22.10.10

parábola

10:03

PARÁBOLA


Poemas são como vitrais pintados!
Se olharmos do mercado para a igreja,
Tudo é escuro e sombrio;
E é assim que o Senhor Burguês os vê.
Ficará agastado? - Que lhe preste!
E agastado fique toda a vida!

Mas - vamos! - vinde vós cá para dentro,
Saudai a sagrada capela!
De repente tudo é claro de cores:
Súbito brilham histórias e ornatos;
Sente-se um presságio neste esplendor nobre;
Isto, sim, que é para vós, filhos de Deus!
Edificai-vos, regalai os olhos!

Johann Wolfgang von Goethe


21.10.10

é d'A Barbearia do senhor Luís


Diz o Luís Novaes Tito:
A coisa menos interessante é verificar que alguém faz uma proposta para, em troca, se abster na votação daquilo que propõe.
Para saber qual é a coisa mais interessante: Ainda a estória do coelho e do consultor, na tal Barbearia.

o urgente e o importante

10:00

Pedro Santos Guerreiro fecha o seu editorial de ontem no Jornal de Negócios com a seguinte frase acerca da actual situação económica e financeira: "A finança vence sempre: o urgente vai prevalecer sobre o importante". É uma frase com muito sentido. Importante seria tratar da economia. Tratar das finanças é urgente mas prejudica o que é importante. O editorial é rebuscado de modo a nunca afirmar preto no branco que não se deve acudir ao urgente. Mas deixa a pairar a acusação de que se não está a tratar do importante. Mas trata-se de um conflito muito corrente, que todos podemos perceber se pensarmos um bocadinho.
O tempo vai quente. Estamos a ensinar o nosso filho a ler. O vizinho colhe as primeiras batatas. A vizinha cuida da sua mãe velhinha. O meu irmão repara o telhado da casa para enfrentar as próximas chuvas. A minha mãe coze uma fornada de pão. O meu pai rega o milho. De repente declara-se um incêndio num pequeno bosque vizinho. Todos corremos a abafar o fogo às primeiras labaredas. Essa é a tarefa urgente do momento. Todas as outras coisas eram intrinsecamente mais importantes do que sacudir ramos contra uma chamas rasteiras: educar, cuidar, colher. Mas seria estultícia descurar o urgente em nome do importante. Mesmo que a fornada de pão se queime. Por causa do perigo de que descurar o urgente em nome do importante prejudique mesmo o importante.
Descurar o urgente em nome do importante é o que fazem os que gritam aqui d'el rei pela economia sem ao mesmo tempo contarem com o papel que as finanças têm neste mundo, gostemos ou não. Como se a economia pudesse sobreviver com as finanças no caos.

20.10.10

propostas de orçamento há muitas, seu...



Não consigo encontrar nenhum vídeo realmente decente desta versão de "Money" pelos The Flying Lizards...

aquela metade do copo

saber contar (pelo menos até sete)


Passos põe quatro condições para viabilizar Orçamento. (Público)

As seis condições do PSD para viabilizar o Orçamento
. (Económico)

Abstenção do PSD tem sete condições. (Jornal de Negócios)

João Magalhães, no Câmara Corporativa:
Na Festa do Pontal, em Agosto, Passos Coelho foi claríssimo - o PSD só viabilizaria o Orçamento se fossem preenchidas duas condições: não haver aumento de impostos; haver cortes na despesa.
E foi assim, entrincheirado nessas duas condições, que o PSD recusou qualquer diálogo sem pré-condições com o Governo na elaboração do Orçamento.
Agora, que o Governo apresentou a sua proposta na Assembleia, o PSD mostra a sua verdadeira face: afinal, não tinha uma, nem duas, nem três, nem quatro, nem... mas sim as que a imaginação de Marco António & Miguel Relvas determinarem.
Integral aqui: A imparável máquina de 'spinning' do PSD [em actualização permanente...].

19.10.10

castanhas quentes

19:23

Bruxelas propõe a criação de IVA europeu para financiar orçamento da UE.

Até estou de acordo: responsabilidades europeias com financiamento reforçado por impostos europeus.
Só não consigo imaginar uma altura mais adversa para essa ideia ser levada a bom porto.
A não ser que, com a mencionada redução das contribuições dos Estados-Membros, se queira afinal reduzir ainda mais a capacidade da UE.
Aguardemos, pois.

pessoas a preto e branco


Malick Sidibé, Christmas eve, 1963

Doclisboa 2010 – Fotografias de Malick Sidibé no Palácio das Galveias. Até final de Outubro. Entrada livre.
 

os sacanas fartam-se de fazer publicidade

DN

A demagogia (dizer completas mentiras compostas apenas de verdades-verdadinhas, com intenção e alvo) é muita por estes dias, denunciando pretensos despesismos de vária ordem. Faz isso um grupo de gente que, tendo por profissão escrever ou falar nos órgãos de comunicação social, não tem tempo para estudar os assuntos sérios e, tendo de sobreviver, produz qualquer "peça" que esteja à mão. No género "chutar com o pé que estava mais à mão". A alegação de que (espante-se!) organismos do Estado ou das redondezas fazem publicidade - é uma das flores do ramalhete. A sugestão é simples: "aquela malta" gasta dinheiro a rodos a fazer propaganda. E que tal pensar um bocadinho mais?
Uma boa maneira é ler Luís Paixão Martins no Lugares Comuns:
Suponhamos, como exemplo, que no próximo ano temos o obrigatório Recenseamento da População - o habitual Census que se realiza em cada 10 anos. Não será a Publicidade um instrumento necessário para informar os cidadãos acerca do mesmo e dos seus procedimentos?
Suponhamos, como exemplo, que o Estado fecha um hospital e quer informar os cidadãos que devem optar por outro. Não será a Publicidade um instrumento necessário para informar os cidadãos?
A Publicidade e outras disciplinas da Comunicação são essenciais na Sociedade. Sem elas viveríamos num Caos. É a Comunicação que "organiza" a Sociedade.
Está na íntegra aqui.
Estas coisas são simples: há quem pense que um País em dificuldades deve parar. Talvez para eles parecerem em movimento.

memória curta


França e Alemanha querem suspender direitos políticos de países com défices.

A Alemanha fala grosso. E a França esganiça-se o que pode para dar a ideia de que o eixo franco-alemão ainda tem alguma ideia na cabeça. Mas qualquer desses Estados-Membros, quando entrou em incumprimento, não vão ainda muitos anos, fugiu com o rabo à seringa e manobrou politicamente para não levar o puxão de orelhas com que agora estão sempre a querer brindar os outros. Parece é que já se esqueceram disso.

então mas agora o domingo já não é um dia impossível para se fazerem coisas legais?


A jornalista Manuela Moura Guedes rescindiu ESTE DOMINGO o seu contrato com a TVI, informou a estação de televisão em comunicado.

Eu sei que tu sabes que eu sei que tu sabes a que Domingo eu me estou a referir. Um Domingo que escandalizava muito a tal senhora dona, por nesse Domingo - parece impossível! - se passarem papéis numa universidade privada. É que parece que ao Domingo ninguém trabalha - e quem trabalha é só entre aspas e para fazer asneira. Afinal, a senhora Guedes também "conclui actos" ao Domingo. Safa! - como dizia o outro.

18.10.10

"a" corporação

é Da Literatura


Eduardo Pitta, no Da Literatura:
Em Portugal, o salário médio andará algures entre 700 e 800 euros. Para já, os cortes salariais incidem sobre funcionários públicos e trabalhadores do sector empresarial do Estado: CGD, CP, RTP, TAP, etc. Esses cortes não afectam rendimentos inferiores a 1550 euros mensais. As pensões ficam intocadas, excepto as de valor superior a 5000 euros mensais. Verdade que os funcionários públicos (todos) vão passar a descontar mais 1% para a CGA. Verdade que as pensões da CGA de valor superior a 1600 euros vão descontar para o IRS o mesmo que descontam as da Segurança Social. Num país em que tanta gente, parece que 35% da população activa, aufere o salário mínimo; num país em que professores do ensino básico e outros profissionais qualificados auferem salários inferiores a 700 euros mensais; em que centenas de milhares de pensionistas têm pensões inferiores a 400 euros, o plano de austeridade que aí vem afecta sobretudo as profissões liberais, gestores públicos, pilotos da TAP, magistrados e quadros superiores do Estado, chefias militares, diplomatas, professores universitários, docentes do ensino secundário dos escalões mais altos, apresentadores de televisão e pouco mais. A irritação da direita começa aí.
Na íntegra: Foi V. que pediu social-democracia?.

17.10.10

as crises têm dono


Em parte, os "donos das crises" são os economistas com a cabeça cheia de modelos que nada têm a ver com a realidade deste mundo - mas que, infelizmente, influenciam os que governam precisamente, não Marte, não Júpiter, não a Lua, mas a Terra. Sim, esta Terra onde vivemos e que eles infernizam com as suas teorias irrealistas. Irrealismo que serve para justificar políticas erradas (mirabolantes), de cujos erros eles nunca pagam as consequências.
Exemplo? A última fornada de prémios Nobel da Economia.
Leia-se Nuno Teles, no Ladrões de Bicicletas:
Para uma análise crítica do prémio mais vale dar a palavra a quem, muito melhor do que eu, conhece o trabalho dos três economistas. Dois bons artigos. O primeiro, de Yanis Varoufikis, começa eloquentemente da seguinte forma: “Imaginem um mundo devastado pela peste e suponham que o Prémio Nobel desse ano é atribuído a investigadores cuja carreira foi baseada no pressuposto de que as pestes são impossíveis. O mundo ficaria revoltado. Assim nos deveríamos sentir relativamente ao anúncio do Prémio Nobel de ontem.” O segundo artigo, de William Mitchell, é um brilhante ataque teórico, arrasador do trabalho galardoado. Não resisto a mais uma citação: “A realidade é que as maiores contribuições deste trio são a de que o desemprego de massas não existe e que o desemprego é, sobretudo, voluntário ou resultado de políticas demasiado generosas de governos “mal aconselhados”.
Texto na íntegra aqui.

ainda há administradores com visão política, caramba


Presidente da Metro Mondego anuncia demissão na sequência do Orçamento. «O presidente da sociedade Metro Mondego, Álvaro Maia Seco, anunciou hoje que vai apresentar a demissão do cargo, na sequência da extinção e integração da sociedade na Refer, que consta do Orçamento do Estado para 2011.»

Bem jogado. Como o lugarinho iria ser extinto de qualquer modo, ele vem antecipar a história. Se os dinossauros fossem tão espertos como este administrador, ter-se-iam demitido uns séculos antes da extinção. Que este tenha sido mais expedito a reagir do que os dinossauros - mostra que o mundo continua a evoluir. A história natural é uma grande escola, caramba.

portugal, a europa, a crise, alguns mitos, algumas realidades

19:38

Jean Quatremer publicou no Libération um artigo intitulado "Pourquoi l’Irlande n’a pas déclenché une nouvelle crise de la zone euro" (Por que a Irlanda não desencadeou uma nova crise da zona euro). Damos aqui tradução (livre) de uma parte desse texto.

Dublin, para salvar o seu sector bancário, anunciou a 30 de Setembro que o seu deficit público alcançará 32% do PIB no final de 2010, três vezes mais do que se esperava! No mesmo dia, a Espanha perdeu o seu triplo A e deu um novo aperto fiscal para reduzir o défice público (9,1% em 2010), como o seu vizinho Português (cujo défice é "apenas" 7,3% em 2010). Poucos dias depois, a Fitch Ratings e a Moody's baixaram mais uma vez a notação irlandesa... Uma avalanche de más notícias que, no entanto, não desencadeou uma nova crise da dívida soberana equivalente à que atravessou a zona do euro no primeiro semestre: a Irlanda e da Península Ibérica continuam a ter acesso aos mercados para financiar-se, embora a custos elevados, e o euro continua o seu regresso triunfal à sua valorização do início do ano (cerca de 1,40 dólares...). A zona do euro claramente já não mete medo aos investidores. A acalmia nas taxas de juro dos CDS sobre a Grécia, Portugal e a Irlanda fornece uma prova adicional (…). Por quê?
Existem várias explicações cumulativas. Primeiro, a zona do euro tem agora uma pistola carregada em jogo, o Fundo Europeu de Estabilização Financeira (EFSF em inglês), com a notação triplo A e que pode emprestar até 440 mil milhões de euros, com um adicional de 60 mil milhões de euros que a Comissão está autorizada a mobilizar com a garantia colectiva dos estados. O FMI compromete-se a contribuir com mais 220 mil milhões de euros se necessário. A estes montantes acrescem os 80.000 milhões disponibilizados para a Grécia (mais 30 mil milhões de euros de empréstimo do FMI) e os 50 mil milhões de euros do Fundo europeu de apoio à balança de pagamentos para os estados da União que não são membros da zona euro. Quer dizer, uma potência de fogo de 930 mil milhões de dólares. Por seu turno, o Banco Central Europeu (BCE) abandonou os seus preconceitos ideológicos, comprando desde 10 de Maio dívida pública dos países mais vulneráveis no mercado secundário (mercado de revenda dos títulos, já que o BCE não tem o direito de comprar a dívida directamente aos Estados).
Isto teve o duplo efeito de tranquilizar os mercados, que temiam que um Estado falhasse os seus pagamentos, e desencorajar os especuladores atraídos pelo cheiro a sangue. Se a União tivesse um instrumento desse tipo no final de 2009, a crise da dívida soberana simplesmente não teria acontecido, o que teria permitido aos estados continuar a pedir emprestado a taxas razoáveis nos mercados. Assim, esta crise mostrou aos mercados que o compromisso político dos Estados para com o euro é real, mesmo que tenham duvidado por um momento, especialmente por causa da atitude alemã. Eles entenderam que a solidariedade europeia existe. (...)
Finalmente, a Irlanda, Espanha e Portugal não estão na situação na Grécia. Nenhum destes países mentiu sobre o verdadeiro estado da sua economia, das contas públicas e dos seus bancos, o que é uma diferença importante: a confiança, elemento chave numa economia de mercado, está intacta. Além do mais, nenhum desses países tinha as suas contas públicas degradadas antes da crise, o que lhes dá uma margem de manobra que a Grécia não tinha. (...)
Dublin, como Madrid e Lisboa, não precisam que lhes torçam o braço, como Atenas que esperou até 2 de Maio para ceder face à União e ao FMI, para adoptar um plano de austeridade particularmente ambicioso (e consensual). É certo que a Irlanda tem um problema bancário – 50 mil milhões de euros! – mas, como afirmou Patrick Chauvet, "parece a alguns um custo fora do balanço"... A credibilidade da Irlanda nos mercados é forte: "é um país anglo-saxónico a falar para anglo-saxões”, ironiza Laurence Boone, economista-chefe do Barclays Capital.(...)

Versão integral, em francês, disponibilizada por Quatremer no seu blogue, aqui. A quem a língua francesa não assuste: vale a pena ler integralmente.