24.2.11

pensar outra vez na autonomia

17:15

Há uma certa direita liberalóide que faz de conta que é contra o Estado por ser a favor das liberdades de cada um de nós. Episódios recentes nos EUA, aqui comentados e enquadrados pelo João Galamba, mostram que a realidade é bem outra. Essa direita é contra o Estado quando o Estado poderia limitar a "liberdade" dos poderosos, os quais ficam muito mais à vontade quando deixados sozinhos na selva - sozinhos, quer dizer, eles com as armas todas e os demais à mercê. A mesma direita já é muito a favor do Estado quando o Estado se torna a arma principal de espoliação, quando o Estado faz o papel de pivô do ataque às pessoas. Aí, os mesmos que são muitíssimo a favor da "liberdade de empresa", se a empresa vender petróleo ou sabonetes, já são contra a "liberdade de empreender" se o "empreendimento" for de cidadãos a defender os seus direitos.
Isto coloca um desafio renovado às esquerdas que por aí andam: precisamos pensar outra vez no papel das pessoas que se organizam, se auto-governam, se associam, tratam de aumentar a sua autonomia enquanto pessoas-com-solidariedades, não ficam à espera da "revolução final" para melhorar a vida cá por baixo. Sim, claro, tudo resquícios daquilo que os "socialistas científicos" chamarão com desprezo, ainda e ainda, "socialismo utópico".

há um ar de luz nas tuas palavras




Há um ar de luz nas tuas palavras.
Tu já não andas, não comes, não vês.
Mas dizes.
Coisas que o mundo viu no tempo em que o percorrias.
Coisas que percorreram a tua visão no tempo
em que tu ias.
Há um ar de luz nas tuas palavras
e por elas respiro,
tubinho vegetal a ligar-me à superfície das águas.



Vladimir Dubossarsk & Alexandre Vinogradov, sem título, óleo sobre tela, 2008

(roubado à Maria do Sol)


no pingo doce o aumento do iva não entra

23.2.11

a maioria orçamental e o seu enredo


Passo a citar:
O BE é co-responsável por aquilo que chama «a maioria orçamental» / «as políticas de direita» (...)». Em primeiro lugar, temos um sistema político desequilibrado: a direita (PSD vs CDS) é capaz de cooperar; a esquerda (PS vs BE e PCP) não, nunca foi, excepto em questões marginais da luta política. (...) o sistema partidário nasceu inclinado para a esquerda, mas vive enviesado para a direita.
Quem o diz é André Freire, citado por José Leitão.

corpo | imagem | ciência | arte | eu olho tu vês


Exposição Corpo Imagem, no pavilhão do Conhecimento, até 27 de Março.

Vemo-nos por lá?


as revoluções árabes, a diplomacia e a demagogia do parlamentarês

10:27
 
Arabian Peninsula and northeast Africa as seen from Gemini 11 spacecraft



Luís Amado acusa Ana Gomes de distorcer as suas declarações sobre a Líbia
.

Parece inevitável que o debate político se esteja a transformar aceleradamente numa farsa. Uma farsa é uma situação em que uma variedade de planos, que coexistem na realidade-real, são rebatidos num único nível, como se a realidade tivesse uma única camada, como se todos falassem das mesmas coisas, tivessem os mesmos papéis a desempenhar e as mesmas responsabilidades. Uma farsa resulta de os actores falarem como se a realidade fosse assim plana, quando os que observam sabem e compreendem que as coisas não se passam assim.

As revoluções árabes têm sido mais uma janela de oportunidade para se manifestarem os sintomas de farsa na política.
Há quem faça de conta que todas as revoltas que por aí andam darão, em linha recta, novos 25 de Abril, no seu mais puro fruto, sem 28 de Setembro, sem 11 de Março, sem 25 de Novembro, apenas com o dia inaugural a durar sempre. Ficam escandalizados com quem também vê riscos no que se está a passar, com quem conta com os fundamentalismos que aproveitam a democracia para a matar. O reconhecimento de que os povos merecem melhor do que aquilo que têm não é equivalente a pretender que qualquer mudança será boa, ou que a mudança não comporta perigo algum.
Há quem pense que Portugal devia ter uma diplomacia pura, unicamente orientada pelo combate sem tréguas pelos direitos humanos, que devíamos renunciar ao comércio internacional com todos aqueles que não tenham certificado de qualidade para os seus regimes. A esses não interroga o facto de nenhuma nação fazer isso, não lhes passa pela cabeça que todos os países democráticos esperam pelo tempo em que o afastamento face a um regime pode produzir efeitos reais, esses anjos do bem julgam que a política internacional marcha ao rufar dos desejos, quando ela marcha ao som das forças - e não vale de nada desperdiçarmos as nossas enquanto não se desenhar uma conjugação que possa fazê-las valer.
Há quem esqueça que as diplomacias têm de cuidar do escudo que representam para os seus cidadãos que se vêem apanhados por instabilidades várias fora de portas: um parlamentar pode barafustar à vontade contra Khadafi, mas um ministro dos negócios estrangeiros tem de pensar nos seus concidadãos que esperam ser retirados do turbilhão.
O exemplo corriqueiro da demagogia banal nestes casos é publicar fotos de governantes portugueses com ditadores em desgraça e com isso querer significar que o nosso país é um aliado do mal - mas, claro, omitindo os milhares de fotos desses mesmos ditadores em desgraça com inúmeros outros dirigentes de nações democráticas e civilizadas. O exemplo sofisticado da mesma demagogia é pretender que os governos podem ter o mesmo tipo de actuação, e de opinião oficial, que têm parlamentares individuais, comissões parlamentares, ou parlamentos inteiros - quando as responsabilidades respectivas são bem diversas.

É o acumular destas confusões de papéis e de planos que transforma um certo tipo de reivindicação de superioridade moral numa farsa.

22.2.11

dizem no albergue espanhol...

quem anda à chuva molha-se


Khadafi apareceu por uns segundos para dizer que ainda não estava num palácio em Caracas, mas sim em Tripoli. Parte importante da exegese da mensagem é a chuva: chovia em Tripoli à hora suposta da prova de vida e isso ajuda à tentativa de verosimilhança. Pode bem ser uma conspiração metafísica para comprovar o dito "quem anda à chuva molha-se".



(sacado à ariel)

que a liberdade não seja um negócio

15:47

O presidente do Tribunal de Contas, Guilherme d’Oliveira Martins, que foi também ministro da Educação, defende que deve existir “liberdade de aprender e ensinar”, exigindo, assim, que o Estado “não tenha o monopólio do serviço público de educação”.

Tenho o maior apreço por Guilherme d’Oliveira Martins, mas estas declarações parecem-me uma rematada falácia. Por várias razões, de que menciono duas principais.
Primeiro, a liberdade de ensinar e aprender não deve ser desculpa para que alguns grupos económicos encham os bolsos com o dinheiro dos contribuintes. Não há nada contras as escolas privadas, há muito contra que elas queiram ser empresas a viver à custa do dinheiro de todos. E há, ainda mais, contra a transformação da rede pública de ensino numa manta de retalhos, em que os privados ficam com o lombo e o público com os ossos - sim, porque ninguém pode obrigar os privados a irem para certos sítios e para certas missões, mas o Estado deve prover todo o território e toda a população com ensino de qualidade, não se limitando às manchas que não interessam aos privados. Logo, o Estado deve pensar em todos e não apenas naqueles que não interessam a certos sectores.
Segundo, acho absolutamente extraordinário que a liberdade de ensinar e aprender seja uma questão de ensino público ou privado. Não deve haver liberdade de ensinar e aprender no ensino público? O ensino público será para enfiar uma cartilha pela goela abaixo dos alunos? A liberdade de ensinar e aprender só estará dependente do ensino privado se aceitarmos que os pais são donos dos filhos e podem fechá-los dentro de um filtro ideológico que os isole das ideias que por aí andam. Se uma família achar que a ciência é demoníaca, deve ter direito a uma escola onde não se ensine física, biologia ou matemática? Se é assim, estão a pedir que podemos ter, como alternativa à escola pública, madrassas, com um currículo à base de língua árabe, interpretação do Alcorão, charia, narrações do profeta Maomé e história do Islão - e colocar isso debaixo do chapéu da liberdade de ensinar e aprender. A liberdade tem de estar em todo o lado, mas essa liberdade não pode ser escusa para fechar os meninos em panelas de pressão ideológicas - e ainda por cima querer que nós financiemos o mecanismo.
Há exemplos de verdadeiras Parcerias Público-Privadas em Portugal no campo do ensino - e ainda por cima sem a corrente de dinheiros públicos canalizados com excessiva liberalidade para os privados, como acontece com outras parcerias. Estou a querer dar o bom exemplo das Escolas Profissionais, que preencheram um verdadeiro vazio na oferta pública de ensino profissional, sujeitando-se ao critério da utilidade pública da formação, da empregabilidade dos alunos e das necessidades da economia, dos interesses do desenvolvimento regional. Não estamos, portanto, contra as escolas privadas: o que não nos parece curial é que se use a liberdade como argumento para o negócio - nem como meio para criar uma espécie de "escolas ideológicas" destinadas a uma qualquer pretensa "elite moral".
E, mais uma vez, convém não meter tudo no mesmo saco. Até estou de acordo com Nuno Crato quando (na mesma notícia) critica que decisões de micro-gestão, como a duração das aulas, sejam decididas centralmente. Mas isso não tem nada a ver com a liberdade de ensinar e aprender: tem a ver com a necessidade de desburocratizar e flexibilizar as instituições, dando mais autonomia e mais responsabilidade aos agentes que estão com a mão na massa. Só que isso não é uma conversa sobre público ou privado. É uma conversa sobre todos, que faz sentido - mas que faz mais sentido se não for instrumentalizada nestas guerras em que a liberdade corre o risco de ser pouco mais que um álibi.

Khadafi entre o seu povo



(Cartoon de Carlos Latuff)


agora a Líbia

01:28

São sempre as ditaduras mais brutais que custam mais a derrubar, porque não têm escrúpulos nem pruridos quanto à violação dos direitos humanos mais básicos.
Face ao que se está a passar na Líbia - parece que até já houve bombardeamentos das manifestações - está na hora de a comunidade internacional deixar os discursos oleosos e dizer claramente a Khadafi que ele será perseguido pessoalmente, de forma efectiva, por violação grave dos direitos do seu povo.

21.2.11

um docinho para levar para casa


Ainda bem que há jornalistas esforçados que, trabalhando em equipa em jornais de referência, dão notícias importantes para os seus leitores, todos os cidadãos deste país e arredores - e mesmo para todo o mundo.

Portal das Finanças redirecciona para a Comissão Nacional de Eleições… de Cabo Verde.

Se todos os jornais de referência publicassem notícias sobre erros em links de páginas oficiais, o emprego de jornalistas aumentaria e talvez deixasse mesmo de ser tão precário.

E gosto particularmente do tom "o meu diário": «O PÚBLICO apercebeu-se desta situação insólita ao tentar aceder à página electrónica da CNE (portuguesa…) a partir da página de ligações a sites do Portal das Finanças (http://info. portaldasfinancas. gov.pt /pt /divulgacao /outros_links.htm). Ao clicar no botão relativo à “Comissão Nacional de Eleições” (na coluna da direita da página de links do Portal das Finanças), o internauta era remetido ao início da tarde para http://www.cne.cv/, a CNE de Cabo Verde, com música e gravações em crioulo.» E depois veio o capuchinho vermelho e deu-nos o link certo... (Ah, não, a notícia está na secção de Economia, pelo que deve ter sido o lobo mau a fazer a boa acção.)

os Deolinda são mesmo bons a inventar hinos


Este aqui é mais antigo mas não deixa de colar muito bom com certos reformismos.

-Agora não, que falta um impresso...
-Agora não, que o meu pai não quer...
-Agora não, que há engarrafamentos...
-Vão sem mim, que eu vou lá ter...



Lembrado pelo João Magalhães.

20.2.11

a infinita profundidade do presente

12:27

Se a minha memória não me falha (uma improbabilidade), o primeiro espectáculo de teatro que vi foi "A Morte de um Caixeiro Viajante", no Teatro Académico Gil Vicente, em Coimbra, nos meses a seguir ao 25 de Abril ("o" 25 de Abril é o de 1974), levado pela minha irmã Leonor ou pelo meu irmão Manuel. Teve de ser nesse período, já que esse foi o último ano lectivo em que residi na cidade. E tive de ser "levado", por nessa altura não ter ainda autonomia (nem intelectual nem financeira) para tomar decisões dessa natureza. Não faço a mais pequena ideia de quem eram os actores, nem sequer qual era a companhia. Lembro-me de uma encenação onde o palco era ocupado quase totalmente por uma espécie de imenso andaime, onde as personagens da vida de Willy Loman se emaranhavam fisicamente com tanta contorção como retorcidas eram as suas memórias.
O texto é de Arthur Miller e foi levado ao palco pela primeira vez em 1949. Podendo ter parecido desactualizado na euforia de alguns anos passados na ilusão de um capitalismo adocicado e engolido com analgésicos, é hoje de uma actualidade indesmentível. Mas não é a isso que venho agora, já que um texto é um texto, podemos pegar nele e lê-lo quando e como quisermos, a fazer o pino pode tornar-se difícil por confundirmos o sangue que sobe à cabeça por causa da posição com os nervos transportados pelas ideias do autor, mas o texto descansa à nossa espera. Já a peça em palco, gente viva com gente viva, é outra história. Essa gente viva pode matar o texto ou, pelo contrário, injectar-nos visões as mais díspares.
Vem tudo isto a propósito de uma ida ao teatro, ontem à noite, ver A Morte de um Caixeiro Viajante, pelo Teatro Experimental do Porto, com encenação de Gonçalo Amorim, no quadro do "Ciclo de Teatro do Porto?" (o "?" não é engano), a correr no Teatro Municipal São Luiz, em Lisboa. Valeu a pena voltar a este caixeiro viajante.
Aos meus olhos de leigo, um dos desafios maiores da encenação deste texto está nas constantes idas ao passado em que o sexagenário Loman viaja quando coloca em perspectiva as suas desventuras presentes. Se a coisa for mal feita, o espectador perde-se, ou perde-se a fluidez de um discurso interior que corre às vezes em contra-mão do discurso público. Neste caso, consegue-se que os fantasmas encarnem de forma perfeitamente compreensível e fluída no plano do presente, sem truques, apenas com os suficientes marcadores discretos da diferença (que uma personagem se vista de forma anacrónica relativamente às demais pode ser suficiente para a deslocar umas dezenas de anos do presente e ajudar-nos, a nós espectadores, a destrinçar).
De qualquer modo, o que queria aqui sublinhar é a interpretação. Não vi nenhuma mancha por esse lado (nem todos podem brilhar: o patrão do caixeiro viajantes está certinho e correcto, mas não tem muito por onde voar, está escrito como um estereótipo), alguns actores estão muito eficazes (é o caso de Maria João Pinho, a fazer Linda, a mulher do protagonista, talvez a personagem mais realista, aquela que em tudo o que diz e faz poderia existir sem qualquer teatro numa família daquele tipo) - e há, depois, um monstro de representação: Claúdio da Silva, o caixeiro viajante (Bernardo Soares, no Filme do Desassossego).
Cláudio da Silva apresenta-se de forma absolutamente excessiva, usando o corpo para dar corpo a uma vida em convulsão; usando a exploração do espaço para mostrar uma vida onde ele correu mundo sem nunca se ter libertado da hipoteca da casa e do seguro para pagar e da prestação do frigorífico acumulada com a respectiva reparação precoce; contorcendo os membros e a cara para mostrar como as recordações do passado, de todas as cores, lhe afligiam o presente destinado a cavar-se em buraco. O excesso de Cláudio da Silva em palco (e pela sala toda), materializa a grande tragédia que ali está em causa: a infinita profundidade do presente. Se ao menos o homem pudesse esquecer os pecados passados, deixar descansados os sonhos mal acabados - mas não, tudo se torna presente quando o presente já é difícil e isso bloqueia ainda mais o acesso à saída.
O excesso infinito da representação de Cláudio da Silva é, assim, a concretização absoluta do que há de mais trágico nestas vidas banais que andam por aí todos os dias: quando o momento presente, longe de ser plano, cava tudo o que temos acumulado nos recantos do corpo que é a alma dos vivos.