11.7.14

uma descida aos infernos.



O Teatro La Monnaie, de Bruxelas, oferece regularmente uma prenda aos amantes de teatro com música: terminada uma série de apresentações de uma dada encenação operática, ela pode ser vista em linha gratuitamente durante alguns dias.

Por estes dias pode ser visto um espectáculo que não devem perder. Hector Berlioz fez uma versão francesa do "Orfeu e Eurídice" de Christoph W. Gluck e, agora, Romeo Castellucci dá-lhe uma encenação que nos faz descer aos infernos de mão dada com os protagonistas clássicos.
É verdade que Stéphanie d'Oustrac faz um Orfeu emocionante, mas esta obra espantar-vos-á, mais do que pela beleza, pela crueza da descida aos infernos que nos propõe.

Liguem-se à internet, usem a ligação que vos deixo, mobilizem o melhor ecrã que esteja ao vosso alcance, escolham as legendas em francês ou em flamengo (embora as palavras cantadas sejam em francês, as legendas em ópera ajudam sempre), tomem atenção a cada aspecto da história que vos vai ser desvendada - e reservem 80 minutos para descer aos infernos no meio de grande beleza musical e humana.

Esta transmissão está disponível só até 29 de Julho. Vão aqui: Orphée et Eurydice.


10.7.14

os debates sobre a reestruturação da dívida como sinais da qualidade da democracia.

17:16



Em Março, o "Manifesto dos 74" reunia personalidades dos mais variados quadrantes ideológicos numa chamada de atenção para a necessidade de pensar numa eventual reestruturação da dívida pública portuguesa. Na minha leitura, o Manifesto dos 74 até era bastante cauteloso, na medida em que se colocava no perímetro do enquadramento institucional europeu e evitava abrir as portas a movimentos precipitados e/ou unilaterais da parte de Portugal.
Nessa altura, nem o governo PSD/CDS nem o PS entenderam dar grande crédito à iniciativa. As vozes mais governamentalistas usaram, em larga medida, tiros de distracção, do tipo "agora que estamos quase a sair do programa de ajustamento, devemos estar calados com estes temas que podem atrair a má atenção dos mercados". Não se notou perturbação nenhuma dos mercados (os mesmos que tinham reagido muito mal à crise irrevogável do actual vice-PM), mas o "argumento" serviu a habitual cortina de fumo dos que julgam poder evitar que se pense nos problemas. O PS, por seu lado, hesitou entre desprezar a iniciativa, como se ela não contivesse nenhum elemento interessante, ou, de forma arrogante, considerar-se dono da ideia, ao ponto de um dirigente muito próximo do SG ter mandado (publicamente) o recado ao subscritores de que podiam juntar-se ao partido.
As reacções das direcções partidárias do "arco da governação" foram, todas, demonstrativas de uma tara nacional: ninguém por aqueles lados foi capaz de perceber a importância de se ter conseguido juntar gente com opiniões políticas tão diferentes a pensar publicamente num assunto tão importante, convergindo num diagnóstico. É impossível mudar qualquer coisa a sério neste país sem eliminar esse vício de deitar fora qualquer oportunidade de pensar em conjunto.

Agora, um grupo de quatro economistas políticos, incluindo Francisco Louçã, líder emérito do Bloco, e Pedro Nuno Santos, dirigente do PS, apresentou uma proposta mais detalhada para uma possível reestruturação da dívida. Não sei que sorte terá o debate, mas algumas coisas parecem-me já certas.
Primeiro, como esta proposta é bastante concreta, vai ser fácil criticá-la. E ainda bem: defender propostas, avaliar propostas, criticar propostas, essa é a essência do debate democrático que seja capaz de alguma racionalidade.
Segundo, como esta proposta é bastante extensa e detalhada (umas dezenas de páginas densas), vai sempre aparecer quem atire pedras sem ter lido o documento, com a pressa da má política da conversa popularucha, como já aconteceu com um dirigente do PS que está sempre pronto para atirar pedradas a qualquer militante socialista que lhe pareça andar a mexer-se sem autorização do amado líder.
Terceiro, também do lado dos autores vai ceder-se à tentação de tentar atirar para debaixo do tapete alguns temas muitíssimo delicados, como a parte em que os pequenos aforradores vão também ser "reestruturados". Já li um dos autores dar sobre isso uma resposta claramente falaciosa, tendente a descansar os ditos pequenos aforradores, quando nem sequer há acordo entre os quatro autores sobre como lidar com esse assunto (aforradores com títulos até 100.000 euros). É importante que os debates não se façam escondendo as cartas - e os autores do estudo devem ser os primeiros a evitar cair nessa tentação.

Pelo meu lado, não tendo conhecimentos que me permitam produzir opinião própria sobre o assunto, este processo interessa-me como cidadão. Aplaudo aqueles que se chegam à frente com propostas, tão claras e detalhadas quanto possível, porque isto não é assunto para decisões secretas: os cidadãos precisam saber o que significa cada uma das perspectivas. Aplaudo aqueles que critiquem de forma clara e precisa essas propostas, porque saber fazer as boas perguntas é essencial. E abomino os pequenos truques retóricos que poluem estes debates, porque, em matérias que podem mexer tanto com a nossa vida, toda a demagogia é criminosa.

Este é um daqueles casos em que se esperaria mais sensatez da parte das instituições políticas formais. Provavelmente, não seria adequado que fosse o próprio governo a andar por aí a reivindicar publicamente uma reestruturação da dívida, já que isso poderia fazer com que o país pagasse um custo financeiro e político indesejável, independentemente do que viesse a acontecer a seguir. Essas coisas costumam correr melhor quando outros propõem aquilo que nós queremos, sem termos de ser nós a pagar o preço do pedido. Aqui, o contexto europeu é inescapável. Provavelmente, um partido de oposição, pelo menos se aspirar a ser governo, não deveria comprometer-se com soluções concretas, se esse compromisso limitar a sua margem de manobra negocial quando tiver de pegar no assunto em nome da República Portuguesa. Não obstante, tanto o governo como qualquer oposição responsável deveriam valorizar o surgimento de plataformas de convergência sobre o assunto, deveriam aplaudir o surgimento de propostas concretas e o seu debate aprofundado - e deveriam apelar aos cidadãos para se informarem, questionarem, debaterem. O que não podemos é ignorar o problema: com a dívida que temos, se nos limitarmos a seguir o caminho do "cumprimento" e do "castigo", Portugal vai penar décadas de empobrecimento, a menos que nos saia na rifa um desempenho económico tão maravilhoso que nunca aconteceu antes em lugar nenhum do mundo real em que vivemos.
E de pensamento mágico estamos fartos.

9.7.14

o exterminador implacável.

12:38

O artigo do físico Carlos Fiolhais (O pior do Crato), hoje no Público, tem três aspectos interessantes.

O primeiro é a estatística geral da exterminação:

Na semana passada, Crato, não contente com os cortes drásticos que efectuou nas bolsas de ciência, obrigando numerosos jovens a emigrar, resolveu liquidar de vez a ciência em Portugal. De um universo de 322 unidades de investigação, condenou à morte a curto prazo 154, cerca de metade. Destas, 83 tiveram Bom, num processo de avaliação que, na parte em que não é obscuro, está empestado de erros e omissões, e têm a morte anunciada. Terão um financiamento ridículo e ficarão impossibilitadas de obter recursos humanos ou equipamentos. Bom, numa escala que contempla ainda Muito Bom, Excelente e Excepcional, é péssimo. E 71 tiveram Razoável ou Insuficiente, o que significa a execução imediata. Foi tudo a eito: Matemática, Física, Engenharia, Sociologia, Filosofia, etc. As outras unidades (168) aguardam o seu destino: estão num limbo e poderão também ser condenadas. O número de investigadores já sentenciados à morte é de 5187 num total de 15.444. Entre eles estão alguns dos melhores cientistas portugueses, nomeadamente Nuno Peres, do Centro de Física do Porto e Minho, e Mário Figueiredo, do Instituto de Telecomunicações, que acabam de ser distinguidos internacionalmente como as mentes mais brilhantes.

O segundo é o discurso do método: como é que se procede à grande exterminação? Como é que se arranjou quem, em nome da ciência, aplicasse esta máquina de ceifar?
O ministro diz – quando diz alguma coisa, porque ficou embatucado quando uma jornalista lhe solicitou uma explicação – que não é nada com ele. Lava as mãos como Pilatos. E remete para os seus subalternos, em particular para a Fundação para a Ciência e Tecnologia – FCT. Esta já foi em tempos uma instituição em que os cientistas confiavam. Mas agora resolveu destruir um sistema de avaliação internacional, exigente e cuidadoso, que estava montado e tinha provas dadas, e experimentar outro, que se está a revelar frágil e tosco. Contratou, não se sabe como nem a que preço, a European Science Foundation – ESF, que está a desfazer a sua actividade em favor de uma nova organização, a Science Europe, e pediu-lhe uma avaliação à distância (isto é, sem ver nem falar com ninguém), com base apenas em papéis, entre os quais um estudo da produção científica. Os resultados são calamitosos para a reputação da ESF e, por salpico, para a FCT e para o ministro. Por um lado, há muitos erros grosseiros, que só por si deviam ser suficientes para denunciar o contrato. Mas, por outro, mesmo desculpando o indesculpável, em muitas disciplinas não bate a bota com a perdigota: por muito criticável que seja o método da folha Excel, esperar-se-ia alguma correlação entre a produtividade científica e a nota dada. Não há, porém, quase nenhuma. O ministro podia ter poupado o erário público se, em vez de contratar avaliadores da ESF, tivesse comprado uma roleta. Fui ver quem eram os avaliadores da minha área. Verifiquei com espanto que esta nem sequer existia. A Física estava amalgamada com a Química e com a Matemática, sendo todas elas avaliadas por um painel constituído por um engenheiro, três físicos, quatro químicos e três matemáticos (sem nenhuma mulher, isto é, sem ninguém pragmático). Este painel é muito pior do que os três, um por disciplina, da última avaliação, que envolveu 15 matemáticos, seis físicos e sete químicos. Um dos ramos maiores da Física – a Física da Matéria Condensada – foi agora praticamente encerrado em Portugal por um painel que só tinha um físico desse ramo. A matéria passou de condensada a condenada! Dantes os avaliadores eram conhecidos e respeitados, hoje são desconhecidos.

O terceiro aspecto interessante do artigo de Fiolhais é exterior ao próprio artigo, embora mencionado no texto: o autor confessa que foi um dos que levaram Crato ao colo e que estava motivado pela ideia de implosão do Ministério de Educação. Não vejo por que se queixa agora: Crato prometeu implosão, Crato está a implodir tudo o que tem à mão, por qual razão se queixam os que apoiaram a base ideológica da sua acção? A ideologia da implosão de tudo o que vinha dando frutos, por via da intervenção do Estado, deu nisto que estamos a ver. Criticar os frutos e dizer que a árvore é boa - dizer que a implosão era uma boa ideia - merecia uma explicação. Mas ninguém neste país se sente responsável por ter alimentado a fogueira com as suas ideologias incendiárias.


7.7.14

se investigas o que não interessa à direita, tiramos-te o financiamento.

17:30

É tão simples quanto isto: a avaliação que a Fundação para a Ciência e a Tecnologia está a fazer dos centros de investigação não é uma avaliação científica. É, em grande medida, uma operação política. Por várias razões, das quais hoje apontamos apenas uma: estão a penalizar centros de investigação porque investigam questões que não interessam à direita ideológica mais agressiva. Exemplo chocante: o CIES-ISCTE, um dos centros mais relevantes de investigação em sociologia, arrisca-se a deixar de ter financiamento por estudar as desigualdades sociais e as migrações - e porque os avaliadores angariados para não terem vergonha de fazer tal "avaliação" têm o descaramento de afirmar que já não há nada para estudar nesse domínio.

Se pensa que isto é apenas assunto dos investigadores, lembre-se daquele poema (erradamente atribuído a Brecht), que termina assim: «Agora levaram-me a mim / E quando percebi, / Já era tarde.» Tem por título "A Indiferença" e é sobre os perigos da mesma.

matar um mito de vez em quando (2).

12:23

Cito:
"A Alemanha é, do ponto de vista das leis, muito mais protecionista da força de trabalho, porque a empresa é entendida como uma entidade social, até comunitária, que pertence não só aos donos como aos trabalhadores. Há o entendimento social de que os trabalhadores são tão importantes como os patrões. O poder de comissões de trabalhadores e de sindicatos, de facto e no espírito da lei, é muito maior do que em Portugal. Os direitos legais protegem muito mais. Se eu quiser pôr um trabalhador a trabalhar num feriado ou ao domingo, tenho de justificar. Um funcionário público é que decide, com base na lei alemã, se as empresas podem ou não trabalhar ao domingo."

Além disso, garante, "as pessoas têm muito mais garantias sociais e muito mais apoio. O subsídio de desemprego é mais curto, mas a seguir chama-se outra coisa, passa a outros subsídios. O Estado paga a renda de casa, mais um rendimento por cada membro do agregado familiar... A Alemanha tem muito mais proteção laboral e social do que Portugal." Sorri. "E na Baviera, onde estou (vivo em Munique), temos 30 dias de férias, fora os feriados: é a zona com mais feriados na Europa."

Artigo completo aqui.

6.7.14

poesia e política.

13:52

Não acredito na poesia fora da cidade. Julgo que outras vozes poéticas também não julgavam tal exílio concebível. Veja-se o seguinte poema de Sophia:


O Rei de Ítaca


A civilização em que estamos é tão errada que
Nela o pensamento se desligou da mão

Ulisses rei de Ítaca carpinteirou seu barco
E gabava-se também de saber conduzir
Num campo a direito o sulco do arado


Sophia de Mello Breyner Andresen, in O Nome das coisas (1977)

Isso terei aprendido com alguns dos grandes. Aprendido à minha maneira, claro, que pode ser fiel ou não. No meu livro de poemas Monstros Antigos, por sempre me entender como parte da comunidade política, isso transparece. Deixo-vos um dos poemas em que toco mais directamente essa questão:



Contudo, que a minha poesia está, como eu, sempre dentro da cidade, é consubtancial a toda a minha escrita. Nuno Júdice, na apresentação do livro, explica, a meu ver bem, como é essa relação. Deixo, por isso, o pequeno vídeo onde o Prémio Rainha Sofia de Poesia Ibero-Americana 2013 resume tudo: "não é uma poesia política, crítica, de forma muito directa, mas..."



(Circunstância: Nuno Júdice apresenta "Monstros Antigos" {poesia} de Porfírio Silva, a 22 de Abril de 2014, no Centro Nacional de Cultura (Lisboa). Toda a crítica de Nuno Júdice aqui: http://youtu.be/ye8RlIBesD0 )