11/07/15

A Grécia, depois do referendo.




Ainda não sei se vai haver acordo. Ainda não analisei extensivamente a comparação do velho acordo falhado com o acordo que se prepara. Mas já vejo voltar um coro de simplismos que me estranha.

O tom agora é "afinal, aceitaram a austeridade".

A direita diz "afinal, aceitaram a austeridade" querendo dizer: "não serviu para nada terem resistido, sempre têm de engolir tudo".
Alguma esquerda diz "afinal, aceitaram a austeridade" querendo dizer "traíram, renegaram".

Caramba, por uma vez a senhora Merkel tem razão, quando diz que um plano de reformas para libertar uma tranche de cerca de 7 mil milhões de euros de um empréstimo antigo NÃO pode ser o mesmo que um plano de reformas para uma nova ajuda multilateral de mais de 70 mil milhões de euros. Comparar os dois planos de reformas, como se falássemos da mesma coisa, é falacioso. Merece, da parte dos gregos, ceder em algumas coisas para ganhar mais tempo e não estarem todos os dias a ter de renegociar tudo e mais alguma coisa. Perceber isto pede que se perceba a armadilha em que estaremos a cair se dissermos "afinal o referendo grego não serviu para nada".

Contudo, o que agora está a acontecer assinala algo muito importante: a relevância do referendo grego esteve menos no resultado e mais no próprio facto de se ter realizado. Tanto o Sim como o Não poderiam ter sido interpretados de várias maneiras quanto ao caminho a seguir, mas, só o facto de se ter realizado, colocou o povo grego no centro do debate: todos assumiram que não era problema do governo, mas problema do país, problema de todos. E isso, em democracia, é essencial. Se a Europa não assumir que a democracia precisa ser aprofundada, isto ainda pode acabar mal. E não só para os gregos.

Isto quer dizer que os gregos conseguiram o que idealizavam? Não. E tenho feito algumas críticas ao modus operandi do governo grego, que acabou por justificar, aos olhos da opinião pública, algumas diatribes das instituições europeias, que podiam ter sido entaladas por mais alguma precaução grega. Como já disse outras vezes, mesmo quando um país tem razão, ninguém pode querer vencer sozinho contra todos numa Europa multifacetada. Sendo isto verdade, os gregos disseram algo muito importante à Europa: os devedores não são escravos, continuam a ser povos de uma Europa que deve ser de povos iguais em direitos e em deveres. É preciso voltar a uma Europa de cooperação e virar a página de uma Europa baseada nas categorias credor/devedor - porque não é isso que está nos tratados.

Também na Europa se aplica o problema do "arco da governação". Tal como em Portugal alguns acham que só alguns partidos podem governar (à esquerda do PS, segundo esses, só se pode fazer oposição), também na Europa alguns acham que os governos só podem vir das famílias políticas tradicionais. O problema do actual governo grego passa, em parte, por aí: muitos o viram como um corpo estranho que tinha de ser "extirpado", para evitar "contágios". Ora, essa visão é profundamente antidemocrática. E, de todo este processo, devemos aprender pelo menos isto: sem democracia, a Europa definha e morre.

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