25/03/15

A máquina da morte (e Herberto Helder).



O Deep Blue não ganhou ao Kasparov. A morte não ganhou ao Herberto Helder. Muito depois da morte morrer ainda escutaremos Herberto Helder.
Kasparov sentiu o sabor da derrota sentado em frente a um computador programado para resolver problemas na linguagem do xadrez. A derrota era uma saliva na sua própria boca. Só isso (e não é pouco). Se algum humano não tivesse dado um nome àquele computador e àquele programa, Deep Blue, Deep Blue II mais precisamente, o campeão não esfregaria os olhos de espanto e incompreensão perante o seu fracasso. Porque nenhum humano entra em vitórias ou derrotas sem palavras que se pendurem nas suas horas. Porque nenhum humano é sem palavras, sejam ditas ou esperem caladas.
Vieram dizer-me que Herberto Helder não compareceu ao seu próprio enterramento, tendo enviado as cinzas por mão própria de pessoa amiga. Herberto Helder não perdeu a mão de conhecer a intimidade da máquina do mundo. Nem mesmo quando o programa cego da morte descobriu uma entrada. Por ser certo que só morre de espectáculo quem tenha de espectáculo vivido. E não há, para isso, palavras que de Herberto Helder possam ser ditas.


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