17.6.14

será Costa um político que espera sentado ?

23:35

Uma das coisas aborrecidas da política é que, por vezes, não podemos deixar passar em claro certos comportamentos que, verdadeiramente, preferíamos ignorar. Mas não ignoramos por uma simples razão: não beneficiar o infractor.

De que falo? De coisas estranhas que estão a acontecer no PS.

Recentemente, alguém - não vou citar nomes, leiam as notícias - atacava António Costa nesta onda: "só se chega à frente agora, porque sente afinal que já estamos próximos do poder". O ponto desse tipo de "argumentos" é substituir o debate político pelo ataque de carácter. Certamente AC não perderá tempo com tais miudezas. Eu, pelo contrário, que gosto pouco das falsificações da história, e não deixo de dar importância a certas miudezas, não me consinto ficar calado nesse assunto. Lembrando, a título ilustrativo, dois ou três episódios, que são públicos, que julgo mostrarem que António Costa, se alguma característica tem é a de gostar de pegar em "bicos de obra" para lhes dar a volta.


O primeiro caso de que me lembrei foi Loures. A candidatura de AC à Câmara de Loures, em 1993. Na verdade, quase ganhou a presidência para o PS; foi por pouco. Mas a batalha que tinha aceitado travar era uma batalha considerada praticamente perdida à partida, porque se achava então virtualmente impossível derrotar o PCP naquele bastião. AC prestou esse serviço, brilhantemente (lembram-se da corrida entre o burro e o Ferrari?): não ganhou dessa vez, mas lançou sementes que vieram, posteriormente, a dar bons frutos. Porque se entregou sem reservas a uma batalha dificílima. Pronto, podem dizer que foi apenas "um serviço ao partido" - mas, havendo por aí quem se julgue único em dedicação, vale a pena lembrar.

Outro caso é Lisboa. Hoje, no que toca à Câmara de Lisboa, há por vezes uma certa tendência para pensar apenas que a posição do PS na capital é confortável: vencer com mais de metade dos votos, como aconteceu na última eleição, é obra. Só que alguns parecem pensar que isso foi oferecido de bandeja. Mas não: a primeira candidatura de AC à presidência de Lisboa aconteceu num ambiente muito incerto, com a área política do PS dilacerada por dissensões graves a nível nacional, com uma espécie de PS-bis a concorrer como independente em Lisboa. E, depois das eleições, AC tem de gerir em minoria uma câmara com gravíssimos problemas, a dívida e não só. Só com fraca memória se pode ignorar o percurso que transformou uma manta de retalhos política numa maioria alargada e plural, que tem dado à cidade uma governação moderna, responsável e progressiva. Sem dúvida, um serviço à cidade.

Acho que estes dois casos seriam suficientes para ilustrar o perfil de um político que não fica à espera que alguma coisa lhe caia no colo. Mas quero ainda dar um outro exemplo, que classifico claramente como um grande serviço ao país.

Hoje, ao contrário do que acontece em outros países europeus, Portugal não sofre de uma profunda divisão em torno da imigração. Apesar das dificuldades, e da óbvia sobrevivência de fenómenos sociais de racismo, Portugal é tido como um país que trata civilizadamente os estrangeiros que acolhe para aqui viverem e trabalharem. O quadro legal é do melhor que há na cena mundial e, socialmente, não há, sequer, lastro para uma extrema-direita racista. Nem, concomitantemente, os partidos "do sistema" têm sido levados a tiradas populistas para aplacar os radicais à custa dos imigrantes. Que isto assim seja - é bom para o nosso país. Ora, nem sempre esteve garantido que isto viesse a ser assim. No início dos anos 1990, quando Cavaco Silva era primeiro-ministro e o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras causou, com um excesso de zelo que não interessa agora apurar de onde vinha, um caso escandaloso como o de Vuvu Grace (uma jovem zairense que chegou ao aeroporto da Portela para visitar o marido com a filha de 6 anos e foram retidas pelo SEF por não terem bilhetes de regresso), António Costa não virou a cara. Como advogado que era, levou o caso a tribunal com uma providência cautelar (bem sucedida). E, como deputado por Lisboa, foi, por esses anos, um dos impulsionadores de uma atenção consistente e persistente à questão da imigração, no tempo em que sob o manto do cavaquismo se navegava em águas turvas (desalojados de Camarate, os dentistas brasileiros, a eliminação do asilo pedido por razões humanitárias). Paulatinamente, mobilizando (com outros, claro) as comunidades imigrantes para a participação política e desenvolvendo um esforço notável (e bem sucedido) para nos poupar a um dos problemas mais delicados noutros recantos da Europa. Com políticas certas a tempo e horas.

Muitos políticos por essa Europa fora têm fraquejado no tema sensível da imigração. Portugal pode agradecer a vários dos seus políticos do Partido Socialista (com destaque para o José Leitão, que foi Alto Comissário para essas questões) ter pacificado e consensualizado essa frente. E António Costa foi um dos que meteram as mãos nessa tarefa, sem medo de ela queimar, como era o risco evidente.

Dito isto, parece-me de uma desfaçatez inominável que se fale de António Costa como se ele tivesse passado a sua vida à espera que o levem ao colo. Como ele, provavelmente, é demasiado decente para andar a lembrar isto aos esquecidos, achei que tinha eu obrigação de falar. Neste caso, é um gosto reavivar a memória dos que precisam. É uma espécie de caridade aos desmemoriados do PS. Espero que aproveitem. E que decidam parar a campanha de calúnias. Porque é tempo de os socialistas se poderem dedicar em exclusivo aos problemas do país. Engrandecerem-se por resolverem democraticamente as suas diferenças. Porque o melhor do PS é a sua pluralidade.



16.6.14

os estatutos são a Constituição do PS.

10:08

A actual legislatura só termina em 2015. Pode dizer-se que a actual formação do parlamento foi eleita para durar ainda mais ou menos um ano. O actual governo tem maioria nesse parlamento, pelo que a legalidade do seu mandato não está em causa.

Contudo, muitos pedem, há muito, ou já pediram, eleições antecipadas. Não porque falte suporte legal ao governo, mas porque quem pede eleições antecipadas considera que esta maioria e este governo se esgotaram politicamente, já não servem o país. Porque quem pede eleições antecipadas faz a avaliação política de que a legalidade do mandato não chega.

Entre os que já pediram eleições antecipadas no país, há bastante tempo, conta-se o actual SG do PS. Concorde-se ou não com essa reivindicação, ela é politicamente legítima, compreensível. Cavaco e Passos pensam os calendários eleitorais, não em termos da necessidade de desbloquear a governação, mas em termos de conveniência própria. Fazem das suas necessidades de sobrevivência o calendário do país. E isso é condenável.

É, assim, politicamente incompreensível que o mesmo António José Seguro que pede eleições antecipadas no país, com argumentos políticos, recuse eleições no PS, com a escusa de que o termo previsto para o seu mandato ainda não chegou. No PS, como no país, esta não é uma questão de legalidade. É uma questão política. É da ordem do interesse superior do país. O que faltará para que isto seja compreendido por quem tem obrigação de pensar nas instituições antes de pensar em si próprio?

Sim, também há os que dizem “os estatutos são a Constituição do PS, ambos são para respeitar”. Claro que sim. Nada obriga Cavaco a dissolver a Assembleia e convocar eleições. Nada obriga Passos a concordar com um refrescamento da situação. Respeitando a Constituição, nada os impede de pensar primeiro na sua própria posição e só depois no país. Mas temos um certo juízo político sobre isso, não temos? E sabemos que, sempre respeitando a Constituição (os estatutos), podiam trilhar politicamente outros caminhos. Aí reside a questão.

15.6.14

O combate no PS é um combate pela democracia.

10:18

O combate no PS é um combate pela democracia em Portugal. Não podemos gritar "ai, que vem aí o populismo!" e depois dar armas e bagagens ao populismo contra o qual se brama.

Quais são, na essência, as armas do populismo? Primeira, propalar falsas soluções fáceis e rápidas para problemas que só têm saídas complexas, demoradas e delicadas. Segunda, apontar para o manobrismo e o tacticismo da política, dados como prova de que os representantes não se interessam pela realidade, mas apenas pela suas vidinhas de políticos.

É por isso que, se continuar a prevalecer no PS a actual tentativa para centrar a batalha na ideia de que um chefe, para ser chefe, é inamovível, em lugar de se discutir o que está em causa no país e a melhor forma de o PS assumir as suas responsabilidades - quem assim procede estará a alimentar a campanha surda do populismo contra a política. E isso seria renegar o essencial da história do PS. O PS pode não ter implantado o socialismo neste jardim à beira-mar, mas foi sempre um esteio da democracia. O PS não pode tornar-se hoje numa acha para a fogueira desse inimigo mudo da democracia que é o populismo vago e difuso que, mesmo quando toma um rosto, anda por aí anónimo nos pequenos e grandes desesperos da vida de todos os dias. Um dirigente partidário que reage aos desafios com a ideia "querem tirar-me o lugar" está a dizer às pessoas: "estou aqui para salvar a minha pele, o meu lugar no mundo é a minha prioridade". E é dessas mensagens passadas pelos políticos que se alimentam os populismos.

Até acredito que AJS queira dar o seu melhor ao país; até posso admitir que, tendo-se esforçado, merecia melhor sorte. E defendo, sem qualquer cinismo, que era preciso encontrar maneira de todos sairem deste combate dignamente: o PS não devia triturar o seu SG, nem este grupo actualmente na direcção, porque a grandeza do PS é a sua pluralidade. Mas é preciso que ele deixe...

Por isto digo que o combate no PS é um combate pela democracia. Pela qualidade da democracia, contra o populismo, contra o sectarismo. Um combate que o PS não pode perder, que a democracia não pode perder. E esse é um ponto prévio a qualquer outra escolha, de pessoas ou de projectos.