21.1.22

Convém ler o programa de Rui Rio para a educação

12:05

 

 

Deixo aqui uma análise ao programa do PSD / Rui Rio para a Educação. Para que não se possa dizer que não foram avisados... porque é importante a tarefa de "destapar" o programa oculto da direita que se apresenta a estas eleições.

 
Porfírio Silva, 21 de Janeiro de 2022
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Educação e naftalina no programa do PSD

11:44
 
 
 
 
 
 
Deixo aqui, para registo, o artigo que quatro "Socialistas na Educação" (César Israel Paulo, João Couvaneiro, Porfírio Silva e Tiago Estêvão Martins) publicámos ontem no Observador, sobre o programa do PSD / Rui Rio para a Educação.
 
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Apostando num regresso ao passado, Rui Rio apresenta-se a votos com um programa anacrónico para a educação, marcado por todos os ingredientes que fizeram do consulado de Nuno Crato um período de muito má memória.
 
Mais do que desconhecimento sobre a atual realidade do sistema educativo, o PSD demonstra uma total ausência de visão e ambição para a Escola Pública. Se dúvidas houvesse, bastaria resgatar uma passagem que, distorce a realidade e tendenciosamente afirma que em “comparação com o sector privado, as escolas públicas têm vindo a perder reconhecimento”. Tal linha argumentativa denuncia uma agenda de reforço do sector privado e a reabertura da caixa de Pandora dos contratos associação que, durante anos, sangraram a Escola Pública, desperdiçando recursos e diminuindo a sua capacidade de resposta.
 
Para além dos chavões do pretenso aumento da exigência, no programa do PSD sobra muito pouco. Com efeito, sobra quase só o retrocesso a um modelo educativo ultrapassado e abandonado em todos os países desenvolvidos.

 

Rio vem advogar como novidade a adoção de uma “flexibilidade pedagógica”, que está longe de ser uma proposta inovadora. Aliás, a sua existência foi consagrada pela Lei de Bases do Sistema Educativo, em vigor desde o ano de 1986, sendo uma das premissas da educação em Portugal.

 

O referido programa anuncia o fim das turmas mistas, situação que se encontra em contradição com a autonomia pedagógica que advoga. Nesse quadro, parece esquecer experiências que tiram bom proveito da heterogeneidade dos grupos. Acresce que não diz como é que é possível erradicar essas turmas, qual o orçamento necessário para o efeito e se para tal existem recursos humanos disponíveis.

 

Na amálgama das propostas surge também a indicação de que farão depender a abertura de novas ofertas formativas de um estudo de viabilidade apresentado pelas escolas ao Ministério da Educação. Mas esse é já hoje o procedimento adotado.

 

A proposta com que Rui Rio se apresenta às eleições insiste num “currículo centrado no conhecimento”, que gostaria de ver proscrito o desenvolvimento de competências, a mobilização do saber fazer e a aplicação prática das aprendizagens. Reitera-se com essa proposta o pior da política educativa de Passos Coelho.

 

Esquecendo que são as escolas em que os alunos obtêm piores resultados aquelas que necessitam de maior atenção, o PSD propõe atribuir mais recursos humanos (sob a forma de crédito horário) aos estabelecimentos em que se verifique uma progressão dos resultados escolares. Para trás ficarão aqueles que necessitam que a escola continue a ser um elevador social, que lhes permita vencer o cerco da pobreza e que, nessa medida, se verão privados de recursos essenciais.

 

Entre as ideias peregrinas que apresenta, surge a de se criarem três academias para a formação de dirigentes escolares. Neste contexto, Rio e a sua equipa ignoram o papel dos estabelecimentos de ensino superior, universitário e politécnico, espalhados pelo país, que têm, com sucesso, formado os docentes para os processos de gestão e administração escolar. Querem também atribuir ao Ministério da Educação a responsabilidade de conferir a formação profissional aos docentes, ignorando que são as universidades e os politécnicos que têm a experiência, o conhecimento, a investigação e os recursos para esse efeito.

 

Mais grave é o facto de quererem colocar em causa a Autonomia e Flexibilidade Curricular, não percebendo que esta não corresponde a um currículo feito “à vontade do freguês”, em que cada qual “dá o que quer”. Mas que, ao invés, pretende conferir sentido a um conjunto de aprendizagens essenciais, iguais para todos, organizadas e adequadas a cada grupo e a cada território, estabelecendo relações de sentido com os conhecimentos dos alunos, os seus contextos e oportunidades de aprendizagem.

 

O ensino profissional é também apoucado nas propostas do PSD. Com efeito, denunciam algum mal-estar com a dimensão de dupla certificação, que existe no nosso sistema. Em Portugal, estas ofertas formativas não são becos sem saída, mas permitem aos alunos ingressarem no mercado de trabalho ou num curso superior. O modelo defendido por Rio assume que o Ensino Profissional é só para “ensinar uma profissão”.

 

Desconhecendo que existe no país um sistema de antecipação das necessidades de qualificação, o programa do PSD vem pomposamente propor que se listem as qualificações entendidas como prioritárias. Também ignora que os setores empregadores são ouvidos para a definição de novos referenciais de formação, medida que vem agora sugerir com o entusiasmo de quem julga estar a inventar a pólvora.

 

Este documento propõe ainda acabar com as provas de aferição do 2º e 5º anos de escolaridade, que servem, dada a sua disposição nestes períodos intermédios, para detetar atempadamente problemas e promover estratégias de melhoria. Rio quer recuperar as provas finais no 4º e no 6º ano, que Nuno Crato foi buscar a um ultrapassado pensamento pedagógico, numa perspetiva que transforma estes momentos de avaliação num fim em si mesmo, ao serviço da rotulação precoce das crianças e jovens.

 

O atual programa do PSD prevê ainda “desenvolver uma educação estética, transversal ao curriculum escolar”. Também aqui, parece desconhecer a relevância e a profundidade do trabalho que hoje é levado a cabo por todo o território nacional pelo Plano Nacional das Artes, pelo Plano Nacional de Cinema e pelo Programa de Educação Estética e Artística. Com iniciativas e estruturas que promovem, nas escolas, a realização de projetos de natureza transdisciplinar, que desenvolvem aprendizagens mais integradas, significativas e duradouras.

 

O programa de Rio para a Educação é também uma amalgama de contradições, de desconfianças e de ocultação de resultados. Criticando, por um lado, o aumento do número dos profissionais docentes disponíveis e a despesa global com a Educação (como se esta não fosse um relevante investimento para o Futuro do país), por outro, apresenta a escrutínio um conjunto de medidas vagas, sem qualquer indicação de impacto. Trata-se, pois, de um documento que oculta resultados que nos devem, hoje, orgulhar, como são os casos da evolução do abandono escolar precoce, da melhoria das taxas de aprovação dos alunos ou da melhoria das conclusões do ensino secundário.

 

Em suma, o programa do PSD revela, na sua globalidade, um absurdo desconhecimento sobre o atual sistema educativo português e sobre as premissas essenciais de uma educação do século XXI. Apresenta um arrazoado de desconexas generalidades e de ideias com resultados duvidosos, alicerçadas em narrativas ultrapassadas, lembrando um já velhíssimo Crato, ensopado em naftalina.

 

César Israel Paulo, João Couvaneiro, Porfírio Silva e Tiago Estêvão Martins

 
 
Porfírio Silva, 21 de Janeiro de 2022
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4.1.22

Pacto Social para a Educação: Educação de Qualidade para Todos

12:32
 
 
Face ao que foi possível construir na escola pública nos últimos seis anos, e também face ao risco que representam as desigualdades agravadas pela pandemia, o país precisa de uma garantia de continuidade e estabilidade nas políticas públicas de educação, respondendo às novas necessidades e dando o melhor aproveitamento aos novos recursos.
 
Para isso, o PS propõe-se desafiar o país para a construção partilhada de um Pacto Social para a Educação: Uma Educação de Qualidade para Todos, para tal mobilizando os profissionais, os pais e encarregados de educação, os estudantes, os parceiros sociais e as forças políticas, a academia, as comunidades locais e todos os que aceitem o desígnio de continuar a promover uma educação de qualidade para todos, procurando convergências e soluções estáveis que permitam avançar avaliando, respondendo aos novos desafios que se colocam aos sistemas educativos de todo o mundo e às necessidades mais prementes para Portugal.
 
Esta construção de convergências será potenciada pela identificação de fatores estratégicos, com os quais nos comprometemos, tais como a Boa Governação na Educação, o trabalho com e para os Profissionais da Educação, a luta pelo Combate às Desigualdades através da Educação, a contínua Melhoria das Aprendizagens e a Participação dos Alunos no processo educativo.
 
(No vídeo, excerto da minha intervenção, ontem, na apresentação das linhas gerais do programa eleitoral do Partido Socialista para as Legislativas 2022.)
 
Porfírio Silva, 4 de Janeiro de 2022
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22.12.21

O facilitismo de Rui Rio

10:00
Deixo aqui, para registo, o artigo que publiquei ontem, no Observador, sobre as declarações de Rui Rio no Congresso do PSD, no que toca à Educação.
 
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O governo do PS reduziu o abandono escolar precoce de 13,7% em 2015 (uma marca muito pior do que a média europeia) para 8,9% em 2020 (mais do que superando as metas fixadas na UE). E no 3º trimestre deste ano já estava em 5,2%. Neste período, a taxa de pré-escolarização subiu de 91% para 97%. As taxas de retenção e desistência reduziram mais de 70% no ensino básico. As conclusões do ensino secundário em 3 anos (sem retenções) aumentaram 14%. E são resultados como estes que fazem com que tenhamos hoje o maior número de alunos de sempre a frequentar o ensino superior.
 
Isto são factos, não são opiniões. Quando Rui Rio acusa o PS de facilitismo na educação, o candidato do PSD não liga a factos. Tem opiniões: as mesmas opiniões de Nuno Crato, o ministro da educação de Passos Coelho que queria implodir o Ministério da Educação, que cortou à escola pública para cima de um milhão e duzentos mil euros a mais do que estava previsto no Memorando de Entendimento (“ir além da troika”, mas não no ensino privado, que foi poupado aos cortes previstos no programa da troika), que tirou da escola pública dezenas de milhares de professores porque achava que estavam a mais, que tirava turmas de uma escola pública para as colocar numa escola privada do outro lado da rua.   

 

Rui Rio diz que é facilitismo termos acabado com aqueles exames que Nuno Crato queria em Portugal, embora não existam em praticamente nenhum país civilizado do mundo. Rui Rio queria que o currículo fosse impossível de cumprir, exceto para aqueles que pudessem duplicar a escola em explicações pagas por fora, à custa das famílias, em vez de trabalhar para que todos aprendam o que é mesmo preciso aprender para continuar a aprender com sucesso.

 

Entretanto, o cúmulo da hipocrisia é Rui Rio falar de falta de professores. Ainda em Julho de 2019, Rui Rio, no quadro da teoria geral da necessidade de eliminar desperdícios na Administração Pública, dizia que havia professores a mais. Rui Rio apelava a medidas de gestão – só se fosse gestão ruinosa… Quando, ainda na legislatura anterior, o PS propôs no parlamento que se pedisse um estudo ao Conselho Nacional de Educação sobre recrutamento de professores, porque era preciso estudar para resolver, o PSD o que fez? Absteve-se. Olhou para o lado. O PSD alheia-se dos problemas quando é tempo de planear a sua resolução, para depois dizer tudo e o seu contrário. Isto, sim, é que, no mínimo, é facilitismo. Mas talvez seja mesmo irresponsabilidade.

 

Rui Rio é a prova viva de que estar contra não chega para saber o que fazer. A recorrente tentativa de apoucar a escola pública e instilar soluções que favoreçam a escola privada é particularmente grave neste tempo: este PSD não percebeu até que ponto a pandemia demonstrou como a escola pública é essencial para os portugueses. A escola pública fez, e faz, o que mais ninguém quer ou pode fazer. Se Rui Rio não fosse facilitista, e olhasse para os factos, entenderia isto. Mas optou por ser uma cópia requentada de Nuno Crato: ideologia pura, da retrógrada.

 
Porfírio Silva, 22 de Dezembro de 2021
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