26/02/14

democracia directa feita à maneira.


«Vamos eleger o Governo por democracia directa, como em Esparta» - declara ao Público um dos "operacionais" da revolta ucraniana (o Público chama-lhe «o líder "de facto" da revolução ucraniana», mostrando como estão baratas as palavras hoje em dia).

O tal Sergei Parubi dita o esquema básico:
«Quem quiser pode lançar nomes, de pessoas que conheça, personalidades prestigiadas e sem ligações à política, como reitores de universidades. A cada nome, o povo vai votar de braço no ar, ou aplaudir e gritar. Os nomes que obtiverem mais gritos serão os eleitos.»

Isto passa-se na Praça Maidan.

A coisa começa entre confrades, como explica o Público:
«Da parte da manhã, reunir-se-ão as 40 unidades de autodefesa, os chamados Sotnia, que incluem todos os participantes nos combates. São, segundo Parubi, cerca de 5 mil pessoas, organizadas por especialidades, desde comunicação e design até acção militar directa ou patrulha de ruas. Alguns Sotnia foram agrupados por afinidades ideológicas, como é o caso dos extremistas de direita Sector Direito. Outros por características de estilo e tradição, como os Cossacos.»

Entretanto, coisa estranha para uma "democracia" tão directa, afinal há níveis de decisão:
«As ideias destas reuniões serão levadas depois, às duas horas da tarde, à reunião do Conselho de Maidan, que inclui, além dos representantes dos Sotnia, personalidades relevantes da sociedade civil. É aí que serão criadas as propostas que depois, às sete horas, serão levadas ao palco, onde os presentes poderão ainda propor outros nomes.»
Há uns pormenores que escapam. Por exemplo, quem define o que são " personalidades relevantes da sociedade civil"?

Entretanto, sabe-se lá por quê numa "democracia directa", o Parlamento (pré-"revolução") entre em jogo: «Só depois de o Governo ter sido aprovado no palco da Maidan, será levado ao Parlamento para aprovação.»

Mas tudo tem uma explicação (?!?!): «A hipótese de a câmara dos deputados reprovar a lista dos novos ministros não se coloca. Neste momento, o Parlamento obedece cegamente à Maidan, seja, como sugere Parubi, porque está em sintonia com os seus ideais, seja por puro medo.»

Ora bolas, então a "democracia directa" incorpora um mecanismo bem conhecido: o medo. Não duvido de que assim seja. É bem conhecido esse ingrediente de certas formas de "democracia". Eo medo não cai do céu, é produzido: «O edifício do Parlamento está cercado pelas unidades de autodefesa da Somooborona, designadamente as mais radicais, a quem são distribuídas as missões mais difíceis, que exigem bons armamento e treino militar.» Isto ajuda a compreender o espírito da "democracia directa".

Claro, isto pode simplesmente transformar-se numa palhaçada. Diz o tal "líder de facto" (já começámos a compreender o que isso significa): «É impossível prever, ou imaginar. É uma experiência que nunca se fez. E, claro, comporta muitos riscos. Pode acontecer que às sete horas 30 mil pessoas estarão aqui aclamando um governo, e, horas depois, outras 30 mil virão aqui derrubá-lo.» 30 mil de cada vez? Mas quantos milhões tem a Ucrânia? Ora, lá está outro ingrediente destas "democracias".

Quase a terminar, o texto do Público reza assim: «Às 19 horas, 17h em Portugal, o palco vai formar um Governo.» É isso mesmo.

Pronto, meus caros defensores da "democracia directa": quando se entusiasmarem, pensem nestes exemplos concretos que o refrão pode tomar.




1 comentário:

Jaime Santos disse...

Eu diria que o primeiro exemplo concreto dos perigos de uma 'democracia direta' pode provavelmente ser encontrado aqui: http://en.wikipedia.org/wiki/Battle_of_Arginusae. E note-se que os generais foram condenados à morte de forma inconstitucional (porque os Gregos tinham leis, contrariamente a estes senhores na Ucrânia), mas a votação da sua condenação e execução foi avante porque a oposição à mesma foi calada pelo medo de que a pena capital fosse igualmente aplicada a quem se opusesse à dita votação... Infelizmente, não há uma página portuguesa sobre isto... Arriscando o lugar comum, eu diria que aquela citação de Santayana sobre aqueles que esquecem o passado estarem condenados a repeti-lo, é mesmo muito apropriada aqui...