30.11.09

perplexidades

21:38

Aparentemente o PCP preferiu votar contra as medidas de combate à evasão contributiva, e de protecção social dos trabalhadores. Eu até percebo que o Paulo Portas o tenha feito. Mas, o PCP?? E o BE?? Em que medida é que favoreceram os trabalhadores com o sentido de voto?

Espantada/o? Veja por qual razão Carlos Santos afirma aquilo mesmo. AQUI.

o nariz de Judite



Judite de Sousa estava ainda agora a perguntar (a António Vitorino, na RTP1) que diferença fazia o Tratado de Lisboa para o "cidadão comum" (seja lá isso o que for). O homem respondeu-lhe que, na verdade, nenhum Tratado faz diferença para o cidadão comum. Tem razão AV, num certo sentido: as camadas superiores da realidade institucional de sociedades complexas só muito indirectamente se ligam ao dia-a-dia das pessoas em geral. Isso, contudo, não quer dizer que essas camadas institucionais sejam menos importantes para o "cidadão comum". Por exemplo, se um sistema político bloquear e, desse modo, impedir a tomada de decisões que seriam necessárias à resolução de problemas que não se resolvem espontaneamente - será o cidadão comum, finalmente, a pagar as favas. Mas, claro, para perceber isso é preciso olhar um bocadinho mais longe do que a ponta do nariz de uma famosa entrevistadora com chavões sempre prontos a disparar para atingir o olho e o ouvido do "espectador comum" (seja lá isso o que for).


fazer umas contas ao truca-truca geral

20:19

Professores pedem números para avaliar propostas do Governo. «Os sindicatos de professores querem saber qual será a duração da carreira proposta pelo Ministério da Educação, bem como o número de professores em cada escalão e o tempo necessário para a transição, antes de qualquer compromisso.»

É um projecto reconhecível: eliminar a incerteza da vida. Ter todos os dados para julgar o que vai acontecer ao longo de uma carreira de dezenas de anos.
Digo já: se eu estivesse no lugar da ministra da educação aceitaria, com uma condição: os sindicatos teriam de se comprometer com os número da demografia para os próximos 20 ou 30 anos. Sim, porque as necessidades da escola pública devem estar relacionadas com o número de pessoas que procuram o sistema, que são maioritariamente crianças e jovens, em maior ou menor número consoante as variações do truca-truca geral. Portanto, queridos sindicatos, comecem a fazer as contas. E a explicar como compensarão as perdas se as contas do truca-truca não baterem certo.
Ou os sindicatos acham que o número de professores no sistema não tem nada que ver com as necessidades do país e com a tal demografia?

[produto A Regra do Jogo]

os minaretes e o clítoris

16:43

Na discussão sobre os minaretes os minaretes são o menos importante. A proibição da excisão feminina não é um sinal de intolerância religiosa?

Confundir um minarete com o clítoris parece-me um evidente sinal de cegueira. E não da espécie oftalmológica. Mas, tirando isso, devia ser acrescentada uma alínea à lista dos direitos humanos: «Todo o ser humano tem direito a não ser instrumentalizado como objecto de debates pretensamente sábios que não tomem o cuidado devido à sua concretude». É que com as pessoas não se brinca. Não se devia brincar. Não se deveria brincar com o sofrimento concreto imposto a pessoas concretas. Os direitos humanos abstractos não serão direitos humanos. A menos que se acredite que as vítimas de mutilação genital feminina querem que isso aconteça lá por serem tementes a Deus. Meter tudo no mesmo saco pode ser - e acho que neste caso é - um sinal de irresponsabilidade e de absoluta falta de respeito pelo outro concreto e sofredor.

o último grande abraço


Não há nada no mundo que interesse apenas aos que estão perto. Todas as tentativas para reduzir o mundo onde os humanos vivem ao plano achatado das interacções directas, imediatas - são estultícia. O nosso mundo é o universo das consequências que nos fugiram das mãos, dos inúmeros efeitos não intencionados das nossas acções intencionais. Não andamos sempre a calcular consequências. E se andássemos não teríamos sucesso suficiente para isso nos evitar complicações. É por isso que, se ser-se mau pode ser mau, querer ser bom (ou mesmo ser bom) é altamente insuficiente. Quando dizemos que "não há nada no mundo que interesse apenas aos que estão perto", por perto queremos significar perto no espaço ou perto no tempo. As nossas responsabilidades só podem caber numa ética que não pense apenas nas consequências que podemos compreender ou dominar.
Tendes dúvidas? Lede, no Blogkiosk, a posta intitulada Maite, 26 anos, vítima da I Guerra Mundial..., por Patrícia Fonseca.



Gustavo Diaz Sosa, série Ultimo Gran Abrazo, 2009
(na Arte Lisboa 2009)