20.2.15

e que tal um Erasmus na Grécia para Passos?

21:37


Houve um acordo no Eurogrupo, do qual pouco se sabe por enquanto. Mas algo se pode já dizer.

Primeiro, o meu optimismo estava certo: valeu a pena afrontar o pensamento único; foi possível abrir uma fresta no nevoeiro do "não há alternativa"; nunca me assustei com os radicais que pensavam poder correr a Grécia a golpes de "contos de crianças", porque esses radicais estavam cegos ao fundamental e teriam de ceder perante a realidade. Infelizmente, o governo de Portugal foi o mais ridículo de todos no espectáculo de disparates que têm sido ditos por estes dias.

Segundo, até um governo da "esquerda da esquerda" é capaz de encontrar um caminho que não passe necessariamente por uma fórmula mágica qualquer. Neste caso, a solução não vai, pelo menos para já, passar pelo corte ou perdão da dívida. Aqueles que pretendem que não é possível conceber nenhuma saída sem passar por essa porta terão, a partir de agora, de aceitar que têm razão os que mantêm em aberto um leque mais vasto de opções. Como vem dizendo António Costa, há meses, o que importa é que o peso da dívida não impeça o cumprimento das obrigações constitucionais e não obstaculize o investimento necessário para crescer e criar emprego. E, com 28 Estados à mesa, não podemos prometer que a saída será exactamente esta ou aquela: precisamos é de sabermos o que queremos e encontrar o caminho até lá.

Terceiro, e muito importante para o futuro, é que o governo grego terá de dizer que reformas vai fazer para melhorar a situação do país. E, aqui, a direita acha sempre que sabe quais são as reformas: destruir os serviços públicos, cortar salários e precarizar trabalhadores, privatizar. Mas a esquerda tem que ter outra visão das reformas. Por exemplo, no caso da Grécia, é claro que é importante combater a enorme evasão fiscal, tal como é necessário promover a eficiência do Estado e combater a corrupção. E o governo grego quer fazer isso. E é de esquerda fazer isso. Parte importante das próximas batalhas está mesmo aí: promover uma ideia alternativa de reformas estruturais, para acabar com o mito de que as reforma da direita é que fazem bem à economia e aos povos - porque não fazem, como vemos.

Em suma: os profetas da desgraça estão a perder a guerra. E os ridículos profetas do empobrecimento mostraram ao mundo como é triste estarem fechados na sua bolha ideológica.

deixo à vossa consideração.


Retrato de uma Europa possível se deixarmos andar.



Sun Yuan e Peng Yu, Old Persons Home, 2007.
Treze esculturas em tamanho natural, movendo-se em cadeiras de rodas eléctricas com dinâmica autónoma.

17.2.15

a Europa a ver-se grega.

10:30



Não estou pessimista: era costume, quando ainda havia debate na Europa comunitária, que estes grandes choques fossem o prelúdio dos acordos inevitáveis. Nos últimos anos perdemos esse hábito... Ainda creio, contudo, que o grande braço-de-ferro com a Grécia pode ser resolvido de forma satisfatória. Claro que os donos do jogo podem pensar: se cedemos, vai haver outros povos a pensar que podem fazer escolhas democráticas - que atrevimento! - e estragar a estória inscrita nos anais do pensamento único. Mas, se há ainda algum juízo na Europa, os que mais ganham com o Euro não podem correr o risco de lançar os 28 num turbilhão de efeitos imprevisíveis. Imprevisívies para todos.

O aspecto mais perturbador desta crise, para um socialista como eu sou, é a cobardia política de muitos partidos da social-democracia europeia. Perante a narrativa, muitas vezes infantil (há cidadãos alemães, por exemplo, que pensam que o seu país dá dinheiro à Grécia - e estou a falar de relatos directos destas convicções), pode ser impopular explicar ao eleitorado que um mito é um mito, não uma realidade. Mas, se os dirigentes políticos não servem para explicar o que é difícil de explicar, servem para quê? Quando os partidos se acomodam ao estreito horizonte desta semana ou da próxima, para não terem más sondagens e não terem de explicar ideias difícieis de entender - quando os partidos renunciam a cumprir o seu papel de terem e defenderem uma proposta em que acreditam, a democracia torna-se um saco cheio de ar. E um saco cheio de ar é coisa para rebentar com estrondo.

Não se trata de legitimar qualquer resultado eleitoral só por ser um resultado eleitoral. Se Marine Le Pen vencer em França, não vou aplaudir o resultado como uma vitória da democracia. Mas se desprezarmos a opinião de um povo que não aguenta mais o "ajustamento" pelo método esmagamento, a Europa vai caminhar, em poucos anos, para vitórias "à Le Pen" em muitos outros países. Se a Europa não ouvir os seus povos, esta Europa implodirá. Mais cedo do que tarde. Isso é o que está em causa.

Gostava era de ver os ministros que tratam o governo grego com tanta displicência (e mesmo com total falta de sentido de Estado) a levar a sério a ameaça que consiste em termos na Hungria um governo que funciona como comissão instaladora do fascismo. Por que será que isso não preocupa esta camada de anões da política europeia? Será por, ao governo húngaro, já o acharem competente?!


15.2.15