17/10/10

portugal, a europa, a crise, alguns mitos, algumas realidades


Jean Quatremer publicou no Libération um artigo intitulado "Pourquoi l’Irlande n’a pas déclenché une nouvelle crise de la zone euro" (Por que a Irlanda não desencadeou uma nova crise da zona euro). Damos aqui tradução (livre) de uma parte desse texto.

Dublin, para salvar o seu sector bancário, anunciou a 30 de Setembro que o seu deficit público alcançará 32% do PIB no final de 2010, três vezes mais do que se esperava! No mesmo dia, a Espanha perdeu o seu triplo A e deu um novo aperto fiscal para reduzir o défice público (9,1% em 2010), como o seu vizinho Português (cujo défice é "apenas" 7,3% em 2010). Poucos dias depois, a Fitch Ratings e a Moody's baixaram mais uma vez a notação irlandesa... Uma avalanche de más notícias que, no entanto, não desencadeou uma nova crise da dívida soberana equivalente à que atravessou a zona do euro no primeiro semestre: a Irlanda e da Península Ibérica continuam a ter acesso aos mercados para financiar-se, embora a custos elevados, e o euro continua o seu regresso triunfal à sua valorização do início do ano (cerca de 1,40 dólares...). A zona do euro claramente já não mete medo aos investidores. A acalmia nas taxas de juro dos CDS sobre a Grécia, Portugal e a Irlanda fornece uma prova adicional (…). Por quê?
Existem várias explicações cumulativas. Primeiro, a zona do euro tem agora uma pistola carregada em jogo, o Fundo Europeu de Estabilização Financeira (EFSF em inglês), com a notação triplo A e que pode emprestar até 440 mil milhões de euros, com um adicional de 60 mil milhões de euros que a Comissão está autorizada a mobilizar com a garantia colectiva dos estados. O FMI compromete-se a contribuir com mais 220 mil milhões de euros se necessário. A estes montantes acrescem os 80.000 milhões disponibilizados para a Grécia (mais 30 mil milhões de euros de empréstimo do FMI) e os 50 mil milhões de euros do Fundo europeu de apoio à balança de pagamentos para os estados da União que não são membros da zona euro. Quer dizer, uma potência de fogo de 930 mil milhões de dólares. Por seu turno, o Banco Central Europeu (BCE) abandonou os seus preconceitos ideológicos, comprando desde 10 de Maio dívida pública dos países mais vulneráveis no mercado secundário (mercado de revenda dos títulos, já que o BCE não tem o direito de comprar a dívida directamente aos Estados).
Isto teve o duplo efeito de tranquilizar os mercados, que temiam que um Estado falhasse os seus pagamentos, e desencorajar os especuladores atraídos pelo cheiro a sangue. Se a União tivesse um instrumento desse tipo no final de 2009, a crise da dívida soberana simplesmente não teria acontecido, o que teria permitido aos estados continuar a pedir emprestado a taxas razoáveis nos mercados. Assim, esta crise mostrou aos mercados que o compromisso político dos Estados para com o euro é real, mesmo que tenham duvidado por um momento, especialmente por causa da atitude alemã. Eles entenderam que a solidariedade europeia existe. (...)
Finalmente, a Irlanda, Espanha e Portugal não estão na situação na Grécia. Nenhum destes países mentiu sobre o verdadeiro estado da sua economia, das contas públicas e dos seus bancos, o que é uma diferença importante: a confiança, elemento chave numa economia de mercado, está intacta. Além do mais, nenhum desses países tinha as suas contas públicas degradadas antes da crise, o que lhes dá uma margem de manobra que a Grécia não tinha. (...)
Dublin, como Madrid e Lisboa, não precisam que lhes torçam o braço, como Atenas que esperou até 2 de Maio para ceder face à União e ao FMI, para adoptar um plano de austeridade particularmente ambicioso (e consensual). É certo que a Irlanda tem um problema bancário – 50 mil milhões de euros! – mas, como afirmou Patrick Chauvet, "parece a alguns um custo fora do balanço"... A credibilidade da Irlanda nos mercados é forte: "é um país anglo-saxónico a falar para anglo-saxões”, ironiza Laurence Boone, economista-chefe do Barclays Capital.(...)

Versão integral, em francês, disponibilizada por Quatremer no seu blogue, aqui. A quem a língua francesa não assuste: vale a pena ler integralmente.

Sem comentários: