5.9.08

Machina Speculatrix em vídeo


As tartarugas artificiais de Grey Walter, as "máquinas especulativas" às quais está directamente ligado o título deste blogue, foram aqui apresentadas logo no início deste projecto: aqui e aqui. Posteriormente (aqui) foi acrescentado um vídeo (raro) onde se podem observar por momentos as ditas máquinas cibernéticas a manobrar.
Agora temos mais e melhor: um vídeo com uma explicação e uma demonstração mais demoradas (embora ainda sumárias) da "filosofia" e funcionamento das tartarugas. Não conseguimos identificar a origem verdadeira do vídeo, que está disponibilizado na rede no blogue Skitterbot - Artificial Life Stories, mas nele aparece o próprio Grey Walter com as suas tartarugas.
Conhece algum outro vídeo da Machina Speculatrix? Muito agradeceremos qualquer indicação que permita melhorar a galeria introdutória.





Adenda de 15/set/08. O editor do blogue acima mencionado, Skitterbot - Artificial Life Stories, contactado por mim, informou que o vídeo disponibilizado lhe foi sugerido por um professor quando andava na universidade e que a sua referência correcta, tratando-se de uma velhinha reportagem da BBC, é a seguite: "Bristol's Robot Tortoises have Minds of their Own", BBC Newsreel (1950). Many thanks.

4.9.08

os moinhos e os ventos


Governo aprovou hoje prisão preventiva para crimes com arma proibida.


Acho bem: as medidas "pontuais" são muitas vezes mais sensatas do que as medidas que enchem o olho. Já isto deve desagradar aos que querem a boleia da insegurança para alimentar a sua trincheira política acerca da alteração das leis penais. Mas governar - ou até fazer oposição - não deve ser principalmente cavalgar os temas de praia ou de paragem de autocarro. Sim, porque a insegurança dos cidadãos e a insegurança como espectáculo mediático são dois problemas diferentes. O segundo resolve-se com espalhafato. O primeiro, nem por isso.

3.9.08

os frigoríficos de paris

Uma história como há poucas: uma instalação frigorífica que servia o abastecimento da cidade de Paris, tendo deixado de ser usada para esse fim, foi colocada pela empresa dos caminhos de ferro (CP lá do burgo, proprietária) no mercado de arrendamento, vai para 20 anos ou mais. Cada câmara frigorífica era um cubículo com uma pesada porta, sem janelas e com grossas paredes. Com a falta de espaços para ateliers, vários artistas plásticos, músicos, arquitectos, e outros menos artistas, lançaram-se em significativo número a essa oportunidade.Fizeram o que puderam para aproveitar o espaço (por exemplo, rasgando janelas) e conseguiram fazer conviver uma enorme diversidade de profissões num único espaço - ajudados pelas grossas paredes, que, isolando, permitem, por exemplo, que os Urban Sax ensaiem sem aborrecer os vizinhos.

Claro, a coisa esteve para acabar mal: tentaram correr com todos, para fazer bonitos escritórios a rebentar de modernos. Até ao momento conseguiram resistir, uns 200 com vozes fortes, opondo-se à "racionalização integral" da cidade-luz. Vale a pena ler mais sobre esta experiência social em les Frigos.

Nós, entretanto, aproveitando um regresso pouco habitual a uma Paris em Agosto quase deserta de nativos, fomos lá visitar a coisa. E deixamos por aqui algumas das olhadelas que por lá lançámos.

(As fotos são, salvo indicação em contrário, de Porfírio Silva.Todas são ampláveis, pelo habitual método do clicar.)




Uma imagem do exterior do edifício. Cuidado: não entrar pela boca da besta.




As paredes exteriores começam a ameaçar o que lá dentro se encontrará.




Cá fora ainda.





Entrada facilitada pelo guarda daquele mundo, há que subir as escadas.





São cinco andares.




Mas vale a pena seguir o caracol.




Pormenor nas escadas, ainda.




Vamos então penetrar num dos andares.





Os "escritórios", alojados em câmaras frigoríficas, mantêm as antigas pesadas portas.




Qualquer porta é uma potencial arma de expressão.




Algumas decorações parecem querem acrescentar-se ao factor de segurança "porta ela mesma".




Na altura da nossa visita a maior parte dos espaços estão encerrados. Mas há vestígos do que se faz por lá em dias de mais actividade. Vestígios murais.




Procurando no sítio dos "frigos", que demos acima, conseguem identificar-se os autores destas pistas para o que se passa lá dentro. Basta comparar os traços.




Publicidade e desporto? Sim, há empresas aqui: mas nada de conclusões apressadas...




Em cada esquina um (desenho) amigo.




Ou um sonho estranho.




Até os recantos das instalações técnicas são ocupados com tinta disposta de certas maneiras.
(Foto de Margarida Marques.)




Em vários cantos se estacionam as bicicletas dos que assim lá chegam. (Também há motos e automóveis, sim.)




Um cuidadoso tratamento dos detalhes, por vezes.




Os espaços de acolhimento de certos ateliers (ou conjuntos de ateliers) apresentam-se particularmente exuberantes.




Se vai com menores, mesmo menores, o melhor é explicar-lhes antes o que é "arte". Para não se embaraçar...




Pela assinatura, estamos prestes a encontrar o artista agora conhecido por "Paella?". (É como está entre parêntesis, sim - mesmo que seja difícil de pronunciar o ponto de interrogação...)




O próprio Paella? em pessoa.




Vejam o que ele anda agora a tramar. Muito ligado à "figuração narrativa" (mas não falaremos aqui e agora da recente exposição que por essa mesma cidade se viu com agrado). Para lerem o que ele nos explicou de viva voz, acedam a http://www.paellachimicos.com/.




Ainda demos um pulo ao atelier de Sacha, mas nem gostámos muito do que vimos - nem o artista ocupado esteve virado para grandes conversas connosco. E então tomámos o caminho da porta geral de saída...




... para, já quase a abandonar os frigoríficos agora tão "quentes", sermos interceptados por este senhor. De seu nome Jean-Paul Réti, perguntou se andávamos por ali em visita não programada. Sim, claro, admitimos. O homem, além de escultor em várias e boas versões, como se pode ver aqui, é ainda um dos animadores do esforço associativo que impede a queda e desgraça daquela experiência original. E, em conformidade, apóstolo da causa, explicou-nos ao que andam - e levou-nos a ver um dos seus espaços nos frigoríficos. Por sinal, o único que ainda subsiste, como originalmente, sem janelas.




Para o meu gosto, as suas "esculturas de parede", que incluem iluminação especificamente orientada, são magníficas. É em momentos destes que me dá vontade de ser rico... Vontade não, pena (de não ser).





A consulta ao sítio de Réti permite identificar o rationale de muitas obras que aqui se vislumbram. Tivemos ensejo de tocar as relações entre a luz e a verdade...




Artista filho de cientistas, interessado por anatomia, Réti também faz escultura para fins científicos, representando a três dimensões o que se encontrou ou se sabe de alguns exemplares notáveis da história natural dos habitantes da Terra. Olhem lá com atenção...




Nas suas esculturas Réti quer, por vezes, representar a nossa situação de pendurados no espaço, "de cabeça para baixo"...




E pronto, com esta magnífica árvore estamos quase de saída, porque já lá vão algumas horas...




... mas talvez valha a pena voltar. Todos os anos, pelo final de Maio, as "portas abertas" são uma oportunidade para olhar por dentro este vespeiro em animação. Com mais portas abertas do que as que nós encontrámos... mas sem o sossego com que por lá andámos. Não se pode ter tudo (de uma só vez).




o homem do momento


Durão Barroso: estatuto de candidato "possível" para a Sérvia em 2009.


A Europa deve reconhecer-se em Barroso: para um continente vazio de rumo e de meios para levar qualquer ideia à prática, nada como um mestre da palavra redonda e oca para fazer de mestre de cerimónias.
Leia-se lá na notícia: «Durão Barroso sublinhou, porém, que estas suas declarações não são um "compromisso", uma vez que esta eventual entrada no grupo de países candidatos permanece condicionada.» Claro.

nim, disseram eles


Medvedev considera Presidente da Geórgia um “cadáver político”.


E que dizer da Europa, que se reúne em Bruxelas para dizer ao mundo, sobre a "nova guerra fria", com pompa e circunstância, que, claro, claro, sem dúvida, NIM ?
Até agora a Europa hesitava entre partilhar com outros a brincadeira de tentar humilhar a Rússia ou ceder precisamente nos pontos que deviam pertencer à agenda do essencial. Agora, uma vez mais, indecisa entre vários disparates, diz NIM. Incapaz de condenar a Geórgia pela sua iniciativa bélica, incapaz de mostrar à Rússia o que não é admissível no mundo de hoje. E incapaz de encontrar outro lugar no mundo que não seja a alternância entre a arrogância e a impotência.

2.9.08

DREYFUS E MAIS ALÉM


Paulo Pedroso ganha acção por prisão ilegal no processo da Casa Pia.


O meu primeiro blogue chamava-se Turing Machine e começou com um post que era sobre o "caso Paulo Pedroso". Foi publicado a 24/10/2003, aqui, e intitulava-se DREYFUS E MAIS ALÉM. Aqui vai ele de novo.


Robert O. Paxton publicou, na já longínqua edição de 27 de Fevereiro de 1986 da The New York Review of Books, uma recensão da edição em inglês de um livro de Jean-Denis Bredin sobre o famoso caso Dreyfus. Grande parte do que se segue são excertos desse comentário ao livro.

1. Um resumo dos factos: as falsificações existem. «Um dia em 1894 uma mulher-a-dias da embaixada alemã em Paris, que trabalha para a espionagem francesa, encontra no caixote do lixo do adido militar um papel indicando que um oficial francês está a passar segredos militares aos alemães. O capitão Alfred Dreyfus, único oficial judeu no Estado-maior francês, é injustamente acusado e oficiais superiores da espionagem fazem a acusação vingar forjando mais documentos. Adicionando ilegalidade à falsificação, mostram-nos secretamente ao tribunal militar, mas escondem-nos da defesa. Como o herói apodrece na Ilha do Diabo, apenas a sua esposa, o seu irmão, e alguns outsiders mantêm a crença na sua inocência. Os seus esforços para descobrir a verdade e persuadir outros da inocência do herói, passam-se em anos de voltas e reviravoltas. (...) Finalmente, após doze anos de luta, a justiça triunfa. O tribunal de recurso anula as duas condenações do tribunal militar.»

2. As conspirações são muito manhosas. «[O livro] está admiravelmente livre das teorias barrocas da conspiração que proliferam luxuriantemente em ambos os lados deste caso. Recusa supor que todos os mistérios devem ser solúveis por construção lógica. Está pronto a admitir que muitos detalhes continuam por esclarecer, mesmo após estudo aturado do dossier. (...)»

3. Liberdade individual e liberdades cívicas. «O autor teve inevitavelmente um interesse especial pelos dois advogados incompatíveis de Dreyfus. O velho e tradicionalista Edgar Demange quis arguir o caso em termos estritamente técnicos, limitar-se a suscitar uma dúvida salvadora, aplacar o exército, e aproveitar os compromissos propostos pelo governo. Colidiu com o jovem e flamejante Fernand Labori, que estava apaixonadamente empenhado em discutir o caso em termos de liberdades civis em sentido lato e em lutar pela vitória total. Dreyfus e sua família preferiram Demange. (...) Este homem austero e recatado, que queria apenas ser deixado só para viver a sua vida de patriotismo e dever, decepcionou os seus apoiantes mais militantes que desejavam uma cruzada. (...)» Mas, dizemos nós, o problema é que nem todos os exercícios de cidadania podem ser desempenhados de forma recatada - e a tentativa de assassinato cívico de um líder político não se trava na secretaria.

4. A justiça e a política não são como a água e o azeite. «O caso Dreyfus ocorreu num momento muito particular do desenvolvimento da política de massas (...). Demagogos através de toda a Europa experimentaram, nos anos 1880 e 1890, o anti-semitismo e o nacionalismo como a cola de um novo conservadorismo de massas. Tiveram sucesso considerável em separar uma parte da classe trabalhadora do socialismo. Mais de 39 por cento dos subscritores do "memorial a Henry," um fundo que o insolentemente anti-semita jornalista Edouard Drumont recolheu para apoiar a viúva do major Henry, o falsificador que estivera na origem do caso, após o seu suicídio, foram trabalhadores ou artesãos, que se juntaram com padres, oficiais e a pequena aristocracia rural para dar uns tostões e fazerem umas provocações.»

5. Convém não esquecer as lições da história. «[O autor] tem o equilíbrio para ver o caso de Dreyfus como mais do que um marco na história do anti-semitismo moderno. (...) A lealdade de grupo de um oficialato sitiado e a famosa justificação que Charles Maurras fez dos actos do major Henry como "falsificação patriótica", certamente a defesa mais seca da raison d'état alguma vez escrita, não tem uma conexão necessária com o anti-semitismo. Há perigos em todos os estados modernos (...).»


6. Do século XIX para o século XXI. Nesta nossa democracia, tantas vezes se toma quase como insulto ser "um homem de partido". Mas é isso que permite que, em determinado momentos, saibamos com que opções e biografias concretas contamos. Contrariamente a certos providenciais instantâneos, que de repente se apresentam com as credenciais da falta de passado partidário, nós sabemos de onde vêem certos homens e mulheres porque são "de partido" e porque os partidos servem também (embora sem exclusivo) para estruturar personalidades representativas com profundidade, que sejam "marcos" no terreno público e forneçam à comunidade referenciais devidamente identificados e escrutinados anos a fio.
Houve-se muito agora o slogan "os políticos são iguais aos outros". Ora, os políticos não são iguais aos outros. Os privilégios e responsabilidades acrescidas dos políticos devem ser proporcionadas às necessidades do bem comum. Mas nenhuma sociedade é suficientemente rica para se permitir destruir os seus recursos escassos. E os bons políticos são recursos escassos, em toda a parte. Os políticos bem preparados, experientes, honestos, escrutinados ao longo de anos - são recursos escassos e vitais. A democracia não pode dar-se ao luxo de os destruir levianamente e sem motivo, abusando da fragilidade imensa da credibilidade pessoal. Ignorá-lo, em nome de um igualitarismo puramente abstracto, a coberto da tentação de ser agradável ao maior número, é uma irresponsabilidade que não deveria cometer-se.
Pior ainda quando, na mesma maré, se esquece que a demagogia em nome das vítimas é criminosa. E se ela visar, conscientemente ou por mera leviandade, os mecanismos que no concreto viabilizam a democracia, essa demagogia precisa ser combatida, sem tergiversação e sem medo. Embora o populismo e a facilidade tenham a boca larga e estejam sempre prontos a engolir-nos - e possam mesmo ensaiar a tentativa de limitar o direito à opinião livre, por formas capciosas disfarçadas de moralismo de qualquer obediência.

Post Scriptum, de hoje 2 de Setembro de 2008: Aos que preferem os linchamentos, a pedido das suas mentes brilhantes, apenas digo: ide para o inferno, vós que sois os seus construtores.

uma velha falsa questão



(Clicar para aumentar. Imagem feita em http://wordle.net/.)

Paulo Portas demitiu-se...