8.3.13

mulheres que não pedem licença (12).


Hoje, o dia todo, de hora a hora, mulheres. Hinos. Mulheres que são hinos.

TRÊS TRISTES TIGRES - O mundo a meus pés



mulheres que não pedem licença (11).


Hoje, o dia todo, de hora a hora, mulheres. Hinos. Mulheres que são hinos.

Joan Baez - "Do Right Woman, Do Right Man"



mulheres que não pedem licença (10).


Hoje, o dia todo, de hora a hora, mulheres. Hinos. Mulheres que são hinos.

Destiny's Child - Independent Women



mulheres que não pedem licença (9).


Hoje, o dia todo, de hora a hora, mulheres. Hinos. Mulheres que são hinos.

Team Dresch, "She's Amazing"



mulheres que não pedem licença (8).


Hoje, o dia todo, de hora a hora, mulheres. Hinos. Mulheres que são hinos.

Salt-n-Pepa, "None of Your Business"




mulheres que não pedem licença (7).


Hoje, o dia todo, de hora a hora, mulheres. Hinos. Mulheres que são hinos.

Carole King, "(You Make Me Feel Like A) Natural Woman"



mulheres que não pedem licença (6).


Hoje, o dia todo, de hora a hora, mulheres. Hinos. Mulheres que são hinos.

Aretha Franklin, "Respect"



mulheres que não pedem licença (5).


Hoje, o dia todo, de hora a hora, mulheres. Hinos. Mulheres que são hinos.

Bratmobile, "Cool Schmool"



mulheres que não pedem licença (4).


Hoje, o dia todo, de hora a hora, mulheres. Hinos. Mulheres que são hinos.

The Raincoats - Lola


mulheres que não pedem licença (3).


Hoje, o dia todo, de hora a hora, mulheres. Hinos. Mulheres que são hinos.

Bikini Kill, "Rebel Girl"



mulheres que não pedem licença (2).


Hoje, o dia todo, de hora a hora, mulheres. Hinos. Mulheres que são hinos.

Patti Smith - "Piss Factory"




Sixteen and time to pay off
I got this job in a piss factory inspecting pipe
Forty hours thirty-six dollars a week
But it's a paycheck, Jack.
It's so hot in here, hot like Sahara
You could faint in the heat
But these b_tches are just too lame to understand
Too goddamned grateful to get this job
To know they're getting screwed up the ass
All these women they got no teeth or gum or cranium
And the way they s_ck hot sausage
But me well I wasn't sayin' too much neither
I was moral school girl hard-working asshole
I figured I was speedo motorcycle
I had to earn my dough, had to earn my dough

But no you gotta, you gotta relate, right?
You gotta find the rhythm within
Floor boss slides up to me and he says
"Hey sister, you just movin' too fast,
You screwin' up the quota,
You doin' your piece work too fast,
Now you get off your mustang Sally
You ain't goin' nowhere, you ain't goin' nowhere."
I lay back. I get my nerve up. I take a swig of Romilar
And walk up to hot sh_t Dot Hook and I say
"Hey, hey sister it don't matter
Whether I do labor fast or slow,
There's always more labor after."

She's real Catholic, see.
She fingers her cross and she says
"There's one reason. There's one reason.
You do it my way or I push your face in.
We knee you in the john
If you don't get off your get off your mustang Sally,
If you don't shake it up baby.
" Shake it up, baby. Twist & shout"

Oh that I could will a radio here.
James Brown singing
"I Lost Someone" or the Jesters and the Paragons
And Georgie Woods
The guy with the goods and Guided Missiles ...

But no, I got nothin', no diversion, no window,
Nothing here but a porthole in the plaster, in the plaster,
Where I look down,
Look at Sweet Theresa's convent
All those nurses, all those nuns scattin' 'round
With their bloom hoods like cats in mourning.
Oh to me they, you know,
To me they look pretty damn free down there

Down there not having to press those smooth
Not having to smooth those hands against hot steel
Not having to worry about the inspeed
The dogma of inspeed of labor
They look pretty damn free down there,
And the way they smell, the way they smell
And here I gotta be up here smellin'
Dot Hook's midwife sweat

I would rather smell the way boys smell--
Oh those schoolboys the way their legs
Flap under the desks in study hall
That odor rising, roses and ammonia
And way their d_cks droop like lilacs
Or the way they smell that forbidden acrid smell
But no I got, I got pink clammy lady in my nostril
Her against the wheel me against the wheel
Oh the inspeed-o slow motion inspection is drivin' me insane
In steel next to Dot Hook -- oh we may look the same--

Shoulder to shoulder sweatin' 110 degrees
But I will never faint, I will never faint
They laugh and they expect me to faint
But I will never faint
I refuse to lose, I refuse to fall down
Because you see it's the monotony that's got to me

Every afternoon like the last one
Every afternoon like a rerun next to Dot Hook
And yeah we look the same
Both pumpin' steel, both sweatin'
But you know she got nothin' to hide
And I got something to hide here called desire
I got something to hide here called desire
And I will get out of here--

You know the fiery potion is just about to come
In my nose is the taste of sugar
And I got nothin' to hide here save desire
And I'm gonna go, I'm gonna get out of here
I'm gonna get out of here, I'm gonna get on that train,
I'm gonna go on that train and go to New York City
I'm gonna be somebody,
I'm gonna get on that train, go to New York City,
I'm gonna be so big I'm gonna be a big star
And I will never return,
Never return, no, never return,
To burn out in this piss factory
And I will travel light.
Oh, watch me now.

mulheres que não pedem licença (1).


Hoje, o dia todo, de hora a hora, mulheres. Hinos. Mulheres que são hinos.

Nina Simone, "Four Women".



dia da mulher.

10:00

Logo a começar o Dia da Mulher ouvi na TV umas senhoras muito chiques a declararem que o Dia da Mulher não lhes diz nada. E perguntavam "mas não há o Dia do Homem, pois não?".
Pois, eu também anseio pelo dia em que não faça sentido o Dia da Mulher. Mas ainda não chegámos a esse dia - porque, neste mundo em que vivemos, passa pelo ser mulher muita discriminação real. Gente de carne e osso discriminada, não é nenhuma brincadeira, embora possa dar umas piadas na televisão.

É só para lembrar que hoje é o Dia da Mulher. Isto não é poesia, nem sentimentalismo. É política: isso de sabermos como podemos ter uma vida boa juntos.

7.3.13

somar 1 + 1 dá muito jeito.

o modelo alemão.

13:44


Autoeuropa aumenta salários e compensa trabalhadores pela conjuntura nacional.


Sim, uma parte do "modelo alemão" é participação dos trabalhadores na gestão das empresas. O que se passa hoje na Autoeuropa não é fruto do acaso, nem algo que tenha começado ontem. Na Alemanha, é o que resta do sistema de co-gestão (uma cultura, para lá das regras, mas que não vive sem garantias legais) que tem amortizado o choque da liberalização das relações de trabalho. Por cá, o sistema de relações laborais na Autoeuropa demorou muitos anos a construir, sendo que os trabalhadores deram muito em empenho e flexibilidade, mas sempre em troca de mais poder dentro da empresa. Acima de tudo, o que tem de essencial "a participação" é que, sendo a empresa um sistema que tem de ser gerido com atenção às condicionantes ambientais, a governação partilhada permite que os trabalhadores e a administração percepcionem a gestão como um assunto de todos, em que todos podem ganhar juntos (se se articularem) ou perder juntos (se atentarem apenas no interesse presente de uma das partes). O contrário deste "modelo alemão" é a miopia dos "patrões" que confundem gestão com rapinagem, com "soluções" imediatistas que, destruindo a vida das pessoas, enfraquecem a economia. O contrário deste "modelo alemão" também é a irresponsabilidade sindical, que também existe. Esta é a face do modelo alemão que os troikismos domésticos não vêem. E esse nem sequer é um defeito exclusivo da direita: nem o PS, alguma vez na sua história governativa, deu alguma vez relevo suficiente a esta questão.

(No meio disto, o que é que o Público escolhe como legenda da foto que ilustra a notícia? Isto: "Empresa compromete-se com a dinamização de actividades desportivas e culturais." Sem dúvida, o que mais merece ser destacado, não é?!)

6.3.13

Chávez.

15:58

Hugo Chávez morreu. Não vou refugiar-me na conversa da treta de que lamentamos a perda de qualquer vida humana. Claro que sim, mas não escrevemos postas sobre cada uma das vidas humanas que se perdem. Falemos, portanto, de Chávez político.

Um ponto até Paulo Portas reconhece: os portugueses na Venezuela agradecem que o chavismo nunca se tenha virado especialmente contra eles. Os que pensam que essas coisas não contam, é porque nunca saíram de casa. Adiante.

Chávez tinha um estilo que, em muitos dos seus aspectos, não aprecio. Não gosto muito do espectáculo como arma política, nem gosto que se estique a legalidade, nem gosto de pressão pesada sobre os adversários políticos, não aprecio messianismos. Só que a política não se faz em laboratórios: naquele lado do mundo, Chávez provavelmente não teria sobrevivido muito tempo se não tivesse jogado assim, porque ali há sempre demasiados poderes, políticos e económicos, a tentar usar todo o arsenal de armas sujas para proteger interesses específicos - contra os dirigentes eleitos. Chávez foi eleito e releito democraticamente, tendo sobrevivido a um golpe de Estado quase vitorioso. As coisas por aquelas bandas passam-se assim; tentar julgar o estilo de Chávez sem julgar os seus adversários, é pura hipocrisia. Em muitos momentos tememos que o chavismo descambasse, mas a verdade é que isso nunca aconteceu escandalosamente.
Talvez Cháves não fosse um rapaz muito delicado e talvez tomasse atalhos que tendemos a não apreciar. Contudo, não tenho dúvidas de que, à sua maneira, pensava no seu povo e pensava em coisas concretas de que as pessoas precisam e de que as pessoas gostam. Deixou muitos problemas, sociais e económicos, além de políticos. Mas, no essencial, sendo de um tipo de revolucionários cuja falta de subtileza por vezes nos assusta, faltavam-lhe claramente alguns dos defeitos de políticos que se julgam mais refinados: a insensibilidade, o contorcionismo e o esquecimento das pessoas que neles votam.
A qualquer juiz apressado a julgar Chávez, como se a vida se jogasse toda à mesa de cafés, pergunto apenas: um país que tolera o jardinismo pode atirar pedras a Chávez?

5.3.13

última hora: acordo em Londres sobre as dívidas.

Somos todos italianos?

14:49

1. O movimento de Beppe Grillo teve muitos votos e tem um significado anti-sistema. Contudo, contrariamente ao que parecem pensar algumas pessoas, isso não nos obriga a concordar com ele: podemos criticar o que ele faz e diz, podemos discordar das suas propostas e dos seus actos. Parece que este ponto ainde merece ser sublinhado, já que há por aí (nomeadamente nas redes sociais) quem agora idolatre o homem e trate de morder as canelas a quem quer que duvide das suas potencialidades milagreiras. Alguns dos instantâneos admiradores de Grillo até querem exigir-nos reverência: antes podíamos chamar palhaço a Berlusconi, mas agora não podemos chamar palhaço a Grillo, porque sua santidade o comediante parece estar em processo de canonização. Os mesmos que acham que podem dirigir todo o tipo de mimos a qualquer político do seu desagrado (de fdp para cima), agora adoptam a mascote “anti-política” e querem poupar-lhe os ouvidos. Uma bizarria, embora concorde que o presidente italiano tenha recusado receber o candidato do SPD a chanceler por este ter chamado publicamente palhaços a Berlusconi e Grillo – mas isso por razões de decência institucional. É que alguns, muito democratas, acham que alguns votos merecem mais respeito do que outros: a coligação liderada pelo Partido Democrático teve mais votos em ambas as câmaras do parlamento, mas qualquer um pode criticar esses políticos; o movimento de Grillo, esse, teria de ser acarinhado necessariamente – só “porque sim”, porque assim foi decretado não se sabe bem por que carga de água. O que os votos valem depende das nossas opções, não dependem de nenhum automatismo eleitoral: Hitler também se alcandorou ao poder pelos seus êxitos eleitorais, Pedros Passos Coelho ganhou eleições e isso não nos inibe a crítica – embora alguns apressados pensem que sim. Portanto, como não tenho tendência para correr atrás de ídolos, prefiro analisar o que as pessoas e os movimentos dizem e fazem e tentar ajuizar. É isso que vou tentar fazer parcialmente no que segue, quanto ao movimento de Beppe Grillo.

2. Em primeiro lugar, é claro que há uma série de fenómenos, mais do que diagnosticados, que não têm sido combatidos, pela política e pela cidadania, com suficiente foco, com o resultado de um arrastamento insuportável que puxa qualquer regime para o fundo. Se tem de vir alguém de fora dos “habituais” para romper com isso, que venha. Grillo não é um recém-chegado à vida pública italiana: há muitos anos que tem feito denúncias bem sucedidas contra políticos e dirigentes corruptos. Foi banido da televisão quando chamou ladrão a Craxi, coisa que parece que Craxi era mesmo; denunciou um juiz por corrupção, juiz esse que depois foi condenado por esse comportamento. Quando o sistema político se fecha sobre si mesmo e tolera o mal no seu seio, a gangrena tarde ou cedo fará mossa.

3. Há partes do discurso de Grillo que são apelativas, principalmente a sua vertente ambientalista, incluindo propostas para poupança energética, bem como certos aspectos relativamente ao funcionamento da política (p. ex., a proposta de que os deputados não possam fazer mais do que dois mandatos e não possam exercer outra profissão). Os aspectos instrumentais (como a arte de usar a internet como base das campanhas) não me aquecem nem me arrefecem: ser eficiente na propaganda não é sinal de boa nem de má política (duas coisas distintas que já foram confundidas antes, por exemplo a propósito de Obama). Mas pode ser interessante a proposta de que nenhuma cadeia de televisão nacional e nenhum jornal nacional possa ser detido maioritariamente por uma única entidade privada.

4. Outras facetas do discurso de Grillo só podem merecer a minha rejeição.
Podemos deixar-nos cativar pela proposta de um subsídio de desemprego mínimo de 1000 euros durante três anos? Talvez.
Podemos concordar com a redução da semana de trabalho a 20 horas por semana? Duvido que Grillo tenha feito as contas ao que isso significa. Mas, enfim, sonhar não custa. Outras coisas parecem-me mais graves.
Pode perfeitamente ser o caso que o homem não esteja apenas contra esta ou aquela política, estando mesmo contra a própria política democrática. Claro, navegar no mar anti-partidos, não sendo muito original, continua a pagar: a exigência da abolição do financiamento público dos partidos pode captar muitas simpatias em quem não quer parar dois minutos para pensar no seu significado, mas é claramente uma proposta antidemocrática, porque a alternativa seria só poderem fazer política aqueles que tivessem meios – quer dizer, riqueza – para o efeito (como expliquei anteriormente). Claro que isso joga bem com a tese de que os ordenados dos políticos fazem parte das causas da crise: mas aí temos apenas uma mentira que ajuda a suportar um ataque a um pilar da democracia. Além do mais, percebe-se: Grillo não tem um partido, tem uma massa que combina o “regionalmente cada um faz o que quer”, por um lado, e, por outro lado, o “quem manda aqui sou eu” (sem instâncias de decisão para além do líder, que tipo de democracia pode haver? as reuniões secretas de eleitos, que para já serviram para se encontrarem uma primeira vez?).
Ao mesmo tempo, enquanto vai dizendo que não é de direita nem de esquerda (começo a rosnar logo que ouço esta tese em particular), declara que seria desejável eliminar os sindicatos, porque são tão velhos como os partidos (serão os partidos tão velhos como a democracia?) e porque os sindicatos são os responsáveis pelas dificuldades dos trabalhadores. Revelador.
Mas a táctica, evidentemente, é muitas vezes um excelente revelador: não sendo nem de esquerda nem de direita sentiu-se à vontade para declarar a militantes de extrema direita, que queria captar para as suas listas: “o anti-fascismo não é da minha competência”.
Não seria pelo lado das suas ideias sobre imigração que a extrema-direita deixaria de o apoiar: tem-se pronunciado contra os imigrantes e é favorável a que os filhos dos imigrantes não possam adquirir a nacionalidade italiana.
A sua exigência de que cesse a participação italiana em missões de paz internacionais é também um indicador da sua visão.
E as suas “mãos limpas” também ganham algum esclarecimento com as suas declarações em Palermo: "a Máfia, pelo menos, não estrangula as suas vítimas, como faz o governo".
Julgo, pois, ter bastantes razões para desconfiar.

5. De qualquer modo, mais do que os discursos, a prática esclarecer-nos-á no futuro sobre o que é este movimento “cinco estrelas”. Agora, sob uma luz mais intensa dos holofotes, talvez se torne mais sofisticado – ou talvez seja mais fácil perceber como realmente encarna o seu papel de tomba-sistemas. O passado recente, contudo, deixa alguns alertas. Foi noticiado que o presidente de Mira, eleito pelo movimento, despediu uma assessora pela gravíssima falta de estar grávida – sem que Grillo tenha dito uma palavra de reprovação sobre esse acto. Durante a campanha eleitoral, Grillo nunca aceitou dar uma entrevista (uma vez aceitou, mas não compareceu), o que dá uma versão radical de algo que conhecemos por cá: um ex-PM e actual PR de Portugal que, numa certa campanha eleitoral, se escusou ao confronto por, segundo ele, não estar para que os outros candidatos se promovessem à sua custa (nos debates).

6. Posto isto, não posso dizer-me um entusiasta de Grillo. As recentes eleições em Itália são o espelho do momento que vivemos, a vários níveis: alguns políticos (especialmente os que vivem longe dos países e das pessoas em dificuldades, como o presidente da Comissão Europeia) continuam a falar como se não houvesse tanta gente a virar as costas ao corrente modo de fazer política neste Ocidente que nos toca; muita gente sente que a única escolha que lhe deixam já só tem duas vias: calar (e tentar comer as sobras) ou tentar deitar todo o edifício para o lixo; a “Europa” é cada vez mais percepcionada como culpada dos nossos males. Compreende-se bem que, aqui chegados, movimentos de ruptura com “o estado a que isto chegou” comecem a recolher apoio popular importante, não apenas nas ruas, mas também nas urnas.
Há, portanto, muito que pensar – até porque as situações de crise são também momentos para revelar as dificuldades que o pensamento tem em acompanhar a realidade. Também por cá há muito para reflectir – e agir. O descontentamento popular, quando provocado pela insistência em esmagar a vida das pessoas, ou encontra resposta na política que há – ou outra política terá que ser inventada. Mas, desesperados, não podemos embarcar no primeiro comboio que apareça. (Fui muito fustigado quando, no início da "primavera árabe", manifestei as minhas dúvidas quanto à possibilidade de dali saírem propriamente democracias; infelizmente, os que ardiam no desprezo pelas minhas cautelas, podem não ter chegado a aprender o valor das dúvidas.)
De qualquer modo, a Itália, nestes momentos, é a demonstração de que a palavra de ordem "o povo é quem mais ordena" não é, necessariamente, uma resposta aos problemas reais e complexos que vivemos. A democracia precisa de algo mais do que a mecânica dos votos; precisa de alguma forma de concertação activa, dinâmica, agregadora, mediadora. Como sempre defendi, uma democracia não se faz só com eleições de tanto em tanto tempo. Se temos ou não democracia, isso depende também de que os representantes se compreendam como representantes de uma parte, não do todo. E que, como representantes de uma parte, saibam como trabalhar com os representantes das outras partes. Nesse sentido, o problema da Itália é também o nosso. Ah, pois, agora “somos todos italianos”.


(Algumas das fontes: uma,duas, três, quatro, cinco, seis, sete.)

separados à nascença?

voragem.

12:03

Político conservador grego condenado a prisão perpétua por desvio de 17 milhões de euros.

A propósito da notícia de que um político grego, considerado culpado de um desvio de 17 milhões de euros, foi condenado a prisão perpétua, leio "por aí" (redes sociais) muito regozijo.

Parece que a conversa dos direitos humanos é só para os dias de sol, coisa que se esquece facilmente em dia de chuva. Ainda há quem responda "pior seria a pena de morte". Não vale a pena repetir os argumentos expandidos há dezenas de anos acerca da precariedade da justiça humana: neste clima já não se ouve nada.


Os Desastres da Guerra, Graça Morais (o tempo presente).



(Clicar aumenta)

4.3.13

o carrinho de mão vermelho.

17:10

William Carlos Williams morreu faz hoje (4 de Março de 2013) cinquenta anos.
O poeta (e antropólogo) Luís Quintais presta homenagem com uma tradução do seu poema The red wheelbarrow.  Aproveitemos.



Clicar na imagem para ler a tradução portuguesa do poema.

precisamos de uma coligação.

12:21

As manifestações populares de 2 de Março: ainda há quem as queira reduzir a uma discussão sobre números (seja empolando as estimativas, seja desconfiando militantemente, sempre ou apenas quando se gosta do governo, dessas mesmas estimativas); ainda há quem as reduza a manobras tácticas de grupelhos ou de partidos; ainda há quem as compare com eleições, para desvalorizar o seu sentido democrático, como se a democracia fosse só o voto; ainda há quem as absolutize (para alguns entusiastas tornou-se quase pecado não ir à manifestação). Eu, que não fui à manifestação (talvez os dedos de uma mão quase cheguem para contar as manifestações a que fui desde o 25 de Abril), se não vejo grande utilidade em fazer do currículo manifestatório o teste do empenho numa alternativa política ao "estado a que isto chegou", também não posso rever-me em alguns arroubos comentativos que tentam pintar a coisa como um evento sem grande significado.

O que me importa é que não há jardins bonitos só com um tipo de flor.

Os grandes desafios só podem ser vencidos por grandes convergências de vontades e de esforços. A crise mudou o mundo, pelo que será preguiça demasiada pensar que podemos voltar a pensar tudo como dantes. Fazer o que há a fazer - e, ao mesmo tempo, pensar o que há a fazer de novo - requer uma base social de apoio e uma mobilização de inteligências muito mais ampla do que oferece qualquer partido ou qualquer manifestação. O país não vai ser mudado só com os que foram ou apoiaram as manifestações, mas as manifestações deram a ver (parcialmente) a extensão da dor. O combate político que falta fazer é encontrar o denominador comum das forças e vontades que recusam a visão do mundo que desenhou esta austeridade, bem como os erros globais que a tornaram possível - e, depois, criar a base de uma ideia para sair daqui.

Isso não será possível numa base nacionalista: Portugal não sobrevive de costas voltadas para o mundo, um novo isolacionismo é uma ilusão perigosa, a base política mínima para a soberania fazer algum sentido num mundo global é a Europa organizada. (Não gostamos da orientação da UE? Também não gosto da orientação actual de Portugal e não é por isso que me refugio na freguesia.) Sair deste atoleiro só é possível numa base política com um fundamento claro: o respeito pela dignidade das pessoas, de cada pessoa, só é possível se não estivermos sempre em situação precária. O fundamento da selvajaria do extremismo liberal é manter-nos todos precários: só valemos o que produzimos em cada momento, somos sempre descartáveis, não temos direito a projectos de vida (o nosso único projecto será sobreviver), o dia de amanhã terá de ser incerto para sermos mais líquidos como mercadorias, quanto mais incerta a vida mais dóceis à máquina da exploração. Esse é o fundamento da opressão; é aí - em mudar isso - que terá de ser focado o princípio de uma nova vida. Parece pouco? Tentemos.

Uma coisa é certa: precisamos de um "coligação" para sair daqui. (Não, não estou a falar de nenhuma forma política precisa, estou a falar de uma atitude, de uma vontade, de uma mobilização). Não bastam os manifestantes, não bastam os não-manifestantes, não bastam os partidos, nem os que estão contra os partidos. E, claramente, dispensa-se uma mercadoria muito em voga nestes dias: o sectarismo. Designadamente, o sectarismo das vanguardas, dos maximalistas, dos iluminados, dos que estão sempre cheios de certezas acerca do caminho (especialmente quando o caminho não está feito). Certamente, não vamos sair daqui de braço dado com os que insistem que estamos a fazer o que deve ser feito. Mas, dada essa fronteira, precisamos de uma coligação de um tipo novo. Que, evidentemente, está toda por fazer.