22.6.11

invenção?


Disparar primeiro, focar depois.

Então, mas isso não é a prática corrente, falar primeiro e pensar depois?
Ah, está-se a falar de fotografia, está bem.

iliteracia matemática





O fascínio de alguns comentadores-ou-jornalistas-ou-opinadores-ou com o facto de o novo ministro da educação ser matemático, formação que, no entender de alguns, lhe daria uma especial clarividência, não revela nada sobre o ministro, que suponho isento de qualquer responsabilidade nessa fantasia, mas revela muito sobre os autores dessa linha de magnífica admiração. Revela iliteracia matemática: a admiração tola dos ignaros. Quando eu andava nos primeiros anos de escolaridade já havia esse fenómeno: os meninos que suavam horrores só de pensar na aritmética elementar julgavam que os que sabiam multiplicar 9 por 6 sem gaguejar eram uns génios. Mais tarde, a luz que irradiava de quem resolvia um sistema de equações sem necessidade de aspersão com água benta, era uma luz inexistente - mas visível para os que começavam a tremer como varas verdes duas horas antes de uma aula de matemática, que eram os mesmos que se sentavam atrás do mais matulão a ver se passavam longe da vista do setôr de matemática. Esses desterrados das delícias das ciências formais parecem ser legião agora no jornalismo-comentarismo, onde prosseguem a narrativa dos seus medos, agora definitivamente convencidos de que quem sabe matemática é um génio.
Não é necessariamente um génio. E aviso, desde já, os ditos jornalisto-comentadores, para irem meditando no assunto: mesmo que Nuno Crato venha a revelar-se um génio como ministro (os santos o protejam, se já o perdoaram dos radicalismos juvenis), isso não será prova de que ser matemático implique ser um génio.

profetas

14:37

Daniel Cohn-Bendit no Parlamento Europeu em Maio do ano passado.



Não é a primeira vez que se coloca aqui este vídeo. Vale, contudo, a pena, repetir - e acrescentar qualquer coisa.

Desde logo, que não são só os medinas carreiras deste mundo que sabem fazer previsões. Cohn-Bendit foi - sem grande esforço, aliás - mais profeta do que muitos que para aí andam. E, como se sabe, Cohn-Bendit não foi o único a ver (não é, sequer, prever) que assim se passariam as coisas: como elas se estão a passar. A vantagem para Cohn-Bendit é que ele indica soluções dentro da UE.

Depois, que a hipocrisia dos "ricos" da UE continua a ser tão grande como era ao tempo - e isso pode ferir mortalmente esta Europa, mesmo que isso para já não se note por causa das solidariedades partidárias (o Partido Popular Europeu, com a sua hegemonia nos governos, ajuda a garantir que ninguém morda as canelas da senhora Merkel, por mais disparates que ela faça - e faz).

Incidentalmente, Barroso faz, neste vídeo, aquilo que passa a vida a fazer: o que lhe interessa é recontar a sua própria narrativa pessoal (empertiga-se para dizer que nunca perdeu as eleições, mas não diz que isso foi por se ter posto a mexer antes de chegar o seu tempo). Nunca antes de Barroso um presidente da Comissão Europeia tinha andado tão aos papéis, barata tonta num terreiro onde tem de fazer de conta que existe quando ninguém lhe liga. Os "grandes da UE" já nem se dão ao trabalho de fazer de conta que o ouvem, que esperam uma iniciativa sua - sequer de lhe arranjar um lugar de figurante na peça. Barroso limita-se a correr atrás das canas para poder dizer que viu os foguetes: provavelmente, já estará a pensar para onde fugir a seguir, talvez mais alto, talvez venha de férias cá para dentro.

Por que será que os nossos séculos XVI acabam sempre cedo demais?

21.6.11

grafitos de Varsóvia




uma pergunta a Assis e Seguro

18:24

símbolos

18:15

Assunção Esteves eleita Presidente da Assembleia por maioria confortável, tornando-se assim na primeira mulher a assumir o cargo que representa a segunda figura do Estado.

Gosto do simbolismo.
Assunção Esteves estará, como qualquer homem estaria, sujeita ao escrutínio do exercício efectivo das suas funções. Não obstante, gosto de ver mulheres lá no alto. Só haverá verdadeira igualdade de género quando houver tantas mulheres incompetentes no altos cargos como homens incompetentes por lá andam.
Valeu, pois, a pena ter votado contra Nobre. O simbolismo do independentismo de pacotilha era uma tolice, mal servida por um vaidoso em difícil equilíbrio no processo de emigrar para a política dos altos voos para que se não tinha preparado.
Passos Coelho, pelo seu lado, continua a falhar tiros mas a encontrar, por vezes, boas correcções de rumo. Se compararmos com os primeiros tempos de Cavaco, Passos Coelho até está muito bem. Toca a trabalhar, portanto.

Portugal não merecia este filme


"Viagem a Portugal", de Sérgio Tréfaut, pinta-nos de forma terrivelmente injusta. Portugal é, de todos os países do mundo, um dos que melhor tratam os seus imigrantes. Este filme pisa essa realidade, construída passo a passo com cuidado e labor, apresentando-nos como um país atroz para os estrangeiros que nos chegam. Para quem, como Sérgio Tréfaut, parece ter a pretensão de fazer um certo cinema social, este filme, estética à parte, é uma bofetada em quantos ajudaram a fazer de Portugal um país mais justos para os imigrantes. Confesso que fiquei revoltado ao ver este filme: parece-me pornográfico tratar de "temas de sociedade" de forma tão insensível ao contexto verdadeiro desses temas.


terrorismo

11:18

Fitch considera “incumprimento” o envolvimento voluntário de privados no novo resgate da Grécia.

O fenómeno dos "indignados" contém sinais contraditórios (espero um destes dias ter tempo e inspiração para escrever sobre isso). Sem rebuços, considero claramente detestável, em tais movimentos, o ataque às instituições representativas, como aconteceu na Catalunha com a ameaça de bloqueio ao parlamento. Sei bem, entretanto, que essas derivas não esgotam a "indignação", nem representam o movimento no seu conjunto.
De qualquer modo, espero que os que se escandalizam com o ataque dos indignados às instituições democráticas se escandalizem, pelo menos com a mesma força, pelo ataque das agências de rating às mesmas instituições democráticas. Defendo que devem ser sentados nos bancos dos réus (já não há réus, apenas arguidos, mas ainda lá têm o banco dos réus, certamente, porque um banco é sempre um banco) devem ser sentados nos bancos dos réus os que atacam os representantes do povo enquanto representantes do povo; defendo que devem ser sentados no banco dos réus os que, escorados em "instituições do mercado", atacam a organização democrática, dos países e das regiões, apenas com critérios de batalha. Financeira. Batalha financeira. Ou, mais precisamente: terrorismo. Terrorismo financeiro.


a vingança de Nobre

10:06

Hoje às sete da manhã ouvi Alberto João Jardim a dizer que ele merecia (corrigiu: "nós merecemos") o prémio de ter o Presidente do Parlamento, pela interposta pessoa de Guilherme Silva. Se Guilherme Silva vier a ser proposto (se for proposto, será eleito), Alberto João Jardim começa este ciclo político com mais um desenvolvimento da sua saga, intitulada "um ditador nesta democracia pode safar-se muito bem". Nesse caso - e não estou a fazer nenhum juízo sobre Guilherme Silva propriamente dito -, Nobre vinga-se muito bem: para substituir o mais descarado equilibrista do ano, o PSD só teria encontrado um embaixador da nódoa do Atlântico.

20.6.11

o Nobre desistido

19:17


Fernando Nobre desiste de ser presidente da AR, mas fica como deputado
.

Saiu a sorte grande ao PSD.
Passos Coelho fez o papel de homem de palavra e levou Nobre à votação; até insistiu, levando-o à segunda votação; mas o homem não passou. Aliás, dá a impressão que o chumbo de Nobre foi devidamente preparado nas hostes da maioria: o CDS nunca deixou de falar claro contra ele; em nenhuma das duas votações Nobre teve sequer todos os votos da sua bancada (os faltosos à votação eram do PS); da primeira para a segunda votação, Nobre perdeu um voto: parece que da própria bancada do PSD saíram desertores, talvez para compensar aqueles que nas insistências amolecem e tendem a deixar resolver o problema.
Nobre não foi eleito e, com isso, o PSD, se talvez passou hoje uma pequena vergonha, poupou provavelmente muitas vergonhas futuras. (Se calhar era por tudo isto que António Costa achava que o PS devia votar Nobre.) E, diga-se, o PSD tem lá grandes presidentes do parlamento para apresentar e vencer.
Nobre, esse, como fez duas promessas contraditórias (sair se não fosse presidente, ficar mesmo não sendo presidente), acabará por cumprir uma.
Tudo está bem quando acaba bem.

Post Scriptum: Já agora, o título do Público: o homem não desistiu de ser presidente, desistiu de tentar. Quanto a ser presidente, não desistiu - foi desistido.



o Partido Socialista

11:15

Quando o PS estava no governo, eu defendia que o país precisava de uma oposição forte. Agora que a direita está no governo, defendo que o país precisa de uma oposição forte, quer dizer, que ofereça ao país alternativas, credíveis e realizáveis, ao que vai fazendo quem está no governo. E acrescento que o PS terá de ser pedra fundamental nesse serviço ao país.
É por isso que estou pasmado com o que já se viu do processo de “renovação interna” do PS. Aparentemente, Carlos César é o único líder regional que ainda não tomou posição por Seguro ou por Assis. O que quer isso dizer? Quer dizer que toda a gente dentro do PS sabe muito bem o que valem e o que pensam Assis e Seguro, mas César é um negociador e está a falar com um e com outro só para aferir o preço que cada um está disposto a pagar? Se isso for assim, não será grande novidade, mas fica um bocado pior do que o costume na fotografia, já que parece que todos os outros líderes regionais se inclinaram expedita e mui informadamente. Ou a dita especificidade de César quererá dizer, pelo contrário, que o líder do PS nos Açores é o único dentro desse partido que tem consciência de quanto soa ridículo, aos olhos do país, que toda a gente corra a lançar-se nos braços de Assis ou de Seguro mesmo antes de Assis ou Seguro, generalidades à parte, dizerem minimamente ao país ao que vêm?
Que Assis e Seguro vêm ao cargo de secretário-geral do PS, já se percebeu. É até honroso: querer exercer essa responsabilidade neste momento difícil é uma disposição louvável. Que, certamente, cada um deles sabe muito bem o que quer fazer do PS, quero crer que sim: é o mínimo que tenho de acreditar para crer que os socialistas – pelo menos esses dois – não ensandeceram. Que os militantes do PS saibam bem o que pensam Seguro e Assis, e tenham na ponta da língua para os enunciar quais os critérios para os distinguir e preferir um ao outro, tenho de admitir que seja verdade. Só que, do ponto de vista do país – os partidos fazem sentido para o país, para os que não estão por dentro, para os que esperam perceber como se preparam as alternativas – do ponto de vista do país parece-me bizarro que se dê a entender que toda a gente dentro do PS já está a ser arregimentada em exércitos diversos sem que, de qualquer forma entendível para os não iniciados, se perceba quais as diferenças políticas que justificam essa correria aos apoios aos candidatos em presença.
Ou, então, sou eu que estou (ou sou) distraído.