23.12.19

Canja de Galinha com Cintra

17:50


Não tem acontecido muito nos últimos tempos: fomos ao teatro (Domingo à tarde, um horário aziago para ir ao teatro, mas faço os impossíveis para não falhar um aparecimento do Mestre) ver Canja de Galinha (Com Miúdos), de Luis Miguel Cintra.
Não sei se deva começar pelo espectáculo ou pelo resto.
Comecemos por tudo.

Tanto quanto é dado ver a quem vai de fora, e não de dentro da máquina da criação (como explicaram autores vários da filosofia da ciência, a ordem da descoberta e a ordem da justificação são dois mundos muito diferentes), este espectáculo parte principalmente de duas peças de Camilo Castelo Branco, “Entre a Flauta e a Viola” e “Patologia do Casamento”.

“A uma estalagem de Barcelos chega, numa noite, Aniceto com a sua bela filha, Vitorina. Aniceto anda em fuga com a rapariga, pois quer mantê-la afastada de um tocador de flauta, que sabe ser seu pretendente. O que ele não sabe é que atrás dela andam, não um, mas dois pretendentes – o tocador de flauta e um outro que toca viola. Aniceto pensa que está a salvo mas nessa mesma noite a estalagem vai viver uma situação de peripécias cómicas em que ninguém vai dormir.” Alguém propôs esta sinopse de “Entre a Flauta e a Viola”, de Camilo Castelo Branco. Na sua primeira edição, de 1871, esta peça aparecia publicada num volume intitulado “Teatro Cómico”, juntamente com outra peça do mesmo autor, “A Morgadinha de Val D’Amores”. Nesse volume, Camilo fez inserir uma nota onde se desculpava da sensaboria de “A Morgadinha de Val D’Amores”, explicando que o brilho esperado teria resultado do acompanhamento musical encomendado ao maestro Francisco de Sá Noronha, o qual, não tendo chegado a ser produzido, inviabilizou a representação da peça e deixou como despojo um texto que, assim despido, provocaria fastio no leitor. Quanto ao segundo elemento do volume, “Entre a Flauta e a Viola”, Camilo escreve apenas isto: “Com referência à farsa, não temos que pedir desculpa. Seria desvanecimento irrisório recearmos nós que a ponderosa e grave crítica descesse até coisa tão pequena.” Este “Entre a Flauta e a Viola”, anunciado no volume da edição original como entremez em um acto, é um dos textos que Cintra escolheu como material deste espectáculo.

Outra base deste trabalho é “Patologia do Casamento” (1855), que retoma um capítulo de “Cenas Contemporâneas”, uma táctica de produção (adaptação ao teatro) a que Camilo repetidamente recorreu. É um texto teatral que Camilo ora qualifica como drama, ora como comédia – mas, chamar-lhe drama será, talvez, essencialmente parte do dispositivo alargado da comédia. Mas, como tanto fez Camilo, o intuito era mesmo falar do que era de actualidade. E, para este autor, o casamento é sempre um tema de actualidade – sendo, também, um atalho para a abordar numa perspectiva de crítica social, fazendo perfis de certos estratos da sociedade e pintando-os com cores onde berram as lógicas desviadas dos respectivos comportamentos. Esta “Patologia do Casamento”, onde dois casais se vão fazendo, desfazendo e refazendo, comentados por um cínico (o próprio Camilo?), pode fazer-nos lembrar as farsas do “Morgado de Fafe”, na medida em que retoma a ridicularização das mulheres com leituras, escarnecidas por serem pretensiosas, e dos seus apaixonados, escarnecidos por terem discursos românticos vazios e emproados.

Então, daqui diz Cintra que parte. Mas os espectáculos de Cintra são sempre recortes labirínticos de textos de outros e de referências enxertadas pelo encenador. Quem já teve a felicidade de ver Luis Miguel a construir teatro com pedaços vários de palavras de outros, sabe porque se chama ao resultado um labirinto: o arquitecto do labirinto conhece o desenho global mas essa sorte não sorri ao utilizador, que anda sempre à cata de fragmentos que façam sentido (e indiquem uma saída), mas nunca deixa de estar sempre em risco de se perder. Embora seguindo Cintra há muitos anos, continuo convencido de que é impossível capturar tudo o que ele quis plantar em cada uma das suas obras. Porque Cintra cria como um rio à beira da cascata, não como um desenhador de móveis para uso confortável. No caso deste Canja de Galinha (Com Miúdos), o objecto parte das tolices próprias dos casamentos arranjados por conveniência social e dos enganos e desenganos por aí advindos. Podemos rir-nos, e julgar que é coisa camiliana e de um romantismo que ficou lá para trás na história. Contudo, basta conhecer apenas um dedo mindinho de Cintra para saber que não se navega em puras perspectivas históricas quando se vai ao seu teatro.

O encenador terá dito à Visão / Sete que estas peças de Camilo o interessaram por tocarem “numa coisa que me irrita solenemente: a maneira superficial com que, politicamente, ainda são tratadas as questões que dizem respeito à mulher”. E o diabo, sempre por ali em risinhos e a meter a colher, marcaria esse desrespeito leve, um desrespeito marialva erradamente confiante em não ser assim tão pecaminoso como isso. E claro que uma ideia sobre a forma desajustada como estamos com as mulheres nestas nossas sociedades seria tema perfeitamente entendível em Cintra. Mas acho que a coisa é mais larga.

Em termos mais concretos, o que Cintra anda sempre a dizer, há séculos, é que nada disto faz sentido. O mundo tem falta de verosimilhança. A sociedade em que vivemos destrói sentido enquanto mastiga os nossos ossos.

Foi o fim da Cornucópia, vencida por uma burocracia que arrepia e por um toque de insensibilidade da máquina de fazer subsídios. Algo que desmoraliza um anarquista emocional como Cintra. E que angustia um homem que sente a fragilidade vivencial dos seus colegas, mais jovens e menos jovens, e que se dedicam ao teatro apenas se encararem a pobreza franciscana como ideal de vida. (“O fim do Teatro da Cornucópia em que depositei toda a alegria e energia de que fui capaz, tirou-me das mãos o martelo com que fui carpinteirando leituras de texto de que gostava muito, quase sempre grandes obras da dramaturgia mundial de todas as épocas que me apetecia e julgava útil partilhar com o público.”)

É a utopia, todos os dias calcada aos pés do realismo sacrossanto destas sociedades “organizadas”. Aquilo que Cintra, em mais um texto “Este Espectáculo”, chama “a troca da inteligência pelo funcionalismo, da afectividade pelo comportamento correcto, da alegria pelo conforto, da imaginação pela regra social”. Aquilo que o faz sentir um inadaptado ao presente.

É a morte, a morte de parceiros da sua vida, mas também a sua própria morte individual como horizonte, que o faz pensar – embora, diz, sem medo.

E, sempre presente em Luis Miguel Cintra, o azedume contra a política: “Se tudo isto existe é porque não desisti de amar. Ao contrário do que a via da chamada Política parece querer fazer no mundo. “ (Oh, tanto discutimos isto, nunca concordando no fim mais do que no princípio.)

Finalmente, face ao capitalismo, Cintra só encontra sentido noutro plano: “Obra e graça do Espírito Santo. Não é verdade Papa Francisco? Que tudo se desorganize para que saia das minhas e das tuas mãos alguma ideia nem que seja esboçada. Para que um dia cada um seja feliz e deixe de haver algarismos. Fiquem imagens, sons, gestos. Que se feche o círculo e o Verbo volte a ser Deus.”

Em verdade vos digo: o teatro de Cintra é sempre mais do que teatro. Vale a pena lembrar que Camilo afirmou que o teatro não era “o centro da sua paixão dominante” (pelo menos, assim lemos em Luís Francisco Rebelo, “O Teatro de Camilo”, publicado na Biblioteca Breve, do Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, em 1991) – apesar de a própria vida de Camilo ser fonte constante de cenas teatrais, como sugeriu José Régio, quando falou das “tragédias que ele próprio inventa (quando mais ou menos as não reproduz) sabendo, porém, terem seu paralelo na realidade”. Fazer teatro por tudo o que há no mundo para lá do teatro, pois.

E é “canja” por quê? Sobre o título, Cintra já disse “é para despistar”. Mas também explica. A folha de sala explica. É para consolar um estômago cansado de porcarias.
O ponto de Luis Miguel Cintra é sempre esse: como encontramos pé para estarmos num plano que não seja o carreirismo dominante. Que é aquilo que verdadeiramente nos estraga o estômago e nos pede uma canja com miúdos de galinha. Moelas e tal.

["Canja de Galinha (com Miúdos)" é uma produção conjunta da Companhia Mascarenhas Martins e do Museu da Marioneta, instalado este que está no Convento das Bernardas, em cuja capela vamos ao teatro. O espectáculo ficará em cena no Museu da Marioneta, em Lisboa, até 29 de Dezembro, excepto nos dias 24 e 26 de Dezembro, e pode ser visto de terça-feira a quinta, às 19h00, às sextas-feiras e sábados, às 21h30, e, ao domingo, às 17h30.]




Porfírio Silva, 23 de Dezembro de 2019
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