6.3.15

Passos e o truque da compaixão.

11:00


Ao "Sol" de hoje, PPC dá uma explicação sobre os processos que teve com o fisco: "Atrasei-me por distracção e por falta de dinheiro". Só li a capa e só me pronuncio sobre esta frase: "Atrasei-me por distracção e por falta de dinheiro".

A mesma pessoa que, no caso das contribuições para a Segurança Social, andou cinco anos em evasão contributiva, que disse que não sabia que tinha que pagar apesar de ter participado como deputado no debate da lei, que tinha decidido que pagava mais tarde como se tudo fosse de opção em matéria de obrigações, que só pagou quando percebeu que estava eminente a publicação de uma notícia - agora vem, na questão dos embates com o fisco, apelar ao coração dos portugueses: foi por falta de dinheiro.

Como sabe que muitos portugueses estão com falta de dinheiro, quer colar-se a eles, como se fosse um deles.

Apesar de, politicamente, não ter piedade nenhuma por essas pessoas que estão sem dinheiro. Ainda na semana passada a coligação chumbou no Parlamento uma proposta do PS para suspender a penhora de casas de família por pequenas dívidas ao Estado. Agora, com hipocrisia, quer fazer-se humilde como os que estão com falta de dinheiro.

De facto, problemas com o fisco muitos podem ter. E têm. Não há nada de especial nisso. Atrasos, enganos, que logo se corrigem. Acho, aliás, que a oposição política não deve vir a empolar aquilo que não se sabe acerca das relações de Passos com o fisco, que, pelo até agora publicado, não tem a gravidade do caso da evasão contributiva, essa verdadeiramente escandalosa no que revela do modus operandi daquela pessoa.
Agora, outra coisa é a opacidade: parece que o PM age como se tivesse alguma coisa a esconder, não compreendendo que isso fere a sua função de governante de modo perigoso para a democracia. É a história da mulher de César, que não preciso de vos lembrar. E, depois do episódio da evasão contributiva, foi PPC quem deu ao país razões para desconfiar dele.

Entretanto, dos lados de Belém vem um silêncio tumular. Que me vou dispensar de comentar.

5.3.15

Um Contrato com Deus.



O Público faz hoje anos. 25 anos. Parabéns. Com fases boas e com fases más, desde que apareceu que o Público é o jornal que eu leio. Parabéns, repito, e continuem.
Mas, claro, como sou um chato, não venho só dar os parabéns. Deixo dois apontamentos de amigo.
Primeiro, é um apontamento crítico. A edição de hoje é magnífica. E é gratuita. Que bom, gratuita. Sim, mas faz parte das armadilhas da vida. Comprado, o jornal arranja-se sempre. Gratuito, em muitos postos de venda é preciso reservar para não ficar sem ele - logo no dia de hoje. Em prejuízo dos que normalmente compram. Eu percebo o método, mas é uma armadilha para os amigos de todos os dias. É como a história da edição digital: quem compra em papel não tem nenhuma vantagem no acesso à edição digital (contrariamente a outros exemplos que andam por aí). É preciso estimar os amigos!
Segundo apontamento, um elogio. O Público é sempre mais do que o Público. Agora está a sair uma colecção de novela gráfica. Já vai hoje no segundo de doze volumes. Não é novidade, mas em geral este esquema para vender mais é aproveitado pelo Público para fazer melhor. Gosto. Sou apreciador de Banda Desenhada (como sabem os que me conhecem) e esta colecção começou com uma obra magnífica: "Um Contrato com Deus", de Will Eisner. Leiam esta novela gráfica, uma forma intelectualemnte sofisticada de combinar desenho com palavras, e compreenderão completamente por que dizemos que BD é cultura. E, em concreto, este "Um Contrato com Deus", talvez o primeiro clássico do "género" novela gráfica, oferece uma extraordinária oportunidade de reflexão sobre a capacidade que temos para distorcer o que poderia ser importante no mundo.