1.12.11

Rumo a uma Metafísica da Natureza.


Michel Ghins, com uma formação inicial em física ao nível da licenciatura, enveredou pela filosofia da ciência. É Professor na Universidade Católica de Louvain e foi ele que me acolheu quando estive um ano como investigador visitante em Louvain-la-Neuve. Ficámos amigos desde então, sempre com alguma filosofia pelo meio.
No quadro das suas múltiplas actividades, esteve no passado mês de Agosto pelo Brasil, onde, entre outras coisas, teve oportunidade de ministrar um curso de filosofia das ciências na Universidade Federal do Paraná. Intitulado "Representação, Realismo e Leis Científicas: Rumo a uma Metafísica da Natureza", reflecte alguns dos temas permanentes da sua investigação. Deixo aqui uma amostra - e a colecção de vídeos do curso vão ficar, durante algum tempo, na coluna lateral do blogue. Disponham.



30.11.11

uma abstenção violenta.

21:30

Os tempos estão difíceis.
Dito de outro modo: os tempos estão fáceis para os vendedores de soluções de faz de conta, capazes de jurar pela saúde dos filhos que seria fácil e seguro o caminho que nos propõem. Em geral, as soluções fáceis só têm uma coisa boa: a probabilidade de serem tentadas é baixa, muito baixa.
Neste cenário, a porta é estreita para quem não prescinda de pensar na margem que resta entre as várias responsabilidades que "a crise" impõe. Por cá, quem mais se sente apertado na estreiteza da porta é o PS. O secretário-geral dos socialistas declarou, sobre a proposta do governo para o OE 2012, "este não é o meu orçamento". Contudo, invocando a responsabilidade, levou o partido para a abstenção nas votações globais. Agora que essa orientação se vai consumar, depois de alguma aparente tergiversação, vai ser preciso colocar a questão: o país percebeu que este não é o OE de António José Seguro e do PS? O país percebeu o que queria o PS fazer de diferente - e que a diferença não estava nos remendos, mas na linha geral? Ou o país ficou convencido que, tirando os pormenores, o PS está amarrado à mesma linha geral que o PSD e o CDS?
Não tenho respostas para isto, mas os socialistas têm de as procurar. Se o PS tem consciência da gravidade do que aí vem, tem de ter muito clara a visão sobre o seu papel no país. A actual direcção do PS é uma espécie de grande coligação informal de todas as reivindicadas "esquerdas" desse partido, a começar pelo "alegrismo" (que, durante a predominância do "socratismo", queria muito uma orientação menos "centrista" e uma condução com maior dose de rupturas), mas sem deixar de fora o "soarismo" (ou "soarismos" vários). Estava à espera que esse "povo de esquerda" de dentro do PS produzisse uma leitura própria, consistente e reconhecível, da actual situação e do que fazer com ela. Continuo à espera. Mas isto sou eu que sou um tipo paciente: não sei se o país está disponível para continuar à espera. Temo que seja desejável não abusar excessivamente da volatilidade do capital de expectativa.


Semana Europeia da Robótica.


No próximo fim-de-semana, dias 3 e 4 de Dezembro, o Pavilhão do Conhecimento vai ser invadido por ar, mar e terra por simpáticos robôs de vários tamanhos e feitios. É o encerramento da Semana Europeia da Robótica, que contou com acções em sete cidades de norte a sul do país.

Como serão as equipas de busca e salvamento do futuro? O RAPOSA é um robô projectado para operar em ambientes hostis à presença humana, tais como escombros resultantes de um terramoto ou atentado. Veja este robô em acção no Pavilhão do Conhecimento e de que forma ele pode fazer a avaliação do terreno, em caso de catástrofe, e encontrar sobreviventes.

Já faltou mais para que todos os carros sejam como o saudoso KITT, o carro de Michael Knight que falava na série televisiva O Justiceiro. O Atlascar é um automóvel autónomo, que não só fala como não precisa de condutor. Foi desenvolvido pela Universidade de Aveiro. Vítor Santos, do Departamento de Engenharia Mecânica, apresentará este domingo, às 16.00, uma palestra sobre este protótipo com capacidade para detectar os peões na estrada e prever os seus movimentos.

E já pensou que bom seria ter um robô-guia que lhe indicasse o caminho? O Sigas (Santander Interactive Guest Assistants), um robô de apenas 61cm, já leva os clientes a qualquer ponto das instalações deste banco em Madrid.

Mas também há robôs submarinos que hoje permitem explorar os recursos do fundo do mar. Assista às manobras subaquáticas de um robô numa piscina montada na entrada do Pavilhão do Conhecimento. Depois de entrar, tenha cuidado: haverá robôs voadores em acção.

Programa completo aqui.



os carneiros domesticados são mais estúpidos porque podem sê-lo.


«Que espertos foram os carneiros selvagens ao adquirirem essa adaptação extremamente versátil, o pastor! Ao formar uma aliança simbiótica com o Homo sapiens, os carneiros puderam fazer uma contratação externa das suas principais tarefas de sobrevivência: encontrar alimentos e evitar predadores. Até obtiveram abrigo e cuidados médicos de emergência como bónus. O preço que pagaram – perder a liberdade de seleccionar com quem acasalar e serem abatidos, em vez de mortos por predadores (se é que pode chamar-se-lhe um custo) – era uma pechincha, comparado com o ganho em sobrevivência dos descendentes que lhes granjeou. Mas, evidentemente, não foi a sua esperteza que explica o bom negócio. Foi a esperteza cega e nada visionária da Mãe Natureza, a evolução, que ratificou a base racional descomprometida deste negócio. Os carneiros e outros animais domesticados são, de facto, significativamente mais estúpidos do que os seus parentes selvagens – porque podem sê-lo. Os seus cérebros são mais pequenos (relativamente ao peso e tamanho do corpo), o que não se deve exclusivamente ao facto de terem sido criados pela sua massa muscular (carne).»

Daniel Dennett, Quebrar o Feitiço: A Religião como Fenómeno Natural, Lisboa, Esfera do Caos, 2008 (p. 144)

29.11.11

democracia.

18:32

Passo a citar.
[...] Todavia, impõe-se também que se veja a democracia de uma maneira mais geral, como capacidade para reforçar a participação ou comprometimento discursivamente sustentados por meio de um alargamento das disponibilidades informacionais e da viabilidade de discussões interactivas. Há que julgar a democracia não só tendo em vista as instituições formalmente existentes, mas atendendo igualmente à medida em que se fazem efectivamente ouvir as vozes dos diferentes sectores da população.
Mais ainda. Esta maneira de olhar para a democracia pode vir a ter impacto também na prossecução da mesma a nível global - e não apenas no seio de cada estado-nação. Se a democracia não for vista tão-somente em termos de constituição de específicas instituições (tal como um órgão de governo global ou eleições à escala mundial), mas também na perspectiva da possibilidade e do efectivo alcance de uma argumentação pública, então, fazer progredir - ao invés de meramente aperfeiçoar - tanto a democracia como a justiça mundiais já não nos parecerá uma ideia incompreensível, e é plausível que ela venha a inspirar e a influenciar acções práticas transfronteiriças.

Amartya Sen, prefácio a A Ideia de Justiça, pp. 16-17 (em português, na Almedina)

sandwiches will be served.



Clicar na imagem para ir mais longe do que a provisão de sandochas.

Gólgota picnic.

15:05
Um espectáculo de teatro: "Gólgota picnic". De Rodrigo García. Produção do  Centro Dramático Nacional (Madrid), Théâtre Garonne de Toulouse e Festival de Outono de Paris. Para os que têm dificuldade de perceber o alcance do título, posso dizer que o seu criador diz que esteve para se chamar "As sete últimas palavras de Cristo na cruz."
O vídeo seguinte contém uma apresentação oficial do espectáculo.


A carreira deste espectáculo de teatro em França (começou por Toulouse) está a ser conturbada. A acusação de blasfémia, por parte de alguns sectores católicos, tem sido o rastilho para uma campanha pública, com os argumentos do costume, visando (pelo menos) boicotar o espectáculo. Uma das acções de "cerco" ao teatro é reportada no vídeo seguinte.


O tipo de argumentação usada contra a exibição do espectáculo fica claro num post do blogue brasileiro Dominus Vobiscum: «Católicos fazem vigília de oração para protestar contra teatro blasfemo».

De momento, dispenso-me de mais comentários. Vale a pena reflectir. Apenas pergunto: e por cá, alguém vai convidar Rodrigo García e o Centro Dramático Nacional a trazer o espectáculo a Portugal? Talvez o novo director do Teatro Nacional D. Maria II, quem sabe...

28.11.11

civismos.

23:07

Sou um pouco distraído, em certas circunstâncias. Quando caminho pela rua, e faço-o muito, aproveito para ir pensando nas mais diversas coisas - o que às vezes de impede de ver bem, com os olhos, o que me passa à frente. Assim, tinha notado, há bastante tempo, que de quando em vez passava por carros parados que se encontravam com um dos limpa-pára-brisas ao alto, levantado, em pé, a despropósito. Porque seria?
A coisa acabou por ser focada pela minha atenção, pensei e percebi: alguém se encarrega de fazer isso quando passa por automóveis estacionados em cima dos passeios, ou de alguma forma invadindo o espaço dos peões. É uma forma simples, que não prejudica ninguém, de fazer notar ao abusador que está a usar a preponderância da sua máquina para atacar a segurança e o conforto de circulação do mais fraco na rua, que é o peão, às vezes com dificuldades de locomoção.
Tendo percebido, acho uma boa ideia: seria talvez capaz de mudar alguma coisa, essa campanha pacífica de civilidade. Que tal darmo-nos todos ao trabalho de, sempre que topamos com um automóvel estacionado em plena falta de respeito pelo convívio com os peões, deixarmos esse protesto singelo e sereno, levantar o limpa-pára-brisas da maquineta em infracção, para lembrar ao distraído, quando voltar, que "isto" não é a selva?
Aos que julgam que nada vale a pena, lembro que Lisboa é hoje das cidades onde mais se respeitam os peões nas passadeiras, fruto de uma aprendizagem induzida, a fazer esquecer a completa bandalheira que regia essa situação há uns tantos anos atrás.
Isto não é um apelo, nem uma campanha. Mas, e se fosse? Seria, certamente, civismo activo, não violento, suave.

Janus.net



JANUS.NET, e-journal of International Relations, é a revista científica, com edição apenas online, bilingue, de acesso livre e gratuito, editada pelo OBSERVARE, Observatório de Relações Exteriores, unidade de investigação em Relações Internacionais da Universidade Autónoma de Lisboa.

Já está disponível o último número. Para aceder, clicar na imagem.

Parece que o casal Merkel Sarkozy não manda em Londres.

técnica orçamental inovadora.


Vejamos. Um trabalho ser bem ou mal pago não depende apenas do que se recebe em troca. Para simplificar, deixemos de lado as questões do esforço necessário à concretização das tarefas atinentes e da qualificação requerida. Falemos apenas da quantia a receber em troca de um certo tempo a aplicar . Por exemplo, €100 por duas horas é mais barato do que €100 por dez minutos. Assim sendo, podendo mexer numa das duas variáveis (preço, tempo), pode variar-se de duas maneiras a justiça associada à troca. Se não posso pagar mais, posso pelo menos reduzir o tempo requerido para pagar o mesmo.
Aparentemente, o governo, depois de recorrer ao corte dos pagamentos, quer compensar com a técnica orçamental complementar, mais simpática, de cortar no ano. Governo quer acabar com Corpo de Deus, 15 de Agosto, 5 de Outubro e 1 de Dezembro. É um bocado aborrecido ficarmos com um ano com menos 4 dias, mas melhora o nível de vida: não só trabalhamos menos 4 dias, como são menos quatro dias em que temos de comer, vestir, lavar a cara e gastar água, por aí adiante. Podiam era aproveitar para acabar com os anos bissextos, mandando o 29 de Fevereiro à vida, o que abundaria do lado da simplificação administrativa. Aplaudo, pois, esta ideia governamental de cortar 4 dias ao ano, compensando com uma mão o que andam a retirar com as outras todas.

Desculpe?!

A ideia não é cortar os dias? A ideia é cortar os feriados desses dias? Então, continuam a cortar do mesmo lado, percebi bem?

Paciência. Temos de nos consolar com a ideia de que é desta que vamos passar a ser competitivos, com mais quatro dias de trabalho por ano, pelo mesmo preço. Por um preço mais baixo, certo, mas isso já era sabido.

a lama chega para todos.


Este excerto é mais esclarecedor do que possa parecer:
A negociata começou em 1994. Com outros médicos criou uma clínica mas teve de arranjar um sócio que lhe garantisse clientes. Foi esse sócio uma companhia de seguros. Oram vejam a feliz coincidência quem haveria de aparecer interessado nessa companhia de seguros? O BPN. Eles dizem que não sabiam previamente que ia comprar a companhia de seguros. E nós dizemos que vamos fazer de conta que acreditamos nessa história da carochinha. E também fazemos de conta que só em 2007 se soube das irregularidades do BPN. Enfim é muito fazer de conta. Porque é assim que eles financiam os negócios de favor com que têm roubado o país.

Quer saber a que vem tudo isto? Esta senhora explica bem explicadinho.

(Agradeço ao pista ao Tomás Vasques.)

wouldn't you?





27.11.11

retratos para um país.

Salário mínimo em Portugal «não é realmente baixo».


Segundo o Secretário de Estado do Emprego, o salário mínimo em Portugal não é realmente baixo. Veja aqui.
Se dá para perceber o que o homem quer dizer com aquela algaraviada, devia antes ter afirmado que os salários portugueses que são baixos não são só os que comem pela tabela mínima. Ou seja, há muita muita gente que ganha pouco, mesmo ganhando mais do que o salário mínimo.
Como se resolve uma tão magna questão? Talvez baixando o salário mínimo, para os outros não serem tão "altos"... será?!

(Roubado a André Salgado.)

tristeza e alegria na vida das girafas.

12:15


Teatro. Desculpem, já acabou. Eu queria ter ido ver a tempo de vos dar conta. Mas não, em Lisboa já não é possível, acabou ontem. Escrevo, contudo, porque este não é um blogue só de Lisboa e há mais mundo para além desta aldeia. Abaixo falamos disso.

"Tristeza e Alegria na Vida das Girafas", de Tiago Rodrigues, usa um esquema clássico para falar do aqui e agora que é sempre mais largo: uma menina de 9 anos anda pelo mundo (por Lisboa) à procura de uma solução para o seu problema e vê e compreende coisas que são os nossos problemas, assim nos permitindo olhar para nós, aqui e agora, com grande crueza, mas também com uma gargalhada, que isto é preciso muito estômago para olhar para as nossas misérias. O que acontece àquela menina começa num trabalho escolar que ela tem de fazer, mas entronca numa série de chatices que nós temos de resolver. E que são tão pequenas que até chateia - mas são nossas e têm uma importância que salta fora do teatro. Que a menina, afinal, só queira o Discovery Channel a funcionar, parece risível; mas, se isso lhe falta porque já não há mãe e o pai está desempregado, o caso baralha-se. Tem sido escrito, e os próprios envolvidos no espectáculo parecem achar que isso ajuda à publicidade e à bilheteira, que a menina anda por Lisboa à procura da única pessoa que pode ajudá-la: o primeiro ministro Pedro Passos Coelho. Mas o texto é muito menos simples do que isso, se lhe quisermos dar ouvidos. Vale a pena dar-lhe ouvidos, porque este espectáculo de teatro é muito sério e diz coisas pertinentes em várias direcções, mesmo que esteja - precisamente por estar - sempre a cravar-nos as unhas do riso na garganta.
Além do texto, estão muito bem os actores. Principalmente os que jogam o par de personagens que constituem o mundo da menina. Carla Galvão, que faz a menina, produz um equilíbrio muito sólido entre os seus 9 anos e a sua maturidade intelectual precoce, resolvendo um ponto que, de outro modo, arriscaria tornar-se ridículo (ainda por cima quando a actriz, obviamente, não tem 9 anos). Extraordinário, extraordinário mesmo, está Tonán Quito, no papel do urso de peluche que a menina chama Judy Garland mas que queria chamar-se Tchekhov ou Spartacus (ou mesmo Spartacus Tchekhov), a quem cabe o lado mais voador (e transgressivo) da menina (o que o urso de peluche diz, só o diz à menina, só o diz a menina, claro).

E, para terminar, uma boa notícia selectiva. Alô, Coimbra: apresentações, a 19, 20 e 21 de Janeiro de 2012, no Teatro Académico Gil Vicente. Depois não digam que eu não sou amigo.



retribuo.