12.3.11

SOMEWHERE

19:21

Somewhere (Algures), de Sofia Coppola, "só" tem um "pequeno" defeito. A cena inicial, magistral, diz tudo. Não era preciso mais nada, o filme podia acabar ali. As imagens do resto do filme só estão lá para acompanhar o ronronar do Ferrari, que serve para lembrar a cena inicial, o que quer dizer um Ferrari na América, como aquele som é a banda sonora de toda aquela vida, onde está todo o significado (ou a sua falta). Para o meu gosto, fica um filme um tanto curto.

11.3.11

porque isto não é uma guerra de gerações

11:30


Vicente Jorge Silva (VJS) lembrou, uma destas noites no Expresso da Meia Noite, que criou a expressão “geração rasca” em comentário a uma manifestação do ensino secundário onde tinha havido exibição de rabos e genitália. É coisa em que nem vou entrar: para mim é evidente que mostrar “as partes” numa manifestação não releva de nenhuma imaginação contestatária – já que ter ou não ter razão para protestar não tem pescoço a ver com a idiotia gratuita dos métodos escolhidos. Quando faltam as ideias, sobra o espalhafato. Mas também não é por causa de alguns, que se excedem, que o protesto deixa de ter sentido. Contudo, se é a partir de VJS que quero falar, não é exactamente sobre este ponto.

Nessa mesma noite e programa, VJS, já não sobre a “geração rasca”, mas sobre a “geração à rasca”, disse, suponho que pondo nessa afirmação algo de autobiográfico, algo do género: “a liberdade também se paga com precariedade”. Não quero abusar das palavras dele, tentando fixar-lhes uma interpretação a que não estou autorizado, já que ele não se espraiou muito sobre o assunto. Mas entendi-as num modo que se me aplica perfeitamente. Explico-me.

Podemos na vida fazer opções maximamente guiadas pela estabilidade. Por exemplo, podemos assentar em certo ninho onde, com um mínimo de juízo na cabeça e tento na língua, temos cadeira para sentar o rabinho para o resto da vida. Tive essa oportunidade no passado: cabendo-me escolher, passei a minha vez a outrem. Não me arrependo.

Podemos, às vezes, optar pelas ocupações que maximizem a nossa capacidade de "vencer" (“vencimento”: salário; ganho; ordenado; honorários; proventos). Em alternativa - assegurado que ninguém cuja dependência esteja à nossa responsabilidade vai passar mal por nossa causa - voar é possível. Aquilo que faço hoje, que muito gozo me dá, resulta da opção por sair dos trilhos mais prometedores e regressar às minhas preocupações de sempre. Depois de ter mudado várias vezes de "ramo", de tal maneira que tenho para apresentar algo mais próximo da "experiência variada" do que de "uma carreira". Isso paga-se com um grau de precariedade. Desse grau de precariedade não suspeitam por um segundo os pregadores de esquina, que se julgam os famélicos da terra e compraram licença para distribuir créditos revolucionários pelos que lhes dizem amén e esconjuros pelos que não vibram com o seu verbo inflamado.

Quer isto dizer que os trintões de hoje não têm razões para descontentamento? Não quer dizer nada disso. É verdade que o mercado de trabalho (tal como a vida), se tornou muito mais selvagem, pelo menos para certas camadas que têm, legitimamente, mais exigência. É claro que deve ser difícil quando alguém percebe, por experiência própria, que a ascensão social não é linear dentro de uma família. Mas também é verdade que esta geração foi poupada a muitas coisas que as anteriores experimentaram sem alegria: para já não falar na guerra, nem sequer na tropa (essas coisas deixaram de ser tragédia antes do meu turno), pergunto: com que idade pensam que comecei a trabalhar, como ocupação principal, com os estudos em segundo turno? Por outro lado, também é verdade que esta geração está a pagar o preço do seu conformismo: achavam que a política, e muitas vezes o associativismo, era perda de tempo e agora é que percebem que deixaram outros decidir por si. E, essa história de que os jovens estão à rasca: como pensam que estão os "velhos" de 50 e poucos anos que já são tratados como se não valessem nada, comparados com o viço guerreiro dos recém-chegados?

Nada disto importa à canção, é claro. A pressa da rua prefere os raciocínios lineares. Os anátemas precisam de vozearia que acompanhe – e a precariedade que paga a liberdade não é coisa que interesse ao levantamento.

Precário também eu sou. E (já) não tenho 30 anos. Felizmente, à minha indignação não apela o novo chefe da oposição, com quartel-general em Belém, porque nesse caso eu iria explicar-lhe a responsabilidade que ele tem nisto tudo.

9.3.11

fabulosas raças de humanóides: monstros e robôs | CONVITE



Podem encontrar-me para falarmos de coisas sérias nesta ocasião que ora anuncio.

"Fabulosas raças de humanóides: monstros e robôs"

Sábado, 12 de Março, 17 horas, Pavilhão do Conhecimento, Lisboa

Palestra associada à exposição corpoIMAGEM, parte do projecto A Imagem na Ciência e na Arte.
A convite do Centro de Filosofia das Ciências da Universidade de Lisboa.

Se chegarem pouco antes da hora da palestra, dizendo ao que vão terão direito a uma entrada gratuita para não terem que pagar para me ouvir - o que, confessemos, seria demais!

Na ocasião, terei oportunidade de explicar que relação vejo entre aquela imagem ali acima e esta outra aqui abaixo. E mais não digo.



o chefe da oposição tomou posse e apresentou o seu programa de governo no parlamento

22:07

Como o país está numa crise danada, Cavaco Silva só leva 1200 convidados à festa lá no palácio. Para poupar, faz discursos de tomada de posse com recortes do que dizem os dirigentes das várias oposições. E os outros é que são a classe política.


Cavaco Silva arrasador para Governo
.

antevisão da tomada de posse de Cavaco Silva como PR (e antevisão do próprio segundo mandato)

ter as intuições erradas

13:07

Kátia Outeiro, do movimento Geração à Rasca de Viseu, explicou ontem ao PÚBLICO que a decisão de interromperem a sessão partidária de José Sócrates com os militantes do PS, na segunda-feira à noite, foi tomada em cima da hora, de "forma intuitiva, e não foi pré-programada".

Pronto, iam para um ensaio da banda de megafones e iam com o pano das palavras de ordem para engomar e passaram por ali e enganaram-se na porta. Com o engano, assaltaram uma pacífica sessão de debate de um partido. E ainda se queixam de que os malandros do PS não gostaram de ser assaltados.
Mas, pronto, foi "de forma intuitiva" que eles fizeram aquilo. A intuição não lhes deu para atacar nenhum outro partido. A intuição de certas pessoas cai sempre para o mesmo lado. É ter intuições erradas.

reality show

10:03

Mário Crespo e Laurinda Alves, ontem a abrir um telejornal qualquer pelas 21 horas, falavam do boicote a uma reunião partidária em Viseu como se os facínoras dos socialistas tivessem atacado um grupo de jovens indefesos que por acaso vinham a passar por dentro de uma sala onde decorria uma reunião de um partido político. Isto é: aqueles dois aproveitaram a antena para, objectivamente, mentir com quantos dentes têm (escondendo aspectos centrais do que se passou), desvirtuando os factos a coberto do "comentário". Se eu invadir o estúdio onde Crespo apresenta o seu exercício de ódio, ele não me manda embora: convida-me a sentar, dá-me chá e bolinhos, solicitando ainda mais trinta minutos para essa edição do seu magazine para eu ter tempo de explicar bem explicadinho ao que vou. É, não é, senhor Crespo?
Nada que estranhe. Mário Crespo, como se sabe, prima pelo jornalismo independente e pela isenção. Laurinda espera que ninguém se lembre das suas ambições políticas, legitimamente espelhadas em candidatura partidária, para continuar a fazer de conta que fala como escritora ou lá o que é. Diz ela que os jovens não fizeram nada de mal. Claro, Laurinda descobre-se relativista e só é mal aquilo que não lhe convém no momento. É como a coca-cola, já dizia um tal Pessoa: primeiro estranha-se, depois entranha-se. É apenas mais uma modalidade de reality show, onde "gradas figuras públicas" mentem em directo na TV a ver quem aguenta mais tempo sem se desmanchar a rir. Uma certa blogosfera, "de esquerda" e "de direita", aplaude - lembrando, uma vez mais, que as pessoas não se distinguem apenas pela ideologia apregoada, mas, tanto ou mais, pelo apego corajoso à sã convivência comum. E a sã convivência comum não é possível se se incensarem os que invadem a casa dos outros só para obter mais um escandalozinho televisivo.

8.3.11

"O SER QUE SE ENCAIXA"


"O SER QUE SE ENCAIXA", de Alexandra Mesquita.


Diz a autora deste pedaço de mundo, que aqui pomos "a funcionar" a partir de imagens da artista: «Assim, lá está uma caixa, que é uma parte de um ser humano, do género feminino. Existe um seio colocado, no seu interior, sob a tampa que ao fechar-se, irá ao encontro do seu órgão genital. É um “ser que se quer encaixar”. Quer ir muito para além do que dizem poder ser possível. Virou-se do avesso. O vermelho que existe no interior dos corpos, neste está por fora. Dentro está a sensualidade da pele de uma mulher.»

Encontrei no FB e coloquei aqui com a amável autorização da artista.

exactamente



no dia da mulher

12:10

Para ti, que sabes que é para ti, hoje. E antes que voltes a casa, fica dito.



Soneto dos anjos bruscos (e de por que te procuro)

Entre asas de anjos bruscos vogamos.
Fora, o dia do cão negro espreita
e a chuva que cai, cai rarefeita.
Amargamos novos dias de ramos.

Dentro, desnudos, os dois criamos
trinta estirpes de rosas: colheita
dos corpos na alegre cama desfeita,
aromas secretos delas reclamos.

Tu tens profecias no corpo, lê-mas:
diz-me como com pedras fazes casas,
como sem palavras fazes poemas,

como com tanto frio tu abrasas;
explica-me o mundo e os dilemas,
mas encosta às minhas as tuas asas.

a propósito de um tal João Galamba do PCP e de livros

11:30


A propósito deste post de ariel, no Cirandando, prometi explicar donde a minha discordância. É simples. O que os livros nos fazem não depende apenas da sua qualidade literária. Depende de eles entrarem numa conjugação de factores capaz de nos tocar o nervo. Li Um Dia na vida de Ivan Denisovich, de Alexander Soljenitsin, ao mesmo tempo que lia livrinhos de cowboys, tinha para aí uns onze anos, apesar de umas almas boas lá por casa me terem tentado tirar o livro do alcance, que aquilo não era para a minha idade. O livro, literariamente, não é nada do outro mundo, e Soljenitsin continuou a valer mais por aquilo a que se opunha do que por aquilo que defendia, além de que a sua literatura também nunca passou o patamar de valer mais pela política do que pela arte. Nada disso importa. Um Dia na vida de Ivan Denisovich marcou-me por ter deixado em mim uma visão muito nítida do intolerável em política. O horror à violência política ficou-me claro desde aí, nunca mais precisei que me explicassem o ponto. Esse pequeno livro, com uma história tão longe do nosso quotidiano, vale-me, por isso, muito.
Percebe o que digo, ariel?

(Foi mesmo esta a edição que li.)

e isto é o ovo de que animal?

09:10

Perto de uma dezena de jovens do movimento Geração à Rasca manifestou-se hoje em Viseu, quando o secretário-geral do PS, José Sócrates, discursava sobre a sua moção política ao congresso do partido.“Eu fiz questão de dizer que era pacífico, mas fomos corridos a empurrões e houve uma rapariga que levou um pontapé”, lamentou aos jornalistas Paulo Agante, do Movimento Geração à Rasca, que agendou para sábado uma manifestação anti-Governo.

Os partidos políticos que temos são, como instrumentos de cidadania, uma treta. Por todas as razões e mais uma. (Podemos voltar a essa conversa noutra altura.) Só que, pequeno pormenor, sem partidos políticos não há democracia e as tentativas de condicionar a acção dos partidos políticos, enquanto ataque a uma forma organizada de expressar uma corrente de opinião, são, as mais das vezes, sintoma de desrespeito pela democracia.
Assumindo-se explicitamente como representantes do Movimento Geração à Rasca, um grupo de pessoas atacou ontem, em Viseu, uma actividade do Partido Socialista. Não fizeram uma manifestação em espaço público contra o governo ou uma autoridade do Estado. Não. Não foi isso. Introduziram-se de má-fé (comprando bilhetes como se fizessem parte da agremiação) numa reunião partidária, numa acção de preparação do congresso do PS, para a boicotar. Dizem que a acção era pacífica. Nunca vi nenhuma reunião, onde os participantes estejam de boa-fé, na qual as inscrições sejam geridas recorrendo ao megafone e a vozearia. "Pacífica" quer dizer que não bateram em ninguém?! Também era o que mais faltava. (Se uns tantos simpatizantes de Sócrates pegarem em megafones e forem "tomar a palavra" para a manifestação de dia 12, serão acolhidos com simpatia e serão chamados ao microfone para dizerem o que lhes vai na alma?)
Não. As tentativas de condicionar as reuniões partidárias não são acções pacíficas. No passado recente, houve grupos de manifestantes que se juntaram à porta da sede do PS no Largo do Rato para invectivar os dirigentes que para lá se dirigiam. Agora, invadem uma reunião preparatória do congresso do mesmo partido. É preciso dizer com clareza: estes comportamentos mostram a falta de cultura democrática de quem assim actua. E Sócrates faz mal em brincar com a situação (disse que era uma partida de Carnaval), porque parece que estas pessoas precisam que alguém as informe que não foram elas a inventar o boicote às reuniões dos partidos como método antidemocrático.
Ou, talvez, os que aplaudem o ataque, sem a possível ingenuidade de alguns dos que deram a cara, possam explicar aos activistas de que animal é este ovo.

7.3.11

ainda a música de intervenção e as revoluções que não se fazem por 60 cêntimos + IVA por chamada


Hoje ao almoço, a M.M., tendo lido este meu post (sequela deste), alertou-me simpaticamente para o facto de "Era um redondo vocábulo" ter, a seu tempo, gerado uma discussão acerca de "se aquilo ainda era música de intervenção". Claro, M., respondi-lhe: escolhi de propósito o redondo vocábulo à espera que alguém me dissesse "pois, tu querias era música desta como música de intervenção, pois com 'intervenção' desta os teus amigos do poder estariam à vontade, já que ninguém percebe nada do que tal música intervenha". Como imaginam aqueles que sabem quão malévola é a minha mente, estava mesmo à espera que me dissessem isso, para responder... Ninguém mais disse coisa nenhuma.
À M.M. respondi que, não fosse aquela a intenção, teria escolhido "Os Vampiros", bastante mais evidente. Mas, afinal, se calhar escolho "Menino do Bairro Negro".



há muito atraso de vida neste país, há sim senhor


Alguns até parecem estar sentados na gestão de boas casas.

Trabalhadores do café “A Brasileira” param de novo em protesto contra a repressão da gerência. «A greve prende-se com o “problema que se arrasta há mais de um ano”, como “o não cumprimento do contracto coletivo de trabalho” e a “repressão” da gerência a “todos os trabalhadores que se sindicalizam” [a “alteração diária do horário de trabalho” aos funcionários sindicalizados], explicou o presidente do Sindicato da Hotelaria e Turismo.»

sabiam que há chuis da blogosfera?



Pois há. E têm tiques como os antigos chuis da gabardine. Só olham para certos lados (por que não dizem que estes e estes estão nervosos?) e só têm uma gaveta para meter os seus cromos (aquela do "afins" será por preguiça, por causa das palas ou por haver quem não suporte gente que pense pela sua cabeça?).
Enfim, obrigado pela publicidade. É negativa, mas é publicidade. E o "estilo" faz-me lembrar, de vez em quando, que "isto" é a blogosfera.

(Desculpem. Tinha-me esquecido que é Carnaval. Deve ser essa a explicação.)

6.3.11

para avivar a memória ...


... dos que confundem certas "coisas" com música de intervenção.

José Afonso - Era Um Redondo Vocábulo




Found at Era Um Redondo Vocábulo on Duck.fm

Os"homens da luta" ganharam a 47ª edição do festival da canção

16:17

Só há poucos minutos percebi, lendo um apontamento publicado por um dos meus irmãos, que os "Homens da Luta" ganharam ontem o Festival da Canção. Esse facto sugere-me duas breves reflexões.
Primeira. Parece que há quem ache que aquilo é uma canção de intervenção. Isso, a ser verdade, quereria dizer que a canção de intervenção regrediu décadas, quer em termos de mensagem, quer esteticamente. A "canção" que venceu o festival é um insulto a tudo aquilo que me habituei a apreciar como música de intervenção, quer pelas "ideias" quer pelo barulho que as acompanha.
Segunda. Para quem, como eu, viveu toda a sua vida consciente imerso em interesse pela política, o que mais surpreende (e incomoda) é que, hoje em dia, tudo seja visto pelos óculos da política mais imediata. O espaço público está tomado por uma fúria de confronto generalizado, servido por todo o tipo de tácticas em todas as frentes. O festival da canção foi agora tomado por uns tipos que, ainda recentemente, se acharam no direito de sabotar a campanha eleitoral de partidos que não lhes vão no goto.
Os aplausos que por aí vão são uma clarificadora assinatura de quem os profere. "Proferir aplausos" como "proferir impropérios" - daí a expressão usada.



Votos do “povo” dão vitória aos Homens da Luta no Festival RTP da Canção.

maquiavel em santa croce

10:18

MAQUIAVEL EM SANTA CROCE

A princípio surpreende ver aqui,
no redil de Santa Cruz, o cenotáfio
da Raposa, que em seu tempo disse ao Lobo:

«Não se prenda, meu Senhor, pois o cajado
do Pastor foi concebido para ovelhas
timoratas, serviçais e desdentadas.
A si, com esses dentes tão bonitos,
francamente, fica mal arreceá-lo.
Vá por mim: faça ao Pastor uma proposta
de partilha que ele não possa recusar,
e verá como o safado do velhote,
no final, inda lhe vai agradecer.»

A princípio, dizia, surpreende vê-lo cá.
Depois compreendemos a piada e só achamos
intrigante que não tenha sido posto no altar.

José Miguel Silva, in Erros Individuais, Relógio D'Água, 2011, p. 33