29.9.16

Educação e os que abusam dos "consensos" como mera conversa

19:58

Convergências em Educação são importantes, porque isso permitirá aumentar a estabilidade e a previsibilidade. Temos insistido nessa necessidade.
Mas o CDS enche a boca de consensos e o que faz? Quer decisões políticas sobre a Lei de Bases do Sistema Educativo do pé para a mão: no agendamento potestativo de uma proposta que ainda nem apresentou mas que leva ao plenário já na próxima quinta-feira. Rever à pressa a Lei de Bases?
Foi isto que me levou a fazer esta pergunta sobre Educação no debate parlamentar desta tarde.



29 de Setembro de 2016

28.9.16

o IMI dos partidos.

11:14


Não vou, de momento, apreciar esta ou aquela proposta concreta sobre o IMI que devem pagar os partidos.
Mas parece-me claro que há, a propósito do IMI, um debate inquinado a ganhar corpo.
Por quê?
Porque o pior da política é a tentativa de ir na onda da destruição das instituições que trabalham na causa pública.
Podemos criticar os partidos, os sindicatos, os parlamentos, os executivos, as confederações patronais ou de pais, os ambientalistas e mais alguma coisa. Temos o direito, e talvez mesmo o dever, de lhes aplicar cada vez mais rigorosos critérios de avaliação da qualidade do seu trabalho e da relevância do seu contributo para o bem comum. Mas não faz sentido pretender tratar instituições que fazem parte do necessário equipamento do funcionamento da República como se elas fossem como qualquer particular ou como qualquer empresa. Dizer que é uma questão de justiça que obedeçam às mesmas regras que qualquer cidadão ou empresa, pode ir na onda do ar do tempo - mas é pura demagogia. Não, não é pura demagogia: é demagogia a servir um propósito político mais vasto: enfraquecer as estruturas da coisa pública, tratando-as como particulares ou negócios em competição, para que os interesses privados tenham menos contraponto na força das estruturas do colectivo. Infelizmente, essa desvalorização das estruturas dos colectivos também aparece em discursos que se pretendem democráticos ou até de esquerda. Só que, quando chegar o dia da esquerda cavalgar as teses do populismo da direita, teremos razões acrescidas para nos preocuparmos.
Um jornal noticia que a sede dos centristas não paga IMI por ser da Igreja e que o partido paga mil euros por mês pelo palacete do Caldas. E que os comunistas teriam muito a pagar se se estendesse o IMI aos partidos. Assim sem ir verificar os dados, pergunto: qualquer partido terá direito a uma rendinha barata, ainda por cima a coberto dos privilégios de uma confissão religiosa interpretados de forma abrangente? E pergunto ainda, neste caso sobre o PCP: já esqueceram, por exemplo, que a quinta onde fazem a Festa do Avante foi comprada depois de entidades públicas terem, por manifesta intenção de prejudicar os comunistas, tentado empurrar esse evento anual para fora dos espaços públicos?
Bem sei que é mais cómodo passarmos ao lado destes assuntos, porque qualquer um, mesmo que não seja capaz de compreender como se joga o jogo do galo, julga ser perito em dizer mal dos partidos e dos políticos. Mas não me acomodo: o ataque aos partidos é um ataque aos poderes públicos em democracia e uma maneira de fortalecer relativamente o poder dos privados e dos que não prestam contas a ninguém em relação ao bem comum. E a demagogia que visa, de forma oportunista, favorecer alguns partidos e prejudicar outros sob o manto da "justiça", é uma iniquidade.

28 de Setembro de 2016

27.9.16

Geringonça à portuguesa, (não) Geringonça à espanhola: por quê?

10:50



Agora que toda a gente anda a investigar a pré-história da Geringonça (em exercícios sem dúvida interessantes, mas em alguns casos revelando uma táctica memória selectiva, não sei se das fontes se dos investigadores), vale a pena fazer um paralelo com Espanha, o PSOE e a repetição sucessiva de eleições sem saída evidente. E a pergunta pode ser: o que falta lá que tenha havido cá?

Bom, vários elementos de resposta podem ser legitimamente apontados. A profundidade estratégica e política de António Costa explica que cá se tenham feito certas coisas que não se fazem noutras latitudes. A preponderância do PODEMOS na esquerda espanhola e a distância que vai entre a sua realidade concreta e a "esquerda da esquerda" que temos por cá, contribui também para explicar a diferença de processos. Mas... Há sempre um "mas"...

Há um elemento crucial no processo português que claramente o líder do PSOE nunca pôs em funcionamento e cuja falta faz toda a diferença. É que, por cá, a rejeição do governo de Direita, a recusa de um potencial segundo governo Passos/Portas, esteve clara e explicitamente ligada à construção da maioria de esquerda capaz de garantir uma solução de governo que não deixasse o país em suspenso. O PS só votou o chumbo do programa de governo PSD/CDS, e o seu consequente derrube, depois de estarem firmes as "posições comuns" com PCP, BE e PEV, acordos esses que traduziam a possibilidade concreta de uma alternativa real e viável de governo. O PS nunca se colocou na posição de bloquear a Direita sem estar em condições de apresentar pela positiva uma solução.
Isso é o que não acontece em Espanha: o PSOE deixou-se colocar numa posição em que parece infinitamente disposto a bloquear uma fórmula de governo, mesmo sem ser capaz de oferecer concretamente uma alternativa.
Note-se que, em Portugal como em Espanha, essa ligação entre "recusar uma solução" (de Direita) e "construir uma alternativa" (de Esquerda), seria (como foi cá) essencial para os socialistas nunca serem apanhados numa posição inconsequente de mera rejeição de uma governação sem proposta alternativa.
Foi, aliás, esta lógica de "moção de censura construtiva" que António Costa enunciou logo na noite das eleições (assumindo que não poria em causa a governabilidade nem contribuiria para um vazio) e que permitiu ao PS conduzir o período de negociações em plena autonomia estratégica, deixando a Direita sem capacidade de reacção adequada (porque o PSD e o CDS, embora temendo que Costa não estivesse para eles virado, não encontraram maneira de se desenvencilhar do laço, já que corriam o risco de serem responsabilizados pela ruptura com o PS). E, no que toca à relação com a Esquerda, o PS apresentava aos seus potenciais parceiros a obrigação de resultados: se falhasse o acordo, estariam a oferecer a salvação a Passos e Portas, algo que nenhum dos eleitorados à esquerda compreenderia.

Diga-se. de passagem, que esta ligação entre os processos de recusar a Direita e de avançar para a Esquerda, sendo processos simultâneos, deu a António Costa o tempo e a margem suficientes para fazer a necessária pedagogia dentro do próprio PS, mostrando passo a passo que era possível algo que simplesmente assustava muitos dirigentes. Está aí, em ser ou não ser capaz de fazer essa pedagogia dentro do próprio partido, outra especificidade do caso português na comparação que estamos a fazer.   

Há, portanto, razões estratégicas muito claras para haver Geringonça em Portugal e não haver em Espanha. Mas, sejamos claros, essas razões estratégicas assentam em razões políticas profundas. É que, convém não esquecer, este problema esteve claramente equacionado desde a moção que António Costa apresentou às Primárias do PS, com reafirmação na moção ao congresso nacional que se seguiu, quando a recusa do "arco da governação" e a equação das responsabilidades das outras esquerdas ficou escrita preto no branco. Hoje compreendemos que, apesar de alguns (muitos) distraídos terem demorado a perceber, não se vai longe sem se vir de longe.

27 de Setembro de 2016

25.9.16

Música, Wedekind, Cornucópia



Depois de um período no São Luiz, antes do Verão, está agora no Bairro Alto mais esta criação do Teatro da Cornucópia: o espectáculo vai buscar o seu título, “Música”, à peça de Frank Wedekind que serve de base ao conjunto, mas há mais lá dentro. Como veremos adiante, Luís Miguel Cintra cose um espectáculo com vários tecidos para dar uma vestimenta ao seu tamanho.

Pode ser que interesse para o caso: Frank Wedekind foi um dramaturgo alemão, que viveu entre 1864 e 1918, e que navegou alterosamente entre o direito, a literatura, o jornalismo, a publicidade, a filosofia, ou, mais prosaicamente, entre boémias várias com actores, palhaços, libertinos e outras alternativas ao que ele considerava a corrupta moralidade burguesa. Envolver-se, ainda no século XIX, em temas afins à liberdade sexual, trouxe-lhe longas batalhas com a censura. Ser, depois, acusado de insultar o Kaiser, não tornou o seu caso mais fácil. Fugir para Paris atrasou a punição, mas não a evitou: voltou e pagou com a prisão a ousadia. Acabou por alcançar algum reconhecimento, tendo desenvolvido uma escrita para teatro com soluções que fugiam do naturalismo. Começou a representar ao serviço das suas próprias peças e, pouco a pouco, rendeu-se à necessidade de aceitação e reconhecimento. Alguns dos seus textos mais tardios chegam a ser claramente moralistas.

“Música”, de 1906, é o texto-base deste espectáculo. Pelo tema (confronto entre a vida e a arte, a cantora que queria ser grande e acaba por se envolver sexualmente com o professor de música casado, o aborto como problema e como grande oportunidade social para a hipocrisia), “Música” não seria, hoje, um texto desafiante. Repete coisas que estão ditas e pensadas em múltiplas formas. Luís Miguel Cintra, na segunda vez que fui ver a peça, não fosse eu começar a inventar interpretações delirantes, disse, em tom de aviso discreto e amigável: “tem coisas que às vezes parece que vão por aí fora, que têm muita filosofia, mas, afinal, é mesmo só aquilo”. Certo, é mesmo só aquilo. Não obstante, este espectáculo coloca no mesmo palco e no mesmo tempo, além de “Música”, outra peça, “A Censura”, também de Wedekind, escrita ao mesmo tempo e como reflexão sobre a outra. “A Censura” dá uma série de entremezes, que pouco a pouco deixam de existir separadamente e passam a um regime de sobreposição com o texto principal. E, lá está, isto não tem filosofia nenhuma, mas este dispositivo, habitual em Cintra (fazer espectáculos com textos vários recombinados à sua maneira), acaba por acrescentar uma profundidade aos textos de partida. Ainda há, como epílogo, uma adaptação de “A Hora do Amor”, de von Horváth, porque, afinal, para o encenador trata-se do amor e daquele pensamento (aviso, precaução) final: “O homem mata sempre o que ama.”

Este espectáculo é intrinsecamente diverso e plural. Por ser um momento de criação de um dramaturgo complexo, como literato e como pessoa. Pela combinação de peças num objecto único. Por misturar tons muito contrastantes, entre o profundamente depressivo e o ligeiro e esperançoso. Mas, em larga medida, por criar momento de infinitas camadas em produção síncrona. Exemplo máximo dessa fusão de todos os planos num único ponto no espaço e no tempo – é o quadro em que a actriz Luísa Cruz, que representa na peça central o papel de vigilante na prisão, aparece num entremez a fazer o playback de uma ária, entre o artificioso do playback e a emoção do seu gesto, entre a delicadeza amorosa da ária e a figura pesada da vigilante prisional, entre o ridículo da figura deslocada entre dois mundos e o apelo da personagem à redenção pela verdade da sua presença, rimos por vezes e por vezes aderimos, balançando ali entre todas as emoções contraditórias deste espectáculo.

O encenador é um pouco anarquista como o autor do texto. Mas o encenador é um homem de fé. E não renuncia nem a uma coisa nem a outra. Porque, como procura explicar no seu costumeiro texto “Este espectáculo”, há imensas coisas na vida e a vida é todas essas coisas sem exclusão de nenhuma e na vida hão-de caber tantas diferenças que nenhuma vida particular abarca. E o encenador tenta sempre, cada vez mais, que caibam no palco muitas vidas de cada vez. Neste “Música” podemos variar bastante de humor, ao sabor do vai e vem dos empurrões em direcções diversas que nos são dados – e nisso se encena a complexidade da vida.

Luis Miguel Cintra andou décadas a construir um teatro metafísico – e aproxima-se agora, em espectáculos como este, de uma riqueza mais sensorial e afectiva, onde é mais complexo sentir do que pensar. Saí, na segunda ida ao Bairro Alto para mais este produto Cornucópia, a pensar que Cintra está, com este “Música”, mais perto do que nunca de um teatro para toda a gente. Não pensei gostar de dizer isto. Mas está dito e deixa-me uma interrogação para o futuro. Viva o futuro, pois.
“Música” está em cena até 9 de Outubro. Mais informação aqui.

25 de Setembro de 2016