20.7.13

o PS de que o país precisa.

01:25

O PS, sob a direcção de Seguro, aguentou a pressão e não assinou nenhum acordo de salvação do PSD e do CDS. Bastou-lhe, para isso, reafirmar o que tem vindo a propor, quer institucionalmente quer em público. Que a maioria governamental não tenha tido rins para pegar nas propostas do PS tem um significado: queriam o PS apenas para muleta. Não espanta. A forma como Seguro comunicou ao país a situação foi (apenas li, não ouvi a comunicação) equilibrada e convicta. O PS teve a sabedoria táctica para, no período de negociação, não deixar estabilizar nenhuma antevisão do que faria afinal: deu, assim, credibilidade à sua rejeição do acordo, porque fez crer que, fosse outra a posição das outras partes negociais, poderia ter assinado.

Fico, agora, à espera dos que fizeram previsões catastróficas. Dos que previram que o PS não votaria a moção de censura dos melancias (votou). Dos que previram que o PS entregaria o ouro ao bandido a pretexto da "salvação nacional" (não entregou). Refiro-me, não tanto aos comentadores, mas aos partidos políticos que já ensaiavam nova manobra da coligação negativa com os partidos da direita. Esses, se tivessem alguma decência política, não entrariam agora em discursos de encobrimento. Encobrimento de quê, perguntarão. Infelizmente, a esquerda da esquerda vai agora entrar em tentativa de encobrimento de que desejaram ver o PS nos braços da direita, porque só isso os salvaria do que mais temem: ver o PS assumir o seu papel de alternativa.

Tudo isto, para mim, não significa que o PS esteja já em condições de ser essa alternativa. Tem de fazer mais. Visar mais longe. Lutar para merecer uma base social de apoio alargada. E, além do mais, aprofundar o espaço de convergência interna para se abalançar às lutas nacionais, como opinei anteriormente.

19.7.13

é contra toda a teoria política que a direcção do PS tenha enlouquecido, não é ?

11:55

Leio por aí (não vi, não ouvi) que António Costa disse ontem na Quadratura do Círculo que não tem informação nenhuma sobre o que está a ser negociado entre o PS e os partidos da coligação governamental de direita. Se isso for verdade - se AC o disse, acredito que seja - isso quer dizer que a direcção do PS tem um entendimento estranho da "paz interna" celebrada no último congresso.

Quer dizer: se for verdade que António Costa não está a ser tido nem achado neste momento crucial para o PS, isso quer dizer que a direcção de António José Seguro apenas quis meter os descontentes no bolso com o "consenso interno" e, depois, na prática, está-se marimbando para a opinião e o envolvimento de uma das figuras do PS que mais esperança representa hoje na sociedade portuguesa: o actual e futuro presidente da câmara municipal da capital.

Se também for verdade, coisa que também leio por aí, que António Costa defendeu um acordo entre todos os partidos que mostre a quase unanimidade dos portugueses a pretender a renegociação do memorando, ficamos entendidos: ou a direcção do PS está só a fazer ginástica de aquecimento na mesma sala que o PSD e o CDS mais uns amigos de Cavaco Silva, para os entreter, ou, se está mesmo a negociar qualquer coisa que possa salvar este governo das chamas do inferno (e não o país) , vai causar um grande estrago ao PS.

São momentos como estes que definem um líder. Seguro, que parece que ainda não teve direito à sua prova de fogo, pode vir a definir-se nesta tempestade. Eu, que sou paciente e tolerante, espero para ver - mas Seguro que não se fie, porque, com esta direcção do PS, há pouco por aí quem ainda seja paciente e tolerante. Et pour cause.

18.7.13

o acordo PSD-CDS-PS.

12:20

Em princípio, não rejeito nenhum compromisso nem nenhum acordo a priori: costumo esperar para ver o conteúdo de qualquer coisa para ter opinião sobre a mesma. Também assim, apesar do nome, com o acordo de salvação nacional.
Agora, há uma coisa: ou o PS consegue que o PSD e o CDS façam um duplo mortal à retaguarda e aceitem mudar tanta tanta asneira que andaram a fazer, e o acordo torna isso evidente em letras gordas, ou a assinatura do PS num qualquer entendimento com essa configuração será um suicídio. E eu gosto pouco de entrar em suicídios.
Mas vou esperar para ver.

16.7.13

lágrimas de crocodilo.

09:31

Anda por aí muita gente a fazer figas para que o PS se estatele no meio desta crise.

Claro que a maioria dos que assim desejam evitam dizê-lo claramente. Vão antes pelo lado dos rodriguinhos.

Fazem previsões de que o PS aceitará isto e aquilo, sendo "isto e aquilo", sem excepção, enormes traições à pátria. Podiam expressar a vontade política de que o PS não aceite o inaceitável (para usar a expressão do "monstro inominável", que o PS não pegue na pá para ajudar a cavar mais no buraco). Podiam elencar "linhas vermelhas" que exemplificassem o que o PS nunca poderia aceitar. Seria, esse, um exercício saudável: contribuir para o debate público acerca daquilo que o PS tem de obter, para o país, nesta crise. Mas não: fazem previsões de traição do PS. Também fizeram a previsão de que a moção de censura dos melancias ia entalar o PS (o que, aliás, só podia ser o seu, dos melancias, real intento), mas não me parece que tal profecia tenha encontro com a história. Não importa: as previsões de traição do PS são o próprio objectivo das previsões: falar do PS como traidor.

Acusam o PS de se ter sentado à mesa com a direita. Esquecendo que o PS exigiu, contra o requisito presidencial, que fossem participantes todos os partidos parlamentares. E esquecendo que foram o PCP e o BE que se auto-excluíram (aliás, legitimando a questão: será que o PCP e o BE se auto-excluíram só para poderem concentrar melhor os seus ataques no PS?). E que o PS só aceitou conversar a três depois de a esquerda da esquerda ter desistido deste debate. Cavaco e a esquerda da esquerda estão a voltar a montar a barraca da coligação negativa?!

Culpam o PS por ter entrado num exercício macabro montado por Belém, onde o objectivo do presidente politiqueiro é entalar o PS no buraco da austeridade. E, com uma lógica quase tão científica como a lógica do xamanismo, entendem que o PS devia simplesmente facilitar a hipocrisia política do presidente: pondo-se de fora, era isso que o PS faria. Sim, porque se o PS simplesmente dissesse "não", Cavaco e a direita diriam com facilidade que os socialistas fogem com o rabo à seringa quando se trata de concretizar as críticas de oposição em termos propositivos de governação. O objectivo da direita (de mão dada com um presidente partidário) é insistir na ideia de que não há alternativa - e os que defendem que o PS devia ficar em casa, defendem que o PS devia facilitar essa estratégia desesperada de Cavaco e seus aliados.

Suponho que, seja conhecendo-me pessoalmente, seja lendo o que escrevo com alguma regularidade, ninguém acreditará que eu sou um ingénuo crente nas virtualidades políticas de Seguro, o actual SG do PS. Só que, mesmo assim, parece-me bizarro que se parta do princípio de que o PS fará tudo mal, mesmo contra factos que deveriam falar pelo PS. Em boa verdade, já voltámos ao tempo em que atacar o PS (mesmo que seja com a desculpa de atacar Seguro) se tornou a prioridade das prioridades para uma certa esquerda. Uma prioridade que se atravessa mesmo à frente da sua oposição à direita. Doença que as últimas notícias instanciam bem: PCP exclui PS de "contactos, reuniões e encontros" para discutir a situação política.

Será que não há, também do lado do PS, responsabilidades neste estado de coisas do lado da alternativa? Claro que há responsabilidades do PS. Desde logo, porque vozes de peso no PS têm assinalado que gostariam de ver acordos com a direita, dando a entender, por vezes, que não há fosso nenhum entre, por exemplo, o partido de Portas e os socialistas. Olhando mais ao longe: o PS continua a evitar o desafio histórico de abrir um diálogo profundo, aberto, sem preconceitos e também sem amarras, com as forças da esquerda parlamentar. O PS tem tido medo dos riscos dessa aposta, talvez por fraqueza, talvez por convicção - como se o mundo estivesse para ser salvo por pequenas acomodações. Os dirigentes do PS continuam sem perceber que a questão do diálogo à esquerda não é uma questão de paixão ideológica, mas, antes de mais, uma questão de sustentação social de qualquer tentativa de mudar o estado de coisas. O PS tem, pois, as suas próprias responsabilidades - mas o sectarismo militante da esquerda da esquerda tem feito muito bem o seu trabalho de dar álibis às direcções do PS para esconderem a mão dos gestos do diálogo necessário.

As lágrimas de crocodilo, mesmo quando os crocodilos sejam bons actores, não deixam de ser, pelo menos quando pensamos em política a sério, um truque desonesto e que não está à altura do actual sofrimento dos portugueses. O que precisamos do PS - que, nestas circunstâncias, se torna um último reduto de responsabilidade patriótica - é que seja firme e só aceite acordos que contenham uma mudança substancial da posição de Portugal face à crise. Porque, se não há milagres, é preciso mudar muito a nossa voz no mundo: deixarmos de ser o idiota do marrão a fingir de bom aluno, que engole toda a porcaria que os experimentalistas lhe colocam no prato, e passarmos a assumir colectivamente o que não aceitamos, o que queremos - e o estrago que estamos dispostos a fazer à Europa se a Europa optar por nos afogar. Esse é o elemento de mudança que só o PS pode trazer: a direita já mostrou que a sua receita é a submissão, a esquerda da esquerda está entregue à estratégia da deserção e à manobra eleitoral de assestar baterias no PS. Aliás, o comportamento do BE e do PCP é, desde já, uma primeira vitória de Cavaco: a iniciativa presidencial encontra no PCP e no BE aliados objectivos no seu principal alvo: entalar o PS. Neste sentido, as lágrimas de crocodilo são, apenas, o mais recente acto da peça intitulada "a coligação negativa".


14.7.13

há muitas maneiras de ser valente. umas enchem mais o olho, outras são mais úteis.

13:56

Julgo resultar meridianamente claro, do que tenho escrito, o apreço que me (não) merece o actual Presidente da República, bem como a falta de sentido que vejo na forma como veio pôr a marinar o governo e lançar, em termos um tanto obscuros, a ideia de um pacto a médio prazo.
Contudo, dada a excepcional gravidade da situação do país (e da Europa) e o estado de desesperança em que tantos de nós portugueses nos encontramos, acho que o Partido Socialista fez bem em aceitar o incómodo de se sentar à mesa das negociações com os líderes irresponsáveis do PSD e do CDS, que nas últimas semanas levaram ao cúmulo as suas demonstrações de impreparação para governarem o que quer que seja. Não se pode perder nenhuma oportunidade de levar o país para um rumo mais conforme ao que necessitamos. O PS, note-se, teve a correctíssima posição política de exigir que essas negociações incluíssem todos os partidos com assento parlamentar, recusando assim uma das graves entorses da abordagem de Cavaco Silva, que reservava o assunto à direita coligada e ao PS. Foi muito importante, por parte do PS, ter dado esse sinal claro de não estar entregue a uma visão restrita dos protagonistas que o país precisa para enfrentar este grave momento.
Infelizmente, parece que o PCP e o BE vieram recusar-se e entrar nesse processo negocial. A táctica política continua a sobrepor-se à necessidade de criar condições para uma discussão séria acerca de como chegámos aqui e de como daqui haveremos de sair. Lamento, porque tenho defendido, contra ventos e marés, que o PS deve esforçar-se arduamente para que o PCP e o BE tenham um verdadeiro papel no debate da governação. Só que, contra a preguiça intelectual e política de quem acha mais cómodo ficar de fora, sem ir à luta de tentar que algumas das suas ideias-chave possam fazer vencimento - o que se pode fazer? A posição do PCP e do BE será até mais cómoda: tanta coragem que se quer demonstrar só por recusar aparecer! Mais difícil é ir ao exercício da negociação: claro que partindo de posições divergentes, caso contrário nem seria uma negociação - mas não fugindo à exigência democrática de voltar a colocar as suas propostas em cima da mesa.
Fica assim claro que aplaudo o PS por ter aceite o repto de negociar: e deixo-o escrito por saber que é um risco ser visto em más companhias. Só espero que marque bem as suas "linhas vermelhas" e não se deixe envolver no mero tacticismo que a direita, hoje mais do que nunca, está a mostrar sem pudor.