10.12.10

eu confesso que não percebo


Patrões da indústria dizem que fundo para financiar despedimentos tem “pernas para andar”. «Em causa está uma proposta feita pelo primeiro-ministro e pelo ministro da Economia, Vieira das Silva, nas reuniões que têm sido realizadas com os parceiros sociais, para a eventual criação de um fundo para financiar as indemnizações pagas aos trabalhadores em futuros processos de despedimentos.»

A "revitalização do diálogo social" avança por caminhos (para mim) inesperados.

Fico à espera do anúncio da criação de um fundo de greve, daqueles que servem para pagar os salários aos trabalhadores quando eles estão em greve, para poderem aguentar muito tempo e levarem as empresas (e o país) ao tapete.

Em vez do "desarmamento bilateral e controlado" como caminho para a paz, distribuímos mísseis por todos que é para o foguetório ser mais vistoso. Será essa a ideia?

É mesmo disto que o país precisa para trabalhar mais e melhor - e ser recompensado em conformidade? Quando discutem as migalhinhas para cumprir o cumprimento do acordo sobre o aumento do salário mínimo?

O presidente da Confederação da Indústria Portuguesa (CIP) insistiu hoje que “seguramente não há condições” para a subida do salário mínimo nacional para 500 euros no início de 2011.

Definitivamente, sou eu que não percebo nada.

quem nem sabe é como quem não vê

notícias

história do natal digital


Coisas que chegam por e-mail e que daqui a nada devem ser conhecidas de toda a gente.


9.12.10

o facebook é mesmo estranho


Se não fosse, não dava estas opções!!



não sei se já perceberam por que é que PPC diz que quer o CDS no governo mesmo que o PSD tenha maioria absoluta


É que PPC, estudioso como é da história pátria, andou a ver vídeos antigos e receia que Paulo Portas não seja pessoa de se interessar pelo poder.


carta aberta aos contentinhos com as actuais competências de discussão

um livro de um sábio, diz MEC


Há tempos anotámos aqui a saída do livro Do Tempo e da Paisagem. Manual para a leitura de paisagens, de Henrique Pereira dos Santos, na Principia.
Na altura não disse nada sobre o conteúdo, por não ter ainda lido. Entretanto, leitura feita, posso dizer que o livro está muito bem escrito, é original nas ideias, mete a mão em matéria claramente relevante para quem tenta orientar-se neste nosso tempo onde habitar o mundo é complicado.
Miguel Esteves Cardoso dedicou ontem a sua crónica no Público a este livro. Aqui deixamos cópia. Sugestão de prenda de Natal? Bem lembrado.


notícias da EMEL


Foi-me dado conhecimento deste caso. Acho que merece ser divulgado, para vosso juízo.

DOCUMENTO 1: Carta enviada à EMEL em Julho de 2009:

Exmos. Senhores,
No passado dia [XX] de Julho, Sábado, tinha o meu carro (de matrícula [XX-XX-XX]) estacionado na Rua Zzzzzzzz, em frente ao nº XX (...).
Para espanto meu, tinha um aviso de pagamento da Emel, por “não exibir título de estacionamento válido”, o qual envio em anexo.
Ora, tendo em conta que era um sábado, e que deixo o carro todos os sábados naquele lugar, fui verificar se tinham sido alterados os horários em que o estacionamento é pago.
Não obstante, confirmei que a placa no início daquele segmento de rua, (...), indicava que o estacionamento era pago apenas nos dias úteis.
Assim sendo, não vejo qualquer razão para a emissão do aviso para pagamento, o qual apenas poderá ser resultado de um lapso,
Pelo que venho por este meio reclamar contra o aviso de pagamento nr. XXX0000000.
Sem mais assunto,
xxxxxxxxxxxx

DOCUMENTO 2: Resposta da EMEL, recentemente, mais de um ano depois:

Exmo(a). Senhor(a),
Em resposta à exposição que nos dirigiu, vimos informar que a situação apresentada ficou registada e foi analisada pela EMEL.
Informamos que sempre que ocupe um lugar tarifado, deverá proceder ao pagamento da respectiva tarifa. Neste caso específico, a viatura de V. Exa. encontrava-se em lugar tarifado. Deste modo, não será possível proceder à anulação do Aviso para Pagamento.
Com os melhores cumprimentos,
yyyyyyyyyyyy



CONCLUSÃO: A EMEL, visionária, antecipa a próxima medida anti-crise: fazer do sábado um dia útil. Ou estou errado?

8.12.10

o ex-chanceler que toca piano

13:16

Helmut Schmidt toca piano.


Sim, é o mesmo Helmut Schmidt que foi chanceler alemão (SPD) entre 1974 e 1982. Podem confirmar os seus dotes musicais aqui. O Le Monde de ontem (datado de hoje, como sempre) publica uma entrevista sua, que pode ler-se aqui.

É uma entrevista complicada, mas interessante para perceber as dificuldades da própria Alemanha neste momento. Acusa claramente a generalidade dos dirigentes europeus de serem uns anões (expressão minha, não dele), ao mesmo tempo que diz que a chanceler e o seu ministro das finanças, embora competentes para a gestão financeira tradicional, não compreendem o mundo em que vivem hoje. Lembra que a Alemanha e a França estiveram recentemente em incumprimento face às regras do euro - e que essa realidade tem sido mal encaixada pela senhora Merkel. Ao mesmo tempo, mostra claramente a arrogância alemã: no fundo, defende que tem de haver um directório informal que tome conta da UE e acha que os pobres não podem poluir a mesa dos ricos (falando em termos de países). Vale a pena ler na íntegra, principalmente para perceber como a ala moderada (por assim dizer) da social-democracia alemã veste, hoje, a pele dos demónios de uma Alemanha que quer ser grande mas não sabe bem como pode ser grande numa Europa maior do que ela própria.

Fica uma única citação:
«Diga-se de passagem que, durante muito tempo, a elite política alemã não percebeu que nós registávamos excedentes nas nossas contas correntes. Nós, alemães, fazemos a mesma coisa que os chineses - a grande diferença é que os chineses têm a sua própria moeda, o que não é nosso caso. Se tivéssemos a nossa própria moeda, ela neste momento já teria sido reavaliada.
Manter o marco alemão, como queria Tietmayer [presidente do Banco da Alemanha entre 1993 e 1998, referido antes por Schmidt como um reaccionário contra a integração europeia], teria, pelo menos uma vez se não duas vezes durante os últimos 20 anos, provocado uma especulação contra o marco alemão de uma escala pior do que o que temos assistido com a Grécia ou a Irlanda.»



(Agradeço ao Miguel Abrantes a sugestão de leitura.)

combate de blogues


Os blogueiros fazem-se para escrever em blogues, não para falar na TV. Mas, enfim, se for pela madrugada dentro, um pouco às escondidas, pode ser.

Combate de blogues: «Em estúdio, paro o debate de uma possível remodelação no Governo e uma nova AD no horizonte teremos Filipa Martins, Miguel Morgado, Tomás Vasques e o convidado Porfírio Silva do blog Machina Speculatrix»


7.12.10

PISA-papéis


OCDE elogia política educativa nacional. Alunos portugueses melhoraram na língua, matemática e ciências, segundo a OCDE.

«A OCDE constata que Portugal melhorou nas três áreas científicas e isso deve-se, acredita a organização, às medidas políticas aplicadas desde 2005. O investimento feito em computadores portáteis, acesso à banda larga, refeições, aumento do apoio social escolar contribuíram para a evolução, aponta o relatório da OCDE. Outros factores foram o Plano Nacional de Leitura, o Plano de Acção para a Matemática, bem como a formação de professores em Matemática e Ciências. A aplicação das provas de aferição (nos 4.º e 6.º anos), assim como os exames nacionais (no final do 3.º ciclo e no secundário) também fazem parte das medidas que a OCDE elogia. Bem como a criação de novas ofertas educativas para os alunos, como os cursos profissionais.»


Portugal é o ÚNICO país da OCDE que merece referências positivas em TODAS as áreas em que incide o inquérito PISA (Programme for International Student Assessment).

Já que falamos de remodelação governamental: se for para trazer de volta Maria de Lurdes Rodrigues...

Só isso poderia curar o síndrome da cara-à-banda da aliança dos profetas da desgraça.

quarto capítulo da trilogia millennium ?



Julian Assange é acusado de violação na Suécia. Fundador da WikiLeaks detido depois de se entregar à polícia em Londres
.

Assange, apresentando-se como o sumo-sacerdote da transparência, representa o mito de que o corpo funciona geralmente melhor se tiver as tripas à mostra.
A perseguição que se está a fazer a Assange, tendo a Suécia como ponta de lança, poderá representar as piores tendências obscuras de um país cuja ideologia oficial é, precisamente, a transparência. Faz lembrar o último lanço da trilogia Millennium, de Stieg Larsson.

europeus

11:57

José Reis Santos, no Diário Económico de hoje:
Não chega estar em São Bento, se é no ‘Berlaymont' que são tomadas as decisões em matérias de natureza económica e financeira. (...) Há que mudar o Governo europeu para instaurar um conjunto de políticas progressistas que procurem colocar não os mercados no centro da política, mas as pessoas. (...)
É neste sentido que deve ser entendida a proposta para um novo Plano Marshall para a Europa, sugerido por Poul Rasmussen, líder do PSE. Um plano que coloque na criação de novos postos de trabalho e no crescimento o principal foco de qualquer programa de recuperação económica europeia e que abandone a "irresponsável obsessão conservadora com a austeridade e com o Estado Social". Um plano que promova uma taxa financeira internacional com os proveitos desta a serem investidos na criação de emprego, que implemente um sistema de ‘Eurobonds' e que potencie uma coordenação económica europeia eficaz.
Na íntegra aqui.

Mais sobre as mencionadas resoluções do Partido Socialista Europeu aqui.

6.12.10

entrevistámos Manuel Alegre


No ano de 1983, Manuel Alegre, poeta e dirigente do PS, publica um novo livro de poemas, Babilónia. Eu, pessoalmente, andava um pouco com sede relativamente à sua criação recente, que me parecia então atravessar um relativo deserto criativo. Para o meu gosto, claro. Comprei o Babilónia e meti-me no comboio, para Aveiro, onde imediatamente o comecei a ler. E gostei. Voltei a gostar. Era, claramente, um livro de poesia e um livro de política. Rapidamente dei por mim a pensar que queria entrevistar Alegre sobre aquele livro e sobre o que ele podia significar quanto a uma certa visão do mundo. Tinha uma boa via para cumprir esse desiderato. Eu era, na altura, chefe de redacção do "Jovem Socialista", órgão central da Juventude Socialista. A entrevista fez-se para esse meio. A entrevista foi conduzida por mim e por Margarida Marques, então secretária-coordenadora da JS.
Há um registo formal dessa entrevista, nas páginas do meio que a publicou. Reproduzimos abaixo cópia desse material.
Ainda estamos de posse do registo sonoro da entrevista. O encontro teve lugar nos Passos Perdidos, já que Manuel Alegre era deputado e lá era o sítio mais conveniente para o encontrar (a outra entrevistadora também era, aliás, deputada). O registo sonoro está bastante degradado, em parte dado o ruído de fundo que ocupava o ambiente. Para filtrar o ruído de fundo tivemos de fazer um "corte" das frequências correspondentes, o que não se pôde fazer sem algumas distorções pontuais. Mesmo assim, o registo sonoro que deixamos permite acompanhar a conversa e constitui um documento interessante. (Agradeço ao NM e ao RV pela ajuda na limpeza sonora.)


A entrevista pode ser ouvida aqui:







A entrevista pode ser visualizada no formato em que foi publicada aqui.

5.12.10

uma confissão ao domingo


Remuneração compensatória nos Açores: Carlos César acusa Cavaco Silva de “dividir os portugueses”.

Se há coisa que politicamente me irrita são aqueles raros momentos em que reconheço mais razão a Cavaco do que ao seus contendores à esquerda. Não estou mesmo nada a ver que neste caso tenha sido Cavaco a criar divisões entre os portugueses. Nem parece que ele se aborreça muito quando o atacam em completa discrepância com a percepção que o cidadão comum tem das coisas. Aliás, Cavaco até agradecerá intimamente estes ataques.

veredas


Palmilho a montanha das palavras que possam servir para te falar. E ao fundo, no vale, vejo que correm as ideias com aparente indiferença pela encosta da linguagem. Mas é pura ilusão: não há ideias que nos valham a pena sem palavras ditas ou pensadas, como não é por acaso que o leito da água é no fundo do vale.


jacaré que dorme vira mala, vira mala de jacaré


Kussondolola, Jacaré (1995)


Pedro Passos Coelho é um político realista


Só pede o que sabe que pode ter.

Pede "Um futuro Governo de mudança precisa de mais do que um partido" só porque sabe que já o tem: Assembleia da Madeira vai requerer a inconstitucionalidade do Orçamento.
Se tomar partido é tomar posição, o PSD já tem partidos que cheguem para a tal coligação. Não falo de tendências, nem sequer de sensibilidades: falo de haver grupos dentro do grupo parlamentar a prometer e a fazer coisas diferentes. Em relação a matérias estruturantes da governação, como o orçamento de Estado.

o erro do inteligente cavalo Hans


O "inteligente Hans" era um cavalo que, no princípio do século XX, espantou o público dos espectáculos promovidos pelo seu dono: é que o cavalo mostrava-se capaz de realizar operações aritméticas simples. Por exemplo, as parcelas de uma adição eram escritas num cartaz de forma a que o cavalo as visse e ele batia então com os cascos no chão o número de vezes equivalente à soma correcta. Testes realizados mostraram que o cavalo só dava a resposta certa quando o observador do exercício sabia a resposta. Compreendeu-se assim que o cavalo detectava indicações involuntárias do observador (reacções faciais mínimas, por exemplo) quando atingia o número correcto. O Hans era de facto esperto, mas não por saber aritmética: antes por ser capaz de detectar pistas fornecidas involuntariamente pelo comportamento dos humanos, tendo aprendido que isso equivalia a uma recompensa.
O "erro da inteligência de Hans" exemplifica um tópico interessante em filosofa das ciências do artificial. Quando um programa de computador, ou um robot, exibe um comportamento que parece inteligente - há mesmo inteligência na máquina, ou a inteligência que a máquina mostra é apenas o que os humanos lá colocaram e reconhecem como seu?

Bom, a ideia não é alongar-me aqui em considerações de filosofia das ciências do artificial. Mas esta observação era necessária para introduzir o que aqui me traz.


Só há pouco tempo (falha minha) descobri outra obra do muito apreciado Miguel Rocha, Hans - O cavalo inteligente. Para uma apreciação da BD enquanto tal, há por aí críticas interessantes e mais ilustradas pelo conhecimento do que eu poderia fazer. Por exemplo, aqui, aqui, aqui, ou aqui. Mas não esse o ângulo pelo qual quero ler a coisa hoje.

O que venho aqui dizer é que partimos sempre para uma obra com uma pré-compreensão, um pré-conceito, uma expectativa acerca do que vamos encontrar. Quando já lemos o "Ensaio sobre a Cegueira" de Saramago e pegamos em "A Caverna" - temos (eu tive) uma forte desilusão. Que talvez não fosse tão forte se não conhecesse o autor. Outro tipo de decepção, talvez injustificada, foi a que senti com este Hans - O cavalo inteligente. O álbum é bom, como BD, e corresponde ao elevado padrão a que Miguel Rocha nos habituou. Só que, e aqui está o meu engulho, a leitura quase psicanalítica que nos é servida, por muito interessante que seja, deixa-me com pena que tenha deixado de lado questões mais "comezinhas" ligadas ao tema da inteligência não humana. Foi um encontro um tanto ou quanto falhado, por mea culpa. Não deixo, contudo, de aconselhar aos amantes de BD que, sem os mesmos pré-conceitos que eu, se lancem à leitura. Ou releitura.


(Publicado também aqui.)