, 20 de Abril de 2026
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23.2.26

Villepin, A República contra a violência



Em França, um jovem ativista de extrema-direita foi morto num contexto de confrontos entre militantes de extrema-direita e grupos antifascistas, na sequência de mais um boicote de grupos de extrema-direita a uma conferência promovida por uma deputada do partido "da esquerda da esquerda" La Fance Insoumise.
Podem imaginar o que se seguiu a isso.
Sobre isso, Villepin escreveu um longo texto no X, que depois foi republicado pelo Le Club de Mediapart. 
Dominique de Villepin é um político com longo percurso conservador, na direita gaullista, e já foi primeiro-ministro de França.
O seu texto merece reflexão, a todos. A todos os democratas, bem entendido.

Considerando que já pouca gente lê francês em Portugal, vou publicar aqui a versão portuguesa do texto de Villepin, na tradução automática fornecida pelo X (sem revisão).
No fim, deixo o link para a versão em francês publicada no Le Club Mediapart. 


A REPÚBLICA CONTRA A VIOLÊNCIA


Tenho consciência dos riscos que corro ao me manifestar em um momento de tamanha polarização, emoção e paixão política, mas o senso de responsabilidade exige comprometimento e clareza. Haverá protestos porque comparo a extrema direita de hoje com a de ontem. Não estou dizendo que sejam iguais. Estou dizendo que existem conexões que tornam impossível distingui-las radicalmente. Haverá protestos de que estou me tornando de esquerda e defendendo a França Insubmissa (LFI). Repito: não tenho afinidade nem qualquer ligação com a LFI. Haverá protestos de que estou dando lições à esquerda e me tornando de direita. Que protestem. Acredito na necessidade de dizer certas verdades, mesmo quando são inconvenientes. Porque sinto dolorosamente que obscurecer essas verdades permite que a ilusão de uma vida democrática normal seja mantida quando ela já não é normal e corre o risco de ruir. E porque, neste exato momento, a questão não é ganhar destaque na mídia: a questão é impedir que a França, por cansaço, cálculo ou cegueira, acorde um dia e descubra que consagrou o perigo que alegava afastar.

Quando a realidade é complexa, devemos reservar um tempo para a reflexão, para as nuances e para a perspectiva. O caso Quentin Deranque nos confronta com essa obrigação: a do desconforto e da vigilância.

Em primeiro lugar, sejamos claros: devemos denunciar todas as formas de violência, sem exceção. Devemos condenar a violência política, toda a violência política, porque ela não tem lugar em uma democracia. Sem exceção. Uma democracia começa onde a força recua, onde as palavras substituem os golpes, onde o adversário permanece um cidadão. E quando a violência irrompe, quando se organiza, quando é justificada, ela atinge não apenas indivíduos, mas a própria ideia da República.

Precisamos também compreender a importância deste momento. Para a França, este é o "momento Charlie Kirk" que a América de Trump vivenciou há alguns meses com o assassinato de Charlie Kirk por um assassino que se dizia antifascista. Este é um momento que visa deslegitimar um segmento do espectro político e retratar a extrema-direita triunfante como vítima. O objetivo é tomar o controle das mentes, tomar o controle das ruas. Portanto, sejamos vigilantes. Não cedamos terreno à extrema-direita. Estou convencido de que estamos nos aproximando de um ponto sem retorno. Algo está começando a escapar de nossas mãos.

Há um certo conforto em descartar todas as formas de violência, uma convicção de que isso nos protege de qualquer risco de estarmos errados. Mas será que isso realmente nos aproxima da verdade? Não podemos brincar com a democracia. É perturbador ver todo o cenário político, da extrema esquerda à extrema direita e tudo o que há entre elas, tentando explorar a situação. A extrema direita é a única vencedora. Há momentos em que os cálculos pessoais devem ceder lugar à defesa do que é essencial: a democracia.

Em seguida, devemos confrontar o que, na estratégia e nas reações da LFI, está alimentando as chamas em vez de extingui-las, sem jamais confundir responsabilidade política com responsabilidade criminal. O sistema de justiça estabelecerá os fatos, os papéis, as ações e as responsabilidades individuais. Mas a própria política é produto de um clima: o clima de palavras, posturas, ambiguidades, alianças toleradas e a tentação do confronto perpétuo. Numa França dividida e enfraquecida, repleta de medos e raiva, que constantemente joga com a ruptura, na linha de frente, na dramatização, corre-se o risco de criar condições em que os atores se sintam encorajados a passar das palavras aos atos. E esse risco, independentemente do lado em que se esteja, não é teórico: já está sobre nós.

Não falo aqui em nome de nenhum grupo específico, falo em nome de uma certa ideia de República. Rejeito todas as pequenas disputas, todos os acertos de contas partidários, mas afirmo, neste momento tão grave, a exigência de responsabilidade nacional por parte de todos os partidos políticos e de todos os líderes políticos.

A França Insubmissa (LFI) tem hoje uma responsabilidade especial: evitar o agravamento da situação e o afastamento de parte do eleitorado por meio de uma postura defensiva e beligerante. O radicalismo, quando se torna um estilo, acaba se tornando um mecanismo. E esse mecanismo, mais cedo ou mais tarde, escapa ao controle daqueles que se dizem no comando. Isso exige que a LFI esclareça suas posições, mantenha a unidade, rompa com toda ambiguidade e priorize o debate em detrimento da escalada constante. Exige um discurso ponderado, profundo e aberto. Exige também aceitar o desconforto: reconhecer que pode ter alimentado a tensão, mesmo sem intenção de violência. Digo isso com veemência porque uma mudança é possível. É preciso afirmar categoricamente: a LFI está fazendo o jogo da Reunião Nacional (RN) ao se apegar à sua retórica, assim como alguns líderes de esquerda fazem ao equiparar violência à violência. Estou preparado para oferecer uma lição histórica incomparável: em 1933, sem a intransigência do Partido Comunista Alemão, cegado por sua estratégia de "classe contra classe" que minimizava o risco fascista, o Partido Nacional Socialista provavelmente não teria chegado ao poder. Foi o medo do bolchevismo que levou muitos moderados a se unirem reflexivamente àqueles que se apresentavam como o único baluarte. Evitar essa armadilha hoje exige que a LFI (França Insubmissa) trace linhas claras, rejeite qualquer tolerância à violência e escolha o poder do debate em vez da lógica do confronto. Isso requer um discurso ponderado, profundo e aberto. Digo isso com veemência porque a situação é crítica.

Mas é aqui que a vigilância deve ser máxima: condenar a violência e criticar a La France Insoumise (LFI) não deve nos levar ao grave erro político de agrupar todas as formas de radicalismo como se fossem da mesma natureza, da mesma força, do mesmo perigo. De fato, há duas ideias falsas e perigosas que estão aprisionando este debate.

A primeira é a da simetria da violência proveniente da esquerda e da direita.

Mergulhe na história, na turbulência da França da Terceira República durante o Caso Dreyfus e a ascensão das ligas. Explore a França da década de 1930 e a ameaça das ligas. Na Alemanha de Weimar, na América do Sul das décadas de 1960 a 1980: a assimetria da violência política foi fundamental para a imposição de um poder autoritário e brutal. O cenário democrático é precário. A extrema-direita toma o poder em meio à desordem e à violência nas ruas. A extrema-esquerda, historicamente, faz isso em um contexto de colapso do Estado e derrota militar. Os comunistas da década de 1930 não eram santos, mas equipará-los a bandidos fascistas, com quase um século de retrospectiva, parece errado.

O Partido Social-Democrata Alemão, uma importante força republicana de esquerda na época, teve certa responsabilidade pela ascensão do nazismo ao manter a ilusão de igualdade, uma postura que acabou levando à sua própria queda. Hoje, ouvir líderes de centro-esquerda na França aproveitarem a oportunidade para acertar contas e se livrar de oponentes problemáticos para impulsionar seus índices de aprovação me parece um sinal de fraqueza política e uma manobra política barata. Quanto à direita, que vê isso como uma chance de apaziguamento superficial para poder se aliar à extrema-direita sem pesadelos, não reconheço mais nenhuma da vigilância da era Chirac. E sejamos claros: esse fogo cruzado contra a França Insubmissa (LFI), seja calculado, estratégico ou oportunista, tem um efeito mecânico. Desvia a atenção do perigo principal e ajuda a normalizar a extrema-direita, isentando-a do escrutínio que merece.

Essa ilusão de simetria é uma ilusão numérica. Grupos violentos de extrema-direita são agora muito mais numerosos em todo o país, e seu número cresce diariamente. Mesmo em termos de vítimas — um número sombrio —, a extrema-esquerda reivindicou uma vítima nos últimos cinco anos, enquanto militantes de extrema-direita reivindicaram onze, vítimas principalmente por motivos religiosos e raciais, motivações profundamente políticas. Desde 1986, como aponta o historiador Nicolas Lebourg, 59 mortes foram atribuídas à extrema-direita, em comparação com seis à extrema-esquerda. É o retorno das ligas. É um caldeirão de grupos tecendo uma rede de locais, afinidades e temas.

Trata-se de uma ilusão sobre as formas de violência. Durante dois séculos, a extrema-direita buscou controlar as ruas para impor a violência como ferramenta política. A extrema-esquerda quer impor um sistema político por meio da violência. Que diferença faz? Quando a esquerda é violenta, ela amedronta as pessoas e mina as políticas que pretende implementar. Quando a direita é violenta, ela já começou a implementar suas políticas. E mesmo quando perde, vence ao demonstrar o horror da desordem e, portanto, a necessidade de ordem a qualquer custo, ordem ao preço da violência.

Trata-se de uma ilusão sobre as probabilidades de risco. O país corre o risco de mergulhar hoje num regime de extrema-esquerda radical? Não há provas que sustentem essa ideia. A França Insubmissa (LFI) está estagnada nas sondagens, em torno dos 10 a 15%. A extrema-direita, por outro lado, está nos 35 ou 40%, e todas as sondagens preveem a sua vitória nas eleições presidenciais de 2027, algo que todos tentam esquecer para manter a ficção de uma vida política normal. Nos Estados Unidos, é evidente que o risco mortal pode vir menos de grupos extremistas do que de uma administração Trump que teoriza o desprezo pela lei e o uso da violência. Hoje, a demonização da LFI, através de confusões que ela própria criou devido a erros e até mesmo a flagrantes falhas estratégicas, serve apenas um propósito: legitimar uma tomada de poder baseada em identidades e justificar o crescente número de deserções. Jordan Bardella, portanto, convocou, ao inverter o estigma, uma "frente comum" contra a LFI. Será que devemos mesmo esquecer que, em 1933, o Partido Nacional Socialista usou o incêndio do Reichstag, atribuído a Van der Lubbe, como pretexto para proibir o Partido Comunista e inúmeras organizações de oposição de esquerda, e para iniciar a subjugação da Alemanha?

O segundo equívoco é que a extrema-direita se normalizou e agora é considerada uma parte legítima do debate político. É fácil esquecer que a extrema-direita não é apenas mais uma opção em uma democracia, porque muitas vezes não há como voltar atrás. Nenhum regime de esquerda radical na Europa jamais foi eleito sem renunciar ao poder por meio das urnas. Por outro lado, muitos regimes de extrema-direita chegaram ao poder por meio de eleições, pelo menos legalmente, sem renunciá-lo: Alemanha, Itália, Hungria, Romênia. Isso nem sempre acontece, mas ocorre com frequência suficiente para ser um risco fatal que não podemos nos dar ao luxo de correr.

Normalização dos compromissos políticos da juventude nacionalista? As coisas não mudaram muito. Após uma manifestação em Paris em homenagem a Quentin Deranque, os manifestantes deixaram um rastro de suásticas nos muros. Qual partido tem membros repetidamente condenados por antissemitismo e racismo? A Reunião Nacional, repetidamente. Não nos deixemos enganar por fachadas recém-pintadas.

Quais são os riscos hoje? São dois. Primeiro, há o estabelecimento de uma cultura de guerra civil em que a violência de alguns justificaria indefinidamente as represálias de outros, esmagando um centro comprometido com a conciliação e o diálogo até restar apenas o confronto entre facções radicais. Segundo, há a cumplicidade tácita de todas as forças políticas na tomada do poder pela extrema-direita. Este é o ponto crucial da questão: ao concentrar os ataques na França Insubmissa (LFI), seja por razões táticas, por conveniência ou por razões calculadas, cria-se um corredor de respeitabilidade para a Reunião Nacional (RN). Ela recebe o que sempre sonhou: a aparência de normalidade, o privilégio de ser a resposta à desordem que tanto alimenta.

Este momento exige uma resolução firme: não ceder à violência, não ceder ao cálculo, não ceder ao caminho fácil da simetria. A República não será salva por posturas, por condenações ou pela embriaguez das facções. Será salva pela clareza da linguagem, pela firmeza da lei, pela responsabilidade dos partidos políticos e pela recusa em santificar a extrema-direita sob o pretexto de combater seus adversários. Este não é um momento para fazer balanços, mas sim para nos unirmos. E se a França deseja evitar o ponto de não retorno, deve redescobrir o que lhe dá força quando tudo está em turbulência: a dignidade do debate, a autoridade do Estado e o espírito da República.

Dominique de Villepin


Texto original em francês, clicar: La République contre la violence .

Porfírio Silva, 23 de Fevereiro de 2026
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