05/10/16

o cientista Marco António Costa.



Marco António Costa veio afirmar que o estudo "Desigualdades de Rendimento e Pobreza em Portugal", coordenado por Carlos Farinha Rodrigues, seria um “inaceitável embuste”. A deputada Teresa Morais veio também atacar o estudo, dizendo que é enviesado. Devemos dar os parabéns a Marco António Costa e a Teresa Morais por terem recentemente desenvolvido novas competências científicas e de investigação, a ponto de se terem tornado pares científicos dos autores do estudo, capazes de o avaliarem seriamente?

Isso seria um notável avanço na qualificação da política. "Seria" - mas não me parece que seja. Afinal, esses políticos não usam, para fundar o que dizem sobre o estudo, as metodologias que usariam os que estudam propriamente. Nem por um minuto se detêm a pesar o facto de os autores usarem as metodologias correntes em instituições internacionais de referência (como a OCDE ou o Eurostat) quando estudam estes mesmos problemas.

O que querem é outra coisa. A cientista Teresa Morais, seguindo as pisadas do cientista Marco António Costa, quer que o editor aplique "um filtro"! A deputada do PSD avisa a Fundação Francisco Manuel dos Santos para que tenha cuidado e não publique estudos com conclusões inconvenientes... Apelo à censura? Caramba, onde esta gente chega.

Sim, porque não se trata, certamente, da qualidade científica do estudo. A qualidade científica não é medida pelos comentários dos deputados, mas sim pelo historial dos investigadores e pelo escrutínio dos pares, dos outros cientistas, de quem queira e possa trabalhar no mesmo plano e com métodos escrutináveis. A direita portuguesa mais oficial está a pegar na moda de escolher qual a investigação que interessa em função das suas opiniões. Qualquer dia estão a defender que o criacionismo é tão científico como a teoria da evolução.

Não devia surpreender. A Direita não é toda igual, e não quero com isto ofender a Direita decente. Mas a Direita que temos a mandar nos seus partidos (pelo menos no PSD, de quem falamos neste caso) é assim: despreza o conhecimento, despreza a investigação e só gosta de propaganda. Quando o saber pode ser usado para a propaganda, até podem fazer de conta que gostam. Mas, no fim de contas, não querem saber do conhecimento para nada e preferem a política dos chavões. E, é sabido, adoptam a seguinte linha: quem não tem vergonha, todo o mundo é seu.

A alguma direita custa a aceitar que os cientistas não são avaliáveis pela primeira ave que decide "opinar" sobre o seu trabalho: porque eles têm CV, percurso, estão inseridos em instituições, são avaliados por outros cientistas, se escreverem disparates serão penalizados por isso. Já era tempo de deixarem de confundir a lama que atiram com argumentos verdadeiros. E, já agoram, respeitarem a liberdade de investigação e o conhecimento como elemento essencial na compreensão pública do bem comum.


5 de Outubro de 2016 (Viva a República!)

1 comentário:

Jaime Santos disse...

Na melhor linha de 'the British people have had enough of experts' de Michael Gove. Para que é preciso fazer estudos se se dispõe daquele guia brilhante, a ideologia? Infelizmente, não é só essa Direita que utiliza o anti-intelectualismo na ação política, há uma certa Esquerda que pode ser acusada do mesmo (a sua filosofia política aliás providencia racionalizações que permitem despachar todas as ideias que a contradizem). Não que os cientistas sociais, em particular os Economistas, não estejam isentos de culpas, quando também tentam disfarçar a ideologia em verdade científica. Às vezes, é simplesmente melhor reconhecer-se a incerteza associada aos problemas em discussão. Mas, como disse o FT em relação às palavras de Gove, 'But can anybody tell me the last time a prevailing culture of anti-intellectualism has led to anything other than bigotry?'. E, se há exemplo político em Portugal de alguém que corporifica esse desprezo pelo trabalho de sapa, esse alguém é o inefável Marco António Costa...