9.2.13

O Estado do Bosque.


1. Fui ontem, de novo, sorte minha, a uma das celebrações que mais me alimentam: Teatro no Bairro Alto pela gente da Cornucópia. O Estado do Bosque, texto teatral muito recente de José Tolentino Mendonça, acabado de editar pela Assírio & Alvim. (Falhei a estreia absoluta, na quinta-feira, com grande pena minha, porque não havia lugares onde eu coubesse, nem mendigando.) Tenho de começar por uma confissão: li o texto poucos dias antes de ir ao teatro, o que, tratando-se de um texto novo, marca a forma de ver tudo, porque a leitura cria um estado de expectativa diferente daquelas situações em que vamos ver representar um texto que já lemos ou vimos há muito.

2. Estamos naquele teatro, transformado, sem as habituais bancadas, dispostos em volta da cena, envoltos pelas escuras paredes, como também nós perdidos no bosque. Esta peça de teatro é um texto de um poeta, sabe-se. E é levada à cena pela companhia, e pelo encenador, que, a meu ver, são os mais metafísicos da sua arte, hoje entre nós. Por captarem o que não está no plano do palpável, à frente dos nossos olhos. Tudo honrou essa condição, dando-nos a ver um espectáculo poético e metafísico, de grande beleza e profundidade. Inquietante. Porque nos pergunta a cada passo se ainda estamos com garra de estarmos vivos. Vivos o suficiente para voltarmos a pensar outra vez. E porque nos sentimos perto do encantamento – e é esse, talvez, o problema: porque não se vive sem encantamento, tanto quanto, por outro lado, o encantamento é a cova onde podemos perder o norte.

3. Nesta peça há sete cenas, todas no texto se chamam diálogos. Os diálogos “da orla”, “da casa”, “do poço”, “do limiar”, “da clareira”, “do sonho”, “do bosque”. Há um bosque; há um estar à beira do bosque; há pessoas que se encontram nessa fronteira entre fazer ou não fazer a viagem; há um guia para conduzir os curiosos, ou necessitados, bosque adentro – e esse guia é cego, a ele o tremendo do bosque não o cega, porque cego já ele é e qualquer cegueira que lhe seja acrescentada virá de dentro, ou dos outros, e não do insondável bosque, que por esse lado nada pode contra ele. E, ali, naquele momento em que estamos presentes ao teatro, a escuridão é o nosso bosque, a escuridão preparada pelo encenador e actor que corporiza a personagem do guia.

Fotografia daqui: Local.pt

4. Há, pois, sete cenas; todas elas no livro se chamam “diálogos”. Mesmo o “diálogo do sonho”, em que o guia dialoga com o Destino, que ali se torna um diálogo interior. Mesmo a cena IV, “o diálogo do limiar”, que só conta com a fala de John Wolf, o guia cego para o bosque. Mas isso justifica-se: é nesta cena que Wolf faz a sua oração ao Nada, uma glosa dessa oração central dos cristãos que é o Pai Nosso. Ora, a oração (ao “Pai Nosso que estais no céu” ou ao “Nada nosso que estás no Nada”) não é um monólogo: tem um interlocutor, pressupõe uma história comum anterior, uma relação em curso, um futuro à espera. Como escreve Cintra, o “núcleo da viagem estática de John Wolf” é “uma glosa do Pai Nosso, onde a palavra Pai, Deus, se substitui por Nada, ainda que menos blasfemo do que se pensa, porque na nossa cabeça de adultos racionais já entendemos que Deus não pode ser o Velho de barbas…”. Assim, todas as sete cenas são diálogos, mesmo que isso escape a quem não pertença à tradição com que conversa esta peça.
 
5. Tenho andado, confesso, agnóstico que sou moderadamente atento às coisas da religião, tenho andado ansioso com os trilhos deste homem, encenador e actor: Luís Miguel Cintra está, declaradamente, de novo à procura de sentido pela religião. E esta peça é mais um passo nessa procura. Ele é do tempo em que o sopro renovador do Concílio Vaticano II varria a igreja universal; do tempo em que por cá os “católicos progressistas” jogavam a fé na resistência à tirania política; e do tempo, depois, em que a “revolução” misturou tudo isso com urtigas, que não matam mas fazem muita comichão. E encontra-se, agora, pouco a pouco, a tomar consciência de se ter um tanto esquecido disso – sem renegar, mas sem renovar os votos. E, não sei bem com que urgência, dá-se conta (quando leva à cena, no Nacional, um auto religioso de Gil Vicente?) que talvez os seus espectadores não saibam do que ele fala (do que fala o seu teatro) quando fala de dentro de uma tradição religiosa. E dá-se conta de que talvez ele possa suprir, com uma ponte feita de linguagem, essa ameaça de um corte na comunicabilidade entre essa tradição e preocupações de hoje. Volta, assim, a galope, o “católico progressista” (entre aspas, por ser um rótulo) – e volta político, anticapitalista. Um Deus, uma fé, contra a massificação consumista, pela responsabilização de cada um face a todos.

6. Este espectáculo traz mais para a luz do dia, mais para a frente do palco, um Cintra em ebulição espiritual no processo de se encontrar com um dos homens da Igreja que hoje mais à vontade praticam entre nós (sem grandes excitações mediáticas) uma pertença ao pensamento inquieto com o momento presente: José Tolentino Mendonça, padre católico, poeta, intelectual, também um responsável nas estruturas do catolicismo. Ele escreveu esta peça, O Estado do Bosque, que vem agora à cena num ciclo do Teatro da Cornucópia intitulado “O Nome de Deus”. Um ciclo que inclui uma leitura do ateu e comunista Pier Paolo Pasolini – porque Cintra insiste em chamar textos anticatólicos ao seu pensar do espiritual (sem que fiquemos a perceber, nós, como se relaciona Cintra com uma Igreja oficial que, ao nível global, apesar de Tolentino e outros, coloca esta sua abertura cristã claramente em contracorrente com a tendência para vigiar e punir as heterodoxias).
Cintra escreve que a peça de Tolentino “é uma revisitação contemporânea, abstracta, é o negativo do Auto da Alma”, que “tenta a criação de uma cumplicidade nova, laica”, na qual entra “a ideia de salvação, de percurso ou viagem”… pelo bosque. Um bosque contemporâneo, onde somos muitíssimo mais livres de nos perdermos – se é que isso é liberdade. Sendo, de qualquer modo, pluralidade – “almas humanas”, no plural – porque Cintra vê em Tolentino a fraternidade em vez da autoridade, o espaço para a dúvida como possibilidade de Verdade.

7. Contudo…
No dizer de Cintra, a peça tem “mil sobreposições aos episódios da Bíblia” e o encenador joga com isso. Estranho, contudo, que não tenha grande peso, na explicação que Cintra dá da sua leitura, a possibilidade de outras sobreposições – não da peça com a Bíblia, mas da peça com outros textos, contextos e pretextos da cultura contemporânea. Há, ocasionalmente, evocações filosóficas e antropológicas que são atiradas inconsequentemente para a fogueira, sem nada chegarem a aquecer (o eterno retorno, a questão dos ritos, o tema da espera). Mas isso, embora provoque algum desconforto no espectador que fui, como se distraísse sem necessidade e sem proveito, pode moer mas não mata. A minha questão é outra.
Todo o texto é percorrido por uma tematização do “caminho”, do “caminhar”; fala-se mesmo em “caminho da floresta”; o guia cego viajou milhares de quilómetros pelo mundo; o tema do “faz-se caminho ao andar” é explicitado numa fala de Wolf: “Quem apenas quer a meta não viaja”. Por outro lado, já se disse que tem um lugar central nesta peça uma “oração ao Nada”. O Nada. Ora, o “caminho” e o “Nada” têm muito que se lhes diga no debate filosófico do século XX. Que não vamos revisitar; apenas evocar num aspecto muito circunscrito, para perceber se não será preciso ir além das “mil sobreposições aos episódios da Bíblia” para ser espectador desta obra.

8. [Intervalo: se Cintra lesse isto diria que eu sou um intrometido e não percebi nada – ou não tivesse ele escrito: “o que a peça nos provoca é, uma vontade de remeter a filosofia para a carga lúdica da vida e simplesmente entrar em estado de oração”.]

9. Comecemos pelo Nada. O “Nada” pesa muito na história da filosofia de um tempo onde, até certo ponto, ainda estamos. Toco apenas num pequeno ponto: das profundezas da década de 1920 vem uma disputa pesada e nunca mais sanada, no centro da qual está a invocação do “Nada” como questão central na filosofia – ou, alternativamente, como questão espúria.
Rudolf Carnap, no seu ensaio de 1931 intitulado “A eliminação da metafísica através da análise lógica da linguagem”, desenha um programa filosófico de eliminação da metafísica como “palavreado sem sentido”. Essa “eliminação” resultaria da demonstração de que aquilo que parecem enunciados nos textos “metafísicos” não passam de objectos linguísticos desprovidos de significado, o que, supostamente, se demonstraria por uma combinação de verificação empírica e aplicação da lógica formal. A “eliminação da metafísica”, de Carnap, toma como um alvo concreto a lição inaugural que Martin Heidegger tinha pronunciado em 1929 na Universidade de Freiburg, intitulada “O que é a metafísica?”. Heidegger estava em grande destaque, tendo acabado de publicar “Ser e Tempo” (1927), que se tornou imediatamente um clássico, sendo que a escrita dessa obra aconteceu em grande parte durante a sua longa estadia em Marburg, a universidade de Carnap por essa altura. Alguns autores consideram que esta “disputa” foi um dos momentos de choque que criaram a divisão entre a chamada “filosofia continental” e a “filosofia analítica”. Ora, o que interessa para o nosso propósito aqui agora é que o “Nada”, o “nadificar”, a relação do “nada” com a negação, e a importância que Heidegger concede a essas questões numa consideração do que seja a tarefa da filosofia, é precisamente o foco do “ataque aos metafísicos” desferido por Carnap.
Carnap é uma figura central do “positivismo lógico”, sendo um dos três redactores de "A Concepção Científica do Mundo: o Círculo de Viena" (1929), mais conhecido como o Manifesto do movimento, onde o grupo se coloca na oposição entre duas formas de fazer filosofia: contra a “metafísica especulativa”, pugnando pela investigação antimetafísica "aplicada aos factos", praticada no quadro de uma concepção científica do mundo. Heidegger representa tudo aquilo a que se opõem – e a temática do “Nada” é uma chave de tudo aquilo que abominam. Ora, a peça não deixa de lado esta fractura entre metafísica e ciência, ou, pelo menos, entre as pretensões totalizantes que existem de um e outro lado. A personagem Viviane Mars, uma etóloga, que estuda o comportamento humano enquanto comportamento animal, é suavemente ridicularizada no texto como uma cientista de vistas estreitas enquanto ser humano. Esta é uma cena que (embora isto possa ser defeito meu como leitor) acaba muito mais clara na representação do que no texto. Escreve Cintra: “Duma cena gosto muito de maneira especial. A cena da pobre etóloga que tudo reduz a regras, como se de um animal a outro não houvesse diferença, como se todos os homens fossem iguais. Dir-se-ia de facto uma cena que se passa na montra de algum museu de História Natural, ou dentro da TV em cenário artificial, que é mais ou menos a mesma coisa. Nenhuma metafísica. (…) Em cena um rapaz e uma rapariga. Entra pelos olhos dentro que o desejo anda por ali, e o raio da moça agarrada ao livrinho, com a vida diante dos olhos, não consegue largar o mal do nosso tempo, a técnica, perante um moço que lhe está literalmente a cair aos pés!” Ora, a meu ver, o difícil diálogo entre ciência e religião sai daqui com um retrato que, sendo poético, resulta simplista demais para as minhas preocupações.
O peso do “Nada” nesta peça causa-me, como se vê, dificuldades. Para já não falar do nihilismo em sentido mais lato (o que tem o nihilismo a ver com o Nada desta peça?), para um leitor de Heidegger (como eu: um leitor que se libertou do fascínio heideggeriano lendo o judeu Lévinas), o “Nada”, posto na equação do Pai Nosso, perturba. E não é por razões de ortodoxia religiosa que perturba…


Fotografia daqui: Local.pt

10. O outro tema “heideggeriano” desta peça é o tema do “caminho". Martin Heidegger escreveu muito sobre o “caminho”. Que queria que se falasse dos seus textos como caminhos (em vez de obras), para quem “estar a caminho” era algo como um método (melhor: algo em vez do método). Escreveu sobre “caminhos de floresta”, “caminhos de lenhadores e guardas-florestais”, eles que sabem “o que significa estar metido num caminho de floresta”, “caminhos que, o mais das vezes sinuosos, terminam perdendo-se, subitamente, no não-trilhado”. Meter-se por atalhos, no meio da natureza selvagem, que não é um parque geometricamente humanizado, e aí perder-se: só perdendo-se se encontra a floresta. (Cf. Martin Heidegger, Caminhos de Floresta, Gulbenkian, incluindo o prólogo de Irene Borges Duarte.)

11. Temos, portanto, dois temas heideggerianos que escapam à sobreposição com a Bíblia explicitada por Cintra. E qual é o problema? Nenhum. Excepto tudo. Excepto que também há, num certo Heidegger, um certo Deus, com ou sem esse nome, que é, aí, perturbador.
Na “Carta sobre o Humanismo”, Heidegger escreve que “A linguagem é a casa do ser. Nesta habitação do ser mora o homem. Os pensadores e os poetas são os guardas desta habitação.” E os pensadores e os poetas gostam que lhes entreguem o trabalho da guarda. E é de pensadores e de poetas que falamos quando falamos de Tolentino e de Cintra. Mas não nos enganemos quanto a Heidegger, porque ele não crê que os pensadores e os poetas sejam quem fala pela linguagem. Heidegger esclarece: “o pensar é o pensar do ser”. Mas não nesse sentido de pensarmos nós o ser: o “pensar do ser” é o próprio ser a pensar-se. Daí vem o problema. O problema com o “Ser”, com os “Deuses”, com o “Nada” desta peça, não é com eles. O problema é: quem fala em nome do Ser? Quem fala em nome dos Deuses? Quem fala em nome do Nada? Quem diz “essa fala não é autêntica” ou “essa fala é autêntica”? Quem manda calar ou manda falar em nome desse juízo de (in)autenticidade? Não é, afinal, o “Ser”, mas quem fala em seu nome. E este perigo é real, porque pode reservar aos funcionários do Ser o estatuto de autentificadores, deixando aos demais a escuta: “Antes de falar, o homem deve novamente escutar, primeiro, o apelo do ser, sob o risco de, dócil a este apelo, pouco ou raramente lhe restar a dizer.” Esta ideia de escuta é apresentada de forma poética, associada ao cuidado, ao deixar-se interpelar, ao “estar exposto ao apelo do ser” – mas contém o perigo de uma vivência errada da passividade, do “estar postado na clareira do ser”. É, aliás, contra esta dominação pela perspectiva ontológica que vem Lévinas contrapor (por exemplo em Totalidade e Infinito) algo muito mais ético: a descoberta da alteridade, a prioridade ao rosto do Outro. Em vez do “Ser” – ou, pelo menos, em vez da tentação de falar em nome do Ser.

Fotografia de Luís Santos, no sítio do Teatro da Cornucópia.

12. Estou a acusar Cintra de fazer uma leitura curta do texto, por explicitar as suas sobreposições bíblicas e deixar de lado outras sobreposições? Não, não estou, até por serem belissimamente poéticas – e humanas – as formas que encontrou de sublinhar essas sobreposições bíblicas. Leia-se o encenador a explicar a importância do poço na encenação: “Escolhemos o poço como emblema do ciclo de que se fala no texto, e quisemos figurar no espectáculo a Samaritana sem fé que dá de beber a Jesus, porque o tema é esse, e a ideia principal da peça está no episódio narrado por João: Cristo para matar a sede ou para gerar verdade pede a água do poço a quem é impuro mas verdadeiro, e não o reconhece. E a água do poço passa a ser a verdade de todos os homens, crentes ou não, e do gesto de matar a sede sairá o novo mundo.”
O que estou a dizer é outra coisa: é que o mistério do Ser oferece poesia, oferece interrogação, oferece beleza – mas pode também ocultar a concretude do Outro. A transcendência pode cegar. E a cegueira pode matar: nem todos os cegos são guias no limiar do bosque; alguns cegos, especialmente quando se pretendem guias, podem ser lobos que nos atacam quando já entrámos no bosque e estamos desorientados. E talvez não sejam os deuses, nem o Ser, nem o Nada, que serão capazes de nos salvar desse inferno: só o Outro concreto, sem ontologia nenhuma pelo meio, só o rosto irredutível da alteridade nos pode salvar da selvajaria. Essa é, como sempre, a minha interrogação, até o meu medo, sempre que alguém me fala do mistério. Pois, quem fala em nome do mistério?

13. Acho que o leitor duvidará de que este texto seja sobre uma peça de teatro. Mas é. Sobre uma das peças do grande teatro do mundo: o sentido.


(As citações de Luís Miguel Cintra são do seu habitual texto "Este Espectáculo", que está disponível no site da Companhia. Materiais sobre este espectáculo no sítio da Cornucópia.)

8.2.13

ecos do clamor da comunidade científica e académica (ainda a FCCN).

12:16

Recebi, dos promotores da petição pública contra a integração da FCCN (Fundação para a Computação Científica Naciona) na FCT (Fundação para a Ciência e a Tecnologia), informação que passo a divulgar. (Informação substantiva sobre o que está em causa: aqui. )

***

A Petição à Assembleia da República contra a Integração da FCCN na FCT foi subscrita entre 24 de Janeiro e 7 de Fevereiro de 2013 por mais de 7.600 subscritores, entre os quais:
• 174 directores/coordenadores de Unidades de I&D avaliadas positivamente e financiadas pela FCT, constituindo a maioria dos directores/coordenadores de todas as Unidades de I&D avaliadas positivamente e financiadas pela FCT.
• 80% dos directores/coordenadores dos Laboratórios Associados criados nos termos do Decreto-Lei n.º 125/99, de 20 de Abril, que também estabelece que estes laboratórios são formalmente consultados pelo Governo sobre a definição dos programas e instrumentos da política científica e tecnológica nacional.
• 3 dos presidentes dos 4 conselhos científicos da FCT, ou seja todos os que trabalham em instituições portuguesas.
• 22 dos 34 membros dos conselhos científicos da FCT que trabalham em instituições portuguesas, constituindo a maioria dos membros destes conselhos científicos.
• Os 5 ex-presidentes da FCT/JNICT que exerceram funções nos últimos 26 anos, com excepção de um entretanto falecido que exerceu funções durante seis anos.
• Pelo menos 7 ex-vice-presidentes ou ex-vogais do Conselho Directivo da FCT/JNICT.
• O ex-presidente da UMIC – Agência para a Sociedade do Conhecimento, e uma ex-vogal do respectivo Conselho Directivo, que exerceram funções durante 6 anos e meio.
• 1 dos dois ex-presidentes do ICCTI – Instituto de Cooperação Científica e Tecnológica Internacional, e uma ex-vicepresidente deste instituto, que exerceram funções durante 5 anos.
• Pelo menos 17 ex-membros de conselhos directivos de Institutos Públicos de ciência e tecnologia ou ex-membros do governo na tutela da ciência e tecnologia e/ou do ensino superior.
• Pelo menos 4 ex-ministros, entre os quais o que teve a tutela da ciência e tecnologia em 12 dos últimos 20 anos, e um que tutelou o ensino superior em 2 anos.
• Pelo menos 8 ex-secretários de estado, entre os quais um de ciência, tecnologia e ensino superior durante 5 anos e meio, um do ensino superior durante um ano, e um do ensino superior e investigação científica também durante um ano.
• Pelo menos 2 ex-reitores de universidades públicas, um ex-presidente e o outro ex-vicepresidente do CRUP – Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas.
• 2 dos 3 ex-presidentes da FCCN – Fundação para a Computação Científica Nacional desde que foi criada em 1986, que cumulativamente exerceram funções durante 19 anos.
• Pelo menos 3 ex-vogais do Conselho Executivo da FCCN.


Também expressaram posições contra a integração da FCCN na FCT através de comunicados públicos e/ou ofícios dirigidos ao Governo:
• O CRUP – Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas, correspondendo ao consenso dos reitores de todas universidades públicas.
• O CCISP – Conselho Coordenado dos Institutos Superiores Politécnicos, correspondendo ao consenso dos presidentes de todos os institutos politécnicos públicos.
• O CLA – Conselho dos Laboratórios Associados.
É de notar que nenhum destes conselhos foi consultado pelo Governo a propósito da possibilidade de integração da FCCN na FCT, contrariamente ao que está previsto na Lei.

Conclui-se, assim, que a integração da FCCN na FCT não teve em conta pareceres das instituições científicas e académicas, as quais vieram por iniciativa própria a manifestarem-se contra tal integração, e é contrária às posições da maioria dos membros dos conselhos científicos da própria FCT e da maioria dos directores/coordenadores de Unidades de I&D avaliadas positivamente e financiadas pela FCT, assim como de muitos anteriores dirigentes de organismos centrais de ciência, tecnologia e ensino superior e de anteriores governantes com a tutela destes sectores. A decisão também é contrária à posição expressa por um grande número de membros da comunidade científica e tecnológica nacional que, de acordo com as boas-práticas internacionais de regimes democráticos modernos, deveria ter sido envolvida na decisão.

É inacreditável que não esteja a ser ouvido pelo governo o clamor da comunidade científica e académica!


7.2.13

Como Responder ao Momento Presente?

18:13

Passo a citar:
O momento ou o instante ou o que é iminente e tem o “acesso bloqueado” pode ser compreendido como aquela hora que um dia vem ter connosco, raras vezes preparados para ela, embora possamos estar quase a adivinhá-la, mesmo à espera dela — como se diz que uma mulher espera um filho —, e nessa hora um mundo acabou de morrer e nessa hora um mundo acabou de nascer, hora irrepresentável, reveladora, libertadora, esmagadora, fonte, coração de alguma coisa ou de todas as coisas. (...)
O momento presente embora tenha parentes nesta família não tem uma genealogia coincidente. Na expressão “momento presente” estão implicadas uma duração e uma evolução. Trata-se de um “aqui e agora” dotado de uma duração que se cristalizou — tomando para uso próprio o conceito de Ian Hacking tematizado em The Scientific Reason (2009) —, quer dizer, no quadro da evolução da vida pública e privada em Portugal nos últimos anos, o momento presente aparece-nos como irreversível. A partir de agora, sentimos na pele e no espírito que nada ficará igual, nada será o mesmo, quer dizer, isto a que chamamos crise — que tem costas largas e um mau alfaiate — agarrou-se às nossas vidas, moldando-as. Ainda mais, tememos que o estado de crise se torne habitual. A pergunta: até onde nos podemos habituar? tem uma medida última — que é nosso dever combater —, a do cavalo do inglês.

Maria Filomena Molder, Como Responder ao Momento Presente?, na íntegra aqui

é para isto que servem os filósofos?

14:00

Eu habituei-me a julgar que os filósofos têm uma certa obrigação de contribuir para a cidade. Contribuir com alguma reflexão que fuja a duas doenças do pensamento sobre o que é público: contra a doença da tecnicidade (em vez do "sabemos muito bem como fazer isto ou aquilo, mas não sabemos para que serve nem isto nem aquilo", ajudar a pensar sobre o que queremos e sobre se é bom querermos isso ou não); contra a doença do "ataque à pessoa" (em vez de andarmos por aí a "matar inimigos" a crédito de guerras eventuais, preferirmos debater opções e caminhos para concretizar opções). Claro que há filósofos que, como acontece noutras profissões, estão tão entretidos com os seus problemas técnicos que nada querem dizer em público sobre o que é público. Posso não concordar, mas posso, até certo ponto, respeitar. O que já não posso respeitar é que filósofos encartados, tendo vindo a lume falar à cidade, o façam contribuindo para aqueleas doenças que antes mencionei.
Tudo isto a propósito de um filósofos, de seu nome João Cardoso Rosas, que se interessa filosoficamente por Ética e Filosofia Política - e que no entanto escreve e publica um artigo como este, ontem no Diário Económico. Um senhor filósofo, que escreve um artigo de puro ataque pessoal a um determinado político, assina e por baixo da assinatura apõe "Professor Universitário", não se envergonha de um texto de puro ódio? As suas responsabilidades intelectuais não o envergonham de um texto fantasioso, sectário, de facção - um texto que, se serve algum propósito, só pode ser o de mostrar que um intelectual é capaz de descer tão baixo como qualquer outra pessoa?
Como cidadão, preocupa-me que haja intelectuais deste calibre que se prestem a estes serviços, em nome de uma concepção de democracia que quer fazer dos partidos máquinas monolíticas, seitas onde só se pode ulular o mantra do chefe, capelinhas de obediência acéfala. Como devo comparar o conteúdo deste artigo com as declarações dos dirigentes nacionais do PS que fazem fila à porta do Rato a acusar de deslealdade quem quer que, sonham eles, tenha uma concepção não monárquica do PS? Só posso comparar deste modo: acho infinitamente mais triste que um filósofo, cujos interesses declarados são a ética e a filosofia política, empenhe a sua pena num texto desta mesquinhez. Mas isso sou eu que tenho uma concepção certamente ultrapassada acerca do papel do filósofo na cidade.


Os desastres da guerra, a caminhada do medo.


Desde 31 de Janeiro até 14 de Abril está patente, na Fundação Arpad Szenes - Vieira da Silva, a exposição "Os Desastres da Guerra", pintura e desenho de Graça Morais.
Uma das séries incluídas nesta exposição tem por título "A Caminhada do Medo". Deixamos abaixo duas peças dessa série. Encontram mais informação no blogue da própria artista.

Como imaginam, Graça Morais entra pelos nossos dias dentro com estas suas obras mais recentes. Aconselho vivamente a visita.

Graça Morais, A Caminhada do Medo III, 2011, Carvão e pastel sobre papel, 111 x 150 cm (recorte)

Graça Morais, A Caminhada do Medo VII, 2011, Pastel e carvão sobre papel, 102 x 152 cm


6.2.13

cousas sérias.

18:26




A Mutilação Genital Feminina continua a ser uma prática em muitos países do mundo. A 6 de fevereiro declaramos Tolerância Zero a esta "tradição".
(Amnistia Internacional, Portugal.)

forma de vida.

Franquelim Alves está a ser linchado?

11:57

Álvaro Santos Pereira critica a “tentativa de linchamento público” de que o ex-gestor da SLN está a ser alvo.

Pode ser que Franquelim Alves não tenha feito nada de errado quando andou perto do esturro do polvo BPN. Pode ser que Franquelim Alves apenas tenha tido o azar de cair num antro de malfeitores e não tenha visto tudo o que havia a ver a tempo e horas. É perfeitamente admissível que Franquelim Alves seja honestíssimo e tenha sido tão diligente como se podia ter sido naquele caso: não tenho a pretensão de o julgar, contrariamente aos que julgam sempre que seriam mais clarividentes, mais expeditos, mais honestos se estivessem na mesma situação. Frequentemente, quem acha que veria melhor do que o outro em tais situações é, apenas, por não fazer ideia nenhuma do que são essas situações. Está cheio dessa presunção generalizada este país.
Mas a questão não é essa. Ser governante não é mais um passo na carreira profissional. Não é um direito deste ou daquele. Deve ser, isso sim, um serviço ao país. Prestado apenas em função do critério do interesse nacional. E serve mal ao país que se leve para o governo alguém que arrasta consigo a convivência com malfeitores, ainda por cima com malfeitores que andam por aí e que por sua vez convivem alegremente com o poder, sem que haja indícios, perceptíveis pela opinião pública, de que a justiça esteja a chegar a algum lado quanto a perceber e explicar o que se passou. Pagará o inocente Franquelim por causa desta justiça que não ata nem desata? Pois, talvez; mas governar não é um emprego a que alguém tenha direito. Governar não se pode tornar indiferente às circunstâncias que sugiram ao povo que estão a meter a raposa no galinheiro. Ou pelo menos quem tenha pouco faro para detectar raposas no galinheiro.
Quem optou por esconder, no currículo inicialmente divulgado de nóvel secretário de estado, a alínea que o ligava ao BPN, estava consciente disto. Evitam agora de se fazerem de novas e gritarem aqui d'El Rei que estão a linchar o homem. O que está a linchar o homem é o sentimento de que esta classe dirigente é demasiado tolerante ao intolerável.