6.4.13

o problema das espécies.


Há uma nova espécie de escorpião,
uma nova espécie de coruja,
há um número imaginário reinterpretado por um poeta renascido,
uma nova espécie de Paraave,
uma linhagem nova de aranhas
e uma de lagartos coloridos,
há um borboletário engenhoso,
uma nova espécie de rã voadora,
novos primatas,
novas espécies de seres dos rios,
há uma nova espécie de peixe de caverna cego,
sete novas espécies de Osga desafiando o saber da taxonomia,
três novas espécies de lampreia apenas em Portugal,
quatorze novas espécies de escaravelho,
uma nova espécie de serpente das vinhas,
novas espécies de pequenos peixes de água doce que indicam águas de boa qualidade,
uma nova espécie de leão,
e uma nova espécie de lagartixa, na Austrália

e tu perguntas "Quantas espécies existem?"
sabendo que só em 2012 a Academia das Ciências da Califórnia encontrou 137 novas espécies?
Não é evidentemente sábia a tua pergunta,
embora possa ser informativa.
Não sendo fácil.
Ou de resposta evidente.

Contudo, pior, mais difícil e mais obscura
será a pergunta
"o inferno são os outros?".

Falta perguntar pelas novas espécies de acocorados.


o Constitucional.

11:33

Em quase nada na vida somos verdadeiramente "decisores racionais". A maior parte das vezes, na maior parte das circunstâncias, não temos por onde escolher, não temos realmente opções, somos constrangidos pela falta de meios, pela falta de tempo, pela falta de conhecimentos, pela falta de alternativas. Somos empurrados, ponto final parágrafo. Mas, num certo número de circunstâncias, mobilizamos razões para decidir como fazer isto ou aquilo. Razões podem ser prazeres, necessidades, valores.

Quando pensamos na vida colectiva, especialmente naquelas encruzilhadas da vida colectiva que são particularmente complexas, vemos que as sociedades se dotaram de mecanismos que permitem tentar uma certa racionalidade das decisões. Os tribunais são um desses mecanismos: em vez de se "decidir" na hora, no calor do acontecimento, segundo as primeiras impressões, pressionados por quem mais berra, procede-se à "instalação" de um mecanismo de apreciação, discussão e decisão: estabelece-se explicitamente o que está em causa, pede-se a cada uma das partes que se explique, discute-se longamente, determina-se o que se pode saber quanto aos factos, afastam-se (tanto quanto possível) as inclinações e as emoções pessoais, fica apenas a lei como critério. Às vezes falha? Sim, mas em geral é muito melhor do que qualquer "julgamento popular", muito melhor do que apreciar por olhómetro, do que deixar agir os preconceitos dominantes no momento.

É por isto ser tão importante para a possibilidade de não vivermos na selva, de não estarmos à mercê da turba, que me faz tanta confusão que tão frequentemente as pessoas queiram substituir um julgamento por uma conversa de café, por opiniões soltas e sem contraditório numa roda de amigos. É por temer os justiceiros apressados que verdadeiramente me fazem medo os que ditam sentenças alternativas sem nunca terem lido as peças processuais, sem nunca terem ouvido as testemunhas, sem nunca terem apreciado o contraditório. Quando um arguido, por exemplo, publica centenas ou milhares de documentos sobre o seu caso num sítio da web e pede às pessoas que vão lá ver para perceberem que ele tem razão, isso quer dizer o quê? Que acredita que, em geral, somos capazes de ler milhares de páginas, sem enquadramento, e perceber o que realmente se passou há anos? A dificuldade de ajuizar foge muito à compreensão da maioria das pessoas. É por isso que os tribunais são tão especiais numa ordem pública civilizada.

O Tribunal Constitucional ditou, sobre a lei do orçamento para 2013, um acórdão com umas duzentas páginas. Não o vou ler, não apenas porque não tenho tempo para isso (mas gostava). É mais por outra razão: mesmo que o lesse, não iria tentar uma interpretação do acórdão. Tenho a noção de que os meus quase nulos conhecimentos de direito não me permitem compreender a ossatura de uma tal decisão. Tenho a noção de que é o tipo de documento que um leigo lê, pensa que percebe e, afinal, não percebe, porque lhe escapa um mundo de argumentos antecedentes, um mundo de interpretações acumuladas. Está mal que não compreendamos? Não me parece: numa sociedade complexa como a nossa, não podemos compreender tudo. Há especialistas, aprendemos a respeitar uns (pela sua coerência e razoabilidade, por exemplo) e aprendemos a desconfiar de outros (pela sua inconstância e maximalismo, por exemplo). E tentamos navegar dando o devido valor ao debate entre esses especialistas. Não quero ser especialista: acho que os meus deveres de cidadania só me obrigam a estar atento ao contraditório entre especialistas nas diversas áreas, não me podendo obrigar a ser especialista em tudo. Tenho a noção de que não posso ler um acórdão do TC, como o deste caso, e julgar com sapiência esta ou aquela alínea, como se isso fosse compreender o mundo do constitucionalismo português.

Tudo isto para dizer o seguinte. Começou o exercício de citar esta ou aquela página do acórdão do TC e dizer que isto ou aquilo está errado ou é insane. Lá está: basta ter um blogue ou um perfil no Facebook para nos substituirmos, da noite para o dia, a um tribunal superior, a um colectivo que andou meses a estudar aquele assunto, dando a nossa pequena sentença e topando esta e aquela falha - da noite para o dia, insisto - com uma clarividência e saber que deveria prover o Constitucional de reservas humanas para os próximos 150 anos.

Prefiro pensar de outro modo: tirando os detalhes, o que o TC vem dizendo é que a legalidade não está suspensa e tem de ser respeitada. Não se trata de uma querela direita/esquerda dentro do TC, como se vê pela expressão das votações (e se confirma pelo voto dos últimos chegados ao TC por proposta dos partidos de direita). Precisamos de nos concentrar em fazer frente à crise dentro da legalidade. E, em vez de estarmos sempre a dizer mal da Alemanha, aprendermos alguma coisa com ela - e termino citando Lígia Amâncio, psicóloga social e professora catedrática do ISCTE, que escrevia no Público: «Enquanto a sra. Merkel manifesta, na sua gestão política, um grande respeito pelo Tribunal Constitucional alemão, evitando tomar decisões que possam ir contra as normas constitucionais, por cá faz-se exactamente o contrário, ano após ano, e só falta pedir que se suspenda a Constituição da República Portuguesa e, com ela, a separação de poderes e a democracia.»

5.4.13

algo que estamos a precisar de fazer à ideologia dominante.

a distância entre as palavras e as imagens.


Tenho sempre muito cuidado em não embarcar nas estratégias puritanas de usar temas progressistas para esconder o desejo de controlo dos comportamentos das pessoas em sociedade. Paternalismos. Lembro-me de, há pouco tempo, o Parlamento Europeu quase ter aprovado disposições censórias sob a capa de defesa das mulheres (claro, com a pornografia pelo meio).
Isto vem a propósito de um caso concreto. Leio que um vídeo de promoção da Louis Vuitton foi acusado de dar uma "visão glamorosa” da prostituição. Ao ler o texto pensei: "pronto, lá vem a conversa do costume: umas maminhas à mostra e já cai o Carmo e a Trindade da objectificação da mulher". Depois fui ver o vídeo (que deixo abaixo). E, na realidade, achei que havia uma sugestão de prostituição de rua, uma ideia de que as belas mulheres da moda andam por aí nas ruas a abordar os carros e os transeuntes e que isso é bonito. Ou que, ao invés, as mulheres que andam por aí na rua a abordar carros o fazem por desejo exibicionista.
Claro que eu ter percepcionado a coisa deste maneira não é um argumento, é apenas uma sensação. Pergunto: qual dos dois lados das minhas reacções está certo e qual está errado? Estou interessado nas vossas opiniões (especialmente nas opiniões de quem NÃO acha que não existe questão nenhuma aqui).



4.4.13

Relvas e a história. De Portugal. Ou será História Universal, mesmo?!





Miguel Relvas sai do Governo e Crato vai anular-lhe a licenciatura.

Pouca cera para fraco defunto. A saber:

Alínea a. Miguel Relvas disse: "Sei que só a história me julgará convenientemente e com distância". Oh homem, a história quer lá saber disso para alguma coisa. Alucinado até à despedida: mesmo os maus precisam de ser bons nisso (ser maus) para a história olhar para eles.

Alínea b. É bem um sinal do país que somos que Crato espere que Relvas deixe de ser ministro para lhe anular a licenciatura.


engenho europeu.




(Correio cipriota.)


3.4.13

profetas portugueses, para o mercado interno e para exportação.




No princípio de Janeiro, Durão Barroso declarou que o Euro tinha sido salvo e que a crise do Euro era coisa do passado.

Este tipo de profetas... pode ser coisa de família... política ?!


(fonte)

artistas portuguesas.


Coisas de que me lembro quando ouço dizer que a maior artista portuguesa da actualidade (?!?!) está a expor num palácio dos poderes que temos.


Paula Rego, O Celeiro, 1994

1.4.13

VISITA AO ESTÚDIO DE FRANCIS BACON.

Clicar em qualquer uma das imagens levará o clicador ao meu último texto na plataforma MILPLANALTOS.