4.9.10

leituras

Nothing Else Matters - Apocalyptica plays Metallica




para mal dos nossos pecados

21:01

O terramoto de Lisboa, em 1755, não abalou apenas a cidade. Abalou também o pensamento.
Os que acreditavam no significado moral das coisas da natureza encararam os acontecimentos como castigo divino pelos pecados dos lisboetas e outros que aqui partilhavam a grandeza, a riqueza e o brilho do melhor que havia no mundo.
O Marquês de Pombal não estava virado para essas ilusões: achava que preciso era deitar mãos à obra, "enterrar os mortos e alimentar os vivos", aproveitar a oportunidade para refazer a urbe.
Os ideólogos de serviço, que sempre estão à espreita, sopravam noutra direcção. Os boatos de que o terremoto se repetiria num aniversário do primeiro "castigo divino", e então de forma mais determinante, iam no sentido de confirmar a interpretação moral do facto natural. Os jesuítas foram considerados responsáveis pelo boato e pela tese - que o padre Malagrida corporizou, desafiando numa série de sermões o intento prático do Marquês primeiro-ministro. Pretendia Malagrida que a reconstrução era um assunto banal, que não devia distrair os portugueses do assunto realmente interessante, que era o arrependimento dos seus pecados. Em hora tão fatídica, construir e distribuir não eram as prioridades relevantes, mas antes jejuns e flagelos.
Malagrida deu-se mal com a teoria, tendo sido condenado e morto.
Mas na capital do reino continuam a montar acampamento muitos que têm o mesmo sentido das prioridades do padre Malagrida. Para mal dos nossos pecados.

3.9.10

Durão Barroso combate a crise


A política de comunicação da Comissão Europeia, liderada pelo português Durão Barroso, vai sofrer alterações.
Acrescenta o Diário Económico: «O papel principal é para Durão Barroso, com fotógrafos a segui-lo 24 horas, produtores de televisão para criarem conteúdos em que o presidente da Comissão Europeia seja o protagonista, convites a jornalistas para acompanharem as suas viagens.»

Ainda bem que temos um presidente da Comissão Europeia a falar português: assim percebemos melhor a estratégia dele para combater a crise.

música e neurociências, Damásio e Yo-Yo Ma


Para os mais atentos, é uma notícia velha. Mas eu não sou dos mais atentos.
«O compositor norte-americano Bruce Adolphe convidou o neurocientista português António Damásio e o violoncelista de origem chinesa Yo-Yo Ma para participarem na produção de uma peça musical multimédia sobre a evolução da consciência.» (Ciência Hoje)
A peça chama-se "Self Comes to Mind" e vai também ser título de livro do neurocientista. Antonio Damasio's new book, Self Comes to Mind, will be published by Pantheon on November 9, 2010.
Pelo que se pode ler, a combinação de música e ciência (e das imagens do cérebro com que Damásio já trabalha normalmente) não foi mero exercício de retórica. A experiência fenomenológica da música é uma das que tendemos a considerar mais sublimes - e mais uma das que não são fáceis de explicar a sério. Algo sobre isso aqui. Uma das coisas interessantes no método de Damásio é que, contrariamente a outros que acham que só é mesmo científico estudar o funcionamento do cérebro propriamente dito, ele cruza a observação exterior do cérebro (com toda aquela parafernália de máquinas para captar imagens do seu funcionamento) com "observação interior": testemunhos de pessoas que vivem situações de desfuncionalidade e relatam o que sentem e pensam na primeira pessoa.

Enquanto esperamos pelo próximo livro de Damásio, damos-lhe a ouvir a música. Composta por Bruce Adolphe, "Self Comes to Mind" é baseada num texto de António Damásio e desenvolve-se em três andamentos:
1. When Mind First in the Body Bloomed
2. Self Came to Mind
3. Discovery

Não é muito elegante a inserção que conseguimos fazer, mas pode ouvir aqui cada um dos movimentos separadamente.





vomitório


Casa Pia, em dia de leitura de acórdão. Dando umas voltas breves pela blogosfera, verifico que está tudo na mesma. Há muito porco a chafurdar, não sei se para ganhar audiências ou para ganhar votos. Escribas a quem nada interessa a justiça, mas o circo. E que se esforçam para venderem alguns dos bilhetes que fabricaram em casa. Devem chamar a isso liberdade. Justiça não chamam certamente, já que se a justiça fosse como eles a praticam, eles já teriam provado a receita há muito tempo. Ponto final sobre o chiqueiro.
Já quanto ao que se passa no tribunal: estranho seria que tanto miúdo tivesse sido rebentado e ninguém fosse condenado. Mas isso não quer dizer, só por si, que os que deviam ser condenados sejam os que se sentaram lá no banco dos acusados. Disso não sei. Eu até vivo perto do Parque e garanto-vos que não é preciso ver tudo para saber que o que vemos já é demais.


o sr. Fernandes, um justiceiro que defende os justiceiros

12:05

José Manuel Fernandes volta hoje, no Público, ao assunto do jornalista Cerejo se ter constituído assistente no processo Freeport e continuar a escrever peças jornalísticas sobre o caso.
(Uma nota lateral. O senhor Cerejo, numa das últimas edições, investia, com a raiva espumante que se conhece dos seus escritos, contra um advogado que o criticou severamente por aquela "assistência". Nessa "peça", o senhor Cerejo notava a extrema simpatia da direcção do jornal em deixar o tal advogado escrever a criticar um jornalista da casa. Já que o senhor Cerejo escrevesse opinião no seu próprio jornal, era um direito adquirido (estava implícito na prosa). Agora que o senhor Fernandes escreve a defender o senhor Cerejo, sempre estou para ver se o senhor Cerejo continua a debitar graçolas sobre a caridade extrema da direcção do jornal em o deixar lá escrever. Só para ver se se confirma que o senhor Cerejo vê aquilo como a sua leira, com desagrado por ir lá quem o questione. Ponto final na nota lateral.)
José Manuel Fernandes acusa de quererem atentar contra a liberdade de informação aqueles que não acham bem que um jornalista manipule um instituto judicial (o de assistente no processo) para ter melhor acesso ao sumo do mesmo (processo). E alonga-se numa lengalenga sobre o interesse público. JMF não percebeu o que escreveu o advogado que opinou contra a salgalhada do assistente-às-vezes-e-outras-vezes-jornalista, naquele ponto em que denunciava a visão "A Bem da Nação" que certos jornalistas têm do interesse público. Confirma-se que JMF também partilha essa noção: em nome do interesse público, vale tudo.
Não está em causa que o "interesse público" tenha de ser interpretado por muitos; agir pelo interesse público não pode estar dependente de uma "Autoridade Nacional para o Interesse Público", já que nesse caso tornar-se-ia um "interesse do quem governa". Mas o que se exige é que se perceba esta coisa simples: num Estado de Direito é preciso respeitar os mecanismos, não misturar tudo. Misturar tudo é, por exemplo, um jornalista manipular os mecanismos da justiça para objectivos exteriores ao funcionamento da justiça. Essa visão "vale tudo por aquilo que nós invocamos como interesse público" é o próprio cerne dos regimes totalitários. O Estado de Direito vai por partes, para se poder garantir que se cumpram as regras. Estes jornalistas armados em deuses da justiça acham que, armados com a invocação do interesse público, estão livres para usar todos os meios a que possam deitar mão. Mesmo que isso implique "torcer" os mecanismos legais. Esse é o tal espírito do velho "A Bem da Nação": desde que seja para defender a sua visão do "bem", tudo se permitem a si mesmos.
Perigosos, esse defensores do bem.

quem vai à pesca dá e leva


Recado de Laurentino a Madaíl: “A boa liderança não se faz com piloto automático”. E mais escreve o Público: "O secretário de Estado da Juventude e Desporto, Laurentino Dias, saiu nesta quinta-feira em defesa da Autoridade Antidopagem de Portugal (Adop), afirmando que concorda com a suspensão de seis meses aplicada ao seleccionador Carlos Queiroz, e deixou ainda um recado a Gilberto Madaíl, presidente da Federação Portuguesa de Futebol."

O "caso Queiroz" é coisa de que não percebo nada. Nem quero. Mas certo certo é que não me cheira nada bem que um membro do governo tenha de andar a concordar ou a discordar com sentenças de "justiças" que por aí andam, mesmo que sejam "justiças desportivas". É que, em casos destes, começam os ditados populares a baralharem-se-me na cabeça e fico conturbado. Ou com turbante, ou lá o que é.


teodiceias

2.9.10

a política do ódio

13:19

A direita da direita americana não engana: é puro lixo. Especialista na política do ódio. Este anúncio, misturando o ataque às torres gémeas, oposição a Obama, fundamentalista anti-islâmico, guerra de religião, é um exemplo claro. Como de costume, falam em nome do povo. Não é só lá, claro.



definições


Evelyn de Morgan, Night and Sleep (1879

Muitas vezes dar definições é um exercício de arrogância intelectual (dar as leis do mundo por palavras, quando o mundo muda de formas diferentes das palavras, e as relações entre as mudanças do mundo e as mudanças das palavras seguem caminhos obscuros). Outras vezes, dar definições é um exercício de humildade (é como dizer "eu vejo as coisas assim, podem começar a encontrar os buracos na minha ideia".) Mas há definições realmente estimulantes.

Esta, que não é nova, encontrei-a perdida na sinopse de um livro sobre a escola pós-keynesiana em economia. A dita sinopse é de Paul Davidson. E a dita definição reza como segue.


«O tempo é um dispositivo que impede que tudo aconteça de uma vez.»


31.8.10

venho de férias e encontro tudo grosso. tudo na mesma, portanto. olá e adeuzinho.

21:51

Cavaco Silva já promulgou o diploma que reduz em cinco por cento os vencimentos dos gabinetes dos políticos, mas fonte de Belém disse à Lusa que a Presidência ficou surpreendida por não terem sido abrangidos mais órgãos de soberania.
Continua o Público:
«Contactada pela Lusa, a Presidência da República confirmou a promulgação do decreto da Assembleia da República que aprovou a redução do vencimento mensal ilíquido dos membros das casas Civil e Militar do Presidente da República, dos gabinetes dos membros do Governo, dos gabinetes dos governos regionais, dos gabinetes de apoio pessoal dos presidentes e vereadores das câmaras municipais e dos governos civis.
A mesma fonte, não identificada pela Lusa, referiu que a Presidência da República ficou surpreendida pelo facto de não terem sido abrangidos pelo diploma os membros de gabinetes de outros órgãos de soberania, que se regem por idênticos estatutos jurídicos em matéria de livre nomeação e exoneração.
Os órgãos de soberania em causa são, nomeadamente, os gabinetes do presidente e vice-presidentes da Assembleia da República, os gabinetes dos grupos parlamentares, os membros dos gabinetes pessoais do presidente do Supremo Tribunal de Justiça, do presidente do Tribunal Constitucional e do presidente do Supremo Tribunal Administrativo. No diploma não existe qualquer justificação para a não abrangência destes órgãos de soberania.»

Duas observações apenas.
Primeira. Se a Presidência da República está espantada por uma certa maioria no Parlamento português ter aprovado aquela coisa, é sinal de que ainda não percebeu que no Parlamento se fazem muitas coisas que relevam da pura lógica da exibição partidária e da guerra aos outros órgãos de soberania, em particular o governo, mas desta vez também a presidência. Se o PR ainda não percebeu isso, é sinal de que anda a dormir na forma.
Segunda. Se o PR tem aquela opinião sobre o mamarracho aprovado no Parlamento, devia ter escrito isso aquando da promulgação. Não devia promulgar sem ditar palavra e depois andar a mandar dizer - ou a deixar dizer, que dá no mesmo -, por interposta fonte mais ou menos carente de identificação, aquilo que devia ter posto preto no branco.

(E assim se acabam as férias da blogosfera.)