14.12.13

compras de natal.

17:57

Esta coisa é uma máquina de escrever | mas não escreve. Quer dizer, só imprime palavras | no papel se eu lhe disser o que tem de fazer. Mas | isso não é escrever, é obedecer. E não há nada mais | contraditório do que escrever e obedecer.

13.12.13

emprego científico em Portugal.

10:42

Divulgo aqui a Carta Aberta ao Presidente da Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT), remetida pela Plataforma Em Defesa da Ciência e do Emprego Cientifico em Portugal.

*

Exmo. Sr. Dr. Miguel Seabra,

Nas últimas horas, duas semanas depois do prazo, chegaram aos investigadores do Concurso FCT 2013 as avaliações. Como comissão representativa da Plataforma Em Defesa da Ciência e do Emprego Cientifico em Portugal, vimos por este meio, no espírito da moção aprovada por centenas de investigadores, docentes e bolseiros, em plenário, comunicar-lhe o seguinte.

Verificamos que os candidatos não tiveram direito a uma avaliação em condições de absoluta igualdade e repudiamos o processo, relevador de desrespeito pela comunidade científica.

Vários candidatos – recordamos que este que é um concurso publico que leva meses a preparar individualmente - desconhecem, depois do recente email enviado pela Instituição a que vossa excelência preside, os seus avaliadores no âmbito da préselecção, os CV dos seus avaliadores do painel de pré avaliação bem como a sua instituição para garantir que é cumprido o regime de incompatibilidades; se foram avaliados pelo painel internacional como previa a lei. Ao contrário da informação fornecida no esclarecimento publicado pela FCT, muitas das candidaturas não têm nenhuma avaliação ou receberam menos dos que as 3 avaliações previstas no concurso.

Os candidatos, não tiveram, na sua maioria, acesso aos relatórios completos da avaliação elaborados pelos “avaliadores externos” e/ou pelos painéis internacionais. Em muitos casos, a avaliação disponibilizada aos investigadores não indicia que tenha sido feita uma avaliação detalhada dos seus cvs e projectos. Em vários casos ainda, o resumo da avaliação recebido mostra claramente que os avaliadores não têm conhecimentos na área ciêntifica dos candidatos. Está por publicar a listagem da avaliação detalhada, como em qualquer concurso público, de todos os candidatos seleccionados e rejeitados, aberta ao público, condição sine qua non de transparência e de garantia de defesa dos candidatos (por termo de comparação) em sede de audiência prévia. Recordamos que o painel de pré-selecção não estava previsto na lei que rege este concurso e que não houve lugar a recurso a quem foi rejeitado por esse painel. Há candidatos a quem foram comunicados os resultados, hoje, na forma, acintosa e desrespeitosa de meia dúzia de linhas gerais e generalistas, sem evidência empírica, sem qualquer quantificação da avaliação por item. Consideramos este processo inaceitável.

Assim, exigimos:

- A garantia de que todas as candidaturas no concurso Investigador FCT 2013 sejam avaliadas em condições de igualdade por um painel composto exclusivamente por peritos internacionais.

- A comunicação aos candidatos do concurso Investigador FCT 2013 da identidade dos seus avaliadores externos, dos seus currículos e das instituições científicas a que pertencem.

- A comunicação aos candidatos deste concurso dos pareceres completos que esses avaliadores redigiram.

- O acesso público a todas as actas de avaliação, com os argumentos/pareceres do júri respeitantes a cada um dos candidatos, quer dos que obtiveram financiamento, quer dos que foram excluídos do mesmo.

- A constituição de mais painéis de júri internacionais, mais abrangentes e com um número maior de membros para que seja possível proceder a uma avaliação correcta, objectiva e de mérito não só do currículo dos candidatos mas também dos projectos de investigação propostos em todas as candidaturas submetidas.

O financiamento da ciência tem de ser pautado por critérios científicos e transparentes. A Fundação para a Ciência e Tecnologia não pode permitir-se conduzir concursos que deixam uma ampla indignação, de suspeitas e dúvidas, na comunidade científica nacional. Esta não é uma questão que diga respeito à colocação de cientistas individuais no concurso ou aos avaliadores dos painéis, individualmente considerados, mas a todos os docentes e investigadores, à gestão dos dinheiros públicos, à condução de políticas transparentes no campo administrativo e científico.

Aceitar um processo obscuro, eivado de irregularidades e suspeitas no ar, significaria abrir um grave precedente para todos os concursos (de projectos, de investigadores, de unidades) daqui para a frente. Caso não haja um cabal esclarecimento público de todo o processo, até dia 16 de Dezembro às 16 horas, avançaremos com uma acção judicial no sentido de se impugnar este concurso e de se proceder a um novo, que coloque os candidatos em condições de igualdade, que preencha rigorosamente todas as disposições legais a que um concurso desta natureza está obrigado.

Lisboa, 9 de Dezembro de 2013

12.12.13

um teste ao vosso nervo sobre o Papa Francisco.

16:29

A 9 de Janeiro de 2012 o Público publicava esta notícia: Vaticano censura livro sobre “diversidade familiar”.
Lia-se no Público: «Uma editora católica argentina foi obrigada a retirar do mercado um livro sobre sexualidade e diversidade das famílias. O seu autor, o pastor metodista Pablo Manuel Ferrer, defende que “a sexualidade é um desejo válido”.»
Como se aplicou essa "condenação"? Por carta do responsável pela Congregação para a Doutrina da Fé, o cardeal norte-americano William Levada. A editora foi obrigada a retirar das lojas todos os exemplares da obra, a eliminá-la do seu catálogo e ficou proibida de a publicitar em qualquer das suas publicações.
Censura é censura, uma prática que conhecemos das ditaduras. Não se tratou neste caso, sequer, de reafirmar a "linha oficial" perante uma divergência no seio das hostes. Tratou-se de impedir uma editora de ter à venda um livro, cujo autor nem sequer é católico, onde se expressava uma interpretação do Novo Testamento que difere da interpretação dos detentores do poder dentro da Igreja Católica.
Aberrante.
Aqueles que seguem com expectativa, ou apenas curiosidade, a acção do novo Papa, Francisco, talvez gostassem de ter resposta à seguinte pergunta: poderia aquele tipo de censura acontecer hoje?
Não venho para vos dar uma resposta simples. Uma possível resposta simples seria: o Cardeal Levada continua no seu posto: escândalo! Outra resposta também simples, embora de sinal contrário, seria: este Papa mudou o Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé: aleluia, confirma-se a mudança! Nenhuma destas respostas simples funciona. É que, mesmo antes da mudança de Papa, já tinha mudado o Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, por resignação do Cardeal Levada (por motivo de idade, aos 75 anos têm de pedir a resignação). Em Julho de 2012 passou a ser Monsenhor Gerhard Ludwig Müller. Não há, portanto, uma resposta simples para aquela pergunta. Isso torna o assunto mais estimulante para pensar: poderia aquele tipo de censura acontecer nestes tempos de Francisco?

retrato da senhora Lagarde.



(foto de Chema Madoz)

prenda de Natal para os meus amigos que achavam que Crato era "diferente".

11.12.13

a Cornucópia atira-se à crise.



Passo a divulgar (parcialmente) uma mensagem que recebi da companhia Teatro da Cornucópia.

***

CORNUCÓPIA VAI TRABALHAR COM ACTORES AMADORES E ALUNOS DE TEATRO

Perante as dificuldades que atravessa, vendo sucessivamente reduzido o regular financiamento do Estado, o Teatro da Cornucópia acredita ainda ser possível manter em actividade a sua estrutura, um lugar com características particulares, por num só e mesmo espaço conter afinal todos os instrumentos necessários a sua produção: escritórios, oficinas, espaço de ensaios, preciosa sala de apresentação, não esquecendo os armazéns de guarda-roupa e de cenários recicláveis. Assim, teimosamente e no sentido de não parar, procura encontrar formas novas de viabilizar o seu trabalho de criação de espectáculos.

Pensa conseguir realizar durante o ano e em co-produção com o Teatro Nacional S. João e o Teatro Nacional D. Maria II, uma produção em moldes já anteriormente praticados bem como uma co-produção com o Teatro Municipal S. Luiz, com 9 representações e relacionada com a passagem de 40 anos sobre o 25 de Abril de 1974.

Das verbas disponíveis para estes projectos, já concebidos de forma a se adaptarem as actuais dificuldades de produção, pouco resta para as restantes actividades da temporada.

A Companhia tem a noção de que, se não é a única, é uma das últimas que mantém uma forma de trabalho que se apoia numa estrutura fixa com custos, em que todos os sectores coabitam e trabalham em conjunto na construção de cada espectáculo. E de que, na situação actual, tudo cada vez mais a empurra para outras formas de existência, que correspondem a menos gastos fixos com a estrutura e mais compra de serviços ao exterior.

Mas ainda não desistiu de si própria e, tentando que das dificuldades surjam soluções positivas, vai apostar no trabalho com não profissionais.
São muitas as pessoas que se mostram curiosas pelo trabalho da companhia e pedem para de alguma forma participar. São inúmeros os estudantes de teatro que pedem para estagiar nalgum espectáculo. Não havendo da parte da Companhia nenhum preconceito contra o teatro como actividade puramente lúdica e de natureza cultural, resolveu ela desafiar os seus espectadores para uma situação de troca de serviços, como está a acontecer noutras actividades: contra a possibilidade que a Cornucópia oferece de pessoas não profissionais de teatro actuarem como actores em moldes profissionais e terem a experiencia de um estágio, qualquer pessoa de qualquer idade e formação cultural pode oferecer-se para participar num espectáculo a ensaiar a partir de 2 de Janeiro e com uma exibição pública no Teatro da Cornucópia de duas semanas e meia no inicio de Marco na sua sede. Essas pessoas estarão a prestar um serviço a Companhia através do seu trabalho não remunerado, tornando-se solidárias com a situação que a companhia atravessa, permitindo-lhe que continue a produzir espectáculos, mesmo sem a possibilidade de contratar profissionais.

O espectáculo a ensaiar chamar-se-á ILUSAO, será dirigido por Luis Miguel Cintra com a colaboração de Cristina Reis e da habitual equipa da Cornucópia e será construído a partir de várias pecas, ou esboços, do jovem Federico Garcia Lorca. (escritas entre os 21 e os 24 anos) e só publicadas em 1994.

Os interessados deverão inscrever-se até 16 de Dezembro.



peões de brega, cuja profissão não pega.


Na sua página no Facebook, A Naifa escreve:
«Agora é oficial! "A Tourada" está a ser censurada nos principais meios de comunicação. É inacreditável que esta canção/video cause tantos constrangimentos em Portugal no ano da graça de 2013.»

Alguém tem medo, outra vez?



se isto não é um mentiroso, o que será um mentiroso?

No dia 10 de Dezembro de 2013, Passos Coelho ao Jornal de Negócios:


Mas o representante do PSD na negociação do Memorando reivindicava a paternidade pelo rebento:


E o próprio Passos Coelho, mais recentemente, continuava apaixonado pelo Memorando:


Assim, para não termos de dizer (pela enésima vez) que o actual PM é um mentiroso sem emenda, teremos de o aconselhar a adoptar a solução sonhada por um canal de TV: que tal uma cimeira entre Passos Coelho e Passos Coelho a ver se se entendem, hein?!


10.12.13

algumas das melhores capas sobre Mandela.

Relatório Estrela: uma batalha perdida.

18:47

O “Relatório sobre saúde e direitos sexuais e reprodutivos”, aprovado pela Comissão dos Direitos da Mulher e da Igualdade dos Géneros do Parlamento Europeu, foi hoje presente ao plenário dessa instituição e foi afastado por iniciativa de sectores militantes da direita europeia e portuguesa.

O "Público" resume assim a principal linha de argumentação subjacente ao voto de hoje do Parlamento Europeu sobre o Relatório Estrela: "Invocando o princípio da subsidiaridade, segundo o qual os Estados devem ser livres de legislar sobre as questões que dizem respeito aos seus cidadãos, os eurodeputados aprovaram em plenário uma resolução que teve como efeito a anulação da votação do relatório."

Quer dizer: aquilo que é essencial na Europa, um espaço de direitos humanos, quando convém passa a ser assunto dos Estados-Membros. A Europa preocupa-se com o euro e com o défice e com a dívida - mas acha que as questões de direitos humanos são para os Estados-Membros tratarem?! Edite Estrela resume bem a tendência quando diz que o Parlamento Europeu "era mais progressista em 2002 do que é hoje”, porque há 11 anos "aprovou um relatório com um conteúdo muito semelhante a este" que agora nem deixou votar.

É claro que o ponto do aborto se tornou a bandeira central desta batalha. Evidentemente, ninguém queria impor o aborto a ninguém, mas os "defensores da vida" que tratam do assunto de forma ideológica querem, na prática, "expulsar" dos sistemas de saúde aqueles que recorrem à interrupção voluntária da gravidez. Teremos que dizer, para usar os termos extremos que alguns desses "defensores da vida" preferem: há por aí quem nem se importasse que morressem as mulheres que recorrem a esse acto extremo. Ora, isso é inadmissível: não é aceitável que, em nome de morais privadas, haja quem faça das leis letra morta, quando a vida e a saúde das mulheres que recorrem à IVG acabam por ser desprezadas por quem enche a boca com a "defesa da vida".

Assim de repente, deixo sobre o horizonte de futuro próximo duas observações preliminares.

Primeiro, uma questão estritamente política: os métodos do extremismo reaccionário que são correntes nos States vão (estão a) ser importados em força na Europa. Isso é importante, porque há nas instituições uma direita muito permeável aos que berram alto. O que se tem passado no PE sobre este relatório é um assalto de certos grupos activistas ao medo e ao oportunismo de certos deputados. Devo dizer que acho legítimos esses métodos de mobilização, mas insisto que temos de estar atentos a esta movimentação, até porque actua muitas vezes por deturpação abusiva do que está em causa. E também porque muitos responsáveis políticos não têm coragem para um debate racional sobre assuntos delicados.

Em segundo lugar, é preciso ter atenção a uma questão "religiosa" (eu diria antes, de política dos religiosos). E é muito simples: os movimentos mais militantes da direita católica estão a preparar-se para a eventualidade de terem de travar uma batalha contra certas orientações do Papa Francisco. Não creio que, doutrinalmente, o Papa lhes vá causar problemas sérios, mas muitos temem isso e querem estar preparados para lhe dar luta. A afinação dos métodos de mobilização, que serve para a política, servirá também para isso, se for o caso.

Perder uma batalha não é perder a guerra. Mas convinha que as esquerdas percebessem o que aí vem.

Aníbal vai às exéquias.


http://politica-aos-quadradinhos.blogspot.pt/2013/12/anibal-vai-as-exequias.html

Clicar no quadradinho para ver tudo.

9.12.13

manda-se chorar uma carpideira, que fará o serviço em troca de um alqueire de trigo ou coisa parecida.



Estrela Report.

12:05

Na foto, manifestantes contra o "Relatório Estrela" em Estrasburgo, hoje.

Quando a acção dos políticos transcende a banalidade do ramerrame, os seus nomes deixam de ser (apenas) seus e passam a ser das acções relevantes que empreendem. É também assim neste caso: o “Relatório Estrela” é o nome-bandeira pelo qual passou a ser conhecido o trabalho da deputada europeia Edite Estrela, enquanto autora do “Relatório sobre saúde e direitos sexuais e reprodutivos”, aprovado pela Comissão dos Direitos da Mulher e da Igualdade dos Géneros do Parlamento Europeu e, agora, presente ao plenário dessa instituição. (Na realidade, já foi presente anteriormente, mas os meios mais conservadores europeus conseguiram, até agora, evitar a votação.)

Os direitos sexuais e reprodutivos abrangem um vasto domínio, incluindo: o direito a cuidados de saúde maternos e ao planeamento familiar; a questão da mortalidade materna (com indicadores a melhorar, mas com flutuações preocupantes em alguns países europeus); a questão da educação sexual, cuja inexistência ou insuficiência tem efeitos negativos nas taxas de natalidade na adolescência, de interrupção voluntária da gravidez e de doenças sexualmente transmissíveis; a questão do aborto, com alguns países europeus que continuam a legislar a hipocrisia (quer dizer, proibindo na lei, explicita ou implicitamente, para poderem fechar oficialmente os olhos e não terem que se defrontar com os problemas reais) ou que, apesar de legislações mais realistas, deixam pulular os obstáculos extralegais aos mecanismos legais; as insuficiências dos sistemas de saúde no que toca às doenças sexualmente transmissíveis; a violência de género, muitas vezes ligada à sexualidade; etc. A merecer preocupação está também o facto de, aparentemente, alguns países europeus não monitorizarem adequadamente estas questões. Por exemplo, mais de dois terços de Estados-Membros não dispõem de qualquer informação sobre a percentagem de mulheres grávidas que foram a, pelo menos, uma consulta pré-natal e mais de um quarto de Estados-Membros não possuem dados sobre a percentagem de partos assistidos por um profissional de saúde qualificado. Ora, quem não sabe não cuida. Além do mais, a tornar ainda mais urgente o tópico, a contexto de crise e recessão só ajuda, com o argumento das “poupanças” a todo o custo, a encurtar o braço dos meios públicos para atender a estes direitos.

Os direitos sexuais e reprodutivos são parte dos Direitos Humanos, como reconhecido por instrumentos internacionais, e estão intimamente ligados à efectividade da igualdade de género. Por exemplo, a regulação da fertilidade: claro que, num mundo ideal, essa questão seria tanto de homens como de mulheres; mas, neste mundo real que temos, a falta de métodos acessíveis e aceitáveis para essa regulação acaba por cair mais pesadamente sobre os ombros das mulheres. Em qualquer caso, os direitos das mulheres são direitos de todos: porque nenhum ser humano decente vive bem num mundo onde metade das pessoas são potencial ou efectivamente discriminadas por serem do género feminino; porque quem discrimina as mulheres também discrimina por outros motivos (orientação sexual, por exemplo) com os mesmos “argumentos”.

Por todas estas razões, o Relatório Estrela, reconhecido pela esmagadora maioria como um relatório equilibrado, ganhou o interesse de muitos por essa Europa fora, que vêem nele um contributo para que as instituições europeias sejam relevantes na vida concreta e real dos europeus concretos e reais.

Ora, estranhamente – perdão, sem estranheza nenhuma – o Relatório Estrela tornou-se um ponto central da luta política à escala europeia. Por quê? O contexto é este: há uma agenda reaccionária global (europeia, internacional) para impor morais particulares a toda a gente. O que essa agenda reaccionária pretende é capturar as políticas públicas, fazendo com que os meios dos Estados só possam ser usados dentro dos limites traçados por essas morais particulares. A questão é esta, com um exemplo: ninguém quer obrigar ninguém a usar este ou aquele método anticonceptivo, porque não cabe às políticas públicas determinar como as pessoas se comportam nesse campo; mas é criminoso diminuir os esforços das políticas públicas para informar as pessoas acerca do que está em causa e é criminoso deixar esse assunto ao “Deus dará” só porque certas correntes religiosas têm preceitos que vão contra a autodeterminação consciente das pessoas nessas matérias. Não podemos proibir uma religião de pregar que “venham os filhos que Deus quiser”, mas devemos impedir que as políticas públicas, por omissão, traduzam esse preceito obscurantista. O obscurantismo é a arma dos extremismos. Neste caso, o obscurantismo é a arma do extremismo reaccionário, também agora na Europa, aliás importando as piores práticas do extremismo americano.

Como de costume, o obscurantismo reaccionário assenta muito na apresentação falseada da lógica das situações. O Relatório Estrela não quer impor nada de novo aos Estados Membros, mas quer promover o interesse pelas práticas que dão melhores resultados em termos de saúde e de implementação dos direitos já reconhecidos. O Relatório Estrela leva a sério a questão civilizacional da violência de género, que temos de combater resolutamente. O Relatório Estrela alinha com as abordagens pragmáticas em questões de saúde pública, com aquelas abordagens que dão prioridade à saúde das pessoas em vez de lhes pedir primeiro que adiram a certas morais particulares antes de se protegerem e cuidarem. O Relatório Estrela é uma questão de civilização.

É para isto que serve a Europa: para distribuir o melhor e restringir o pior. Para que a Europa seja dos cidadãos temos de assumir a importância destes debates globais. Os cidadãos europeus podem apoiar estas iniciativas. Amanhã, o Parlamento Europeu vota o Relatório Estrela. Apelo a que façam ouvir a vossa voz: multipliquem o apelo ao voto “SIM” no Relatório sobre saúde e direitos sexuais e reprodutivos, o agora chamado Relatório Estrela. Façamos disto um tópico de opinião pública.

O relatório pode ser lido em português aqui.

gente que anda lá fora a denegrir a imagem de Portugal.