21.4.12

a senhora Kirchner será uma irresponsável nacionalizadora?

13:58

Ou será preferível olhar para vários aspectos da questão, em vez de nos concentrarmos no pavor das nacionalizações, como alguns fazem?

Argentina's critics are wrong again about renationalising oil. In taking back oil and gas company YPF, Argentina's state is reversing past mistakes. Europe is in no position to be outraged.

Neste artigo, Mark Weisbrot explica várias coisas com interesse: como é que a Argentina se ergueu das ruínas da "bondosa política" das instituições internacionais ao estilo FMI, como é que está há anos a seguir uma receita alternativa aos dogmas dominantes, porque é que a empresa petrolífera agora privatizada entra no xadrez de políticas de um país soberano que não quer deixar de o ser. Temos de considerar o significado concreto de tudo isso, em vez de entrarmos na onda de agitação alimentada pelos interesses privados em causa - que podem ser legítimos, mas não são exclusivos nem podem querer atirar para fora de cena os interesses mais vastos dos povos na sua situação histórica concreta.

outras parcerias público-privado que seriam interessantes.


Passo a citar:
No edifício da antiga Escola da Fontinha, há cinco anos ao abandono, nascera espontaneamente, por iniciativa dos moradores e outras pessoas, um projecto cívico autónomo que, durante um ano, sem mendigar subsídios, fez a "diferença", infeccionando de vida comunitária e, sobretudo, de esperança, o resignado quotidiano de uma das inúmeras zonas degradadas que, longe do olhar dos turistas, persistem no coração da cidade.
Manuel António Pina, Ódio à diferença

Irritam-me particularmente os comentários sobre a Es.Col.A que falam do que lá se passava como se de um fenómeno de vandalismo se tratasse. Julgo que há nisso alguma culpa, também, dos movimentos "alternativos" e "indignados", que gostam demasiadas vezes de folclore inconsequente e cuja retórica é frequentemente de desprezo pelas instituições. Criaram, desse modo, a ideia, partilhada por muita gente, de que não passam de arruaceiros. Cabe-nos a nós, aqueles que não queremos ser manipulados pelas aparências fugazes das coisas, aprender a distinguir o trigo do joio: informar-nos antes de vociferar, contrastar a informação disponível para construir conhecimento sobre as situações, descartar os fogos fátuos dos exaltados e não esmorecer na defesa dos que realmente metem mãos à obra na cidade. Infelizmente, políticos populistas e autoritários sabem aproveitar-se da forma apressada e superficial como estes processos são seguidos. Se, realmente, não queremos ser a Grécia, é precisa muito sabedoria para não tentar matar a diferença.

20.4.12

Es.Col.A

16:20
Face ao que se tem estado a passar com a Es.Col.A no Porto - o que se passou ontem, mas não só - entendo que é importante estarmos atentos.

Não sou entusiasta de ocupações do tipo ocupar por ocupar, tal como não penso que o estado de pura indignação resolva grande coisa. Mas julgo que os espaços de liberdade e activismo que, embora relativamente desorganizados, contribuam com alguma coisa para satisfazer necessidades reais das pessoas, não devem ser sufocados, muito menos reprimidos, muito menos à bordoada.

Como digo, devemos estar informados, evitando os extremismos de qualquer orientação. Não sou incendiário, nem gosto de incendiários, mas não gosto que o poder só suporte aquilo que lhe convém. Nem gosto de um poder abusador, manipulador ou trapaceiro, que tenta enganar as pessoas com informação tendenciosa servida fria a profissionais da comunicação que (alguns) ouvem e calam sem mais investigação.

No caso da Es.Col.A , a Câmara do Porto tentou atirar areia para os nossos olhos, com meias verdades e "informação" parcial para nos fazer crer na sua bondade (exemplo). Grave é que tenha mentido com meias verdades. Ouço o outro lado (por exemplo, aqui) e fico convencido de que Rui Rio (e/ou a máquina municipal) atira a pedra e esconde a mão. Em assuntos sérios, numa situação como a actual, em que todos temos obrigação de contribuir para uma mobilização social construtiva, parece que Rui Rio continua a ver tudo à luz de uma visão de negócio municipal onde os que mais precisam são os que menos contam.

O que se passou ontem no Porto com a Es.Col.A mostra que as autoridades, as polícias, os funcionários das instituições, os políticos ao estilo formal, podem ser destrutivos: podem deitar literalmente para o lixo coisas bem feitas e úteis, empobrecendo ainda mais - e à bruta - os que já são materialmente pobres. E isso em nome de uma legitimidade formal que não cura da legitimação permanente, da qual qualquer poder precisa (mesmo que não seja um poder democrático: nenhum poder subsiste eternamente sem um fluxo de legitimação reconhecida). Aquilo que a Es.Col.A tinha feito, concretamente com as populações, mostra que a mobilização popular pode ter sentido, ser construtiva - e fazer falta.

Não estamos em tempos de desistir de pensar, de meter tudo nos velhos odres. Estamos em tempos de atender ao concreto e às suas constantes mutações.

o corpo da máquina.

Acredita mesmo que a inteligência está (apenas) "dentro da cabeça", no cérebro, no sistema de controlo ou lá no que se chame a isso? Então talvez queira perceber o interesse que tem o vídeo que se segue.




Pelo menos desde 1888 que existem tentativas documentadas para fabricar “brinquedos ambulantes”, isto é, brinquedos com a forma de um pequeno humano (ou mesmo de outros animais) que seriam capazes de “andar”, sem qualquer motor, apenas devido às características construtivas de tais objectos e à acção das forças físicas (como a gravidade) exercidas sobre eles.

Na segunda metade da década de 1980, supostamente inspirado por uma versão mais recente de um desses brinquedos, o engenheiro aeronáutico Tad McGeer desenvolveu uma versão mais sofisticada, implicando cálculos complexos dos muitos factores em causa. É o que agora se conhece como Caminhante Dinâmico Passivo. Trata-se “apenas” de um robot com duas pernas (mais exactamente, apenas duas pernas ligadas por um eixo), sem qualquer motor, sem sensores, sem qualquer programa para executar, sem qualquer tipo de computação daquela que estamos habituados a verificar existir nos “animais artificiais” da IA e da robótica. Os pés têm a forma de segmentos de arco para facilitar o “andar”.




Imagens do “Brinquedo Ambulante” de George T. Fallis, constantes da Patente 376.588 (USA), de 1888 (segundo cópia disponibilizada no sítio de Andy Ruina, do Laboratório de Bio-robótica e Locomoção da Universidade de Cornell).


Muitas versões físicas deste Caminhante reproduzem um tipo de passada que realmente faz lembrar um humano – apenas sendo deixadas livremente num plano ligeiramente inclinado.


Um modelo simples do Caminhante Dinâmico Passivo, tal como concebido por McGeer.





Dynamite, um modelo com joelhos construído por McGeer. As pernas têm uma altura de 80 cm e pesam um pouco mais de seis quilos. (Foto in McGeer 1992)



Um modelo mais recente construído por Martijn Wisse.


Na primeira versão apresentada (McGeer 1990a), as pernas do Caminhante Passivo Dinâmico não eram articuladas, mas os princípios estavam já explícitos. A Figura 1 desse texto (que se reproduz), incluindo a respectiva legenda, era muito clara acerca do que estava em causa: o que ditava o comportamento daquele par de pernas capaz de andar (numa ligeira descida) eram as características físicas daquele corpo e as forças físicas que sobre ele se exerciam devido a essas características e a encontrar-se num dado ponto do universo regido pelas leis da mecânica newtoniana. Pouco depois (McGeer 1990b), o engenheiro já tinha concebido um modelo com “joelhos”. A ilustração que se junta, bem como a respectiva explicação original, deixam claro que o caminhar se traduz na repetição de um “ciclo”. McGeer usa, assim, um conceito típico da teoria dos sistemas dinâmicos (um “ciclo limite” é um tipo de “atractor”, uma região do “espaço de estados” de um sistema para a qual tendem a ser levados os comportamentos desse sistema).


Esquema das forças que moviam o primeiro Caminhante Passivo Dinâmico. Nesta versão as pernas ainda não tinham “joelhos”. (Figura 1 in McGeer 1990a).




O modelo com joelhos (Figura 2 in McGeer 1990b). Esta imagem e a respectiva legenda original deixam claro que estamos perante um “ciclo”, que se repete de tantos em tantos segundos durante a caminhada.


A importância que este sistema tem para a questão do papel da morfologia na cognição é bem resumida por Fernando Almeida e Costa: “O caminhante dinâmico passivo é um exemplo extremo do trade-off entre controlo e morfologia. O controlo em sentido clássico é completamente substituído pelas dinâmicas que resultam de propriedades morfológicas do robô, como a forma e o peso das suas componentes, e as leis da física. Por outro lado, o comportamento do sistema resulta do seu estar-situado (…) e do acoplamento em tempo contínuo entre as propriedades do corpo e as do meio” (Costa 2001:8-9). Trata-se de considerar que muito do que dizemos ser “inteligência” está no corpo, não na mente (no software, no programa, no sistema de controlo,…). Está aí a razão para considerar que a robótica do desenvolvimento não pode ser inteiramente consequente com o seu programa sem dar mais atenção às dinâmicas que a morfologia encerra.


REFERÊNCIAS

(McGeer 1990a) McGEER, Tad, “Passive Bipedal Running”, in Proceedings of the Royal Society of London, Series B, Biological Sciences, 240 (1297), pp. 107-134

(McGeer 1990b) McGEER, Tad, “Passive walking with knees”, in Proceedings of the IEEE International conference on Robotics and Automation, 3, pp. 1640-1645

(McGeer 1992) McGEER, Tad, “Principles of walking and running”, in ALEXANDER, R. McN. (Ed.), Mechanics of Animal Locomotion (Advances in Comparative and Environmental Physiology, Vol 11), Berlim e Heidelberg, Springer-Verlag, 1992, pp. 113-139

(Costa 2001) COSTA, Fernando Almeida e, "Evolução, morfologias e controlo em sistemas artificiais: para além do paradigma computacional", in Análise, 22, pp. 65-93



(este post é uma republicação de um post já aparecido neste blogue)

19.4.12

o fogo, o rasgão.




espoliados, coitados: e ainda por cima a culpa é da crise.

16:15

A Argentina anunciou a intenção de nacionalizar uma empresa petrolífera que é controlada por uma empresa espanhola. A nacionalização, uma vez que o governo argentino quer que o respectivo preço seja fixado por um tribunal do país, pode vir a ter o aspecto de uma expropriação. Esta decisão pode vir a ter consequências económicas negativas para a Argentina, uma vez que pode assustar parceiros potenciais que seriam necessários para explorar recursos naturais que parecem estar à vista. Mas a Argentina está habituada a apostar em mandar os parceiros internacionais às malvas, como mostrou quando "reestruturou" unilateralmente a dívida soberana, embora pagando o preço de ainda hoje estar fora do "mercado" normal desse equivalente universal.
Contudo, o que me chamou mais a atenção neste caso foi o facto de um representante da empresa espanhola mais afectada pela decisão ter dito que a medida da Presidenta se devia à (ou era para desviar as atenções da) crise económica e social. Pois, se calhar. Extraordinário é que o dito dirigente dessa empresa não se tenha ainda apercebido que, por causa da crise, estão a acontecer muitas coisas estranhas por esse mundo fora. É o desemprego, é a precariedade, é a redução dos rendimentos do trabalho, é a destruição de direitos, é a destruição do Estado, é... não vale a pena fazer a lista. Andam por aí indivíduos que, assim de repente, parecem distraídos: só quando os negócios lhes correm mal é que se lembram de que há uns inconvenientes motivados pela crise.

diplomacia fina.


Voto de Seguro dá argumentos a Sarkozy.
«Ratificação portuguesa do Pacto Orçamental, com os votos do PS, é usada por Nicolas Sarkozy para atacar François Hollande na campanha para as Presidenciais francesas.»

Era mais ou menos evidente que este argumento seria usado contra o candidato presidencial socialista francês. O PS português caiu numa armadilha: a troco de nada, deitou fora qualquer possibilidade de participar numa estratégia socialista a nível europeu para promover outra abordagem à crise. E, como bónus, deixou um amargo de boca em Hollande, que certamente passará a receber os socialistas franceses de braços abertos, no Eliseu ou fora dele.
Já mostrei que não tenho ilusões quanto à ratificação dos tratadinhos orçamentais merkelianos, mas o PS não pode desperdiçar a única frente onde tem algum espaço para mostrar o que vale nas actuais circunstâncias: a arena europeia.

as lições de moral do ministro das finanças.


O ministro das Finanças, Vítor Gaspar, foi a Washington dizer que Portugal oferece “uma lição de moral” a todos aqueles que defendem o aumento da despesa pública para estimular a economia.

Lições de moral?!

Uma lição de moral lhe ofereço eu, senhor ministro. E para facilitar a sua compreensão, nem vou falar devagar nem nada. Vou, isso sim, explicar-lhe a coisa metendo as máquinas ao barulho. Moral e máquinas. Talvez com máquinas à mistura o senhor ministro perceba. É que, como vai perceber se vir o vídeo, "aterrador" é "termos opiniões mais firmes sobre os nossos aparelhos portáteis do que acerca do enquadramento moral que devemos usar para orientar as nossas decisões."

Uns bons quinze minutos que não se dão por perdidos. Mesmo sendo ministro das finanças e tendo uma noção de moral que assusta. (E digo apenas assim, porque estou a tentar ser bem educado consigo, senhor ministro.)

(Pode ver com legendas em português.)


(Pescado no blogue Mestrado Grupo Tecnologias)

danos colaterais.


Programação.

Aviso:

"Por causa da crise, o fim do mundo é adiado."

in La Gueule Ouverte ("o jornal que anuncia o fim do mundo"), Maio 1968


(capa de Setembro de 1973)

18.4.12

faróis de nevoeiro.


Coisas a ver.

"Donos de Portugal" é um documentário baseado no livro homónimo de Jorge Costa, Francisco Louçã, Luís Fazenda, Cecília Honório e Fernando Rosas (Afrontamento, 2010). Estreia na RTP2, na noite de 24 para 25 de Abril (cerca da 1.30).

Mais informação aqui.


os tratados europeus que Portugal se apressou a ratificar.

11:30

Viriato Soromenho Marques escrevia ontem no DN (Sentir o Perigo), referindo-se a estes tratadinhos últimos de-fazer-de-conta-que-se-trata-das-finanças-matando-o-doente-com-a-cura-e-mais-umas-algaraviadas-institucionais, que
O sentido da ratificação destes tratados por Portugal não pertence à política, mas à etologia, à ciência do comportamento animal. A UE, agora que o Tratado de Lisboa está enterrado, pode ser comparada a um bando de gorilas, trocando entre si gestos de domínio e submissão.

Tem piada - e sou dos que respeitam e admiram VSM pela frontalidade e empenho com que se posiciona no debate público. Contudo, VSM, mais a generalidade dos outros críticos destes tratadinhos-tontos, incluindo os que explicitam que queriam a sua não ratificação por Portugal, esquecem-se de esclarecer uma coisa. Uma pequena coisa. A saber: as disposições ratificadas precisam que os países que não ratificarem não têm acesso aos meios de ajuda (ou, se quiserem, com aspas, "ajuda"). Portanto, a malta não ratifica e vai à vida à procura de quem nos empreste dinheiro. Ou o imprima para nós. Isto não vos sugere problema nenhum? Ser contra a ratificação destes tratadinhos merkelianos está muito bem, eu até simpatizo - mas quem se sente de mente tão lúcida para defender essa posição não deveria sentir-se obrigado a esclarecer o que acha que Portugal deveria fazer se se pusesse nessa situação?
Julgo que o debate público exige não escamotear as consequências das nossas posições.

(Agradeço ao Francisco ter-me levado até ao texto de VSM.)

medievália.


«Festa é excesso.»

Cito a primeira frase do artigo de Carlos Fiolhais hoje no Público.
Podia ser um tratado medieval sobre o pecado.
Não é. É apenas política da mais dai-nos-Pai-o-pão-nosso-de-cada-dia que por aí anda.
Mas com a voz cava dos profetas que só prevêem o dia de ontem.

17.4.12

desconfio que há outra coisa por detrás.


Tendo chegado a uma situação em que a governação é segredo de Estado - nós só sabemos da porrada no dia seguinte - é perfeitamente compreensível que até Gomes Ferreira desconfie e anuncie "Eu por mim não ponho um tostão no sistema financeiro". Porquê? "Porque o Estado provou que gere melhor". Ah, pois é.


(Link do vídeo surrupiado ao Paulo Guinote.)

na melhor nódoa cai o pano.


Manifestamente, andamos todos ("todos" é todos) a precisar de parar para pensar.


Isto tudo para chamar a vossa atenção para esta reflexão da Joana.

faltam mais as verbas do que o verbo.

reinterpretar Magritte.





16.4.12

a festa de Lurdes Rodrigues.

10:47

Parece que Maria de Lurdes Rodrigues, ex-ministra da educação, terá afirmado no parlamento nacional, acerca do programa de recuperação do parque escolar, o seguinte: "O programa da Parque Escolar foi uma festa para as escolas, para os alunos, para a arquitectura, para a engenharia, para o emprego e para a economia".
O país político e comunicacional rebolou-se de gozo com a "festa" de Lurdes Rodrigues. A "festa" deu o mote para toda a espécie de risotas, para comentadores políticos de todos os tamanhos a glosar o mote da ressaca. Em suma, a expressão da "festa" serviu para o costume: a ridicularização serve sempre um propósito, uma política.
Francamente, não percebo de que se riem.
É mau que ter edifícios renovados seja uma festa para as escola e os alunos? Porquê, é preferível ter escolas feias e frias, onde seja penoso estudar e trabalhar?
É mau que se usem os arquitectos e engenheiros portugueses para intervir numa das redes mais importantes do serviço público nacional? É preferível que haja mais desemprego de arquitectos e engenheiros, como se ele ainda fosse pouco?
Mesmo alguns dos que hoje defendem que o Estado deve apostar no crescimento e não se ficar pela austeridade, riem-se da "festa", como se ignorassem que um dos principais propósitos do programa de recuperação do parque escolar foi manter alguma animação na economia. Estão a rir-se de quem? Dos trabalhadores a quem o programa deu trabalho? Acham mais festivo que esses mesmos estejam agora no desemprego? É por isso que se riem da renovação do parque escolar ter sido uma festa para o emprego e a economia? Ou preferiam simplesmente que se tivessem entregue as obras todas a dois ou três tubarões da construção civil, que talvez tivessem gasto o suficiente em propaganda institucional para evitar este gargalhar maria-vai-com-as-outras acerca da festa?
Francamente não percebo o motivo da risota. Ou, melhor, percebo: a risota serve alguém, serve alguma coisa. Serve para tentar cobrir de ridículo quem se mexeu para aproveitar a oportunidade para fazer ainda mais alguma coisa pela escola pública. E serve, principalmente, para desculpar as mentiras torpes e irresponsáveis com que o actual ministro da educação lançou "o debate" sobre a questão, deturpando os dados, treslendo os relatórios para lançar um labéu que agora serve de refrão aos propagandistas da sua banda. A risota sobre "a festa" é o castigo de quem fala pelas suas próprias palavras, em vez de falar com a linguagem de pau dos políticos de galinheiro, nados e criados nas jotas e nos gabinetes deste e daquele vereador, secretário de estado ou administrador. A risota sobre as palavras de Lurdes Rodrigues mostra uma massa de gente a fazer o papel de tolo da aldeia, que se ri por ver rir sem compreender que é dele próprio que se riem.
A tese de que se gastou muito dinheiro não resiste bem às comparações internacionais. Por cá, o que a Parque Escolar fez, e como o fez, é muito melhor e muito mais limpo do que a maioria das obras comparáveis onde se gasta o dinheiro público. Mas isso não comove os promotores e os seguidores da risota acerca da "festa" de Lurdes Rodrigues. Muitos de nós fizemos a nossa formação em escolas cujos edifícios foram construídos suficientemente pomposos para mostrarem a proeminência da coisa pública, mas agora os locais da coisa pública, na ideologia de alguns, devem ser ou parecer refugo. E, afinal, o Estado só deve servir para acabrunhar as pessoas, não é isso?
Que coisa é essa de gastar dinheiro a fazer a festa da escola, a festa dos profissionais, a festa da coisa pública? O Estado deve gastar dinheiro é na polícia e nas bastonadas, não a fazer escolas. Não é isso? Se não é isso, porque se riem tanto da "festa" da escola e dos que para ela trabalharam?
E, mais, a raiva contra a "festa" é a raiva contra quem faz. Se a Parque Escolar não tivesse modificado os seus objectivos quando mudaram as condições, por exemplo quando aumentaram as necessidades de instalações graças ao aumento legal da escolaridade obrigatória, se tivessem feito cara de burocratas e tivessem mantido os planos iniciais, ter-se-iam protegido a si próprios, talvez - mas à custa do bem comum. Por isso, o que se passou foi também, acrescento eu, uma festa da responsabilidade cidadã de quem trabalha para o bem comum, contra a miséria moral dos que se encolhem e se protegem e apenas querem manter o seu currículo dentro das previsões do cinzento.
Sim, há muito por aí quem odeie que a intervenção do Estado possa ser uma festa para as pessoas e para o país. Sim, há muito por aí quem deteste que se façam coisas de que as pessoas possam beneficiar. Sim, há muito por aí quem deteste que se invista na escola pública - e, em geral, no serviço público. Quer isto dizer que tudo foi bem feito em todos os pormenores? Não. Mas também não engulo a conversa de "eu conheço a escola X e isto e aquilo foi mal feito", porque há sempre quem, não tendo de fazer, tem sempre muitas ideias acerca do que se deveria ter feito. Obviamente, esses críticos estão sempre dispensados de mostrar que a sua alternativa seria mesmo melhor e funcionaria: porque a maledicência funciona sempre melhor do que a obra feita num país como o nosso. Que esses sectores façam risota induzida e artificial com a "festa" de Lurdes Rodrigues, eu percebo. É mais um dispositivo de propaganda, é mais uma forma de substituir o debate pela chicana, é mais um truque para cobrir a forma desonesta como o ministro Crato colocou a questão no parlamento, é mais uma cortina de fumo sobre o conjunto das declarações de Lurdes Rodrigues no parlamento, porque os do costume não querem que se ouça o que ela disse. Percebo tudo isso.
Só não percebo porque é que algumas pessoas de esquerda deste país servem de caixa de ressonância ao murmúrio demente sobre a "festa" proclamada por Lurdes Rodrigues. Afinal, parece que há muita gente a ter assumido implicitamente a teoria, cada vez mais realidade, de que a força do Estado só pode servir para nos esmagar. Sim, porque nada disto tem a ver com um debate sério acerca da acção da Parque Escolar. Esse debate sério deixaria claro que prestaram um grande serviço ao país, embora se possam encontrar coisas menos perfeitas naquilo que fizeram. Coisas menos perfeitas que são muito especiosamente iluminadas por fazedores de relatórios e de discursos, mesmo que esses críticos não tenham muito como mostrar que são melhores a fazer segundo os critérios do bem comum.
Longa vida e saúde a quem tem a coragem de assumir que o serviço público pode e deve ser uma festa para as pessoas.