11.1.13

o estranho caso do obscuro relatório.

21:39

O relatório do FMI sobre como cortar o Estado em Portugal é um estranho objecto cheio de maravilhosas propriedades.

Desde logo, foi um maravilhoso isco: muitos dos que disseram antes que não estavam dispostos sequer a discutir a "refundação" passista do Estado como mera operação de corte de quatro mil milhões de euros... pronto, já estão a discutir. Essa é uma vitória do governo nesta história. Como podiam não discutir? É sempre má ideia jurar que não se vai a jogo, porque, quando o tema é a doer, qualquer "posição de princípio" que apareça como recusa de conversar será insustentável. Se este ou aquele partido da oposição tem exigências concretas para garantir que a discussão será justa, que coloque essas exigências, devidamente concretizadas e explicadas, em cima da mesa; o que não pode é tentar passar ao lado, porque acabará necessariamente atropelado.

Depois, o relatório revelou em poucas horas a impreparação técnica dos principais servidores do austeritarismo caseiro e internacional. A falsidade fundamental de vários argumentos "técnicos", desde o uso básico de dados incompletos ou truncados, passando pela ignorância das informações mais recentes, até ao esconder de comparações que não servem as teses pré-cozinhadas, tudo isso mostra que a falta de rigor é uma dama que acompanha muito os activistas da austeridade como instrumento de corte dos seus fatos preferidos. Ideologia pura e dura, é assim que ela se topa. Também, não é para menos: tendo o relatório sido, basicamente, soprado por ministros do PSD e do CDS, compreende-se que eles não tenham ainda acabado de virar as casacas que vestiram quando, no tempo dos anteriores governos do PS, se colocaram ao lado do PCP e do BE para atacarem as reformas que vários ministros de Sócrates tentaram aplicar de forma moderada e gradual. Já na altura, na oposição, tinham pouco tempo para estudar os assuntos, porque usavam inventar mistificações; agora, governantes, parece difícil mudar esses hábitos.

Outra maravilhosa propriedade deste relatório é mostrar, se ainda fosse preciso, a monumental mentira que foi a campanha eleitoral da direita nas últimas eleições. Se fossemos juntar todos os vídeos de declarações de Passos Coelho, em campanha, que contradizem explicitamente tudo aquilo que o PM agora acha ideias interessantes e necessárias, teríamos cinema para o resto do ano. E essa é uma questão fundamental da actual situação: o PSD mentiu, não há outra expressão, mentiu descaradamente aos portugueses para "ir ao pote" (expressão de PPC), colocando o interesse partidário acima do interesse do país. A direita escondeu o seu programa, para ganhar eleições, e agora pede ao FMI que apresente por si o seu verdadeiro programa, que pretende aprovar sem o sufragar (como ontem Pacheco Pereira fez notar). Curiosamente, a esquerda da esquerda foi a testemunha abonatória desses falsários: o PCP e o BE foram os partidos que serviram para convencer o eleitorado de que o culpado de tudo era realmente Sócrates e a sua malvadez congénita, passando a imagem de que até Passos e Portas eram menos perigosos do que o "animal feroz".

Contudo, nada disto importa. O que importa é que a esquerda tem de aproveitar esta oportunidade para responder com um programa alternativo, em vez de meras reacções, de meras atitudes defensivas. O PS, se não estivesse entretido a dar toques na bola atrás da baliza, devia convocar urgentemente uns Estados Gerais para o Desenvolvimento Justo e Sustentado, para fazer convergir o clamor da sociedade num programa de saída da crise que fosse alternativo à tarefa destruidora, irresponsável e dolorosa a que esta maioria nos está a submeter. Se não tiver unhas para isso - depois de, por mera táctica interna, Seguro ter ajudado a direita a convencer o país do seu álibi básico, segundo o qual a culpa de tudo isto é do anterior governo do PS - se não tiver unhas para isso, então o PS não serve de facto para nada do que interessa neste momento ao país.

10.1.13

"O FMI a dar razão a Sócrates" ?


Helena Garrido escreveu no Negócios um artigo que dá a impressão que Sócrates começou esta onda que o FMI e o Governo agora "apenas agigantam". João Pinto e Castro ajuda a desmontar a tese. Um excerto:
E aqui chegamos ao cerne da diferença entre as reformas de Sócrates e as “reformas” de Passos. No primeiro caso, foram identificadas ineficiências e oportunidades de melhoria do serviço prestado, de preferência associáveis a programas de redução de custos. Foi por isso que iniciativas como a concentração de escolas ou de serviços de saúde não prejudicaram, antes melhoraram, a qualidade do serviço ao cidadão. (Convém recordar que na altura se encenaram partos à entrada de maternidades fechadas para incitar a opinião pública contra o governo, episódio que mereceu ampla cobertura mediática.)
É a isto que eu de facto chamo reformar o estado.
Por contraposição, não pode ser mais distinto o método aplicado pela coligação PSD-PP. A análise cuidadosa das situações foi em regra substituída por uma inventariação de rubricas de custos significativas, feita à distância e, de preferência, a partir do estrangeiro. (Lembram-se dos ridículos episódios das gorduras do estado, dos gastos intermédios, das fundações e das PPP?)
Tudo isto é feito sem ir ao terreno ou conhecer as causas reais da existência das despesas e da formação dos respectivos custos. Inspira-se este procedimento naquela modalidade de consultoria manhosa consistente em recolher à toa números cujo significado se desconhece e em aplicar reduções inspiradas por comparações destituídas de sentido.

Na íntegra, aqui.

9.1.13

patriotismo é...

19:08

Vital Moreira não encontra inconstitucionalidades no Orçamento para 2013.

Patriotismo é um deputado europeu do PS poupar ao Governo o montante necessário para recrutar os "especialistas" que defenderiam a constitucionalidade do Orçamento de Estado.

(Note-se que não defendo a lei da rolha para Vital Moreira, nem para ninguém. Aliás, os deputados do PS que criticaram Seguro por ele dizer que o Partido ia pedir a fiscalização da constitucionalidade do OE, insistindo eles que isso não é competência do Partido, mas dos deputados individualmente, acabam por dar cobertura a esta posição individual de Vital Moreira. Contudo, para quem compreende que o PS empenhou o essencial da sua acção política neste momento neste pedido de fiscalização - talvez por não se ouvir o PS dizer mais nada que se entenda - pode achar estranho que um membro da elite parlamentar do PS (os seus deputados europeus têm de ser assim entendidos) se sinta à vontade para favorecer a posição dos seus adversários. E isto sem sequer ir ao mais grave, que é usar argumentos que contribuem para espalhar ideias erradas, como aquela de que quem é pago pelo Estado é genericamente privilegiado em comparação com os trabalhadores do privado - já que nem todos são iguais na segurança do vínculo; já que a comparação dos níveis de remuneração tem de ser ponderada pelos níveis de qualificação, o que complicaria bastante o argumento de VM. Mas, enfim, o que é tudo isto comparado com a liberdade intelectual...)



MAD.

O MAD é a revista cultural semanal do belga Le Soir.
Na edição de hoje, em capa, o "nosso" filme, Tabu. (É sempre nosso o que é bom, dos outros o que soçobra.)
A crítica começa assim: "C'est l'un des films les plus magiques de ces dernières années." A classificação é quatro estrelas, coisa pouco frequente naquelas páginas. Ainda bem que há estrangeiro. Aqui.


qual é a diferença entre isto e alta traição?

14:29

FMI propõe corte de 20% dos funcionários públicos e de 7% nos salários do Estado.

Explica o Público: «No relatório divulgado nesta quarta-feira pelo Jornal de Negócios, o Fundo Monetário Internacional (FMI) propõe uma série de caminhos para que o Governo avance com o corte de 4000 milhões de euros na despesa do Estado a partir de 2014.»

Quer dizer: o Governo de Portugal, em vez de pedir estudos para negociar com o FMI, pede ao FMI estudos para negociar com os portugueses.

uma viagem ao Porto.