6.11.10

nem tudo o que é, parece

fui ao inferno e voltei

18:20

Ontem, na Culturgest, Inferno, de Strindberg, encenado por Mónica Calle.
Um texto difícil como o diabo, uma autobiografia que não foi escrita como texto dramático, embora - como defende Mónica Calle - possa ganhar em compreensibilidade com o formato oral. Um espectáculo que se está fazendo, talvez perto de cinquenta mulheres, a maioria a fazer uma aproximação ao teatro com a outra mulher que é a alma da Casa Conveniente, não profissionais, a aprender e a ensaiar ao mesmo tempo que se vão mostrando ao público. O texto difícil nem sempre é ajudado pela dificuldade de algumas actrizes em o passar para nós. À partida não se percebe por quê pôr tantas mulheres a fazer um texto de um autor reputado como misógino, mas talvez Mónica tenha razão e não seja bem assim. Um objecto difícil, longo, mais de duas horas e meia. Com mais uma hora de conversa de ensaio entre Calle e as actrizes, saímos de lá depois da uma da manhã. Não sei se não estariam a fazer-se horas para rezar matinas, mas talvez isso não fosse muito próprio à saída do Inferno.
Além de tudo o mais - a ideia é forte -, quero sublinhar a encenação. Se alguém acreditar que o rumor do mundo é a respiração das mulheres, sentirá neste espectáculo a confirmação disso. Se alguém não acredita, é melhor ir ver para se deixar de ingenuidades. O efeito massivo de ter tantas mulheres a ocupar o mundo, a visão da floresta de árvores de onde vem e para onde vai a floresta de mulheres, os rumores que criam um mundo próprio de sugestão ou encantamento ou ameaça (todos os encantos ameaçam), a coordenação do respirar essencial de todas as mulheres naquele mundo (uma coordenação sem conspiração, apenas natural), a visão das coisas primeiras (a presença de mulheres grávidas, muito grávidas, mesmo que tenha sido casual, é muito poderosa), um outono primordial nas folhas mortas que juncam o chão, o jogo simples mas significativo de uma iluminação que parece ingénua para ser simplesmente a transcendência do pouco - revelam uma muito poderosa maneira de pensar como a cena nos marca antes e para lá do texto. Nesta fragilidade fundamental, de onde nascem todas as forças, até a frequente hesitação das actrizes, vagueando e tacteando, funciona bem: devolve-nos uma autenticidade para lá da técnica da representação.
É só até amanhã, mas seria bom ir parar ao Inferno da Mónica Calle. Se o espectáculo não revela novas actrizes, provavelmente não, pelo menos confirma - se ainda precisa - uma encenadora metafísica.

Foto de Bruno Paixão

o perigo amarelo


aqui me ri um bocado à custa de pessoas que tinham obrigação de ser bem informadas e, no entanto, colaboram de momento em mais um papão: vem aí a China, os "amarelos" vão comprar a nossa dívida e tornar o país num mero fantoche do gigante do oriente, vamos passar a ser um apêndice estratégico dos bisnetos de Mao Zedong. Verifico, andando por aí, que a onda de choque dessa "percepção" primária ainda não passou. Caramba, na dúvida, as pessoas não podem fazer uma rápida pesquisa na rede para encontrar informação que lhes mostre o deslocado de tanto susto repentino?
Veja-se, por exemplo, aqui: "A China, o maior detentor de dívida norte-americana, aumentou a sua posição de credor dos Estados Unidos em agosto pelo segundo mês consecutivo, após dois meses de declínio. O Departamento do Tesouro referiu que a participação chinesa na dívida pública dos Estados Unidos subiu em agosto para 868,4 mil milhões de dólares (621 mil milhões de euros), um aumento de 2,6 por cento após um ganho ligeiro de 0,4 por cento em julho." E isto é coisa que já está a rolar há muitos anos, não é de agora.
Mas, claro, "agora" é sempre o momento certo para o tremendismo português se espreguiçar ao sol.

5.11.10

every orthodox economics education begins with a lie

15:09

Apenas dois excertos da recensão que William Davies faz do livro "Them and Us", de Will Hutton:

«Every orthodox economics education begins with a lie. This is that, in the vernacular of neo-classical economics, we can and must split questions of ‘equity’ from those of ‘efficiency’. To put this another way, economics begins by ignoring moral philosophy, arguing that it is still possible to analyse, model and criticise social and economic relations without resorting to the language of values or justice.»
«Reward must be proportionate to effort, skill and contribution to the collective, and separated from sheer luck.»

O resto aqui.

quem quer vir comigo hoje ao inferno?

10:12


Dardos


«O Prémio Dardos é o reconhecimento dos ideais que cada blogueiro emprega ao transmitir valores culturais, éticos, literários, pessoais, etc.... que, em suma, demonstrem a sua criatividade através do pensamento vivo que está e permanece intacto entre as suas letras e as suas palavras. Estes selos foram criados com a intenção de promover a confraternização entre blogueiros, uma forma de demonstrar o carinho e reconhecimento por um trabalho que agregue valor à Web.»

O distinto Miguel Gomes Coelho, alto editor do Vermelho Cor de Alface, nomeou aqui a Machina Speculatrix para o Prémio Dardos. Uma das coisas que, apesar de ser um pouco avesso a estas correntes, me tornam agradável o gesto de T. Mike, é o facto de ele ser dos que lêem os blogues por onde passam - em vez de só por lá passarem. É esse um dos fenómenos mais irritantes do bloguismo militante: gente que sobrevoa os outros só para picar um título, uma frase mal lida, muita pressa e pouca compreensão, e toca a criticar e a comentar o que pareceu de relance - e não o que lá está. Possuo vasta evidência de que isto acontece mesmo e massivamente. Pois, acho que T. Mike sabe ler - e lê mesmo! Daí que o seu gesto me agrade. Agradeço, pois.
Tenho, para dar um mínimo cumprimento às regras do Dardos, de indicar outros blogues para o mesmo fado. Serão poucos, que a crise é grande. Mas lá vai:

F-world

Catharshis

Homem do Farol

Metafísica da coincidência

mouseland

ALI_SE

Ferreira de Castro

Armazém de pedacinhos

Tempo de romãs

Confissão. Estes são alguns dos meus prazeres secretos.

Dizem-me que o Prémio Dardos tem as seguintes regras: exibir a imagem do Selo no blogue; revelar o link do blogue que me atribuiu o Prémio; escolher 10, 15 ou 30 blogues para premiar. Se os visados me lerem, façam como entenderem. E sejam felizes.

4.11.10

onde anda o pessoal das estatísticas do orçamento


Uma pérola lida no Facebook:
«Um estudo recente conduzido pela Universidade Técnica de Lisboa mostrou que cada português caminha em média 440 km/ano. Outro estudo feito pela Associação Médica de Coimbra revelou que, em média, o português bebe 26 litros de vinho/ano. Conclusão: O Português, em média, gasta 5,9 litros aos 100km, ou seja, é económico! Afinal, nem tudo está mal, neste País!»
Assinado: Mena Santos

a raiva na política às vezes é um bocadinho cansativa



Esta imagem, na capa do Público de hoje, lembrou-me de quão cansativa me começa a ser a excessiva aplicação de raiva na política. Especialmente quando nada de muito nobre está em causa, mas tão-somente as pequenas peripécias do folclore próprio da coisa. (Nada disto depende do "campo", claro está.)

a lomba chinesa


Pedro Lomba escreve hoje no Público um artigo em que vai sugerindo, embora talvez nunca se atrevendo a afirmar, que o interesse dos chineses pela dívida portuguesa representa uma espécie de entrega do ouro ao bandido: estaríamos a tornar-nos, ou em vias de nos tornarmos, uma loja de chineses a ocidente da Europa, a fazer os fretes aos amarelos, vendidos a negócios escuros por baixo da mesa. Por causa do interesse da China na dívida de Portugal.
Tirando a parte da imaginação, a que o homem tem direito, e que muitas vezes é o principal ingrediente do seu tirocínio para ideólogo do futuro por vir - alguém explica a Pedro Lomba quanto e há quanto tempo a China tem carradas de dívida de países como os Estados Unidos? É que, se ele pensasse nisso, talvez tivesse mais precaução a congeminar histórias da carochinha. Bem sei que não é fácil estar sempre a inventar o que escrever na última página do jornal que foi do sr. Fernandes, mas, quand même, algum pudor na criatividade não lhe faria mal algum.

Acrescento. Será que o Pedro Lomba se inspirou no Miguel Serras Pereira?!?!

as minhas implicações com a Máquina Analítica nem sequer são sérias


John Graham-Cumming vai finalmente construir no mundo real a Máquina Analítica de Charles Babbage, calculadora gigante a vapor, a qual nunca viu a luz do dia, fosse por insuficiência de financiamento, fosse por estar fora do alcance da tecnologia vitoriana. Apesar do pioneirismo da concepção.
John Graham-Cumming está a pedir dez mil contribuições de dez euros, ou dez libras, ou dez dólares para reunir o cabedal suficiente pare merecer a pena arregaçar as mangas e deitar as mãos ao trabalho, ele que quer completar a reconstituição a tempo do centésimo quinquagésimo aniversário do passamento de Babbage, isto é, até 18 de Outubro de 2021.
John Graham-Cumming não prossegue deste modo um sonho completamente original. A Máquina de Diferenças nº 2, inventada pelo mesmo Babbage, foi construída pelo Museu de Ciência de Londres em 1991 em comemoração do segundo século passado sobre o nascimento do engenhoso matemático.
Cada um comemora o que lhe fala.
O rabi de Portalegre quer reconstituir a Terra Prometida onde os seus chegaram depois de mais de quarenta anos a vaguear pelo deserto, paridos naquela forma de povo pela fuga do Egipto, pela chacina dos primogénitos, pelo deslumbramento das águas do mar que para eles se abriram e contra os perseguidores se abateram. O rabi de Portalegre não quer uma Terra Prometida em tamanho natural, como Moisés terá visto do cimo do Monte Nebo antes de morrer falhando o alvo, mas apenas uma reconstituição evocativa na fronteira incerta entre Portugal e Espanha, que é como quem diz entre nós e os outros, a única fronteira aliás reconhecida por povos muito ciosos de tanto estarem bem no que é muito seu como estarem magnificamente em terra emprestada, emprestada a bem ou não. O rabi de Portalegre não quer uma Terra Prometida como ela já foi, mas apenas como ela pode ser hoje, com ou sem arame farpado, atendendo ao facto bem conhecido de que não restam ao cimo da terra, esteja ela prometida ou por prometer, mais do que parques de diversão, feiras industriais, recintos desportivos, arrabaldes, tudo espaços pobres onde não corre o leite nem o mel, quando muito as águas negras dos nossos descontentamentos. O rabi de Portalegre sabe bem que os sonhos estão caros e, mesmo assim, pouco considerados, razão pela qual não está à procura de voluntários para contribuições. O rabi de Portalegre que estamos em maré de falar por falar, apenas e somente para não estarmos calados, por o silêncio doer como picadas de mosquito assanhado. Embora ele saiba de tudo isso, o rabi de Portalegre, que bem vedes que é uma figura de ficção, porque reconheceis que não subsiste nenhuma cidade de Portalegre, apesar de ser bem verdade que continua a exercer o rabi de Portalegre, embora ele saiba de tudo isso o rabi de Portalegre continua a arvorar o projecto de ter o seu modelo de Terra Prometida em miniatura para o dia de anos de Amós no primeiro ano da próxima década. Antes, portanto, de John Graham-Cumming querer concluir a Máquina Analítica de Babbage.
Cada um espera o que lhe fala.
Eu vou a casa, peço contribuições para uma cidade nova, sento-me à mesa dos pequenos-almoços, que são desejavelmente as refeições mais abundantes de alguém que já não precisa de grande alimento, traço uns riscos na madeira com um lápis grosso, começo a desenhar uma utopia qualquer e dou os meus dados por lançados. Hoje em dia, dia em que já não há utopias de espécie alguma, tenho a minha oportunidade: qualquer arqueólogo futuro que queira, num tempo distante, reconstituir qualquer projecto mirabolante, se já estiver concluída a Máquina Analítica e a Terra Prometida, terá de agarrar-se à minha pequena ideia. Nesse tempo, deste tempo só restará areia da nossa pobre cidade e qualquer grão é melhor do que nada para quem anda à procura.
John Graham-Cumming merece o nosso agradecimento. Ninguém nos tempos que corre quererá reconstruir uma cidade humana. Dado que ninguém, parece, quer viver numa cidade humana. Melhor é, assim, que alguém queira, pelo menos, construir a Máquina Analítica. Uma alma nova, com contribuições em rede. Fumar o fumo do ar. Fumar o fumo do tempo.

Cavaco candidato não dá cavaco a Cavaco presidente


Quem me tenha lido algumas vezes sabe que nutro uma profunda antipatia política por Cavaco Silva, por causa dos erros profundos que cometeu na governação (e de que parece ter-se esquecido) e por causa da visão "higiénica" que tem da política (acha-se mais limpinho do que toda a gente, o que parece resultar tão-somente de uma profunda hipocrisia).
Posto isto, acho ridícula a escandaleira que por aí anda com as coisas que o homem diz enquanto candidato a PR ou enquanto PR que é candidato a voltar a sê-lo. Se Cavaco tem dupla face, escondida em falinhas mansas ou em tiradas de puro descaramento, nisso não nos surpreende: tem sido assim o tempo todo. Nada na manga, portanto. Quanto ao resto, não é muito eficaz criticar Cavaco por algo que 99% dos eleitores acham que todos os políticos fazem desde que possam.
Por favor, se há alternativas políticas ao estilo presidencial de Cavaco, critique-se Cavaco nessa base. Mostrem-se e expliquem-se as alternativas. Apresentem-se. Falem. Não há mais candidatos que possam dizer coisas relevantes? Se há, vão pela positiva dizendo o que propõem. Se não há verdadeiramente alternativa, também não vale a pena desgastarem-se em guerrilhas de corredor a alfinetar Cavaco.

3.11.10

pérolas | 2 em 1


A “apreensão” de Cavaco Silva e as suas preocupações com o “desprestígio” dos políticos, manifestadas no Twitter, são lidas pelo PS como actos de pré-campanha eleitoral para as presidenciais.
Sim, o homem já se assumiu como candidato e escreveu isso num dos meios da sua campanha. Qual é a dúvida? Vamos proibi-lo agora de fazer campanha, quando ele já a fazia muito antes de se declarar e sob as roupagens de presidente?

Ricardo Rodrigues admitiu que “há alguns exageros no Parlamento” que merecem crítica. Contudo, ressalvou, “estes exageros são uma prática no Parlamento”.
Que são uma prática no Parlamento já tínhamos percebido, não era preciso o senhor deputado dizer. Mas são uma prática que não se devia praticar, esse é o ponto.

Jardins Metafísicos

Plano do jardim do Hojo do Tofuku-ji, "Jardim das Oito Vistas" (versão original inserida no livro de Christian Tschumi, Mirei Shigemori: Modernizing the Japanese Garden, Berkeley, Stone Bridge Press, 2005 ).
Estamos aqui num complexo religioso com muitos templos, que é a sede da escola Tofuku-ji do Budismo Zen de Rinzai. Este espaço foi fundado em 1236, mas foi sendo modificado muitas vezes posteriormente. Vamos aqui focar-nos principalmente na última grande reconstrução do jardim, já no século XX.
Shigemori (1896-1975) foi o maior dos renovadores do jardim japonês no século XX, apostando em voltar à inspiração tradicional em vez de participar na importação dos modelos ocidentais.
O jardim do Hojo (instalações do abade) no templo Tofuku-ji é a sua primeira grande obra, datando de 1939. Shigemori ofereceu o projecto ao abade da comunidade budista (que não tinha meios para lhe pagar). O abade ofereceu algo muito valioso para Shigemori: prometeu que aceitaria o projecto sem modificações. E assim se fez. Um único pedido fez o abade e aceitou o artista: para honrar um princípio religioso, seriam aproveitados materiais que tinham sobrado da reconstrução do templo. Algumas das pedras deste jardim têm essa proveniência.


Na zona oriental do jardim, um aproveitamento de pedras que sobraram das fundações dos edifícios. Trata-se de uma representação da constelação da Ursa Maior, num céu nublado feito de gravilha penteada.

Na zona sul do jardim: os quatro grupos de rochas representam (como muitas vezes acontece nestes jardins) as ilhas dos imortais, enquanto os cinco montes cobertos de musgo (ao fundo) representam as cinco seitas do budismo Zen existentes em Quioto. A zona de musgo ao fundo, tal como a gravilha penteada, representam o mar.

Aspecto parcial das ilhas dos imortais no jardim sul.

Aspecto parcial das cinco seitas zen de Quioto, no jardim sul.


Ilha no mar de gravilha e ilhas no mar de musgo.


O jardim ocidental, inspirado nas paisagens de campos de arroz. A estrutura de base é uma quadrícula (uma espécide de tabuleiro de damas)marcada por pedras (coisa que se vê mal nesta imagem). Em algumas interpretações, representa-se aqui uma batalha, correspondendo aos dois tipos de preenchimento da quadrícula.


Pormenor do jardim do norte, no qual se aproveitaram mais restos de pedra da construção, desta vez para um desenho muito simples de xadrez pedra/musgo.



A estrutura de xadrez dispersa-se no jardim do norte, progredindo de uma malha clara e organizada para uma dissipação progressiva, até ao desaparecimento na pequena mata. Trata-se de um exemplo, entre outros, do uso que Shigemori fazia de elementos pontilhistas nos seus jardins, o que é um deslocamento relativamente às práticas dominantes no jardim tradicional.



A ver o mar, na gravilha. Coisa só possível num jardim metafísico.



(Fotos de Porfírio Silva. 6 de Novembro de 2005, Quioto, Japão.)

Afinal, quem aumentou a despesa pública?


O tema não é novo. Mas vale a pena, por vezes, relembrar certas coisas - quanto mais não seja para compreendermos a hipocrisia de certas pessoas e de certas formações. Há forças políticas que são muito corajosas - a dar conselhos aos outros. Mas que depois nunca tomam os conselhos para si próprias, quando chega a sua vez de mostrar o que valem. É por isso que aquilo que o PSD mostra, no actual estado de coisas, não é patriotismo: é hipocrisia. Para o PSD, a "política certa" que defendem é uma para quando eles próprios não estão no governo - mas a "política certa" quando lhes toca pegar nas rédeas.

Toda esta conversa para sugerir esta leitura: Afinal, quem aumentou a despesa pública?


(Relembrado por MAIActual.)

2.11.10

retrato de Cavaco Silva

as poucas cabeças do Sr. Mercados

22:06

No actual estado de coisas, em que há em todo o mundo um debate acerca de ser preferível equilibrar os orçamentos ou prosseguir com os estímulos à economia, até se pode pensar que o governo pode estar a seguir políticas erradas. Vai demorar tempo a tirar a limpo se traçámos em Portugal correctamente a linha separadora do que são as imposições do contexto internacional e do que são as escolhas dos governos nacionais. Nestas circunstâncias, é sempre possível não estarmos completamente elucidados acerca do que poderia ser feito de modo diferente do que está efectivamente a querer fazer-se. É possível, e mesmo desejável, que se faça sem descanso um escrutínio dos governos nessa linha. Principalmente se esse escrutínio se destinar a promover uma melhor distribuição do esforço.
O que já não parece normal é que se infantilize o debate. A deputada comunista ao Parlamento Europeu, Ilda Figueiredo, num debate um destes dias na televisão, falava do "Sr. Mercados", tratando-o como entidade mítica, como se "os mercados" fossem uma invenção do governo, uma ficção imaginada para justificar a vontade de maltratar os portugueses. Claro que não lhe passava pela cabeça que houvesse qualquer inconveniente na sua ideia de que tudo estaria bem se os bancos fossem todos do estado. Falava a senhora deputada do "Sr. Mercado" como se não acreditasse na existência de tal animal (por sinal um bicho com poucas cabeças), como se ainda estivesse, naquela idade, numa infância pré-abstracta, que só reconhece a existência de objectos materiais que se podem agarrar com a mão ou chutar com o pé.
Ignorar as realidades do mundo, fazendo de conta que as dificuldades são invenções do adversário, é uma forma infantil de fazer política. Que, provavelmente, rende votos. Votos esses que, como de costume, não vão servir para nada. Excepto talvez devolver a direita ao poder.

o patriotismo do PSD


O PSD, preocupado com a possibilidade de uma estratégia política social-democrata não ser suficiente para salvar o país, reforça a receita. Em vez de uma, duas estratégias políticas. Acorda com o governo um orçamento que se dispõe a "deixar passar": estratégia 1. Malha no orçamento e no governo como se do demónio se tratasse: estratégia 2. O orçamento é para um ano, mas o seu "compromisso" só vale para uns dias - e apenas a certas horas. Aguarda-se o eminente anúncio de que o PSD se juntará à greve geral.