1.7.11

somos um país de mãos largas

23:20

O comissário europeu dos Transportes, Siim Kallas,confirmou que Portugal perderá os fundos previstos se cancelar o projecto do TGV.

"Em termos concretos, os fundos de coesão são uma decisão dos Governos e podem ser realocados, mas os fundos de projetos prioritários não podem ser realocados. Então, se o projeto for cancelado, este dinheiro não poderá ser usado e regressará ao orçamento europeu", afirmou Siim Kallas.

Parece que José Manuel Barroso, perguntado, terá dito que o assunto iria ser estudado. Mentira, não vai nada ser estudado. Se Portugal não quer, não precisa,não pode - o dinheirinho volta para a caixa. Não era isso que o PSD andava a pedir há vários anos? Não se ouviu, cá dentro, várias vezes, o aviso de que era isto que ía acontecer? Sim, mas as campanhas de oposição cega têm muita força, não é Dra. Manuela? Não é, senhor PM?


alô, Grécia, temos uma ilha para a troca

cibernética à portuguesa





O que Passos Coelho anunciou ontem NÃO é um aumento de impostos.

A picada extraordinária equivalente a uma fatia do subsídio de Natal NÃO é um aumento de impostos.

A promessa eleitoral de não aumentar os impostos NÃO foi quebrada.

A prioridade à punção do lado do consumo, em vez do lado do rendimento, NÃO foi esquecida.

Dizer que "isto" é por culpa da "herança" NÃO é justificar-se com o passado, logo, por aí não se quebra uma promessa eleitoral: até porque essa promessa foi feita já depois das eleições.

Dar a ideia que as contas entretanto conhecidas eram esqueletos no armário NÃO é pretender que o FMI, o BCE e a Comissão Europeia não sabem analisar as contas de um país, nem é pretender ignorar que eles estiveram cá há meia dúzia de semanas a vasculhar tudo.

Tudo isto, bem vistas as coisas, é uma engenharia de almas. A sociedade é uma grande máquina; as almas dos cidadãos são as suas peças; se as almas se enfurecerem, os corpos produzem baforadas de gás tintadas de raiva; se a máquina for a vapor, os sopros de raiva fazem andar a máquina. É uma cibernética um bocado básica, mas é o que temos.


Strauss-Kahn Case Seen as in Jeopardy


Segundo o The New York Times de hoje, Strauss-Kahn Case Seen as in Jeopardy:
The sexual assault case against Dominique Strauss-Kahn is on the verge of collapse as investigators have uncovered major holes in the credibility of the housekeeper who charged that he attacked her in his Manhattan hotel suite in May, according to two well-placed law enforcement officials.(...)
Since her initial allegation on May 14, the accuser has repeatedly lied, one of the law enforcement officials said. Senior prosecutors met with lawyers for Mr. Strauss-Kahn on Thursday and provided details about their findings, and the parties are discussing whether to dismiss the felony charges. (...)
The investigators also learned that she was paying hundreds of dollars every month in phone charges to five companies. The woman had insisted she had only one phone and said she knew nothing about the deposits except that they were made by a man she described as her fiancé and his friends. (...)
Mr. Strauss-Kahn was such a pariah in the initial days after the arrest that neighbors of an Upper East Side apartment building objected when he and his wife tried to rent a unit there. He eventually rented a three-story town house on Franklin Street in TriBeCa.
Dá que pensar. Ou não?

30.6.11

há coisas que fazem uma diferença do caraças


Como esta: «Mas vai doer ao mexilhão. E mais desta vez, uma vez que o limite mínimo já não é 1500€ mas sim 475€.» Pedro Lains explica.

o programa e o governo

18:58

Quando chegou a vez de Apolónia tive de desligar. Ouvira, até aí, o PM e uma voz por cada um dos partidos que têm deputados por se apresentarem ao eleitorado (que não é, exactamente, o caso dos melancias). As minhas impressões são, talvez por não ter ouvido Apolónia, um pouco difusas.
É cedo para saber quanto durará a simpatia de Passos Coelho, que até parece ter comovido Jerónimo de Sousa. Mas a simpatia não é exactamente a mesma coisa que capacidade negocial. A primeira dá um bom acepipe, sendo necessária a manter a mesa em atitude civilizada (o que não é coisa pouca); a segunda é extremamente necessária para cozinhar o prato principal. É bom, de todos os modos, que o PM tenha, finalmente, percebido que há uma crise internacional.
Maria de Belém Roseira fez, muito bem, um discurso difícil: sabemos bem quais são as nossas responsabilidades, não vamos fugir, mas estamos atentos. E, se o governo tem legitimidade para governar, o PS também tem a legitimidade dos votos que teve. E as perguntas que Maria de Belém fez estão muito para além daquilo que o PM queria, ou podia, responder no momento. São, pois, perguntas que vão "andar por aí".
O principal motivo de expectativa é, para mim, o facto de serem constantes as referências, vindas da maioria, à concertação social. Se for a sério, é importante. E positivo. A ver vamos.

questões de civilização (adenda)

14:50

Quanto a este meu post de ontem, quero acrescentar o seguinte.
Há uma maneira "racional" de tratar com os assuntos humanos que julga que a razão está fora/acima da história, pelo que o significado histórico e tradicional de certas práticas é desprezado e pode simplesmente ser rasurado pela "lei".
Há, por outro lado, uma maneira "comunitária" de lidar com a razão que toma a tradição como um critério absoluto, fechado, que não pode ser repensado - e, desse modo, despreza a possibilidade de raciocinar em conjunto com outras tradições, tendo em conta outros valores e outros aspectos das questões.
Os ortodoxos de certas convicções religiosas, que continuam a achar que não podem comer camarões por causa de uma frase do Livro, praticam esta última espécie de intolerância. Os iluministas - que, além de serem iluministas, acham que já foram eles mesmo pessoalmente iluminados - pertencem à primeira espécie de intolerância. Nenhuma destas espécies de intolerantes suporta indivíduos que não alinhem nessas intolerâncias. Qualquer uma destas espécies de intolerância é uma sobrevivência de tempos remotos em que cada "civilização" estava a milhares de quilómetros das outras, podendo fazer de conta que estava só no mundo.
Claro que, como não somos relativistas, não acreditamos que tudo se resolva pelo diálogo. Mas a alternativa ao relativismo não é o dogmatismo. Nenhum dogmatismo.

coisas preocupantes - e outras nem tanto

12:21

Vai começar daqui a muito poucas horas o debate do programa de governo no parlamento. Em qualquer democracia a sério, seria um momento importante. Espero que seja. Quer dizer: que o governo explique bem ao que vem; que a oposição faça as perguntas pertinentes para perceber o que significa o que está escrito no programa e, quanto ao seu oposicionismo futuro, prometa - para cumprir - que não vai deixar de fiscalizar, mas vai ter sentido da realidade. Sentido da realidade é perceber que nem tudo o que queremos em geral, para a vida de um país, pode ser feito num dado momento.
Entretanto, estou preocupado com a saúde, com a protecção social, com a equidade no mundo do trabalho, com a eventual venda ao desbarato de activos do Estado. Não estou preocupado agora, já estava antes, quando o governo era outro e o Memorando de Entendimento era o mesmo. Entretanto, não estou nada preocupado com o facto de o PM ter sido presidente da JSD, nem com o currículo da licenciatura do PM, nem com a escola em que ele foi docente.
Quero dizer: não abordo a actual governação no mesmo espírito que a governação anterior foi abordada pelos partidos agora no governo (PSD e CDS), de mão dada que nessa altura andavam, nisso, com o PCP e o BE. Quero dizer: se os socialistas se comportarem agora como o PSD e o CDS se comportaram antes - discurso dúplice, jurando com uma mão que apoiam o esforço e, com a outra mão, fazendo uma guerrilha permanente - o "povo", essa entidade mítica, é capaz de não apreciar. E com razão: precisam os socialistas, primeiro, de se encontrar: encontrar uma via que não seja a da ortodoxia dominante na Europa. E, convenhamos, que via é essa ainda está longe de ser claro.

29.6.11

Rock in Law 2011



questões de civilização

11:02


Congresso holandês proíbe o sacrifício ritual de animais por motivos religiosos
.

Os iluministas rejubilarão com esta decisão. Os iluministas detestam "a tradição" e julgam que tudo na vida se rege pela "razão". Conseguindo articular um argumento racional a favor da diminuição do sofrimento dos animais, sentem-se automaticamente justificados para eliminar uma prática tradicional de certos grupos humanos. Alguns iluministas conseguem perceber que este raciocínio funciona mal na análise económica (por exemplo, quanto ao hiper-racionalismo de certas escolas económicas), mas já não se interessam pelo caso quando a tradição é religiosa.

A decisão acima noticiada suscita-me, pelo menos, duas ordens de questões. Primeira: sendo a religião uma prática humana, quer esta decisão significar que valem mais os animais do que os humanos? Será que, afinal, esta decisão não é mais do que uma forma de discriminar religiões minoritárias no país em causa? Segunda: estaria contra o essencial das religiões que elas modificassem as suas tradições à luz de novos valores que vão aparecendo, como seja o valor dos próprios animais como seres capazes de sofrimento?

Questões de civilização. Alguém quer bater na pedra?


[Aditamento. Ricardo, acho pouca piada a textos que argumentam como se salivassem. Mas isso é apenas uma questão de gosto. Quanto a eu ser reaccionário, admito que seja uma questão de opinião, embora ache um pouco triste essa mania de ler de forma simplista o que os outros escrevem. Já quanto a eu escrever coisas pós-modernas, aí acho que o delírio passa os limites da credibilidade que um autor deve exigir de si mesmo.]

28.6.11

ir ir ir ir


No Museu do Chiado. Inauguração: 30 de Junho, 19 horas.



volta, realidade, estás perdoada


A blogosfera política, um mundo mais pequeno do que parece (vou a uma dúzia de blogues e vejo comentadores de serviço que circulam lestos, alguns mesmo trocando de pseudónimo como quem troca de luvas), mas ainda assim muito divertido, anda um bocado à nora com esta transição de ciclo político. Eu, por mim, com a quantidade de trabalho que tenho em mãos, agradeço este entre-tempo. Vejo, contudo, que outros não querem deixar enferrujar as espadas, nem por nada. E, por isso, contam ministros e secretários de estado, aparentemente impressionados com a falta de palavra do Primeiro-Ministro, quando, acho eu, deveríamos todos ter percebido que, se o homem disse umas coisas sem sentido na campanha eleitoral, terá de as corrigir. Ainda bem que as corrige. E não se deve ignorar a possibilidade de que ele saiba corrigir muita coisa tão bem como resolveu o assunto Fernando Nobre.
Entretanto, o dia de ontem foi de manifesta humilhação pública para blogueiros contadores de secretários de estado: qualquer diatribe exibida num blogue terá parecido muitíssimo decente se comparada com o desempenho do Público, que mudou não sei quantas vezes a contagem das cabeças na edição on line durante a tarde de ontem. Percebe-se: mudar de ramo (ou de galho, se quiserem) é coisa que dá trabalho a qualquer empresa.

27.6.11

experimentum crucis


Uma das "técnicas" do anterior ciclo político (técnica velha, mas levada ao paroxismo pela política do ódio) consistiu em, para não ter que ligar aos argumentos dos adversários, tratar de os desqualificar. Era uma espécie de "tratamento de substituição". No campo dos apoiantes do anterior governo na blogosfera, talvez o mais causticado por esse tipo de ataque tenha sido o Câmara Corporativa. Criou-se uma doutrina, do género informe, segunda a qual "os Abrantes" (um rótulo de ódio, cuja invocação tinha a mesma função dos sininhos que os leprosos eram obrigados a usar para prevenir as gentes de que deviam afastar-se) seriam, disfarçadamente, "assessores pagos pelo erário público para fazer propaganda governamental".
Não estou particularmente interessado na atitude de prolongar as novelas de um ciclo para outro, mas este caso interessa-me, por ser razoavelmente específico como nódulo da guerrilha política recente. Assim sendo, fico à espera para ver que explicação arranjam, agora, aqueles doutrinários, para o facto de "os Abrantes" continuarem a existir. Está em curso, portanto, uma experiência crucial da blogosfera política à portuguesa. Ou o Corporações desaparece rápida e cruelmente, ou aquele expediente devia começar a envergonhar os que a ele recorreram: qualquer dia começo a fazer a lista...

notícias de Santana

"Robôs Ensinam Políticos"


Pedro Lima, Professor no I. S. Técnico e investigador no Instituto de Sistemas e Robótica, publicou no passado sábado um texto muito actual, intitulado "Robôs Ensinam Políticos", no Robotizando, blogue da Sociedade Portuguesa de Robótica no Expresso. A questão de base é ilustrada pelos seguintes excertos:
Nos EUA, a investigação em robótica está no centro das atenções dos media: um senador republicano publicou um relatório onde considera 3 projectos de investigação na área da Robótica como desperdícios, e o Presidente Obama foi à Universidade de Carnegie-Mellon anunciar uma forte aposta na investigação em Robótica nos próximos anos. (...)
Estas duas visões da importância ou não de investir em investigação cujos resultados muitas vezes só se vêem num futuro relativamente distante (ou que nem se vêem de todo) dominam o debate internacional sobre o tema. Portugal não é excepção. (...)
Por exemplo, o leitor já se interrogou alguma vez sobre a utilidade dos enormes montantes gastos para levar um homem à Lua? Para além do aspecto poético da questão, o que ganhámos com isso? Mas a verdade é que muitos dos materiais e dispositivos que usamos agora no nosso dia a dia resultaram da investigação que foi necessária para atingir aquele objectivo.
Vale a pena ler o texto integral, aqui.

Intencionalidade: mecanismo e interacção


Resumo:
Neste ensaio tentamos uma resposta à seguinte questão: tem a intencionalidade de poder ser reduzida a alguma coisa? Propomos que é possível reduzir qualquer variedade de intencionalidade a uma especificação de mecanismos (organização interna dos itens intervenientes num fenómeno intencional) e um esquema histórico de interacção (estrutura das relações mútuas significativas adquiridas historicamente pelos vários itens intervenientes no mesmo processo intencional). Começamos por esclarecemos o sentido desta proposta a partir da abordagem teleosemântica de Ruth Millikan. Depois procuramos avaliar o interesse e a viabilidade da proposta considerando, sucessivamente, o caso do mundo animal e o caso dos humanos; o caso das máquinas; o caso dos colectivos sofisticados especificamente humanos. Terminamos expondo e defendendo o carácter heurístico da redução proposta.

Integral (ficheiro pdf): Porfírio Silva, "Intencionalidade: mecanismo e interacção", in Principia, 14(2), pp. 255-278