10.12.11

embora não pareça, isto é uma conversa.

Who works the longest hours in Europe?

MACBETH.


MACBETH
um espectáculo de Mónica Calle
a partir de Heiner Müller
na Casa Conveniente
de 7 a 17 de Dezembro, todos os dias (duas sessões: 20h / 22h)
reservas: 912818164 e 967580171



Foto de Bruno Simão.

o veto de Cameron na imprensa europeia.

City saved! Europe isolated!


Martin-Rowson, no The Guardian:

(clicar na imagem para saber o que se diz da Europa por esse mundo fora)

Robot Film Festival (4)


Absolut Quartet, de Jeff Lieberman, Dan Paluska, Noah David Smith, Willie Mack
[Botsker Award for Best Robot Actor]



9.12.11

porque amanhã é sábado...


... espreitem um blogue que só dá luz aos sábados - que pena que assim seja, Maria do Sol!

E, para tornar a temperatura mais amena, que bem precisamos, e para percebermos que a decência e a capacidade para pensar sem andar aos pulos são requisitos mais básicos e mais fundamentais do que estarmos de acordo, leiam este texto.

São duas sugestões de fim-de-semana.


Robot Film Festival (3)


Chorebot, de Greg Omelchuck
[Botsker Award for Ethics and Impact]



comunicado final da cimeira europeia (traduzido).

uma cimeira que se revelará, a prazo, a mãe de todas as guerras.


Guerras na Europa. Guerras - com ou sem aspas, veremos.


(Clicar na imagem)

milplanaltos.




Resumo:
Estávamos habituados a que as máquinas saíam feitas das mãos dos humanos. Entretanto, certas experiências em Nova Robótica terão talvez a potencialidade de nos surpreender neste ponto, espoletando processos que resultem em robôs que os seus criadores não conhecem tão intimamente como se espera que o engenheiro conheça o controlo das suas máquinas. Referimo-nos aos robôs que resultam de processos de evolução artificial ou de desenvolvimento “pós-natal” artificial. Daremos, como exemplo, o robô iCub, desenvolvido por uma equipa internacional de que o ISR/IST é um dos parceiros. Se pode vir daí grande novidade, teremos de contar com os que temem – ou anseiam – o momento em que os robôs possam ser agentes entre humanos ao mesmo título que os humanos. A esses diremos que, para esses robôs serem tal, terão de ser capazes de instituição – de viver em ambientes institucionais com humanos. Seguimos John Searle para dizer o que é “instituição” e acompanhamo-lo na ideia de que só há instituições, na forma em que as caracteriza, nas sociedades humanas. Exploramos essa possível divergência com estudiosos de sociedades de outros primatas com a ajuda de um episódio notável do século XX português, o “caso Alves dos Reis”, cujo nome empregamos num “teste de inteligência” muito diferente do teste de Turing.

(clicar acima para ir a MILPLANALTOS)


um Natal europeu.

relatório Titanic, primeiras impressões.

10:43


No que vai de cimeira europeia, a União está menos União: as várias "velocidades" vão-se multiplicando, a caminho de uma arquitectura institucional que se tornará cada vez mais opaca, mais confusa, mais difícil de gerir. Um dos grandes travões, como de costume, vem do outro lado da Mancha. De imediato, a mensagem que se passa para o mundo é que a Europa está dividida. E está, pois.
Mas não é boa ideia fazer dos britânicos a única coisa a correr mal no que vai de caminho. Fazer um arremedo de "governo económico da Europa" com regras automáticas de detecção e punição de desvios orçamentais, quando no passado recente a Alemanha e a França foram as primeiras a eximir-se à má-fila às regras automáticas já existentes, é comprar mais aborrecimentos futuros. Querer tratar os países em dificuldades como protectorados, deixa a milhas de distância aquilo a que até agora se tem chamado perdas de soberania, porque se destina a ser feito de forma intrusiva e humilhante. Mais: porque se destina a domesticar as divergências políticas e as diferenças de interesses entre Estados-Membros, mesmo aqueles que de momento não estão a ser "ajudados", pela ameaça de um futuro incerto: "se um dia tiveres dificuldades, vai pagar cara a ousadia da divergência".
Em troca, fica a esperança (o que é uma esperança financeira?) de que o Banco Central Europeu vai fazer mais pelo euro - mas não se vê qual é a base dessa esperança, dada a respectiva "independência" e os sucessivos sinais de que não quer assumir um papel qualitativamente diferente daquele que tem assumido até agora. Em termos "concretos" (cacau), os fundos/mecanismos de socorro dos aflitos continuam a não chegar para grandes tormentas e o BCE continua a não dispor de todos os meios de acção que estão nas mãos dos bancos centrais de qualquer outra zona monetária. Para compensar, uns tantos países europeus vão emprestar ao FMI para o FMI emprestar a países europeus.
Já hoje, o banco central alemão baixou as previsões de crescimento do seu próprio país para 2012; os juros da dívida francesa baixam um pouco, sobem os da Itália e da Espanha. Parece que uma reunião de chefes da Europa, com a pompa e a circunstância da "última oportunidade", passa por ser mais um dos pequenos episódios que empurram as bolsas para cá e para lá, à espera de amanhã, onde a agitação da cimeira será consumida por qualquer outro estimulador dos "mercados".
Quanto aos aspectos sociais de tudo isto, combater o desemprego, salvar a protecção social, animar a economia - fica para a próxima.

um predador.

10:03

União Europeia falha revisão do Tratado e avança para integração a duas velocidades.

«O fracasso foi provocado pelo primeiro-ministro britânico, David Cameron, que condicionou o apoio à revisão do Tratado à obtenção de algumas derrogações às regras europeias de regulação dos serviços financeiros, o que os outros países rejeitaram categoricamente. [...] “Para aceitar uma reforma dos tratados a 27, Cameron pediu – o que nós todos considerámos inaceitável –, um protocolo no Tratado para exonerar o Reino Unido de um certo numero de regras sobre os serviços financeiros”, afirmou o Presidente francês, Nicolas Sarkozy, no final dos trabalhos. “Não pudemos aceitar porque consideramos, pelo contrário, que uma parte dos problemas do mundo vem da desregulação dos serviços financeiros”, sublinhou.

Os cavalos de Tróia tomam historicamente muitas formas e são de geometria variável. Cameron, na União Europeia, é esse o papel que joga neste turno. E ele não é o primeiro, vindo daquele lado, a jogar esse papel. Charles de Gaulle viu o filme todo. Os britânicos viajam para o continente principalmente para plantar ervas venenosas. Nesta crise, o seu papel tem sido o de colocar pedras no caminho de qualquer solução. E não se julgue que isso é exclusivo dos seus governos conservadores. Assim se vê que é deslocado focar todas as frustrações dos europeus na Alemanha e na senhora Merkel.

8.12.11

O Império Romano e a União Europeia.

16:38


I


Muitos creditam à União Europeia (ex-CEE) mais de 50 anos (1957-????) de paz e prosperidade a benefício dos povos europeus. Contudo, mesmo entre os que foram intensamente financiados por outros mais prósperos (como os portugueses), parece haver uma moda de indiferença ou até desconfiança face a essa “casa comum”. Parece pairar a convicção de que o que temos está garantido e não nos pode ser tirado, mesmo que demos largas aos egoísmos nacionais e cuidemos pouco de participar na construção europeia. Será assim? Procuremos contribuir para uma resposta com um paralelo com o império romano e a sua queda.


Poderíamos sempre tentar uma resposta “cultural”. Por exemplo, lembrando que ferramentas culturais básicas se ressentiram: a capacidade de ler e escrever, muito difundida no império romano devido às necessidades burocráticas e económicas, não apenas entre as elites mas também nas “classes médias”, regrediu no período pós-romano até ao ponto de mesmo grandes reis ocidentais terem sido analfabetos. (O clero foi, em larga medida, uma excepção importante.) Mas nesse campo poderíamos apontar, após a queda do império romano, o florescimento de formas superiores de cultura, por exemplo aquelas que foram protegidas e praticadas nos círculos religiosos. Por exemplo nos mosteiros e nas catedrais. Mas não vamos por aí. Vamos às coisas “menores”, à vida material quotidiana.


No auge da sua extensão o Império Romano incluía quase toda a Europa ocidental, largas faixas em redor do Mediterrâneo, bem como regiões mais orientais, desde os Balcãs à Grécia, Egipto, Ásia Menor, chegando à Síria e fazendo a oriente fronteira com a Pérsia e com as regiões caucasianas. A queda do Império a Ocidente, em 476 d.C., deu lugar a um longo período de retrocesso sócio-económico, como escreve Bryan Ward-Perkins, em “A Queda de Roma e o Fim da Civilização”: “o domínio romano, e sobretudo a paz romana, trouxe níveis de conforto e sofisticação para o Ocidente que não tinham sido vistos anteriormente e que não seriam vistos de novo durante muitos séculos”. O que quer isso dizer em concreto?



II




O que Bryan Ward-Perkins procura mostrar, em “A Queda de Roma e o Fim da Civilização”, é que a queda do império romano do ocidente representou um retrocesso na vida material da maioria da população. Vejamos alguns dos seus exemplos.


Os romanos produziam bens de uso corrente (não apenas de luxo), de qualidade muito elevada, em enormes quantidades, e depois difundiam-nos largamente, sendo por vezes transportados por muitas centenas de quilómetros para serem consumidos por todos os grupos sociais (não apenas por ricos). A existência de “indústrias” muito desenvolvidas, funcionando com trabalhadores razoavelmente especializados, produzindo em grandes quantidades e vendendo para zonas remotas do império, suportadas em sofisticadas redes de transporte e de comercialização, era possível graças à infra-estrutura de estradas, pontes, carroças, hospedarias, barcos, portos de rio e de mar – e à burocracia imperial, incluindo um exército numeroso, para enquadrar e proteger todo esse fervilhar. Exemplos concretos são como seguem.


A cerâmica, utilizada para o armazenamento, preparação, cozedura e consumo de alimentos, era de alta qualidade, tanto em termos práticos como em termos estéticos. O nível de sofisticação da cerâmica romana usada para preparar e servir alimentos só volta a ser observado alguns 800 anos depois, pelo século XIV. Também as artes da construção de edifícios, que os romanos tinham sofisticado quer para casas luxuosas quer para casas vulgares, em vastas regiões do antigo império perderam-se e deram lugar a povoados construídos quase inteiramente de madeira, onde antes se construía de pedra e tijolo (para já não falar das casas mais sofisticadas com aquecimento por baixo do chão e água canalizada). Já a fundição de chumbo, cobre e prata, que permitia a realização de muitos utensílios sofisticados, também entrou em queda com o desabar do império e só nos séculos XVI e XVII terá voltado a atingir os níveis da época romana.


Enquanto no império as moedas de ouro, prata e cobre eram perfeitamente acessíveis e largamente utilizadas nas trocas económicas, o que veio depois foi o desaparecimento quase total da utilização diária da moeda, a par com o desaparecimento de indústrias inteiras e de redes comerciais. Os produtos de luxo continuaram, em maior ou menor grau, a ser produzidos para os mais ricos, mas os produtos de uso mais geral e de qualidade é que escassearam ou desapareceram. Em certas zonas do antigo império, certos aspectos da economia e do bem-estar material regrediram para níveis da Idade do Bronze. Mesmo muitas economias regionais foram destroçadas pela instabilidade política e militar.


Os benefícios do império também se estenderam à agricultura. Um exemplo curioso: até o tamanho médio do gado aumentou consideravelmente no período romano, graças à disponibilidade de pastos de boa qualidade e de forragem abundante no Inverno. O tamanho do gado regrediu, depois da queda do império, para níveis pré-históricos.


E que é que isto tem a ver com a União Europeia?



III



Em que é que a queda do Império Romano do Ocidente pode contribuir para uma reflexão sobre a União Europeia? O que é que interessa que a queda do Império Romano do Ocidente tenha tido como consequência um abaixamento dos níveis de conforto e de sofisticação da vida de largos estratos da população?


A queda do império romano do ocidente não foi, como vimos ontem, apenas um abalo para as elites políticas, sociais e culturais. Representou um retrocesso no conforto material da esmagadora maioria da população. Já para não falar de que desapareceu assim o instrumento do maior período contínuo de paz (500 anos) vivido na região mediterrânica. Talvez seja útil reflectir nisto: o progresso e o bem-estar (material e espiritual) não estão nunca garantidos. Podem sofrer atrasos profundos e duradouros se não soubermos preservar e melhorar as formas sociais e políticas que são as suas condições de possibilidade.


O império romano durou muitos séculos e foi finalmente abalado e destruído. E demorou muitos séculos a recuperar o que se perdeu. A “nossa Europa” tem 50 e poucos anos e há nela ainda muito por fazer. E também ela não está garantida para todo o sempre, dependendo da sabedoria com que soubermos ajustá-la continuamente às novas necessidades. Estaremos conscientes disso quando alimentamos o cepticismo, ou mesmo a indiferença, face a essa realização comum de paz e de progresso? Estaremos cientes de que nenhuma realização das sociedades humanas pode sobreviver à cupidez das suas elites ou à cegueira dos seus dirigentes ?


Quererá isto dizer que devemos aceitar a UE como o melhor dos mundos possíveis? Aceitar sem crítica as suas políticas (e os seus políticos)? Não. Quererá isto dizer que a UE é intrinsecamente boa? Que devemos prescindir de tentar torná-la mais útil aos seus povos e aos outros povos do mundo? Não. Isto quer apenas dizer que nada está historicamente garantido e que, se não assumirmos (individual e colectivamente) a nossa quota-parte de responsabilidade pelo futuro comum, as consequências podem ser desagradáveis.

à pluralidade dos votos.

15:26

O principal problema político que a UE tem para resolver, quando tentar "atacar a crise" nessa cimeira que está para começar, é este: a democracia e a eficiência são compatíveis?
Quer dizer: a única forma de desatar o nó da crise do euro é ignorar o que os povos e os países tenham a dizer à pluralidade dos votos? Se as instituições funcionarem de modo a que as vozes sejam sopesadas, isso será um impeditivo do necessário ataque à crise? Esta é a equação mais geral espetada como uma espinha no pescoço da Europa.
Acompanhar o que aí vem em termos europeus é importante, em todos os pormenores e diferentes visões. Só que, se os nossos "líderes" se mostrarem incapazes de meter democracia e eficiência no mesmo saco, em verdade vos digo: estamos tramados e não nos safaremos com melhores rodriguinhos tratadísticos.

um problema quase de neurociência.


O barulho todo em torno da charla de Sócrates em Paris, incluindo o regresso do fantasma do MNE, parece ser para evitar que se veja na íntegra o tal objecto escabroso. Querem que só ouçamos uma frase. Concentram-se numa frase. O ruído todo é sobre uma única frase descontextualizada. Mas o problema dos propagandistas não é essa frase. O problema deles é todo o resto da charla. O problema que têm é a memória, porque sabem que a memória de curto prazo apaga-se rapidamente, o que vai ficar é a memória de longo prazo. E "eles" sabem que a memória de longo prazo não vai acolher as suas diatribes correntes.

Robot Film Festival (2)


Out In The Street, de Mark Simpson, Nick Paroz, Sixty40, Superfad
[Botsker Award for Best Story]



o homem controla o universo?


Diego de Rivera nasceu, faz hoje anos, em 1886. Grande pintor mexicano, foi também marido de Frida Kahlo.

Diego de Rivera, O Homem Controla o Universo, 1934
(Clicar amplia - e fica lindo.)

Apetece comentar: são tão perigosas as ideias! Os entusiasmos que elas provocam, a arte que elas justificam, vão tão a par do mal que se faz à sua sombra! Nisso, as ideias de "esquerda" e as ideias de "direita" são muito parecidas.

a grande farra.

7.12.11

um ministro tipo facebook.


Já hoje escrevi sobre um assunto que só num país de doidos se torna matéria de comoção geral. A contragosto, e dada a dimensão da desvergonha, tenho ainda de voltar ao mesmo terreiro.

Que haja hordas de excitados instantâneos, espalhados pela blogosfera ou pelas assim-chamadas-redes-sociais, a espumar porque leram uma frase de José Sócrates e já não conseguiram ler mais nada, nem ouvir mais nada; que ainda circule por aí tropa fandanga a servir no exército do ódio como estilo de fazer política em Portugal, veteranos da raivinha miúda incapazes de raciocinar e prontos a matar toda a palhinha do campo que cheire a José Sócrates; que as camadas intermédias do pessoal político, tendo ganho eleições a jurar pela saúde da mãezinha deles que isto era uma crise doméstica e os sacrifícios uma maldade repugnante nascida da mente deformada de José Sócrates, só se sintam à vontade quando podem berrar e fazer poeira a propósito de Sócrates - tudo isso eu compreendo. Já que o Ministro dos Negócios Estrangeiros, que nem sequer cumpre devidamente o seu papel de acompanhar os debates no parlamento acerca da UE em vésperas de cimeira decisiva, e que anda desaparecido a ver se pensam que ele não tem nada a ver com a crise, venha agora falar como quem faz comentários de ocasião no facebook, é uma vergonha. Até o antigo director do Independente, Paulo Portas, detestaria ver este MNE Paulo Portas a actuar.

A peça que a RTP passou, e que aqui deixamos, mostra a figura do senhor ministro-das-relações-exteriores-com-estudantes-seniores-em Paris (daí o seu interesse pela charla de Sócrates) a deturpar a intervenção do homem que mesmo de longe o assombra com a comparação que a história fará deles. Mas também mostra que Sócrates não disse só aquela frase que foi retirada do contexto para o atacar. Mostra Sócrates a dizer, nomeadamente: "Claro, não devemos deixar crescer a dívida muito, porque isso pesa depois sobre os encargos. Todavia, para um país como Portugal, é absolutamente essencial, para a sua modernização, para o seu desenvolvimento, ter financiamento, quer para a modernização das suas infraestruturas, quer para a modernização das suas políticas, quer para o crescimento da sua economia.» Isto seria suficiente para perceber o ridículo das declarações do senhor MNE, tão claramente deturpadoras. Mas, mais do que isso, esta peça mostra bem o que continua a ser a política deste país. Desgraçadamente.



nem que seja recorrendo à psicanálise.


Se alguém me pudesse explicar, nem que seja recorrendo à psicanálise, qual a razão para haver entre nós tão vasta legião de teólogos que continuam a dedicar-se empenhadamente na exegese de qualquer palavra de José Sócrates, mesmo que seja uma palavra de ocasião - eu agradecia. Como acontece aos maus praticantes de hermenêutica, mas também aconteceu a grandes pensadores (como Heidegger, acusado de fazer leituras criativas dos clássicos gregos), muitos desses intérpretes de trazer por casa são mais hábeis a tresler do que a ler. Mas nem é isso. O fenómeno que me interessa é propriamente essa focagem em tal homem. Estarão, de repente, preocupados com a possibilidade eminente de, levantado o nevoeiro, se perceberem as estaturas relativas dos intervenientes no PRAC (processo austeritário em curso)?

(Acrescento. Dizem-me que fujo a comentar a substância. Apesar de, por vezes, a forma ser conteúdo, como julgo ser o caso desta "polémica", reproduzo aqui o que escrevi noutro sítio, em estilo mais coloquial. Cito-me, pois. «O burburinho que por aí vai por causa de uma suposta declaração de Sócrates supostamente a dizer que a dívida não é para pagar! O que eu pergunto, às pessoas que falam como se Sócrates tivesse dito isso, é: não leram, só leram o título que alguns quiseram dar, ou leram mas não perceberam? Se têm tempo para ler duas frases seguidas, em vez de apenas uma, verão que logo a seguir vem a declaração "as dívidas dos estados são eternas". Nem assim percebem? É que se não percebem, tenho de perguntar: defendem um Estado com dívida zero? Sabem o que isso é? Dívida zero, talvez a Coreia do Norte - e se calhar nem essa. O nível de "conforto" na Europa para a dívida é 60%, não é zero. Isso não lhes diz nada? Lá que queiram engolir a tese agora dominante acerca da origem das dívidas soberanas, é uma coisa. Que não queiram perceber que a dívida, dentro de certos níveis, faz parte de uma economia normal e saudável, a funcionar - que não queiram perceber isso é mais grave. No lamaçal da demagogia parece que já há quem pense que os países devem ter dívida zero. Grandes economistas! Sócrates cometeu de facto um erro: estando mais ou menos afastado, esqueceu-se que, por cá, a deturpação, a citação fora de contexto, o insulto rasteiro e ignorante, continuam a ser a matéria-prima da política do ódio. Continuam a ser a arma preferida de quem precisa de uma desculpa permanente - para ter andado a mentir ao povo.»)

Robot Film Festival (1)


Waiting for Name Assignment, de Alvaro Galvan, Carmen Simón Rubio
[Botsker Award for Best Human as Robot]




um governador sem tento na língua mas com histórias edificantes para contar.


(O problema é quando a história é falsa.)

Há pessoas a quem falta a educação. Há pessoas a quem falta competência. Uma típica intersecção dos dois conjuntos é o das pessoas bem providas de arrogância. Assim sendo, quando vir uma pessoa a ser mal-educadamente arrogante, procure pela sua competência no tópico que na altura esteja em jogo. Pode ser uma boa pista para perceber a situação.
É por isso que um governador que nem a própria língua sabe governar pode, simplesmente, ser um governador a contar histórias da carochinha. Histórias da carochinha são, tipicamente, contadas por pessoas que julgam que um país se governa como um lar doce lar.

(O governador do Banco de Portugal não tem razão, por João Galamba)

uma guerra civil a prestações.


Passo a citar:
A alma colectiva e a alma infantil reagem de forma muito semelhante. Os conceitos com que se alimentam e se mobilizam as massas nunca serão suficientemente infantis. Para que as verdadeiras ideias se convertam em forças históricas capazes de influenciar as massas, têm primeiro de ser simplificadas de forma a poderem ser compreendidas por uma criança. E uma quimera pueril, forjada no cérebro imaturo de crianças da geração então rondando os dez anos, e aí permanecendo durante quatro anos, pode perfeitamente reflectir-se vinte anos depois na política em grande escala, como "ideologia" de uma seriedade letal.
Sebastian Haffner, História de um Alemão. Memórias. 1914-1933, Dom Quixote, p. 29

A infantilização continua a ser um programa muito popular. Depois de ter sido adoptado como programa para gerir povos, dentro de nações onde a democracia se parece cada vez mais com uma guerra civil a prestações, a infantilização está agora a ser adoptada como programa para gerir a Europa. A mestre-escola, mais o menino limpinho que a segue, tomam conta do rebanho; os meninos maus levam com a cana na cabeça para se deixarem de marotices (são sempre os sacanas dos pobres que se lembram de fazer marotices) e, no fim, todos comem um caldinho na cantina social, que será estofo suficiente para passarem a noite. Mas tudo tem um lado bom: o lobo mau, quando vier, encontra morta a avó e a menina há-de estar tão escanzelada que não dará azo a qualquer pecado.

6.12.11

o teste do espelho para um robô.


Será que o robô passou o teste do espelho, sendo capaz de se auto-reconhecer quando depara com a sua imagem reflectida num espelho?



Que lhes parece?

Os autores da experiência explicam-se aqui.

eu, que nem sou economista...

14:28

... não compreendo.
Parece que, resultado de estarmos a fazer poucos filhos e de andarmos a morrer menos do que já morremos, a sustentabilidade dos nossos sistemas de pensões é problemática. Dizem as más línguas que, poucos a trabalhar e a cotizar-se, muitos a querer a pensão a que conquistaram o direito, está por pouco a falência do sistema de pensões e, em geral, o descalabro da protecção social a que queríamos ir-nos habituando.
Se tudo isso é certo (se não é, digam, para eu ficar mais descansado, e ao mesmo tempo descartar certos argumentos políticos que por aí andam), se tudo isso é certo, por qual razão tanta alegria por uma mão cheia de bancos terem depositado os seus fundos de pensões nas mãos do Estado? Se, em geral, os compromissos com as pensões de reformados futuros são vistos como bombas-relógio, acerca das quais as únicas divergências incidem sobre o momento exacto e a dimensão do estoiro, qual a razão para tanta alegria? Os bancos, grandes amigos da nação, em modo altruísta, sacrificaram-se e entregaram 6 mil milhões de euros ao Estado, por amor aos nossos bonitos olhos, em seu (deles) prejuízo? Ou estão (mais uma vez, porque não é este o primeiro governo a fazer tal coisa) a comer-nos as papas na cabeça, como aos tolos?
Do mesmo passo, eu, que nem sou economista e não percebo nada destas coisas sérias, ainda pergunto se se justifica esta pressa em gastar a massa que os bancos entregaram no negócio. Eu pensava que os fundos destinados a garantir as nossas reformas futuras tinham de ser geridos com grande cautela, para se reproduzirem (se possível, como coelhos) e não se esgotarem ao dobrar da esquina, quer dizer, para daqui a muitos anos ainda serem devidamente compensados pelo seu esforço aqueles que contribuíram para esses fundos, descontando mês a mês do seu salário. Só que, afinal, recebida a maquia dos bancos, toca a distribuir (virtualmente, por enquanto) por estes ou aqueles. É para o sector da saúde pagar as suas dívidas, por exemplo. Acho excelente que se encontrem meios de o Estado pagar as suas dívidas, maximamente se isso redundar em injecção de dinheiro na economia, criando actividade e emprego. Mas não percebo muito bem esta coisa de começar a gastar o cacau dos fundos de pensões.
Tal como não percebo que nada disto tenha estado em cima da mesa durante a análise do OE 2012. Esconder, debaixo da retórica política do sacrifício, uns "meros" 6 mil milhões de euros, fazendo de conta que eles não existem quando se está a discutir cada tostão para 2012, retirando essa verba da argumentação relativa às prioridades, para depois vir o PM, em espectáculo a solo, sacar montantes da manga com passes de magia, é desprezar o parlamento, a quem cabe conhecer os dados da situação e decidir, assim informado, o que fazer às dores e aos prazeres que há a gerir. O que este episódio mostra é que avança, como um tsunami, pelas nossas instituições dentro, um absoluto desprezo das "elites governantes" pela substância da democracia, que é o debate informado e leal acerca do mundo que existe e da forma como lidamos com ele.

tão ladrão é o que vai à vinha como o que fica à espreita.

10:35

Hackers revelam dados sigilosos do Freeport e Submarinos.
«O DCIAP é o último alvo conhecido que foi atacado por um grupo de piratas informáticos intitulado LulzSec Portugal. No domingo foi divulgado um documento confidencial, assinado pela directora, Cândida Almeida, sob o título Mediatização de processos da competência do DCIAP.» E o Público passa a relatar...

Isto significa que há piratas a assaltar instituições do Estado e há "jornais de referência" a receptar o produto do roubo?
Se eu receber ouro roubado, sabendo que é roubado, para o colocar no circuito "limpo", cometo um crime.
Se eu receber um documento roubado ao Departamento Central de Investigação e Acção Penal, e colocar o documento no circuito "limpo" da informação ao público, sem que daí resulte um significativo serviço ao bem comum, é normal? aceitável? Ou está, quem isso faça, a comportar-se como mero receptador de bens roubados?
Eu pergunto, espero que alguém me esclareça, que eu não percebo nada de leis - e, pelos vistos, nem de deontologia - pelo menos, da deontologia que se pratica na nossa "comunicação social".

4.12.11

estadistas.

o regresso das milícias.

19:04

Há um movimento em Portugal a mimetizar os hackers internacionais e a prometer um crescendo de ataques informáticos. Dizem não ter medo das autoridades e estar numa "luta" contra o Governo e a corrupção.

Os hackers que atacam os alvos que lhes parecem representar "o mal" não são nada de substancialmente novo. São da mesma cepa que as "milícias populares" que, há anos, atacavam "ciganos ladrões" para "protegerem as populações". Não é por serem "informáticos" que estes hackers são menos primitivos, na sua auto-proclamação do direito a fazerem "justiça" pelas suas próprias mãos. É que essa auto-proclamação, além de arrogante, serve sempre - sublinho, sempre - para dar guarida a outros interesses menos nobres e menos publicitáveis. Entretanto, estou para ver o que sobre isto têm para dizer os dirigentes políticos que, na altura, se solidarizaram com as tais milícias populares. Eu continuo com a mesma atitude sobre o fenómeno, em qualquer das suas manifestações: repugnância.

governadores que nem a sua própria língua sabem governar.


Há pessoas que buscam na falta de educação a máscara da sua debilidade. Parece ser o caso do governador do Banco de Portugal. Mas o que realmente importa não é isso: grave é que o senhor governador não tenha noção da posição que lhe cabe quando é ouvido no parlamento. É que ninguém votou no Dr. Costa para governador, mas, bem ou mal, os portugueses escolheram aquele parlamento. A dificuldade é que os aspectos básicos do lugar do parlamento nas instituições nacionais parecem não entrar facilmente na cabeça do senhor governador. Triste.