3.4.21

LIFE, Páscoa com Ryuichi Sakamoto


 
 
Para esta Páscoa, podíamos voltar a ouvir A Paixão segundo São Mateus, de Bach. Contudo, numa abordagem mais agnóstica, mas suficientemente pós-materialista, podemos sugerir a ópera LIFE, do japonês Ryuichi Sakamoto, estreada em 1999.
 
LIFE é um olhar global sobre os nossos caminhos no universo, através das palavras de outros - palavras que deixaram marcas na humanidade em momentos importantes de encruzilhada, palavras de guerra, palavras de libertação, palavras poéticas - e um olhar sobre alguns becos sem saída, algumas desgraças auto-infligidas. Sakamoto dizia, há alguns anos, que não tem religião nenhuma, embora se interesse por religiões. Sakamoto vê o planeta como uma espécie de ser vivo global, o que não é precisamente original. Sakamoto é um activista anti-nuclear, o que é compreensível num japonês, mesmo que ele não seja um japonês caseiro. Sakamoto constrói a sua obra com as obras de outros, muitos desses outros sendo ocidentais, recusando fechar-se num só canto do mundo.

LIFE é uma experiência difícil de reproduzir, porque é, no fundo, uma ópera em vídeo, não fazendo muito sentido ouvir sem ver o que ela contém. Ou, antes, fazer sentido faz, mas é outro sentido. LIFE é uma obra que faz tudo para não se exibir. Tenho, vinda do Japão, a caixa de materiais que deve fazer-nos sentir um pouco da experiência. Contém as gravações das performances de Tóquio e de Osaka, tem um álbum com todos os textos usados na ópera, incluindo as transcrições das palavras de Churchil ou de Oppenheimer, e dos outros, tem a partitura, tem o planeamento de todos os sons e imagens que são mobilizadas segundo a segundo, tem uma entrevista com o compositor, tem materiais imagéticos sobre o processo de criação... mas tudo o que é de ler é, as mais das vezes, difícil de acompanhar. Papel imaculadamente branco, letras muitas vezes difíceis de seguir (ou porque são pequenas, ou porque têm uma estranha organização), uma ligação entre diferentes partes que exige uma enorme atenção e procura de caminhos. Ninguém é obrigado a entrar: entrando, que assuma o desafio.

Nada em LIFE se submete ao consumismo reinante. Nada é para ser fácil. Em geral, tudo o que está disponível são fragmentos de uma experiência, aquela experiência que foram as apresentações ao vivo desta ópera, provavelmente impossíveis de reproduzir. Quem quer participar tem de se esforçar.

Mesmo assim, num assomo de espírito pascal, assumi que posso dar folar a pessoas de quem não sou padrinho e deixo-vos as poucas ajudas que se podem dar a quem quer ter uma noção do que é esta obra especial: partes relevantes, em vídeo, da LIFE. Creio que vale a pena fruir e deixar-se questionar pelas interrogações transportadas.

A numeração dos excertos apresentados deixa entrever que são, apenas, partes do conjunto completo.

Aviso: pode acontecer que tenham de sair deste blogue e ir para o youtube para ver alguns dos vídeos.
 
 
 
 1-1 War and Revolution
 
  
 
1-2 Science and Technology
 
  
 
 
 
 3-1 Art
 
   
 
 3-3 Light
 
   
 
 
 
 Porfírio Silva, 3 de Abril de 2021
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1.4.21

Educação, pandemia, democracia

11:05

Publico aqui, para registo, a minha intervenção, ontem, no Parlamento, sobre políticas públicas de educação. 

***

 
Senhor Presidente, Senhoras e Senhores Deputados,

Sobre o conjunto de propostas importantes que temos aqui hoje em matéria educativa, não vou poder pronunciar-me sobre todas, mas queria mencionar três pontos importantes.


Em primeiro lugar, queria começar por referir-me à proposta do PCP sobre os apoios aos estudantes no contexto da ação social escolar.

A A.S.E. tem respondido de forma robusta às consequências da pandemia. As escolas têm continuado a ser centros de resposta aos desafios sociais provocados pela situação que vivemos há cerca de um ano, sempre que necessário com critérios alargados. 

É verdade que a proposta contém alguns elementos que precisariam de esclarecimento, como seja a comparticipação para visitas de estudo num tempo em que não há visitas de estudo.

De qualquer modo, reconhecemos que o apoio social aos estudantes é uma matéria relevante, que precisamos monitorizar constantemente, o que o governo tem feito, reforçando a A.S.E., a sua missão e os meios de que dispõe. É preciso ter presente, por exemplo, além daquilo que o meu colega Deputado Tiago Estêvão Martins já hoje aqui referiu só na semana que estamos a terminar, é preciso lembrar, por exemplo, que o programa dos manuais escolares gratuitos, um fortíssimo investimento público em educação, aliviou as famílias daquela que, para muitas, era a maior fatia dos encargos com a educação dos seus filhos.

Quero, no entanto, ser muito claro num ponto fulcral, do ponto de vista legislativo, acerca da proposta do PCP. É, claramente, uma antecipação do próximo Orçamento de Estado, na medida em que pretende produzir efeitos com a entrada em aplicação do OE subsequente, como aí se diz, o que tem uma vantagem: é mostrar que haja alguém que entende que a Constituição é para respeitar, nomeadamente no que toca à lei-travão, e que as decisões com impacto orçamental são para ser tomadas no momento correto para elas serem tomadas.

Contudo, no último ponto dessa proposta, deixa-nos uma perplexidade, na medida em que parece dizer que o governo tentará aplicar a lei antes do prazo em que a própria lei estabelece que ela será aplicada e que essa mesma lei produzirá efeitos.

Seria, assim, uma lei a meio gás, uma lei lusco-fusco, uma lei na forma tentada: não está a produzir efeitos, mas cabe ao governo fazer com que produza efeitos. Parece que esta abordagem deveria ser servida, na melhor das hipóteses, por uma recomendação e não por uma lei, evitando, até, lançar incerteza jurídica sobre pessoas que estão no terreno a fazer um trabalho onde já há suficiente incerteza provocada pela pandemia para não acrescentarmos incerteza jurídica.

Há, também, várias propostas sobre exames, matéria onde tradicionalmente encontramos no espectro político um leque muito variado de posições, desde os que defendem os exames como o alfa e o ómega da educação, até aos que rejeitam qualquer forma de avaliação externa. Para nós, tanto a avaliação interna como a avaliação externa têm o seu papel e devem ser equilibradas ao serviço das aprendizagens.

Por isso, apoiamos a posição equilibrada definida pelo governo: em mais este ano de pandemia, é suspensa a realização das provas de aferição, é suspensa a realização das provas de 9º ano e só se realizam os exames nacionais que funcionam como provas de acesso ao ensino superior.

Procura-se, assim, conciliar vários valores.

Primeiro, por razões de saúde pública, é preciso limitar o número de provas a realizar presencialmente, e é preciso definir isso antecipadamente, porque a pandemia já demonstrou que não podemos ter certezas acerca do que se vai passar daqui a alguns meses e temos de tomar decisões prudentes, que permitam às pessoas precaver-se e planear.

Segundo, é prudente não fazer modificações profundas e definitivas no sistema educativo a meio de uma pandemia. Tal como nos parece que não devemos fazer experiências com a vida das pessoas – o que estaríamos a fazer variando as regras de um ano para o outro no decurso da mesma pandemia.

E, terceiro, não podemos afunilar a vida dos alunos só no crivo dos exames.

Sabemos hoje, não só por observação direta, mas também pelos estudos que, entretanto, se fizeram, designadamente o diagnóstico promovido pelo Ministério da Educação desde o ano passado e que foi apresentado publicamente pela primeira vez esta semana, que há perdas relevantes provocadas por esta situação atual no desenvolvimento dos alunos. Mas não são só perdas escolares no sentido estrito. São perdas emocionais, perdas relacionais, perdas de socialização, perdas ao nível dos equilíbrios de inserção social e familiar. Nesta situação, seria absolutamente desajustado afunilarmos a resposta educativa nos exames, desatendendo outras dimensões essenciais.

Daí a opção por suspender as principais provas externas, só se mantendo as provas de acesso ao ensino superior e os seus resultados só contando para esse efeito. O secundário é concluído com as avaliações internas. Ora, qualquer desvio deste modelo seria discriminatório contra alguns alunos, a menos que se realizem todos os exames terminais de secundário, como em ano normal, o que manifestamente não é o caso em tempo de pandemia.

Aliás, o ano transato mostrou que esta solução era equilibrada e que, na realidade, não atrapalhou o acesso ao ensino superior, apesar dos compreensíveis receios que alguns expressaram nessa altura, mas receios que não se concretizaram.

Finalmente, sobre a redução do número de alunos por turma, cabe lembrar que está em curso desde a legislatura anterior, um compromisso que o governo do PS assumiu e tem honrado com pontualidade.

Essa redução, que representará em 2021/2022 um investimento da ordem dos 83 milhões de euros (são mais ou menos 3.000 horários docentes a mais), está a ser implementada de forma progressiva e incremental – e é assim que achamos que deve ser feita, como previmos desde o início, como aprovámos aqui, um programa de redução progressivo e incremental; quando o concluirmos, vamos avaliá-lo e vamos ver se é preciso fazer mais.

Agora, o que não podemos é cair na tentação de que é possível, do ponto de vista físico, resolver os problemas de distanciamento durante a pandemia com uma redução universal do número de alunos por turma além do que está a ser feito.



Porfírio Silva, 1 de Abril de 2021