26.5.12

os sons da ciência.

acha que já sabe tudo sobre o que se passou a 25 de Abril de 1974?


No próximo dia 30 de Maio é apresentada a edição do primeiro livro digital elaborado pelo ISCTE-IUL. “Militares e Sociedade, Marinha e Política: um século de História” apresenta um novo olhar sobre a relação da Marinha e das Forças Armadas ao longo do séc. XX, em especial nos acontecimentos que antecederam e que se seguiram ao 25 de abril de 1974.
A apresentação acontece pelas 18h00, no Auditório B203, Edifício II (Avenida das Forças Armadas, Lisboa).

A capa é como se vê e publicamos abaixo um excerto do livro - para abrir o apetite.


«Centremo-nos na ocupação da sede da PIDE-DGS, polícia política aliás cujo destino não era consensual.
Num rascunho manuscrito do plano geral de operações, o então major Otelo Saraiva de Carvalho previu a tomada da sede da PIDE/DGS por um grupo de 12 a 15 comandos, no mínimo, que deveria conquistá-la e dominá-la, de surpresa, aguardando a chegada de reforços. Porém, segundo o próprio, a missão foi logo abandonada devido à oposição do major Jaime Neves, oficial de comandos, que a considerou muito perigosa . A missão esteve depois para ser executada por uma companhia de atiradores do Regimento de Infantaria 1 da Amadora mas, à última hora, falhou. O líder operacional do 25 de Abril, Otelo Saraiva de Carvalho, tem referido várias razões para a omissão da ocupação da PIDE/DGS no plano operacional final. Para além da falta de meios para cumprir a missão, não possuiria elementos sobre a organização interna, as instalações ou ainda sobre o armamento existente na sua sede, pelo que não a teria definido como um objectivo prioritário a atingir nas primeiras horas do golpe. Otelo Saraiva de Carvalho esperava que a PIDE/DGS viesse a cair quando os governantes caíssem, com uma menor intervenção das forças do MFA e com menores riscos de derramamento de sangue. Como a PIDE/DGS tivera um papel importante na contenção da revolta das Caldas da Rainha, a 16 de Março, teria considerado que o poder da polícia política era forte e teria temido os efeitos de uma possível reacção violenta.
Durante a fase da conspiração, se alguns sectores defendiam a extinção da PIDE/DGS em geral, outros defendiam o seu fim na metrópole mas a sua conversão em polícia de informações militares nas colónias.
No próprio dia do golpe, esta proposta de reformulação e saneamento da PIDE /DGS nas colónias foi defendida pelo general Francisco da Costa Gomes, membro da Junta de Salvação Nacional, enquanto durasse a guerra, já que aí as informações das Forças Armadas eram fornecidas pela PIDE/DGS. A continuação da PIDE/DGS, ainda que reformulada, foi sustentada pelo general António de Spínola, da mesma Junta e primeiro Presidente da República após a revolução, que chegou a nomear um inspector da própria polícia política para a dirigir após o 25 de Abril, horas após a queda do regime.
Foi, aliás, a postura de diferenciar a PIDE/DGS da metrópole da PIDE/DGS das colónias que vingou no Programa do MFA de 26 de Abril, donde constava: “Extinção imediata da DGS, Legião Portuguesa e organizações políticas de juventude. No ultramar, a DGS será reestruturada e saneada, organizando-se como Polícia de Informação Militar enquanto as operações militares o exigirem”.
Porém, no Programa do MFA de 25 de Abril, com que os revoltosos partiram para o golpe, estava claramente escrito: “Extinção imediata da DGS, Legião Portuguesa e organizações políticas de juventude”, sem a ressalva da situação colonial. Contudo, não foi esta versão do Programa do MFA de 25 de Abril que foi difundida. Nas declarações públicas e nos meios de comunicação social, surgiu a versão de 26 de Abril, resultante das modificações finais introduzidas pelos generais Spínola e Costa Gomes no Posto de Comando do MFA, na Pontinha. Apenas no jornal República foi publicada a versão de 25 de Abril do Programa do MFA. Aquele caso único do República explica-se pelo facto do então primeiro-tenente Martins Guerreiro ter ido entregar a este jornal, na manhã do dia 25, uma cópia do Programa – tal como estava formulado naquele momento, obviamente. Aliás, também noutros locais, os revoltosos se encarregaram de distribuir exemplares do Programa do MFA, em mão, como prevenção para o que viesse a acontecer, para que mais pessoas pudessem saber o que Movimento pretendia, se este fosse derrotado. Assim, o República publicou a versão que lhe havia sido entregue enquanto os outros órgãos de Comunicação Social difundiram a versão oficial - que era obviamente a de 26 de Abril. Não obstante, a discrepância entre os programas divulgados passou despercebida na voragem dos acontecimentos.
Foi num contexto marcado por estas indefinições que, durante as operações do próprio dia 25, o então capitão-tenente Vitor Crespo (no Posto de Comando do MFA na Pontinha) e o então capitão-tenente Almada Contreiras (no Centro de Comunicações da Armada, no Terreiro do Paço, a partir do qual fez a ligação entre as forças da Marinha e o Posto de Comando da Pontinha) diligenciaram para que a tomada do edifício da rua António Maria Cardoso constituísse um objectivo das movimentações militares. Pela voz dum suposto “tenente Barata”, identidade inventada por Almada Contreiras por razões de segurança, pelo telefone, foram solicitadas ao então capitão-de-mar-e-guerra Pinheiro de Azevedo, comandante da principal unidade de fuzileiros navais, forças para ocupar a sede da PIDE/DGS. Pinheiro de Azevedo, que pouco antes tinha aceitado integrar a futura Junta de Salvação Nacional, já estava avisado de que, após o início das operações, iria ser contactado por “alguém” do movimento e, portanto, não estranhou o telefonema. Deste modo, mandou sair forças de fuzileiros, sancionando a acção.
Num quadro marcado por uma forte pressão da população, que tinha ocupado as ruas próximas durante o dia, a tomada final da sede da PIDE-DGS foi o culminar de um trajecto com várias etapas. Primeiro, na manhã de dia 25, realizou-se uma operação de fuzileiros navais, mal sucedida. Seguiram-se horas de grande agitação com gente que se manifestava contra a polícia política e queria a tomada da sua sede, onde os agentes estavam acoitados em grande número e bem armados, tendo finalmente a PIDE/DGS disparado, matando 4 pessoas e fazendo dezenas de feridos. Depois, forças do Regimento de Cavalaria 3 de Estremoz, cujos efectivos orçavam pelos 100 homens, cercaram a área. Em seguida, verificou-se um substancial reforço com 230 fuzileiros navais, organizados em duas forças, uma dos quais já lá havia estado durante a manhã, na operação inicial. Finalmente, as forças presentes, comandadas pelo então capitão tenente Luís da Costa Correia conseguiram a ocupação e rendição da PIDE-DGS. No momento libertador, na manhã do dia 26, estão presentes Costa Correia, oficial da Marinha, à frente de 230 fuzileiros, bem como Carlos Campos Andrada, oficial de Cavalaria do Exército, às ordens de Spínola, também de Cavalaria, munido da autoridade emanada do general mas sem efectivos militares próprios. Estas tentativas, as presenças destes militares e os seus modos de acção são significativos das contradições que caracterizaram este momento, assim como das tensões entre as diversas correntes existentes nos militares envolvidos, entre spinolistas e não-spinolistas.
Interesse idêntico exigem os processos de libertação de todos os presos políticos das prisões da metrópole. Durante o golpe, houve hesitação sobre o âmbito do acto libertador: deveriam sair todos ou apenas parte dos presos? Devido à acção de militares, da população e dos próprios presos, a realidade no terreno permitiu forçar a saída de todos eles, ultrapassando, assim, o Programa do MFA de 26 de Abril.
É que, neste Programa, constava apenas: “amnistia imediata de todos os presos políticos, salvo os culpados de delitos comuns, os quais serão entregues ao foro respectivo”. E, mais uma vez, esta versão do programa de 26 de Abril representava um recuo em relação ao Programa de dia 25, com o qual os revoltosos tinham saído para o golpe, onde estava escrito “amnistia imediata de todos os presos políticos “, sem qualquer ressalva.
Através da descrição densa e da análise destes eventos, é possível perceber como, em tempos de grande aceleração da História como o 25 de Abril e os processos revolucionários, se cruzam acções previstas para grupos organizados com outras desencadeadas por decisões pessoais, não programadas, ou com movimentações espontâneas, entrelaçando-se projectos amadurecidos com circunstâncias imponderáveis. Ao estudá-las, pode-se entender como os homens lidam com as “janelas de oportunidade” e quais os riscos que correm em momentos em que ainda não se sabe quem vai vencer.»


25.5.12

(Na imagem, espião-adjunto a enviar muitas sms a uma empresa e a um ex-ministro, enquanto disfarçado de florzinha do mato.)



Então o sr. Jorge Silva Carvalho escondeu ao seu amigo Relvas, que trata(va) por tu, que o adjunto dele no Ministério trocava mensagens com ele?! Não se faz; coitado do sr. Ministro, que assim ficou sem saber o que andava a fazer o seu adjunto politico. O grande ex-espião ter-lhe-ia evitado, pelo menos, essa mentirinha ao Parlamento, caramba. É que, sob juramento, começa a haver demasiados pormenores.

(Estamos aqui a querer fazer um jeito a Passos Coelho: se mandar embora o seu controleiro Relvas, ficará mais livre e mais solto, o que só lhe fará bem.)




sms para Relvas.


À atenção do ministro Relvas, uma declaração minha, pessoal, sem assessor nem adjunto (que não se demitiu, simplesmente nunca existiu).

Eu, por vezes (quer dizer: com interrupções, mas involuntárias), vivo com uma pessoa (não vou dizer se é homem ou mulher, ou nem por isso) que é, ou foi, ou esteve para ser, ou ainda pode vir a ser, membro de um partido da oposição (não digo de qual oposição se trata, mas NÃO é o CDS, embora o CDS seja um partido e me pareça que actualmente está, pelo menos a meio tempo, na oposição).
Senhor ministro, digo isto para não lhe passar pela cabeça divulgar o nome dessa pessoa na "internet", porque a "internet" é um sítio tramado para se "colocarem" coisas, sendo que eu ficaria em grave risco se se soubesse que tenho qualquer tipo de ligação a pessoas da oposição, já que, com a popularidade que o senhor ministro granjeou por mérito próprio, a mera suspeita de que eu poderia não fazer parte dos seus admiradores acarretaria desgostos enormes aos meus amigos. Embora, como efeito secundário, isso poderia ter a consequência agradável de dissuadir alguns dos meus amigos (especialmente aqueles que mal conheço mas almoçam comigo de quando em quando) de continuarem, neste ano da graça de 2012, a enviar-me sms sobre a ida de Geoge W. Bush ao México em 2007, coisa manifestamente despropositada e que ainda pode causar-me aborrecimentos.

Relvas ameaçou divulgar na Internet que a jornalista do Público vive com um homem de um partido da oposição.

Miguel Relvas jantou com ex-espião no Gigi.

Adjunto de Miguel Relvas demitiu-se.

Cavar sentidos no corpo de carne.

Palimpsesto (s.m.) : papiro ou pergaminho cujo texto primitivo foi raspado, para dar lugar a outro. (Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa)

Arnulf Rainer, um dos artistas do "accionismo vienense", pratica uma espécie de palimpsesto com as suas máscaras mortuárias: pinta sobre elas. Mas «Rainer nunca pinta para recobrir a pintura, mas antes para a clarificar na sua intencionalidade. Neste sentido, nada apaga e, simultaneamente, cobre para procurar a génese».[*]


Inscrevendo as minhas vidas nas tuas vidas, faço uma outra espécie de palimpsesto: inscrevo sentidos em vida e espero que o teu sentido esclareça o meu sentido, que o teu sentido seja gerador do meu sentido (e inversamente).


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[*] Carlos Vidal, O corpo e a forma. Dois conceitos, o mesmo tema. Cindy Sherman, Arnulf Rainer, Porto, Mimesis, 2003, p. 39





Arnulf Rainer, Cadaveri IV, 1980

24.5.12

estou um pouco confuso com os ácaros.

O Totem Máquina.






enquanto os financeiros alemães inventam o tuga como euro português...

10:31

Os líderes da União Europeia encontraram-se ontem ao jantar e concordaram que as suas discordâncias não permitiam mais do que encomendar ao senhor Herman van Rompuy, presidente do Conselho Europeu, um estudo sobre perspectivas muito futuras de mutualização das dívidas soberanas na Europa. Como vem acontecendo com as cimeiras às dúzias dos últimos anos, isto provavelmente não quer dizer nada. É por isso que nem se nota muito a falta de Durão Barroso, que ainda aparece nas fotografias mas sem que se leia eco algum de alguma coisa que ele tenha proposto que tenha sido considerado relevante por alguém.
Claro que tudo isto é assim porque os teóricos da soberania dos Estados-nação, de direita e de esquerda, continuam a ter força suficiente para impor uma arquitectura institucional da União Europeia que não deixa fazer nada sem que se chegue a um perfeito consenso entre toda a gente sentada à volta da mesa. Sintomas - não causas, nem efeitos, mas sintomas - desse clima intelectual, que patina sempre nas mesmas poças de lama, são coisas como a extraordinária abertura que Pedro Lomba dá ao seu artigo de hoje no Público. Dizer - dizer não, passar a escrito - que a União Europeia é um território "cujas fronteiras ninguém sabe identificar com precisão", é um sintoma da falta de percepção institucional dos que confundem a União Europeia com a vaga "Europa". Se fosse mais claro para todos que pagamos todos os dias os delírios soberanistas de gente que não percebe que o conceito de "Estado" não tem a mesma idade do Condado Portucalense, mas que é uma construção, e que as construções servem para o que servem e podem ser deitadas fora se for necessário e conveniente, poderíamos então passar a outra fase do debate.
Esse é um ponto que o líder do PS percebe bem. O que António José Seguro está a fazer, bem, na qualidade de SG do PS, é tentar colocar o debate nacional em perspectiva europeia. O Parlamento aprovou ontem uma resolução retintamente segurista que "recomenda ao governo que proponha e apoie medidas de natureza institucional e políticas que vinculem juridicamente aos Estados Membros da União Europeia e que conformem uma agenda de crescimento e de criação de emprego na União Europeia". Só o PS votou a favor (votação final global), tendo-se abstido a maioria de direita e votado contra a esquerda da esquerda. No debate ponto por ponto, alguns aspectos da proposta do PS foram rejeitados por votação conjunta PSD, CDS, PCP/PEV e BE; outros mereceram a abstenção do Bloco; outros foram "substituídos" por texto da direita. Claro que, tivesse a recomendação ao governo sido aprovada tal qual o PS a propôs, isso não seria a salvação da pátria: a saída da crise não se faz com passes de mágica. Contudo, esta é a linha de procura em que o PS deve prosseguir e insistir: a saída para a nossa crise só pode ser uma saída europeia; o discurso simplista da esquerda da esquerda, quando se aproxima muito do mero "não pagamos", só poderia piorar a nossa situação, no imediato e a prazo (como até o líder grego do Syriza já dá sinais de perceber); a boleia que os fanáticos do liberalismo económico estão a apanhar da troika equivale a pedir mais chuva quando estamos alagados; a alternativa é outra orientação europeia, que não será fácil de construir, mas para a qual é preciso trabalhar, combinando rigor com mais justiça social e com políticas económicas focadas no emprego e na qualidade de vida das pessoas.
A estratégia europeia de Seguro não faz milagres. Aliás, nada faz milagres. Mas é a única via possível, em dois sentidos. Por um lado, é a única coisa que o PS pode fazer neste momento, consciente de que não pode contribuir para uma turbulência institucional que se pagaria com mais sofrimento de todos (esquecer isso foi o pecado da coligação negativa PSD, CDS, PCP, BE, quando entregaram a nossa cabeça numa bandeja aos mercados). Por outro lado, a manobra europeia é a única coisa que interessa a uma efectiva mudança de quadro que alivie a corda que nos aperta a garganta. Essa possibilidade foi o vento fresco que Hollande trouxe à Europa, por muito que isso desagrade aos comentadores raivosos com o despedimento de Sarkozy.

23.5.12

Luís Montenegro no Parlamento.

Luís Montenegro acusou o Primeiro-Ministro de ser o campeão dos cortes nos salários, nas pensões e no abono de família.



fenómeno linguístico.

Sguedno um etsduo da Uinvesriadde de Cmabgirde, a oderm das lertas nas pavralas não tem ipmortnacia qsuae nnhuema. O que ipmrtoa é que a prmiiera e a utlima lreta etsajem no lcoal cetro. De rseto, pdoe ler tduo sem gardnes dfiilcuddaes... Itso é prouqe o crebéro lê as pavralas cmoo um tdoo e nao lreta por lerta.

o blogue d'O Coiso.


Álvaro é muito mais esperto do que parece. Ele anda há anos a conceber a política económica que agora, como ministro, não está a aplicar. Pelo menos desde 14 de Janeiro de 2004 que tem um recanto teórico dedicado ao "coiso", como se pode ver aqui e com este conteúdo. Um verdadeiro retrato.



cuidado com as liberdades (continuação).

10:20

Enquanto a tal empresa não puder pedir ao tribunal que profira uma sentença e a esconda, podemos ler, transcritos na sentença, os comentários que a empresa pediu que fossem censurados e o tribunal acedeu a que fossem censurados. Está aqui à vossa disposição (obrigado, Shyznogud).
(Ou será que o tribunal é mais manhoso que a empresa e deu tal decisão para fazer ainda mais publicidade à tal empresa e às suas práticas?!)


22.5.12

Gostam das palestras TED?


Eu também gosto. Mas vale a pena reflectir sobre certas decisões editoriais.

Primeiro, vejam esta opinião acerca de um possível caso de censura. Se não conseguirem, voltem aqui.

Podemos ver o que foi, ali, apagado, recorrendo à cache do Google,: Is TED censoring talks as too partisan such as Nick Hanauer's TED talk on income inequality and job creation myths? If so, why?.

E a conferência censurada é esta:


À consideração dos leitores.

cuidado com as liberdades.

17:43

O blogue dos Precários Inflexíveis publica um post a dar voz a denúncias sobre uma empresa que, alegadamente, encontrara formas um tanto estranhas de explorar a força de trabalho dos que andam a precisar de sobreviver de algum modo. Esse post de denúncia recebeu muitos comentários, que em geral não tendiam a tecer loas às práticas da tal empresa. A dita empresa não gostou do efeito dessas denúncias na sua imagem corporativa e pediu a um tribunal que calasse tais denúncias.
O tribunal, considerando o direito à expressão, achou excessivo o pedido da empresa para que se mandassem apagar os tais comentários. Como tal (????) o tribunal mandou suspender esses comentários!!! Quer dizer, os comentários não são apagados para ter em conta o direito à liberdade de expressão, mas são suspensos... Quer dizer: os autores do blogue podem ler esses comentários, mas não podem deixar mais ninguém lê-los - e isso é que é proteger a liberdade de expressão?!
Dado o estatuto dos comentários a um post num blogue, isto quer dizer que se uma empresa me aldrabar eu não posso denunciar isso num grupo de amigos, porque um tribunal qualquer pode decretar que isso prejudica a empresa que eu estou a denunciar?
Está tudo doido ou sou eu que sou demasiado intolerante com empresas que aproveitam demasiado bem o estado de necessidade das pessoas?
Há que seguir as notícias sobre este assunto: Tribunal determina suspensão de comentários no blogue dos Precários Inflexíveis.

10 livros que não mudaram a minha vida.


1 – René Descartes, O erro de Damásio, Haia, Editora do Museu

2 – Ivan Denisovitch, Um dia na vida de Alexander Soljenitsin, Varsóvia, Editora Reverso

3 – Karl Marx, Pour Althusser, Carnaxide, Edições Novo Progresso

4 – Foucault, O pêndulo de Eco, Torino, Editora Técnica

5 – Sigmund Freud, La mégalomanie de Israel Rosenfield, Paris, La librairie do XXème siècle

6 – Sísifo, O mito de Camus, Argel, Editora Existência

7 – Símon Bolívar, Garcia Marquez en su laberinto, Caracas, Editora Mondadori

8 – Fausto, Goethe, Bona, Editora do Ministério da Ciência

9 – Ulisses, James Joyce, Tróia, Editora Exílio Obscuro

10 – Brodie, El informe de Borges, Buenos Aires, Editora MC

se faz quá-quá e se abana o rabinho, então é bem capaz de ser um pato.


Henrique Raposo, referindo-se a Relvas, escreve: «O problema não é a ameaça do blackout ao Público, uma hipótese meramente académica que infantilizaria, caso fosse concretizada, todos os membros do governo.» Parece que Henrique Raposo não sabe que há "personalidades" (e respectivos ajudantes) que riscam jornalistas de listas para almoços, de listas para entrevistas, ou apenas de listas para "recadinhos", quando o/a jornalista escreve ou diz qualquer coisa que não cola com a imagem oficial que foi fabricada para a dita "personalidade". Ou, se sabe, não percebe que isso é, de facto, manipulação da comunicação social. Ou, se percebe, quer guardar o "segredo" só para ele.

não sei se se confirma que Relvas tenha andado nesta escola.



Телеграфное агентство Советского Союза
(Telegrafnoye agentstvo Sovetskovo Soyuza)
Agência Telegráfica da União Soviética

a economia como ciência ou o pecado da barriga cheia sem motivo.


Coisas difíceis de compreender para pessoas tão ilustres:
A missão do Conselho das Finanças Públicas é contribuir para a qualidade da democracia, não substituir-se à democracia, aos partidos e ao parlamento. Em democracia, o Rei, através das instituições que o representam, é o povo. Se Teodora Cardoso (Presidente), Jurgen von Hagen (Vice-Presidente), Rui N. Baleiras, George Kopits e Carlos Marinheiro não gostam das escolhas que a democracia tem feito e planeia vir a fazer, sugiro que se candidatem em eleições. Em democracia, é assim que funciona.

Integral aqui, por João Galamba.

21.5.12

Os vulgares e os outros (epístola aos deterministas).


Dedico este excerto de uma obra de Dostoiévski a todos aqueles que acreditam que nós somos apenas peças de uma grande máquina, peças sem liberdade, cujas "acções" são apenas movimentos dos nossos constituintes físicos, determinados inexoravelmente pela longa sequência de tudo o que aconteceu antes.


- (…) Acredito apenas na minha ideia principal, que consiste precisamente em que as pessoas, pelas leis da natureza, se dividem em geral em duas categorias: a inferior (vulgares), ou seja, por assim dizer, o material que serve unicamente para engendrar semelhantes; e os homens propriamente ditos, ou seja, as pessoas que possuem o dom ou o talento de dizer, no seu meio, uma palavra nova. (…) a primeira categoria, ou seja, o material, consta em geral de pessoas conservadoras por natureza, correctas, que vivem na obediência e gostam de ser obedientes. (…) A segunda categoria consta dos que violam a lei, que são destruidores ou têm propensão para o serem, consoante as suas capacidades. (…) A primeira categoria é sempre senhora do presente, e a segunda é a senhora do futuro.

- (...) Mas diga-me uma coisa: como se podem distinguir os vulgares dos invulgares? Têm alguns sinais de nascença?


Fiodor Dostoiévski, Crime e Castigo (1866)

Tradução portuguesa publicada pela Editorial Presença, 2002, pp. 245-246

monumentos ao sentido de oportunidade.


Quando "sentido de oportunidade" é um palavrão muito feio.

Ler Daniel:

... tendo havido mesmo quem defendesse que vivíamos num ambiente de "asfixia democrática". Por essa altura, um grupo de jovens (e menos jovens) bloguistas chegou mesmo a organizar uma concentração em frente ao Parlamento em defesa da liberdade de imprensa, coisa nunca vista, nem nos tempos do cavaquismo, aqueles em que a pressão aos jornalistas foi, em democracia, mais sistemática.
É agora interessante observar o silêncio dessas mesmas pessoas. Fui ver a lista de promotores dessa passeata dos tempos socráticos. Deixei de fora os meros subscritores do apelo para a manifestação e os blogues coletivos que a ela se associaram. Fiquei-me pelos promotores individuais iniciais. À espera que gritassem presente por uma imprensa livre. Entre os poucos promotores estavam pessoas que o leitor pode não conhecer mas são relativamente populares na blogosfera: Adolfo Mesquita Nunes, Carlos Nunes Lopes, Vasco Campilho e Rodrigo Moita de Deus, por exemplo.
Porquê o seu silêncio? Porque alguma coisa mudou na vida do País e nas suas vidas. Adolfo Mesquita Nunes poderia ser coerente e protestar também agora. Mas entretanto tornou-se deputado do CDS. Carlos Nunes Lopes podia ter vindo de novo em defesa da liberdade de imprensa, mas agora é chefe de gabinete do secretário de Estado dos Transportes. Vasco Campilho poderia ir para a frente de São Bento defender os jornalistas dos abusos de Relvas, mas agora trabalha no Ministério do Ambiente e é um dos coordenadores do Plano Operacional de Valorização do Território. Rodrigo Moita de Deus, o mais ativo dos protestantes do passado, podia ter organizado outra concentração contra a "asfixia democrática", mas entretanto passou a ser membro do Conselho Nacional do partido de Miguel Relvas. Se em relação a José Sócrates não lhe faltaram palavras, hoje escreve: "Miguel Relvas lida com jornais e jornalistas há mais de uma década. Se fosse pessoa para fazer o que acusam já todos teríamos dado por isso. Nem teria sobrevivido até aqui." Ou seja, de indignados pela liberdade de imprensa os jovens bloguistas passaram a obedientes e silenciosos assessores, deputados e dirigentes partidários.

Integral aqui.


já que se fala por aí de portugalidade.


"José Mattoso [em A Identidade Nacional] conta-nos que um dia o rei D. Luís perguntou do seu iate a uns pescadores, com quem se cruzou na costa, se eram portugueses; e a resposta foi desconcertante e clara: «Nós outros? Não, meu Senhor! Nós somos da Póvoa do Varzim!». A resposta revela a complexidade do problema. O serem portugueses não lhes pôde ocorrer, quando a pertença à comunidade próxima é que estava presente."

Guilherme d'Oliveira Martins, Portugal - Identidade e Diferença, Gradiva, 2007, p. 16

20.5.12

O Império Romano e a União Europeia.

12:35



Muitos creditam à União Europeia (ex-CEE) 50 e tal anos (desde 1957) de paz e prosperidade (tendência geral nunca antes tão desmentida como agora) a benefício dos povos europeus. Contudo, mesmo entre os que foram intensamente financiados por outros mais prósperos (como os portugueses), uma moda de indiferença face a essa “casa comum” passou a uma moda de desconfiança e até hostilidade. A convicção de que o que temos está garantido e não nos pode ser tirado transformou-se na convicção de que vale tudo e qualquer coisa pode acontecer, graças aos egoísmos nacionais e ao pouco cuidado com o interesse comum. Tendemos, por isso, a ser ligeiros; a achar que podemos simplesmente entrar na lógica destrutiva do dente por dente, sem que paguemos mais por isso. Será assim? Procuremos contribuir para uma resposta com um paralelo com o império romano e a sua queda.

Poderíamos sempre tentar uma resposta “cultural”. Por exemplo, lembrando que ferramentas culturais básicas se ressentiram: a capacidade de ler e escrever, muito difundida no império romano devido às necessidades burocráticas e económicas, não apenas entre as elites mas também nas “classes médias”, regrediu no período pós-romano até ao ponto de mesmo grandes reis ocidentais terem sido analfabetos. (O clero foi, em larga medida, uma excepção importante.) Mas nesse campo poderíamos apontar, após a queda do império romano, o florescimento de formas superiores de cultura, por exemplo aquelas que foram protegidas e praticadas nos círculos religiosos. Por exemplo nos mosteiros e nas catedrais. Mas não vamos por aí. Vamos às coisas “menores”, à vida material quotidiana.

No auge da sua extensão o Império Romano incluía quase toda a Europa ocidental, largas faixas em redor do Mediterrâneo, bem como regiões mais orientais, desde os Balcãs à Grécia, Egipto, Ásia Menor, chegando à Síria e fazendo a oriente fronteira com a Pérsia e com as regiões caucasianas. A queda do Império a Ocidente, em 476 d.C., deu lugar a um longo período de retrocesso sócio-económico, como escreve Bryan Ward-Perkins, em “A Queda de Roma e o Fim da Civilização”: “o domínio romano, e sobretudo a paz romana, trouxe níveis de conforto e sofisticação para o Ocidente que não tinham sido vistos anteriormente e que não seriam vistos de novo durante muitos séculos”. Vejamos o que quer isso dizer mais em concreto.




O que Bryan Ward-Perkins procura mostrar é que a queda do império romano do ocidente representou um retrocesso na vida material da maioria da população - e não apenas de alguns escolhidos.

Os romanos produziam bens de uso corrente (não apenas de luxo), de qualidade muito elevada, em enormes quantidades, e depois difundiam-nos largamente, sendo por vezes transportados por muitas centenas de quilómetros para serem consumidos por todos os grupos sociais (não apenas por ricos). A existência de “indústrias” muito desenvolvidas, funcionando com trabalhadores razoavelmente especializados, produzindo em grandes quantidades e vendendo para zonas remotas do império, suportadas em sofisticadas redes de transporte e de comercialização, era possível graças à infra-estrutura de estradas, pontes, carroças, hospedarias, barcos, portos de rio e de mar – e à burocracia imperial, incluindo um exército numeroso, para enquadrar e proteger todo esse fervilhar. Exemplos concretos são como seguem.

A cerâmica, utilizada para o armazenamento, preparação, cozedura e consumo de alimentos, era de alta qualidade, tanto em termos práticos como em termos estéticos. O nível de sofisticação da cerâmica romana usada para preparar e servir alimentos só volta a ser observado alguns 800 anos depois, pelo século XIV. Também as artes da construção de edifícios, que os romanos tinham sofisticado quer para casas luxuosas quer para casas vulgares, em vastas regiões do antigo império perderam-se e deram lugar a povoados construídos quase inteiramente de madeira, onde antes se construía de pedra e tijolo (para já não falar das casas mais sofisticadas com aquecimento por baixo do chão e água canalizada). Já a fundição de chumbo, cobre e prata, que permitia a realização de muitos utensílios sofisticados, também entrou em queda com o desabar do império e só nos séculos XVI e XVII terá voltado a atingir os níveis da época romana.

Enquanto no império as moedas de ouro, prata e cobre eram perfeitamente acessíveis e largamente utilizadas nas trocas económicas, o que veio depois foi o desaparecimento quase total da utilização diária da moeda, a par com o desaparecimento de indústrias inteiras e de redes comerciais. Os produtos de luxo continuaram, em maior ou menor grau, a ser produzidos para os mais ricos, mas os produtos de uso mais geral e de qualidade é que escassearam ou desapareceram. Em certas zonas do antigo império, certos aspectos da economia e do bem-estar material regrediram para níveis da Idade do Bronze. Mesmo muitas economias regionais foram destroçadas pela instabilidade política e militar.

Os benefícios do império também se estenderam à agricultura. Um exemplo curioso: até o tamanho médio do gado aumentou consideravelmente no período romano, graças à disponibilidade de pastos de boa qualidade e de forragem abundante no Inverno. O tamanho do gado regrediu, depois da queda do império, para níveis pré-históricos.

E que é que isto tem a ver com a União Europeia?

Em que é que a queda do Império Romano do Ocidente pode contribuir para uma reflexão sobre a União Europeia? O que é que interessa que a queda do Império Romano do Ocidente tenha tido como consequência um abaixamento dos níveis de conforto e de sofisticação da vida de largos estratos da população?

A queda do império romano do ocidente não foi apenas um abalo para as elites políticas, sociais e culturais. Representou um retrocesso no conforto material da esmagadora maioria da população. Já para não falar de que desapareceu assim o instrumento do maior período contínuo de paz (500 anos) vivido na região mediterrânica. Talvez seja útil reflectir nisto: o progresso e o bem-estar (material e espiritual) não estão nunca garantidos - um horizonte que pode ser ainda mais negro do que vemos hoje. Podemos sofrer recuos profundos e duradouros se não soubermos preservar e melhorar as formas sociais e políticas que são as suas condições de possibilidade.

O império romano durou muitos séculos e foi finalmente abalado e destruído. E demorou muitos séculos a recuperar o que se perdeu. A “nossa Europa” tem 50 anos e poucos anos e há nela ainda muito por fazer. E também ela não está garantida para todo o sempre, como hoje parece claro, dependendo da sabedoria com que soubermos ajustá-la continuamente às novas necessidades. Estaremos conscientes disso quando alimentamos o cepticismo, ou mesmo a hostilidade, face a essa realização comum de paz e de progresso? Estaremos cientes de que nenhuma realização das sociedades humanas pode sobreviver à indiferença dos seus principais beneficiários ou à tentativa de resolver as dificuldades à custa dos outros?

Quererá isto dizer que devemos aceitar a UE como o melhor dos mundos possíveis? Aceitar sem crítica as suas políticas (e os seus políticos)? Não. Quererá isto dizer que a UE é intrinsecamente boa? Parece hoje, mais do que nunca, evidente que não. Que devemos prescindir de tentar torná-la mais útil aos seus povos e aos outros povos do mundo? Não. Isto quer apenas dizer que nada está historicamente garantido e que, se não assumirmos colectivamente a nossa quota-parte de responsabilidade pelo futuro comum, as consequências podem ser desagradáveis. E isto deve contar na forma como avaliamos as propostas que por aí andam para responder à crise. É, afinal, sempre e ainda, aquela história do bebé e da água do banho.


(Actualização)

uma estátua para Relvas.



(Budapeste, Março de 2006. Foto de Porfírio Silva)