28.1.12

Robôs Pessoais.




neste dia em 1916 nasceu Vergílio Ferreira.

11:30

«Também tenho a minha parte de robot e não a nego. Mas sei que há outra coisa à minha espera e que só depois dessa é que não há mais nenhuma. Tenho apenas esta vida para viver, e seria quase uma traição que faltasse à sua entrevista – essa entrevista combinada desde toda a eternidade. Por isso eu a procuro à minha vida, em toda a parte onde sei que ela me espera com uma palavra a dizer. Os robots da loucura é que a ignoram, porque o mundo deles é o da transacção imediata, um mundo táctil, de objectos, como o das crianças.»

Vergílio Ferreira, Carta ao Futuro, 1958


relatório de um país ao triunvirato.




27.1.12

as minhas despesas não dão para a reforma.

O título deste post é a única versão autorizada das minhas declarações.
Suponho que possam agora compreender quão injustas foram as vossas reacções.




novas formas de oposição.




A polícia da cidade siberiana de Barnaul pediu aos procuradores públicos para investigarem a legalidade de um recente protesto em que dezenas de pequenos bonecos - ursos de pelúcia, figuras de Lego, personagens de South Park - "protestavam" com cartazes onde se lia, por exemplo, "Por eleições limpas" ou "Um ladrão deve ir para a cadeia, não para o Kremlin".

Realmente, precisamos construir novas formas de acção. Não necessariamente de oposição: novas formas de "posição". De joelhos, só, é que não dá.


Desenvolvimento da notícia: Doll 'protesters' present small problem for Russian police.

a cidade de Ammaia.

26.1.12

com base numa história verídica.

21:30



Ontem, para descontrair, fui ver Moneyball. Não acho que seja um grande filme, mas não me arrependo de ter ido.
Não obstante, acautelem-se: é de utilidade saber o mínimo sobre o funcionamento básico do jogo do basebol. Eu, que na adolescência vivi durante algum tempo numa comunidade onde se jogava basebol na rua, como aqui se joga futebol (ainda tenho taco, luva e bola, mas há muito tempo que não tenho oportunidade de dar umas tacadas), levava essa vantagem. Mesmo assim, há ali factores que só seriam mais adequadamente compreendidos sabendo mais do que eu sei sobre as tácticas do jogo.
Tirando isso, acho parcialmente errado que se diga que é um filme sobre o peso do dinheiro no desporto. Acho que está em causa algo muito mais interessante: até que ponto o conhecimento (neste caso, a estatística) pode dar a volta à compreensão "humanista" da forma como funcionam as pessoas e o mundo. O filme é, a meu ver, acerca de como a "intuição dos praticantes" e a "cultura do grupo" pode ser fintada pelo conhecimento aplicado, que tende a ver as pessoas e as organizações como máquinas, as quais podem ser estudadas sem grandes sentimentos e com muita análise. Infelizmente, acho que o filme não consegue transmitir esse aspecto com grande clareza. Daí que às vezes perca de todo o ritmo e se torne por bocados um tanto morno. Daí que se compreenda que a crítica diga que é um filme sobre o peso do dinheiro no desporto. Pois, também se podia dizer que o filme é sobre a história do basebol: mas não é, embora possa parecer.
A verdade é que é precisa muita ginástica para transmitir conceitos muito abstractos num filme popular. Poucos conseguem isso. Lembro um que conseguiu: Uma Mente Brilhante, que "explica" Teoria dos Jogos como se fosse um romance. Que não é.

não se pode negar que Durão Barroso esteja a fazer o que é necessário e urgente.



Comissão Europeia processa Portugal por não proteger as galinhas poedeiras.

Informa o Público: «A Comissão Europeia abriu um processo contra Portugal por infracção ao direito comunitário por não ter adoptado as novas normas de produção de galinhas poedeiras destinadas a melhorar o seu bem-estar.»

Ouvi dizer, mas não pude confirmar, que as poedeiras vão receber pensões mais baixas este ano, porque não têm estatuto de independência, como os bancos centrais.

[Este post é um post populista. Não deve ser levado a sério.] [A sério? E os outros posts deste blogue, devem ser levados a sério?!]

Daniela Ribeiro - Olho Biónico.

a minha prenda de natal para mim.


Acabou de chegar.
Vinda directamente do Japão. Anunciada, há mais de um mês, para o dia de hoje, chegou no dia de hoje.
Uma preciosidade. Qualquer dia explico.








ligações fora da era da técnica.


Por ordem cronológica.

O Tractatus Logico-Philosophicus, de Ludwig Wittgenstein, termina com a seguinte frase (tradução de M.S.Lourenço): «Acerca daquilo de que se não pode falar, tem que se ficar em silêncio.»

O meu livro acabado de sair, Podemos matar um sinal de trânsito?, termina com a seguinte frase: «Acerca daquilo de que se não pode ficar em silêncio, tem de se falar.»

O post de Pedro Eiras, Como se escreve um ensaio, no blogue da plataforma MILPLANALTOS, termina com a seguinte frase: «Sobre aquilo de que não se pode falar, deve-se.»

25.1.12

a ideologia dos incentivos.


Há quem defenda que o corte das prestações sociais (designadamente, por desemprego) é bom como "incentivo" ao trabalho. Chris Dillow analisa um pouco esse argumento, no seu blog Stumbling and Mumbling - no contexto da política britânica, mas de modo pertinente também para a lusa arena. Os seus argumentos centrais contra aquele "incentivo ao trabalho" são os seguintes.

Antes de tudo, o que falta não são incentivos ao trabalho, mas oportunidades (basta comparar o número dos que procuram trabalhar e as vagas existentes). Mas porque é que certos políticos dizem aquelas coisas dos incentivos? Dillow explica isso com "ideologia", claro (ideias gerais, e erradas, acerca das maravilhas dos mercados, nomeadamente o mercado de trabalho). Mas adianta mais qualquer coisa, em termos de enviesamentos cognitivos. E faz a seguinte lista.

A falácia da composição. Admitindo que algumas pessoas talvez pudessem encontrar um emprego se se esforçassem mais, o que é verdade para alguns não é necessariamente verdade para todos. Neste caso, se todos se esforçassem mais - não haveria ainda lugar para tantos esforçados!
O erro fundamental da atribuição (que consiste em sobrevalorizar o peso que têm, no comportamento das pessoas, as suas disposições internas ou personalidade, desvalorizando o peso do entorno a influenciar a acção). Neste caso, pessoas que estão em posição de encontrar um emprego desde que o procurem (o que conseguem depende apenas da sua disposição pessoal) convencem-se que isso será assim com toda a gente, o que não é verdade por razões "ambientais" (se há poucos empregos, os muitos que procuram não podem todos conseguir, e nem para todos basta estender o braço).
O efeito de halo (quando uma característica de uma pessoa ou objecto afecta a forma como vemos outras características da mesma pessoa ou objecto, embora nada justifique essa relação; explora-se este enviesamento cognitivo, por exemplo, quando num filme os "bons da fita" são os mais bonitos). Neste caso, Dillow está a criticar o seguinte argumento a favor de baixar as prestações: é justo que quem não está a trabalhar receba menos do que quem está a trabalhar. O efeito de halo aqui quer dizer o seguinte: mesmo que isso seja mais justo, não quer dizer que seja mais eficiente no que toca a resolver os problemas que enfrentamos.
O enviesamento para a acção. Os políticos querem "fazer coisas". Mesmo quando não podem fazer nada de relevante para um dado problema, querem fazer qualquer coisa. Com políticas restritivas, os governos não podem fazer grande coisa para aumentar a oferta de emprego. Mas têm de fazer qualquer coisa - e "dar incentivos" (daquele género mencionado acima) tem o ar de ser "fazer qualquer coisa".

Pode não se concordar com todos os pontos desta análise, mas que ela é desafiadora, acho que sim. O post original está aqui: The ideology of incentives. Vale a pena lê-lo, porque o que deixo aqui não é exactamente um resumo, mas mais uma leitura.

há sempre alguém...


... disposto a servir bolinhos e chá à censura.
Quando estas coisas acontecem - Pedro Rosa Mendes diz que foi censurado na Antena1 - há sempre quem desvie a conversa. Ou porque é o Sócrates (o Sócrates dá para tudo), ou porque a culpa é da falta de liberalização, ou porque as empresas públicas são uma lama, ou porque os políticos são todos iguais... Denunciar, clara e inequivocamente, a censura - isso é que não: opta-se sempre pela alternativa de desviar a conversa.
Por que será que liberais-tão-liberais-que-eles-são não olham, num caso destes, para o pão que alimenta as bocas da censura, a saber, o peso de interesses económicos angolanos em terra portuguesa, quando esse peso faz vergar as colunas (in)vertebrais dos que se agacham para não molestar o colonizador? Não é assim sempre, não é assim em todo o lado. A muitíssimo pública BBC, mesmo não sendo santa, não é a promiscuidade que muitos acham congénita ao serviço público. Os States têm serviço público de rádio e televisão e estes pecados de descarada manipulação são considerados pecados, ponto final, e quem meta a mão na massa para fazer o contrário terá de se explicar. E assim em muitos outros países. Nem tudo é igual, nem tudo chafurda na mesma lama: mas há sempre uns liberais-vale-tudo que sacam da justificação ideológica como quem saca da pistola para descartar um grito de alma que lhes seria exigível perante a canhestra censura.
Algum dia virá em que certas pessoas sejam capazes de dizer, sem rebuços, "censura nunca mais"? Ou terão sempre e ainda de se encolher atrás de cortinas ideológicas?

Hollande, a esquerda mole e a democracia normal.

11:45

François Hollande, o candidato dos socialistas franceses às presidenciais deste ano, fez no passado domingo um discurso que muitos consideram um novo arranque na corrida, depois de muitas hesitações e propostas pouco esclarecidas que tinham confundido o eleitorado. O “discurso de Bourget” centrou-se no “sonho francês”. Na medida em que Hollande está a lutar por ser reconhecido como o candidato capaz de mobilizar a esquerda, por descolar da etiqueta de “esquerda mole” que Martine Aubry lhe tinha colado durante as primárias, é curioso ver como o “sonho da esquerda” e o “sonho nacional” (francês, neste caso) se misturam. Um sinal dos tempos, sem dúvida.
Hollande atirou-se às canelas do mundo da finança desregulada, que definiu como o seu principal adversário, e anotou algumas das suas ideias para esse problema, por exemplo: obrigar à separação das actividades bancárias de crédito e de investimento, uma verdadeira taxa sobre as transações financeiras “com aqueles que na Europa a queiram”, um fundo de intervenção europeu, uma agência de notação europeia. É que, sem atacar essa frente financeira da economia, não vai ser possível voltar ao crescimento e ao emprego, cuidando da equidade, já que Hollande se compromete a controlar a despesa pública e a não aumentar globalmente o número de funcionários.
Embora não tenha usado muito tempo do seu discurso a falar explicitamente da Europa, Hollande não a esqueceu. Como vimos antes, o seu “principal adversário” tem de ser combatido a nível da União. Mais explicitamente, o regresso ao crescimento passa pela Europa. Segundo o candidato socialista, a França tem de “reencontrar a ambição de mudar a orientação da Europa” (subentende-se: ao contrário de Sarkozy, que vai na onda da outra senhora). Para isso, proporá aos parceiros europeus a renegociação do pacto intergovernamental saído do Conselho Europeu do passado 9 de Dezembro (o tal do “compacto fiscal”), para lhe acrescentar a dimensão que lhe falta: a coordenação das políticas económicas; os projectos industriais; o relançamento das grandes obras no domínio da energia; a coordenação contra a especulação; um fundo europeu com capacidade para agir nos mercados; um BCE que meta as mãos na massa da forma mais eficaz e sem estar constrangida por algumas das regras actuais; o lançamento de euro-obrigações para mutualizar uma parte das dívidas soberanas; uma nova política comercial da Europa no mundo, que combata a concorrência desleal através de cláusulas de reciprocidade e de regras estritas em matéria social e ambiental.
Mantendo um pé no sonho francês em termos de liderança da Europa, não esquece o eixo “central”, sem o qual tudo se torna mais difícil, propondo para o início de 2013 um novo tratado de amizade franco-alemão, meio século depois do tratado firmado por De Gaulle e Adenauer.
Claro que Hollande quer fazer um contraponto ao presidente-candidato em exercício, mas nunca o citou. Claro que Hollande quer representar a esquerda, mas a esquerda fora do PS não anda muito satisfeita por Hollande não se mostrar muito disponível para negociar com ela. Claro que Hollande quer ser um candidato galvanizador, mas não está muito no seu tom chegar onde tem de chegar pela via do carisma. Mas esta é a política de hoje: temos de contar com gente normal, assumidamente normal, e deixar de esperar por monstros sagrados. Em tese, isso até seria bom: uma cidade de gente normal, com dirigentes normais, sem expectativas “religiosas” acerca dos líderes. Mas não é fácil todos os dias aceitar essa normalidade, pois não?


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24.1.12

o mais pobre dos cavaquistas.


Se Cavaco Silva é "o melhor garante da liberdade possível da comunidade política portuguesa", estamos bem tramados.

Mas não, não é ele o melhor garante, nem da liberdade, nem da soberania. O actual PR diz coisas, mas nunca age em conformidade. Abre a boca sempre fora de tempo, para poder encolher a mão quando chega a hora das decisões. Aliás, a hipocrisia é o traço mais permanente do percurso político de Cavaco Silva. Eu também não vou a Belém atirar moedas a Cavaco, porque não é a minha chávena de chá - e não vou dar moedas a pessoa tão gastadora, que não sabe controlar as suas despesas. Mas Cavaco é perigoso, porque pensa sempre primeiro na pele dele, e só depois no país. Felizmente, já pensa menos nos amigos, porque está zangado de ser o mais pobre de todos os que se acolitaram à sombra do cavaquismo e isso mói-lhe a cabeça. Mas está cada vez mais reduzido aos seus pequenos pensamentos (e isso explica que exponha a um país sofrido da crise as suas angústias orçamentais caseiras) e às suas tácticas de sobrevivência política (por isso dispara em todas as direcções, consoante a hora).
Não, Cavaco já não é garante de nada. Só a cidadania pode ser garante de alguma coisa. Embora concorde que não vale a pena urrar contra o homem, sem urrar contra os que repetidamente se deixaram enganar por ele, dentro e fora do seu próprio partido.

Já ouviram falar de Mariano Gago?


Cinco portugueses distinguidos nos EUA para serem "futuros líderes científicos".

Segundo o Público, «Portugal ficou em segundo lugar, ao lado de Espanha, no número de vencedores. Em primeiro lugar ficou a China, que teve sete premiados. Entre as outras nações elegíveis estavam a Índia, o Brasil, a Itália, a Rússia, a Turquia e a Coreia do Sul.» Além disso, Pedro Carvalho, português, ganhou o prémio fora do território nacional, em Espanha.

Petição "TODOS PELA LIBERDADE".

13:10

censura.


RDP acaba com espaço de opinião que serviu de palco a críticas duras a Angola.

Ainda dizem que a blogosfera não manda nada. Quando um ministro das propagandas acolhe a assessoria de um bloguer da esquerda da esquerda dura, deixamos de ter censura e passamos a ter censura ao quadrado. Não me perguntem como funcionou a cadeia de comando. O fenómeno é de outra natureza: é o efeito de rodar o botão do descaramento para o máximo. O ministro Relvas e a revolucionária República Popular de Angola convergem. Compreende-se: Angola não pode gastar o seu dinheiro a comprar rádios em Portugal; alguém tem de fazer esse controlo, para eles poderem investir em negócios mais rentáveis, tipo indústria das notas de banco.
Viva a amizade entre os povos !


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o princípio utilizador-pagador.


Numa versão pouco habitual. Um outro rationale para um certo "não pagamos".
A coisa explicada pelo Pedro Lains: O "novas oportunidades".

23.1.12

ai, estes espanhóis hesitantes...


Espanha desiste da privatização dos aeroportos de Madrid e Barcelona.
«O anúncio foi feito aos jornalistas pela ministra do Fomento, Ana Pastor, que justificou a medida com a actual crise económica, que provocou uma desvalorização dos activos da gestora aeroportuária espanhola.»

Nós, por cá, somos muito mais afoitos. Uma agenda "liberal", que seja verdadeiramente ideológica, não liga nenhuma à realidade. O que interessa é privatizar, privatizar, privatizar. E depressa, porque "isto" pode não durar muito e é preciso deixar o trabalho feito. Claro, os espanhóis, esses socialistas, é que não percebem isto. Desculpe?! O governo espanhol já não é socialista ?!


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lenda da justiça de Fafe.


Sou absolutamente contra a "justiça popular". Seja do tipo "milícias minhotas", seja do tipo "piratas da internet". Mas há qualquer coisa nesta história da "justiça de Fafe" que dá que pensar.
Passo a citar:
A lenda da Justiça de Fafe é uma apologia da justiça popular. Um dos maiores símbolos referenciais de Fafe, é vista como o espírito e o verdadeiro ex-libris desta localidade, e foi celebrada por um monumento na cidade.
A versão mais difundida desde o início do século XIX foi objecto de um longo poema de Inocêncio Carneiro de Sá, o Barão de Espalha Brasas. Narra um episódio, registado no século XVIII e protagonizado pelo Visconde de Moreira de Rei, político influente no concelho e homem de bem mas não de levar afrontos para casa.
Deputado às Cortes, terá chegado atrasado a uma sessão daquele órgão monárquico, no que terá sido censurado grosseiramente por um marquês, também deputado, que chegou ao desplante de lhe chamar "cão tinhoso". O visconde fingiu não ouvir o impropério e mostrou-se tranquilo durante a sessão mas, finda aquela, interpelou o marquês petulante, repreendendo-o pelas palavras descorteses que lhe havia dirigido. Em vez de lhe pedir desculpa, este arremessou-lhe provocadoramente as luvas no rosto, convocando-o para um duelo.
Ao ofendido competia escolher as armas, e quando todos pensavam que iria preferir espadas ou pistolas, como era usual na altura, o visconde apresentou-se para o recontro munido de dois resistentes varapaus. O marquês não sabia manejar esta arma grosseira mas o visconde, perito na arte do jogo do pau, tradicional nesta região, espancou o seu opositor. À gargalhada perante o acontecimento, os populares que presenciavam não se contiveram e gritaram: "Viva a Justiça de Fafe!".
O Monumento à Justiça de Fafe, evocativo desta tradição e da autoria de Eduardo Tavares, foi inaugurado em 23 de Agosto de 1981 na rua João XXIII desta cidade. Consiste em um estátua com a particularidade de representar um homem a bater noutro com um pão (e não uma vara) e foi colocada nas traseiras do tribunal de Fafe, insinuando que quando a justiça oficial não funciona, a mão popular apresenta-se.

O que há de interessante neste relato, que não sei até que ponto é fidedigno, é a ideia de sabermos escolher as armas. Se jogamos sempre com as armas dos outros, o habitual, as mesmas ideias e os mesmos gestos, estamos logo apanhados no mesmo jogo. Como fazemos para ir mais além - e melhor?

religião e política.


De tempos a tempos volto ao tema da religião, porque o considero importante. Basta ver quantas pessoas neste mundo se consideram religiosas, de forma mais ou menos sistemática (ligada a uma organização, ou igreja), para perceber a importância do fenómeno. Considerar que todos os crentes são, apenas por o serem, inteligentes ou estúpidos, bondosos ou malvados, empenhados ou desinteressados, é um simplismo que falha a necessária compreensão do mundo. Na verdade, nunca me dei verdadeiramente ao trabalho de explicar porque, não sendo religioso (sou agnóstico), me irrito facilmente com extremismos anti-religiosos, mais ou menos tanto quanto me irrito com os mais papistas que o Papa que pululam por aí. Ainda por cima, há muito quem ache que um certo anti-clericalismo é diploma de "boa esquerda" - e há poucas coisas que me façam tanta urticária como os diplomados em "boa esquerda". Ainda um dia hei-de dar-me ao trabalho de explicar devagarzinho o meu pensamento sobre esta coisa da religião no mundo. Por enquanto, esse trabalho de uma teologia laica e descomprometida de um cidadão, que é assim que me coloco, continua adiado sine die.
Entretanto, vou vendo que o assunto interessa a outras pessoas. Deixo aqui esta ligação, para um post intitulado Why the left needs to keep the faith. Não é necessariamente o meu ponto, mas achei que valia a pena partilhá-lo. Porque continuo a pensar que seria útil desbloquear este tema nos sectores de progresso (seja lá isso o que for) na sociedade portuguesa.

22.1.12

livraria.




Porque é que os autores do blogue 31 da Armada, quando, a 10 de Agosto de 2009, subiram à varanda dos Paços do Concelho de Lisboa e hastearam a bandeira azul e branca, não restauraram a monarquia, como disseram ter feito, reclamando que foi precisamente com esse gesto que em 1910 foi proclamada a República?
O que explica que Obama tenha repetido o juramento como presidente, no dia seguinte à cerimónia de tomada de posse assistida por milhões de pessoas, desta feita sem anúncio prévio, num ambiente recatado e perante um restrito número de testemunhas?
O que terá uma câmara municipal feito para ser acusada de colocar falsos polícias na rua?
É mais fácil falsificar notas ou falsificar instituições?
Quando cai um sinal de sentido proibido, por esse facto desaparece a proibição de circular nesse sentido naquela rua?
Este livro, com um título que à primeira impressão soa estranho, “Podemos matar um sinal de trânsito?”, convoca um conjunto de factos da nossa vida colectiva, que passam nos jornais e nas televisões como episódios anedóticos, mas que descobrimos serem muito mais sérios do que parecem, desde que nos demos ao trabalho de os olharmos com olhos de ver.
O subtítulo ajuda a esclarecer o que aqui está em causa: “Um divertimento político-filosófico acerca da profundidade do quotidiano”. Neste livro, tentei que esse trabalho de perceber a profundidade do quotidiano se transformasse num prazer, pela forma desprendida como somos levados a descobrir o que pensávamos estar cansados de saber.
Sem ser um romance, este livro é como um romance: no fundo, conta uma história que queremos saber como acaba. Sem ter a forma de um ensaio, é um ensaio: tem uma tese, mas não a impõe, nem arregimenta os argumentos em ordem clássica, deixando ao leitor o trabalho, que aqui é um gosto, de descobrir o seu próprio caminho marítimo para a Índia. É um divertimento, porque divertirá o leitor tanto ou mais do que divertiu o autor, mas é filosofia por ser pensamento estruturado para lá das fronteiras das disciplinas, e é política por questionar dinâmicas profundas da nossa vida colectiva.

Editado pela Esfera do Caos. Nas livrarias a partir de 23 de Janeiro.