5.11.11

um orçamento para matar as instituições.

13:16

Estes quatro dirigentes de universidades portuguesas (vídeo abaixo) explicam, para o caso específico, como a proposta de Orçamento de Estado para 2012 ajuda a aprofundar a crise, com soluções erradas que assentam no desrespeito pelas instituições. Não é só o IVA dos restaurantes, caramba!
Estas coisas é que queríamos ver abordadas pelos partidos políticos, como questões que interessam ao desenvolvimento do país. Ficar, na discussão do OE, por questões de "alta política", tais como "os mercados estão a ver como nós vamos votar, por isso decidimos o sentido de voto independentemente do conteúdo do documento", é pouco.
Se não há partidos em Portugal capazes de defender as instituições, contra o mecanicismo cego do Ministro Gaspar, pode, realmente, chegar o dia em que as pessoas perguntem para que serve a democracia.



(Expresso da Meia-Noite de 28 de Outubro. Sugestão de visionamento da Palmira.)

a lógica sacrificial.


Os vigilantes da ordem pulam de contentes com o fiasco da proposta de referendo do PM grego. Quão tolos são. Papandreou fez lembrar que não há povo nenhum que possa ser massacrado indefinidamente. Como bom grego à moda antiga, lembrou que a democracia não é uma coisa natural, mas sim uma construção difícil e delicada. E a Merkozylândia não voltará a ser a mesma depois deste susto. Todos os aflitos temos a ganhar com isso, razão suficiente para não bolsarmos para cima do único tipo que lembrou o óbvio esquecido. Claro que Papandreou foi desajeitado, mas não mais desajeitado do que Merkel, Sarkosy e Barroso na gestão de tudo isto. Claro, os técnicos da gestão de rebanhos só gostam das maluqueiras dos banqueiros, não gostam nada da "maluqueira" de lembrar que o povo poderá votar. E depois queixam-se da rua.
Vamos ver em que altar arderá Papandreou.

tão triste as coisas durarem mais que as pessoas.

11:59

"Tão triste as coisas durarem mais que as pessoas", diz a personagem Aline, pela voz da actriz Aline Filócomo. E a Paula (personagem e actriz) acrescenta: "As coisas são a memória da gente."

Sim, aproveitámos a passagem pela Cidade Maravilhosa para ir ver o mais recente espectáculo da Companhia Hiato, de São Paulo, "O Jardim", a estrear a passagem pelo Rio no passado 28 de Outubro. Texto original da companhia dirigida por Leonardo Moreira, apanhou-me logo que percebi que andava pelo tema da memória. A perturbação da memória é hoje um problema de saúde trágico para muitas famílias. Além disso, a abordagem da memória como processo que envolve as interacções com os outros e com as coisas é uma linha de ataque que me diz muito, eu que ando ainda e sempre no projecto de "voltar a juntar cérebro, corpo e mundo" (Andy Clark) - e, já agora, os outros.

A situação de base da peça é uma família, em momentos diferentes, ligados pela memória. Ou pela falta de memória. Ou pelas memórias incertas. Ou pelas memórias dolorosas. Ou pela luta pelo lembrar-se. Ou pela luta para impor as suas próprias recordações como as recordações certas. Supostamente estamos num jardim, no jardim da casa da família, mas o cenário é uma movediça estrutura de caixas de cartão onde se guardam memórias, onde se perdem memórias, onde as memórias ficam fora do sítio, porque as caixas andam sempre a ser movidas, reconfiguradas, abertas e fechadas. Uma bela forma de criticar a concepção computacional de memória, que encara as memórias como registos tendencialmente firmes guardados em certos sítios de um certo armazém, de tal modo que podemos ir lá, a esse sítio, consultar os registos e recuperar a "memória". Uma encenação que é uma bela metáfora para o modo como a vida das pessoas rearranja as memórias, próprias e alheias - porque ao mexer nas caixas das memórias se modifica o espaço e a relação entre as várias cenas do conjunto. É que, formalmente, o texto é um conjunto de três textos, para três subconjuntos de personagens, apresentados separadamente e à vez a cada uma das terças partes do público, que assim têm peças diferentes quanto à sua recepção concreta, tudo a acontecer no mesmo palco ao mesmo tempo, com uma separação nítida embora haja sempre momentos em que a nossa percepção capta o que se está a passar nos outros sectores. O cume da memória em estilhaços e das memórias amalgamadas acontece no fim, quando as três épocas convergem num mesmo espaço e os tempos se baralham completamente. Não por acaso, o foco dessa confluência final é o homem mais velho, mais claramente com a memória em perda, que viaja no tempo para nos fazer compreender os fios da meada, se alguma dúvida nos restasse. Mas não restava.
Um espectáculo belíssimo, triste e poético ao mesmo tempo, que não deixa de ser triste nem poético mesmo quando faz rir, que prova como é possível um espectáculo tratar com imensa sensibilidade uma questão que é um real problema social e, sem perder a mão, estudar essa questão com um olhar filosófico.

O programa do espectáculo abre com uma citação de Gilles Deleuze: «Há, pois, uma outra língua, que não remete mais a linguagem a objectos enumeráveis e combináveis, nem a vozes emissoras, mas a limites imanentes que não cessam de se deslocar, hiatos, buracos, escuros ou fendas, dos quais não se daria conta, sendo atribuídos ao simples cansaço, se eles não aumentassem de uma só vez, de maneira a acolher alguma coisa que vem de fora ou de algum outro lugar. Hiatos para quando as palavras se forem.»

O vídeo abaixo, produzido pela Cia Hiato, dá um cheiro do espectáculo. Mais informação aqui.



mais uma vitória do 5 dias.

11:01

Segundo o Expresso de hoje, o governo PSD+CDS, precisamente pela mão de um ministro do CDS, vai fazer a vontade a um dos autores do 5 dias, que ainda há pouco tempo exigiu um tecto para as pensões. O que, aliás, lhe encaminhou o prémio grandes revolucionários, pá!. A estratégia de privatização da fatia rica da segurança social, deixando a parte pobre para a segurança social pública, um velho projecto de certas direitas, quando apresentada com embrulhos de fantasia parece ser capaz de produzir as mais coloridas convergências políticas. O que são capazes de fazer bons assessores de comunicação: vender pneus a quem não tem carro. Estará em vista outra contratação para assessor?

(Qual é a ratoeira do tecto para as pensões?)




vão barda-Médis.


Pequeno tratado sobre pornografia político-empresarial. Filipe Moura, atento, descodifica aquilo que Ricardo Alves qualifica (e bem) como "a publicidade enquanto forma de propaganda política". A ler/ver.

4.11.11

Em defesa da democracia, da equidade e dos serviços públicos.

17:42


Eu entro na linha 1071.

(A última vez que assinei uma petição, correu mal. Desta vez não deve haver pides por perto.)

ser oposição é...


... tão importante para a democracia como ser governo.

Mas essa é uma afirmação que, embora muito repetida, é mal compreendida na prática.

Como mais uma vez se demonstra com dois casos de sinal oposto. A oposição de direita grega só deixou de "bancar a engraçadinha" com a ameaça de um voto referendário: foram logo reler o novo memorando de entendimento e descobriram em três segundos que era espectacular o que antes diziam intragável. A oposição de centro-esquerda portuguesa, pelo seu lado, abandonou o jogo ao intervalo - esquecendo-se que empates por mútuo acordo dos jogadores só no xadrez, um jogo pouco popular entre nós, ao contrário do que acontecia na antiga União Soviética. No futebol, pelo contrário, é preciso jogar até ao fim. Sob pena de goleada.

Mas isso cansa as pernas mimosas do interesse nacional definido à medida do freguês.

vai seguro.

11:57

A comissão política nacional do PS aprovou esta sexta-feira de madrugada a proposta do secretário-geral, António José Seguro, para a abstenção nas votações na generalidade e especialidade do Orçamento do Estado para 2012.

Estamos falados quanto a esta direcção do PS. António José Seguro faz ofício de corpo presente, quer dizer, vota nim - independentemente do conteúdo do documento e independentemente da atitude da maioria quanto ao debate da proposta. A politiquice sobrepõe-se à política. Política é contrastar propostas, bater-se por elas, aquilatar do mérito relativo de cada posição, argumentar, representar ideias alternativas. Politiquice é ficar pelo aspecto geral das coisas. Seguro fica pela politiquice quando entrega os pontos (diz o que vai votar) sem apresentar as suas alternativas, sem dizer o que quer. Será que, afinal, o PS não quer nada de diferente do que propõe o governo? Ou será que o PS não faz ideia nenhuma de como fazer diferente? Isso seria grave, porque a única maneira de não exilar a política para a rua é manter a política (a alternativa) a funcionar dentro das instituições.
De passagem, para não colocar as coisas em termos de grupinhos dentro do PS, note-se que Francisco Assis, ex-candidato a califa no lugar do califa, defendeu basicamente a mesma posição que Seguro. Aliás, até a defendeu há mais tempo e em formato mais radical: defendeu o anúncio da abstenção antes de se conhecer o documento. António Costa, da sua torre de observação, é um homem de vistas mais largas: defende como princípio geral que o PS e o PSD, quando na oposição, devem, sempre, deixar passar os OE do outro partido no governo. Quer dizer: uma espécie de "bloco central" permanente e sem cláusulas em torno do principal instrumento de orientação política para cada ano. O rotativismo dos nossos dias - e a preguiça de fugir à luta política necessária, com nobreza - continua a cheirar bem à nobreza do PS. Nada que seja exclusivo de Seguro, portanto. O PCP e o BE agradecem: que não haja política entre PS e PSD, apenas convivência, é o seu seguro de vida.
Na medida em que, tendo chegado a SG do PS, Seguro não pode ser propriamente um distraído, fica nisto tudo qualquer coisa por explicar: qual a razão para Seguro se comportar deste modo? Infelizmente, a minha explicação é a mais tenebrosa. Seguro está, objectivamente, a partilhar um objectivo táctico com o seu amigo Miguel Relvas: consolidar a narrativa de que a culpa disto tudo aponta para Sócrates. Isso convém ao actual governo, para nos distrair das irresponsabilidades passadas do PSD, da campanha eleitoral mentirosa, da sua agenda ideológica com rabo de fora. Isso convém a Seguro (pensa ele), para calar os "socráticos". Essa é a única explicação possível para Seguro desistir de exigir ao governo as contas do "desvio colossal", a desculpa mentirosa para a austeridade brutal, que nunca passou de um script para cinema de animação. Seguro cedeu à tentação de se livrar do legado de Sócrates de mão dada com a propaganda do governo. Que esse tópico de táctica intra-partidária se possa sobrepor ao interesse nacional, é lamentável.
Provavelmente, algum encontro secreto já terá servido para prometerem ao SG do PS alguma compensação, em sede de discussão na especialidade, para esta rendição sem luta. Veremos. De qualquer modo, embora eu apoie conversações civilizadas e discretas entre partidos, a legitimação da política não se faz nos gabinetes, nem às escondidas. Pelo menos em democracia, os políticos e os partidos têm de mostrar as cartas com que jogam, para que os cidadãos possam ajuizar e tomar partido. Evitar o caminho da Grécia exige responsabilidade ao PS, sem dúvida. Mas também exige que as instituições funcionem, que sejam o lugar da luta política, se não queremos que se esvaziem para a rua. Se não queremos, com infelicidade, traduzir para o nosso país a sábia frase de Teresa de Sousa, em artigo no Público de hoje: «Se não houver rapidamente uma inversão de caminho, o risco deixará de estar nos mercados para passar a estar nos eleitores».

3.11.11

a zebra é branca com riscas pretas ou preta com riscas brancas?

20:13

O jornal «Avante!», órgão central do Partido Comunista Português, publica um texto de opinião, já de si delirante (defende que o estado do mundo actual resulta de uma conspiração entre a Santa Sé, a Maçonaria, o Pentágono e Wall Street), mas com o adorno de uma pérola particularmente perversa: dá como verdadeiros os Protocolos dos Sábios de Sião, uma das falcatruas com mais pesadas consequências da história recente do ocidente. Quem nunca tenha ouvido falar, se não quer ficar na triste situação de Jorge Messias (o autor do disparate recente, que não dos Protocolos), pode ler com calma o que aqui se escreve. Que isto aconteça parece uma conspiração contra o Partido Comunista, directa (ligar "o" Partido a uma estupidez criminosa) ou indirecta (ressuscitar as tendências anti-judaicas que já tiveram o seu papel no campo comunista). Assim sendo, parecia razoável que se esperasse por uma posição de Jerónimo de Sousa a atirar tal disparate para o caixote do lixo, colocando o PCP no nível de dignidade que ele merece, independentemente de quaisquer discordâncias políticas (que, no meu caso, são inúmeras, evidentemente). É a esperança que se revela, por exemplo, neste post.
Só que, afinal, Jerónimo de Sousa não ficou aborrecido por o jornal oficial do seu Partido publicar tamanha asneirada. Jerónimo de Sousa ficou amofinado, isso sim, por as pessoas não gostarem de tão detestável texto, que, além de ser uma nulidade teórica, dá objectivamente a mão a uma falsificação monstruosa. A política portuguesa está de rastos e a superioridade moral dos comunistas deixou de ser um mito: agora é uma comédia.
Jerónimo de Sousa podia, ao menos, se lhe custa a compreender a gravidade de estar assim a virar o bico ao prego, ler a famosa novela gráfica de Will Eisner, publicada em português pela Gradiva, sob o título “A Conspiração – A História Secreta dos Protocolos dos Sábios de Sião” (ver aqui um comentário). Depois oferecia o seu exemplar a Jorge Messias, para ele ler no comboio para a Sibéria. (Sibéria? Pena, já não se usa para programas de novas oportunidades.)

o homem do estômago fenomenal.


Portugal vai exportar mil milhões para a Venezuela, incluindo o computador Magalhães.

Paulo Portas copia as receitas de Sócrates para impulsionar as exportações. Ao mesmo tempo, engole todos os disparates que a direita costumava bolsar acerca do demónio das Caraíbas. O comandante Chavez não recebeu o MNE português, talvez com medo que Portas lhe pegasse a doença do estômago fenomenal. Ao mesmo tempo, uma certa blogosfera, que há uns meses tinha uma ética muito estrita em política económica com o exterior, continua a coçar os olhos com as mãos todas, de tal modo que não tem oportunidade de reiterar os escritos onde plasmava a sua indignação metafísica contra estes aliados espúrios. Os coxos continuam a sair-se muito bem da comparação, a prejuízo dos mentirosos.




gestão de rebanhos.


A forma que os principais actores do drama corrente têm escolhido para lidar com as instituições europeias é mais primária que as técnicas primitivas de gestão de rebanhos.


hoje se saberá quem é o SG do PS.

12:10


Seguro prepara alternativas ao OE para reunião animada. Comissão política do PS encontra-se hoje
.

Ninguém é líder antes de o ser. Um líder só se mostra quando a dificuldade é suficientemente grande para deixar ver a diferença que faz o valor. O PS está agora numa posição suficientemente difícil para precisar de um líder. Os cidadãos em geral não saberemos hoje se o PS tem líder ou não, mas os membros da cúpula desse partido saberão: bastará ver o que Seguro tem para propor. Hoje, para Seguro, não bastarão as palavrinhas mansas com que costuma passar por entre as gotas da chuva.
A meu ver, que estou na cómoda posição de não me caber propor nem decidir, o PS tem um caminho estreito. Por um lado, o PS não pode agora ter o comportamento irresponsável que teve o PSD quando na oposição: fazer que sim e que não com a cabeça em dias alternativos, para queimar o governo sem perceber que ao mesmo tempo queimava o país. É que o Memorando de Entendimento, por muito mau que seja, não pode ser para os nossos credores o meio de prova de que somos incapazes de honrar a palavra dada. Nem, por outro lado, pode o PS partilhar a responsabilidade pelo feroz ataque ideológico que este PSD, nisso mais radical que o CDS, quer fazer a suportes básicos da nossa vida em comum, aproveitando a desculpa do Memorando para impor uma agenda que, de outro modo, seria simplesmente vista como pornográfica.
O ponto é que esta equação não se pode resolver apenas pelas etiquetas "abstenção" ou "contra", como sentido de voto do PS no Orçamento. Parece-me essencial que o PS faça compreender que a sua posição vai realmente depender do conteúdo do Orçamento e da capacidade da maioria para descartar os seus planos mais tenebrosos. O PS tem de definir muito bem quem e o quê quer defender nesta batalha e, em consequência, colocar na mesa propostas alternativas, compreensíveis pelas pessoas comuns como capazes de atingir os mesmos (ou melhores) objectivos por outros meios. Deve, concomitantemente, fixar os critérios que definirão o sentido de voto dos socialistas e ganhar a batalha da credibilidade das suas propostas. A porta é estreita, mas a única possível para os socialistas. Se Seguro já tiver desistido do insane projecto de fazer de conta que nunca conheceu José Sócrates, esta porta estreita permitirá ao PS avançar sem renegar o passado, mas também sem ficar cativo da herança.
Estamos quase a saber se Seguro é um líder. Só o será se mostrar, neste momento difícil, que não confunde política com politiquice - e que não tenta arredondar os cantos com mansidão que ninguém percebe o que quer dizer.

esculturas em acção.


Tatiana Blass, Vencedora do Prémio Investidor Profissional em Arte 2011, trabalho em exposição agora no Museu Nacional de Arte Moderna, Rio de Janeiro



No vídeo que se segue, Tatiana Blass explica o conceito das suas "esculturas-performance", ou "esculturas em acção", ou "esculturas acontecendo", trabalho com que ganhou o Prémio Investidor Profissional em Arte 2011, e que está actualmente (Novembro 2011) em exposição no Museu de Arte Moderna no Rio de Janeiro.



Mais info aqui.

2.11.11

um pequeno tratado de sociologia política.

uma citação...


... ao cuidado dos indignados do Rio de Janeiro.


Uma sugestão de leitura para a senhora Merkel...


... também útil para outros germanófilos emproados quando hoje se fala de dívidas soberanas.

«Pode parecer incrível, mas só recentemente a Alemanha terminou de pagar as indenizações da 1ª Guerra Mundial. O país também pagou bilhões de euros da 2ª Guerra Mundial.» Artigo de Edgar Welzel, "O fim de uma dívida secular". Para saber mais sobre a tolerância de que a Alemanha beneficiou quanto ao pagamento das suas dívidas. Um assunto que só me voltou ao espírito ouvindo, há dias, uma entrevista que Granadeiro concedeu à RTP Informação.

o referendo grego.

14:07

Governo grego dá luz verde a referendo ao resgate da União Europeia.

UE ameaça bloquear ajuda à Grécia.

Claro que o referendo grego pode complicar muita coisa. Claro que a maior parte das situações complexas não podem ser desembrulhadas com decisões simplistas, como usam ser as decisões referendárias, sempre muito próximas do esquematismo do sim ou não. Claro que na essência da democracia representativa também está a noção de que não se pode governar a coisa pública com meras sequências de actos isolados, sendo necessária uma visão, um rumo, e que uma visão e um rumo precisam de tempo e não podem cumprir-se por espasmos referendários. Pois claro, um referendo introduz uma danada incerteza, quando a incerteza já é esmagadora e nela consiste a principal dificuldade.
Só que o referendo grego pode vir lançar luz sobre muita coisa. Os por assim dizer líderes europeus que falam grosso à Grécia, terão a oportunidade de perceber que isto não é só um problema dos mal comportados e que a surpresa grega lhes pode sair caro (nos pode sair caro). A oposição de direita na Grécia, que causou o grosso do problema comportando-se tipo AJJ, e que agora faz de conta que não sabe de nada, terá de assumir as suas responsabilidades, talvez, em consequência, assumindo a batata quente que cozinhou. Os "indignados" gregos, que sabem estar contra mas não curam de explicar as consequências práticas da sua alternativa (?), terão de revelar toda a lógica da sua posição. E o povo, pois, o povo, terá uma palavra a dizer, numa matéria que, efectivamente, não fez parte das anteriores escolhas eleitorais, porque ninguém sabia que se chegaria aqui.
A democracia é o cabo dos trabalhos, pois é. Mas o método de deitar silêncio para cima das sociedades aflitas, obrigando-as a calar e a comer, enquanto os "grandes" fazem gala do seu desrespeito pelas instituições comuns, como têm feito a Alemanha e a França, é um método que mais tarde ou mais cedo haveria de forçar a corda. A iniciativa do governo grego será uma de duas coisas: ou estertor das ideias de devolver a palavra ao povo, por não se chegar o referendo a concretizar, ou o início de uma reflexão necessária acerca do défice democrático com que o calhambeque europeu tem vivido e precisa corrigir. Ainda é cedo para saber o que realmente sairá desta iniciativa, mas muito mau será se dela apenas se concluir que é preferível deixar o povo na rua e não o deixar votar.