4.4.12

ilicitudes.

23:41

Tribunal Constitucional chumba diploma que cria crime de enriquecimento ilícito.

Designadamente por não respeitar a presunção de inocência.

A tentação de ganhar votos e margem de manobra política à custa dos direitos fundamentais é um perigo real que a demagogia aponta ao coração do estado de direito. Felizmente há instituições que funcionam. Os políticos que preferem encher o olho da populaça, em vez de se esforçarem para criar as condições para o efectivo combate à corrupção, deviam envergonhar-se com este puxão de orelhas. O actual governo, com a actual ministra da justiça à cabeça, está na primeira linha dos que têm um barrete para enfiar. Todos os deputados, excepto os do PS, têm o mesmo barrete na cabeça. Fica-lhes muito mal. O PS fez muito bem, desta vez não tendo cedido a tentações popularuchas e anti-democráticas, mesmo debaixo do chuveirinho de hipocrisias com que foi brindado.

o fingido e o verdadeiro não são coisas de teatro.

09:19


Na Cornucópia, "Fingido e Verdadeiro ou o martírio de S.Gens, actor", que é "Lo Fingido Verdadero" de Lope de Vega adaptado por Luís Miguel Cintra.
É, se queremos ficar pela rama, uma espécie de drama histórico sobre o padroeiro dos actores, que se converteu ao cristianismo quando estudava os cristãos para os representar como figuras do ridículo para os romanos. É, se queremos ir ao que mais dá, sobre a condição de representar com verdade o que não é verdade: o que dá a verdade com o mundo, o que dá o mundo à verdade. Só que, sempre, nas mãos de Cintra a coisa complica-se.
Espectáculo de desconstrução e reconstrução com os fragmentos a caminho de uma nova unidade. Não apenas do texto, onde os fragmentos são da peça original, de textos que serviram de fonte para Lope de Vega, de textos filosóficos e teatrais outros, a servir a reflexão sobre o teatro, a verdade e a representação tal como a vida os interroga. Mas também desconstrução/reconstrução da acção, onde a tragédia do martírio se mescla com o burlesco; onde o sermos puxados para dentro do clímax dramático original se mistura com o distanciamento propiciado pelas personagens excessivas; onde os enganos que devem cair sobre o espectador vão de par com os enganos que regressam para tombar sobre a cabeça do actor/autor; onde o riso desfazedor quebra a seriedade das evocações dos mártires. E onde, por tudo isto, temos fé que o novo crente que Cintra se afirma não matou o encenador e actor fenomenal e profundo que continua a ser (talvez cada vez mais, quanto mais isso se faz do seu vigor intelectual e menos do seu vigor físico).
E o cenário-como-se-nada-fosse-com-ele faz parte da estratégia geral de desconstrução e reconstrução, a trabalhar só com o esqueleto do mundo, pedindo-nos que vejamos o abstracto por detrás do visível, jogando só com as grandes linhas, como se fosse um esboço, em vez de nos resolver a preguiça com todos os detalhes que teria um cenário pintado até à última mancha de dourado e sanguíneo.
Da operação geral de desconstrução faz parte a encenação do não-espectáculo, da peça representada como a balbúrdia do ensaio, do guarda-roupa apresentado como se estivesse ainda por fazer, do objecto teatral que nasce à nossa frente pelo puro trabalho de parir (como se estivéssemos a ver nascer o que já é, afinal, maduro). Daí que espectadores mortos de riso tenham podido coexistir com actores chorosos. Daí que registos se cruzem como se tudo aquilo fosse leve: mas, claro, com a armadilha de se poder perder tudo aquilo se insistirmos em rir quando é para chorar e em chorar quando é para rir, já que não podemos ver de qualquer maneira se queremos pensar. Mau-grado o trabalho de citação sobre a verdade e sobre (as mentiras de) os sentidos, a questão é que os olhos não vêem: quem vê somos nós.


2.4.12

É na Terra, não é na Lua.


"É na Terra não é na Lua", de Gonçalo Tocha, é um filme no Corvo que vale a pena ver. Sem arrogância, também sem excessivas contemplações (mas deixando as ironias mais pesadas para os espectadores), obriga a que nos verguemos um pouco ao tempo da ilha: o filme é longo (talvez nunca seja tão longo como naquela ladainha dialogada à Nossa Senhora, mas nem sempre o excerto vale pelo todo), dura ficionalmente o tempo de fazer um invejável gorro corvino e de perceber que aquelas duas vozes de rapazes do continente se misturam em fundo com as vozes dos habitantes para nos contar o que os locais não querem ou não podem contar, fazendo-o no entanto com o respeito de quem se fez hóspede e quis ser hospedado.





1.4.12

golden shares em retrospectiva.

Nicolau Santos no Expresso / Economia de ontem :
«Mário Monti, que quando foi comissário europeu da Concorrência travou um grande braço de ferro com o Governo português contra as golden shares nacionais, está agora, enquanto primeiro-ministro italiano, a blindar as empresas privatizadas dos sectores estratégicos da Defesa, Energia, Transportes e Comunicações aos apetites do capital estrangeiro, particular extracomunitario. O objectivo é tornar mais efectiva a golden share, limitando os direitos das empresas estrangeiras e estabelecendo multas avultadissimas para quem tente contornar a lei. É caso para dizer: pelo mercado livre em Bruxelas, pelos interesses nacionais em Itália. E assim se constrói a Europa: uma lei para os fortes, outra para os fracos.»
Tem toda a razão Nicolau Santos, mas há que acrescentar duas coisas. Primeiro, que baixar a protecção das empresas portuguesas corresponde à ideologia dita liberal de muitos que por aí andam, designadamente no governo. Segundo, que alguns se estiveram a marimbar para o interesse nacional quando, pelo puro interesse de fazer oposição interna, se colocaram do lado da Comissão Europeia e contra o governo português quando este tentou limitar a pressa na eliminação das formas mais iu menos mitigadas de golden share em empresas portuguesas. Convém não esquecer.