18.2.12

Um divertimento político-filosófico, diz ele.



Lançamento do livro "Podemos matar um sinal de trânsito?", de Porfírio Silva (Esfera do Caos Editores), Livraria Bulhosa de Entrecampos, 9 de Fevereiro de 2012. Apresentação pelo Professor Viriato Soromenho Marques (excertos).

17.2.12

as próximas eleições gregas.

21:33

Um dos aspectos notáveis do interesse blogosférico pelo momento que a Grécia atravessa tem a ver com as previsões acerca dos resultados das próximas eleições. Já aqui veio alguém, em caixa de comentários, comprazer-se porque os partidos anti-troika devem vir a representar uma fatia importante do próximo parlamento grego. Outros estão excitados porque os socialistas, que pegaram numa crise extraordinária e irresponsavelmente agravada pela direita, sairão provavelmente em frangalhos das próximas legislativas. Há, portanto, muita gente a esfregar as mãos de contentamento com os resultados esperados das próximas eleições.
Será que ninguém pensa quão pornográfica é essa excitação? Qualquer que seja o resultado das próximas eleições gregas, ele será o resultado de um país despedaçado pela acção dos seus "amigos" e "aliados". Qualquer que seja o resultado das próximas eleições gregas, tal como a Grécia de hoje, trata-se de um produto de uma guerra conduzida por meios não tradicionais. Uma guerra de egoísmos e esquecimentos, alguns dos quais já foram lembrados pelo presidente da república helénica. As eleições serão um artefacto da estupidez da Europa, principalmente da Europa rica que gosta de quem lhes compre os seus produtos, mas não se importa de esmagar uma democracia.
(Esquecida, essa Europa rica, do mal que a História testemunha que já nos causou a nós todos. Esquecida, essa Europa rica, alemã neste caso, de como outros europeus foram pacientes e simpáticos durante décadas com as dívidas que eles tinham para pagar na sequência da guerra. Aliás, parece que à Grécia a Alemanha nunca pagou, mesmo).
O regozijo de alguns com o previsível resultado de umas eleições que serão produto de uma agressão externa, de uma verdadeira guerra civil europeia, é pornográfico. É que essas eleições serão tudo menos livres. Essas eleições, provavelmente, vão ensinar-nos muito mais do que estamos à espera - mas que se tenha chegado a elas, nestas condições, é, em si mesmo, um facto preocupante. Que se regozijem os que esperam que essas eleições de guerra confortem os seus aliados espirituais, diz muito do estado a que chegou a política neste continente.
Eu, por mim, numa coisa estou com os mais conservadores entre nós: não desejo que queimemos as nossas cidades para que alguém ganhe eleições com isso. Mas há muito por aí quem afague as suas impotências revolucionárias com o calor das fogueiras gregas - cujos frutos esperam se colham maduros nas urnas. Em cinzas, como convém às urnas.

C.A.M. ON.


Inauguraram ontem - e abrem ao público hoje - três exposições três no Centro de Arte Moderna da Gulbenkian: de Beatriz Milhazes, Quatro estações; de Rosângela Rennó, Frutos estranhos; do colectivo de artistas A kills B (fundado em 2007 po Hugo Canoilas e João Ferro Martins), A mata B.

Deixo um piscar de olhos de Rosângela Rennó:



Deus lhe perdoe.

14:28

Diz o novo cardeal da Igreja Católica, Manuel Monteiro de Castro: «A mulher deve poder ficar em casa, ou, se trabalhar fora, num horário reduzido, de maneira que possa aplicar-se naquilo em que a sua função é essencial, que é a educação dos filhos.»

O senhor cardeal deve imaginar que todos os homens são imbecis. Só isso pode justificar que reserve às mulheres o principal quinhão na educação dos filhos. Mas o senhor cardeal não devia julgar todos os homens por si próprio: acredito que ele ache que os seus filhos só podem ser educados por uma mulher, nunca por ele. Não deve é pensar que todos somos como ele.
Vade retro, Satanás, que andas a baralhar os neurónios destes príncipes da Igreja.

impedimentos.


Se é verdade o que se diz "por aí", o PR mentiu, ou mandou mentir, quando deu a desculpa de um "impedimento" para não ir ontem à António Arroio. O homem que temos no topo do Estado, além de estar fechado na sua pequenez, seria, então, também um mentiroso. Um pequeno mentiroso, aliás. Temos de rever a teoria política, para encaixar "isto" na razão de Estado. De outro modo, é demasiado deprimente. Mesmo para mim, que nunca gostei dele, este filme é demasiado mau. Safa!

direito de defesa.

09:57

Suspeito de triplo homicídio em Beja morreu enforcado com lençóis na prisão.

O lugar supostamente mais vigiado do mundo, estar dentro de uma cela, não é suficientemente vigiado: um homem chega a uma cela e nessa mesma noite consegue matar-se sem que nada nem ninguém se lhe oponha. Já alguém da polícia tinha alertado para essa possibilidade, mas não foi precisa mais de uma noite para cansar a vigilância e afrouxar o cuidado. Talvez alguns pensem que um homicida não merece tais cuidados.

Estes casos mostram sempre os limites da nossa sofisticação. Já tinha sido aflorado, a propósito deste mesmo homem, o problema da sua defesa. Não quero ajuizar das razões da advogada que pediu dispensa do papel de defensora, papel para o qual tinha sido nomeada oficiosamente. Não quero ajuizar por não conhecer (nem pretender conhecer) as razões verdadeiras do pedido de dispensa. Não posso, contudo, impedir-me de comentar, genericamente, a questão da defesa de qualquer pessoa, por mais hediondo que seja o crime que tenha cometido.
Já descontando o facto de que a defesa não tem necessariamente de arguir a inocência, para algumas pessoas parece difícil de entender que qualquer pessoa merece defesa. Defender é fazer valer o ponto de vista do arguido; é mostrar que o mundo não tem só um lado, apesar de ser redondo; é explicitar, num contexto argumentativo, a palavra de uma das partes; é iluminar aqueles recantos do mundo que mais ninguém visitou e têm por vezes tudo a ver com a desordem desencadeada; é manter a rugosidade da realidade, mesmo quando a violência é tanta que só vemos uma planície de maldade; é manter a pessoa como pessoa, não a reduzir à bestialidade, mesmo quando tenha cometido actos bestiais. E, claro, é fazer valer a possibilidade de que as coisas não tenham sido o que parecem ser, mesmo em caso de confissão, mesmo em caso de flagrante delito. Por isso, todos merecem ser defendidos. Defender o que parece, aos olhos do povo, indefensável - é prestar serviço à justiça. Mas é um grau de sofisticação das nossas instituições que talvez nem todos os seus servidores compreendam facilmente. Que talvez nem todos os seus servidores suportem.

Neste caso, já nada disto conta, claro.

16.2.12

o que as pobres máquinas vêem.


Um vídeo e um título roubados a João Pinto e Castro.
Mas por uma boa razão: acrescento abaixo um comentário, citando um interessante filósofo.



Comenário:
N.R. Hanson, no clássico Patterns of Discovery (1965): «Seeing is an experience. A retinal reaction is only a physical state — a photochemical excitation. Physiologists have not always appreciated the differences between experiences and physical states. People, not their eyes, see. Cameras, and eye-balls, are blind.»

Já tinha falado disto em tempos.

o P.R. está escondido em parte incerta?


Presidente cancela visita a escola de Lisboa e dá desculpa esfarrapada para não comparecer.

Decretaram o recolher obrigatório para o Palácio de Belém e não avisaram ninguém?!
Ou simplesmente Cavaco Silva está em período de reflexão sobre os seus últimos actos e palavras?
Um mistério... ou nem tanto.

Adenda, pescada na rede.
A 17 de Janeiro de 2011, Cavaco Silva declarou: "Considero importante que crianças, jovens, pais e professores venham para a rua para defender a sua escola. É um sinal de vitalidade da nossa sociedade civil". (notícia aqui: Cavaco Silva incentiva alunos do privado a manifestarem-se)
Agora parece ter mudado de opinião. Pode ser do vento. Faz um vento dos diabos nesta terra. E as florinhas de bom tempo têm dificuldade em manter-se direitas quando o vento sopra. Talvez especialmente quando se sentem mal pagas.

15.2.12

caro deputado demo-cristão João Almeida...


... tenho aqui mais uns exemplares para o seu alfobre de ideias brilhantes acerca do emagrecimento da função pública (o mesmo de onde saiu esta: CDS aconselha funcionários públicos insatisfeitos a rescindir).

Se vale tudo a empurrar funcionários públicos pela porta fora, no espírito "quem não aguenta a porrada, rescinde", há outras modalidades que podiam ser tentadas. Por exemplo: obrigar os funcionários a almoçar em pelota na cantina do serviço todos os sábados (pressupondo que passarão a trabalhar ao sábado); instituir o princípio de que a assistência a reuniões implica permanecer com uma pedra de 50 quilos equilibrada na cabeça durante qualquer intervenção de pessoa com grau hierárquico superior; proibir o acesso a pisos superiores por elevador, ou mesmo por escada, devendo usar-se a parede exterior do edifício para o efeito (sendo necessário usar cordas para apoiar a escalada, as mesmas devem ser fornecidos pelo próprio alpinista). Se estas medidas de incentivo à rescisão não forem suficientemente persuasivas, pode tentar-se a via de pagar o vencimento mensal em géneros (em milho ou cevada, por exemplo).

Creio, senhor deputado, que estas sugestões vêm perfeitamente na linha da sua intervenção acerca dos benefícios da migração interna dos funcionários públicos. São, além do mais, perfeitamente conformes ao cuidado que a democracia cristã sempre coloca na protecção da família.

no reino da Dinamarca.

17:45

No passado fim-de-semana, na Dinamarca, organizações dos parceiros sociais, relevantes para uns 250.000 trabalhadores em cerca de 6.000 empresas industriais, chegaram a acordo para um novo acordo colectivo para 2012 e 2013. Está em causa um aumento modesto do salário mínimo (1,27% em 2012 e 1,26% em 2013), que poderá traduzir-se numa queda efectiva dos salários reais em mais de um ponto percentual. A contrapartida foi um acesso acrescido dos trabalhadores a formação profissional. Normalmente, o acordo na indústria influencia os subsequentes acordos noutros sectores. Contudo, o sector público continua sem acordo.
Porque será que os trabalhadores aceitaram este acordo? (Na Dinamarca, a taxa de sindicalização ronda os 70%).
Pressionados pela perda de competitividade do país (nomeadamente face à Alemanha), talvez tenham alguma esperança nos planos do governo para consolidar as finanças públicas até 2013 (a partir de um défice actual de 4%). Espantados? É que desse plano consta de forma proeminente o projecto de um acordo tripartido para aumentar o emprego. O Governo quer que o país alcance um aumento líquido da oferta de emprego em cerca de 20.000 trabalhadores até 2020, o que, calcula-se, daria às finanças públicas uma entrada suplementar de 500 milhões de euros anualmente - dinheiro esse que permitiria sustentar no tempo fortes políticas activas de emprego.
Os empregadores não queriam começar as conversações para este grande acordo antes de concluírem o acordo colectivo bipartido, que agora se alcançou.
Há acordos que valem a pena, não há?


aquele querido tabu.


"Tabu", de Miguel Gomes, é considerado o filme sensação no Festival de Berlim.

"Aquele Querido Mês de Agosto", filme anterior do mesmo realizador, é daquelas obras cujo fascínio sobre mim nunca consegui explicar bem. É tanta coisa que lá vem dentro, embrulhada numa aparência de facilidade e de "corriqueiro", misturando ironia e ternura, daquelas pedras rolando pela encosta que podem escorrer para a tragédia ou para a salvação cósmica - que não sabemos por onde começar a pensar tal objecto. "Aquele Querido Mês de Agosto", sendo um filme para sentir - um filme que nos puxa para o seu universo e nos mistura nele - é também um filme que obriga a pensar: quanto mais não seja, obriga a pensar se queremos "fazer uma teoria" do que vemos.
Tudo isto me deixa em pulgas para ver "Tabu". Não por ele ter ou deixar de ter o Urso de Ouro no Festival de Berlim (seria bom que tivesse, mas se calhar não é fácil), mas porque tenho ganas de ver mais filmes de quem fez "Aquele Querido Mês de Agosto". E, claro, se o realizador for reconhecido a outro nível, se calhar tenho mais possibilidades de voltar a ver no futuro filmes "daqueles".


14.2.12

That was the worst Christmas ever.

Socialistas enviam "troika alternativa" à Grécia.

17:36

O Grupo dos Socialistas e Democratas no Parlamento Europeu vai enviar uma "Troika alternativa" à Grécia, para incentivar um caminho de crescimento e emprego, em vez de austeridade, porque esta via não trará os benefícios apregoados pela "troika oficial". A portuguesa Elisa Ferreira integrará a missão.


Mais aqui.


All Watched Over By Machines Of Loving Grace.

17:17


All Watched Over By Machines Of Loving Grace
de Richard Brautigan (c. 1967)





I like to think (and
the sooner the better!)
of a cybernetic meadow
where mammals and computers
live together in mutually
programming harmony
like pure water
touching clear sky.

I like to think
(right now, please!)
of a cybernetic forest
filled with pines and electronics
where deer stroll peacefully
past computers
as if they were flowers
with spinning blossoms.

I like to think
(it has to be!)
of a cybernetic ecology
where we are free of our labors
and joined back to nature,
returned to our mammal
brothers and sisters,
and all watched over
by machines of loving grace.


(Vídeo: Richard Brautigan lendo o seu poema. Tirado da série documental de Adam Curtis, com o mesmo título.)

nem as linhas de torres nos safam.


O sujeito da frase, ou oração ou declaração ou o que seja, não temos de ser nós. Podem ser os nossos por nós. Ou os outros por nós. Mas o céu acabará por nos cair nas cabeças se não o segurarmos. Nem que seja com as cabeças, com as inteligências, ou com as mãos. A inteligência das mãos.


by Jasper Johns

13.2.12

formas de vida.

figuras políticas com crédito.


Queremos figuras políticas com crédito, pela sua inteligência, pela sua verticalidade, pela capacidade de pensar de forma independente, por terem princípios, por serem bem formadas e terem educação, por terem competência técnica em algum domínio relevante.
Queremos, não queremos?
E, para quê?
Para, na primeira oportunidade, gastarem o crédito a proteger o chefe, sentando-se em cimas das granadas. Ou, mais grave, abafando o escrutínio.
Se os políticos com crédito só servem para gastar o crédito na primeira oportunidade, estamos tramados.

Como é o caso neste caso: Assolução Esteves.


12.2.12

plural como o universo.


Já abriu, na Gulbenkian, a exposição "Fernando Pessoa, Plural como o Universo". Deixamos fragmentos.




milagreiros.


Arménio Carlos reclama maior manifestação em 30 anos.

Andam demasiados líderes de alguma coisa a tentar atirar para debaixo do tapete o passado recente das suas organizações. Arménio Carlos chega e reclama logo, sem qualquer suporte, que presidiu ao maior estouro cósmico desde a invenção do isqueiro. Haja paciência, que precisamos da CGTP com os parafusos todos no sítio (e os pés na terra, evidentemente).