16.10.10

a nova actividade do Público


O Público anda sempre à procura de novas actividades, para além da informação. Vende livros. Cria ex-directores que agitam a cena conservadora. Aquece campanhas eleitorais com inventonas. Novidade novidade é agora: prevê o futuro. Mais concretamente: o passamento de certas pessoas com fama. Desta vez prevê a morte - no próximo ano - de Malcolm Allison. Há aqui algo de estranho, não há?!


o orçamento no seu contexto


Carlos Zorrinho, ontem, no Expresso da Meia Noite, SIC Notícias.


governo-sombra


A coligação negativa está a formar um governo-sombra. O núcleo duro está escolhido.


uma confissão ao sábado


Na sua edição de hoje, a revista Única (do Expresso) apresenta um trabalho sobre a elaboração do Orçamento de Estado por vários ministros das finanças em exercícios anteriores. É nesse quadro que apresenta um depoimento de Bagão Félix, ministro da Segurança Social e do Trabalho de Durão Barroso que passou a ministro das Finanças de Santana Lopes. Passo a citar.
«No novo posto, e como é tradicional, Bagão Félix começou a ouvir os colegas de executivo, para a elaboração do OE para 2005. Num desses encontros reuniu com o ministro Fernando Negrão, sem se recordar que tinha sido ele o seu sucessor na pasta da Segurança Social. Logo nos minutos iniciais, Bagão Félix começou a demolir severamente muitas das propostas que Negrão trazia escritas. "Lembro-me de lhe dizer que algumas delas nem sequer faziam grande sentido", recorda hoje Bagão Félix. Fernando Negrão foi ouvindo tudo com paciência e serenidade. Até que, numa das observações mais críticas, não aguentou mais: "Vai-me perdoar, senhor ministro, mas permita-me que lhe recorde que eu não alterei uma única linha ao documento que o senhor mesmo escreveu quando estava neste agora meu Ministério, para elaborar o orçamento." Bagão Félix engoliu em seco: "Foi uma lição de vida para mim. Mostra como as coisas mudam, consoante a perspectiva que temos delas", admite o ex-ministro das Finanças.» Fim de citação.
É extraordinária a lata. Bagão Félix consegue contemplar com "ar filosófico" («foi uma lição de vida»), até com uma certa candura, algo que é um cancro da vida pública: responsáveis que em cada circunstância "acham" o que lhes vai na cabeça como se o mundo "lá fora" fosse apenas cenário, que mudam de "visão" como quem muda de camisa, que fazem o seu papel como se estivessem num grande teatro e não a jogar com a vida de todos nós - e tudo isso "consoante a perspectiva". Assim se percebe como tanta gente anda por aí a dizer certas coisas, como se não tivesse nada a ver com "isto". Nem todos chegam é ao ponto de confessar tão abertamente o que valem as suas opiniões neste momento - já que elas poderiam ser completamente diferentes se estivessem noutra "perspectiva".

15.10.10

a collaborative music and spoken word project

uma forma de estupidez imanente

este governo e a luta de classes


Entre os produtos cujo IVA vai subir de 13 para 23% estarão conservas de vários tipos, como carne, miudezas e moluscos, com excepção das ostras, frutos e produtos hortícolas - dizem fontes geralmente bem informadas. Pelas ostras se mostra o carácter de classe deste governo. Ou não? Joana Lopes esclarece o mistério.

espectador comprometido


Só o Eduardo me faria ler o Vasco.
Pitta e Pulido Valente, respectivamente.

nunca ninguém tem culpa de nada


Pelas dez da manhã, a jovem mão pede ao balcão, para o seu menino de tenra idade que a acompanha, um pacote de batatas fritas de presunto, que logo passa para as mãos do petiz.

alice no país das maravilhas, uma história contada com candura




14.10.10

ainda o Jesus Cristo de Fernando Pessoa e as finanças


Há dias perguntei aqui «se o Estado português tem de pagar juros de mais de 6% nos mercados para se financiar, não poderia pedir emprestado aos portugueses e pagar-lhes, digamos, 5% de juro? Era mais do que os bancos dão aos clientes e menos do que o Estado tem de pagar aos bancos. Bom para (quase) todos, não era?» e responderam-me variadas coisas. Mas a resposta que eu sabia que faltava estava a ser-me dada no twitter, pelo João Pinto e Castro. Não a vi na altura, por ser fraco cliente daquela casa. Mas aqui fica.

ainda bem que há quem leia jornais


Não fora a existência de leitores atentos, nem chegaríamos a saber o calibre do jornalismo que por aí anda.

brasileiros de olho em Portugal


Chico Buarque lidera manifesto por Dilma e Frei Betto defende-a como cristã.

Quando Lula era candidato a presidente, diziam que ele era um radical que ia dar cabo do Brasil. Agora tentam a mesma jogada contra Dilma. Dilma tem vários crimes no cadastro. É apoiada por Lula, coisa que irrita todos aqueles que agora fazem de conta que gostam muito de Lula mas na verdade o detestam (nomeadamente os que se mordem de ele ter aproveitado bem o trabalho de Fernando Henriques Cardoso). Opôs-se à ditadura com os meios que a ditadura deixava. Parece que é indiferente à religião, embora agora seja crente para crente ver.
Tentando contrariar a mobilização das armas sujas na guerra contra Dilma (por exemplo, Serra chamou o assunto Deus na TV para a atingir), um vasto grupo de gente que pensa organiza-se em manifesto para a apoiar. E, para o efeito, não tem papas na língua. Vejam: «O comportamento da oposição lembra "os argumentos que prepararam o golpe de 1964", por exemplo nas "críticas ao "populismo"", diz o manifesto. Inconformada com "a ampla aprovação da sociedade brasileira" ao Governo Lula, "uma minoria com acesso aos meios busca desqualificar esse povo, apresentando-o como "ignorante", "anestesiado" ou "comprado pelas esmolas" dos programas sociais". Essa minoria confunde sociedade de direitos com "sociedade de favores" e, "em nome da liberdade de imprensa, quer suprimir a liberdade de expressão".»
Outros pontos desse manifesto são perfeitamente aplicáveis a Portugal. Leiam: «É profundamente antidemocrático - totalitário mesmo - caracterizar qualquer crítica à imprensa como uma ameaça à liberdade de imprensa.»
Exactamente.

a morte anunciada de um Pacto

15:51

UGT diz que “Pacto para o Emprego morreu”.

Há coisas assim na linguagem dos humanos: se a UGT diz que morreu, morreu mesmo. Quando eu digo "está a chover", isto pode ser verdade ou ser mentira - e o que acontece na realidade não depende em nada do que eu digo. Mas, em certos casos, "dizer é fazer": num casamento, é a palavra do oficiante (se for legítimo e se tiverem sido respeitadas certas condições) que "produz" o casamento. "Declaro-vos marido e mulher" - e lá estão eles marido e mulher. É de género comparável este caso: não há Pacto para o Emprego que se salve quando as partes o declaram morto. Tenho disso muita pena, por razões que já expliquei várias vezes. Aqui, por exemplo, logo em Outubro de 2009.
Isto não quer dizer que eu concorde com tudo o que a UGT dá como razões. Nem quer dizer que a culpa seja da UGT. É mais culpa da generalizada incompreensão de quão necessários são acordos tripartidos sobre matérias estruturantes com alcance temporal alargado, que não estejam sempre a ser revistos em função da conjuntura. E da falta de cuidado para não matar essas plantinhas frágeis que são os poucos resultados da concertação social.
Claro, levantar-se-ão vozes contra o "radicalismo" da UGT. Se a minha voz bradasse aos céus, acontecer-me-ia o mesmo. Mas não brada.

o combate ao desperdício público é uma bandeira da esquerda

11:03

Ricardo Paes Mamede, no Ladrões de Bicicletas:
No momento actual, este tipo de discurso [sobre as Parcerias Público Privadas] parece assentar bem aos economistas da praxe, àqueles que nos impingem que tudo o que o Estado faz é errado. Na verdade, o desastre das PPP deve-se, em larga medida,... precisamente àqueles que nos impingem que tudo o que o Estado faz é errado. A lógica das PPP consiste em acreditar que o Estado deve deixar espaço aos privados para revelarem a sua eficiência supostamente acrescida. Acontece que a maior eficiência que esses privados têm revelado é na argumentação jurídica que lhes permite justificar renegociações dos contratos – só na Lusoponte a derrapagem financeira associada foi de 400 milhões de euros. A lição a retirar não deixa espaço para dúvidas: se o Estado não é suficientemente bom para conduzir directamente os investimentos, não o será seguramente para prevenir ou vencer batalhas jurídicas associadas a contratos complexos.
Na íntegra: O combate ao desperdício público é uma bandeira da esquerda.

demagogia

post aberto aos despeitados com um brinde para os distraídos


Despeitado português à procura da importância de Portugal pertencer ao Conselho de Segurança.
(Na foto: Jamel Debbouze e Rie Rasmussen em "Angel A".)

Há por aí várias categorias de despeitados a achar uma ninharia que Portugal tenha sido eleito para o Conselho de Segurança da ONU. Duas categorias particularmente interessantes desse zoo merecem menção específica.
Temos, desde logo, os manos que pura e simplesmente mentem dizendo que Portugal foi eleito em virtude da desistência do Canadá. Foi precisamente ao contrário: o Canadá retirou-se, em plena sessão, depois de ter percebido que tinha muito menos votos do que Portugal e que não chegaria lá. Basta perceber como funciona aquele tipo de votação para ver como este contorcionismo não é doença da coluna, mas da lisura na relação com o leitor desprevenido.
Outra categoria de despeitados não se sente capaz de desvalorizar a coisa e opta por entregar a taça ao atleta errado, como quem deita a língua de fora ao verdadeiro artífice da vitória. Essa categoria de despeitados é bem representada por quem atribui o mérito da vitória à diplomacia portuguesa, chegando ao ponto de quase cumprimentar os porteiros das embaixadas, ao mesmo tempo que não reconhece que a diplomacia é um instrumento de uma estratégia com fito político, definida não pelo aparelho diplomático mas pelo governo. Se, como é o caso, esta manifestação de despeito vem do primeiro magistrado, a coisa é mais grave do que a própria mentira descarada mencionada anteriormente. Trata-se, simplesmente, de mais um exercício de guerrilha-institucional-com-hipocrisia-indisfarçável a que CS nos tem habituado.
Já agora, para uso dos que dizem que não tem interesse nenhum pertencer ao Conselho de Segurança, cito a revista Visão de hoje: «Segundo revela a última edição da Foreign Policy, os países que integram temporariamente o Conselho de Segurança recebem 59% mais ajuda dos EUA e têm 20% mais possibilidades de receber apoio do FMI. Segundo um dos autores deste estudo, (...) "o voto no Conselho é um bem muito valioso, que pode ser comprado".» Acredito que o voto de Portugal não estará à venda - mas há muitas maneiras de ganhar com o seu valor. Coisas que os despeitados não aparentam perceber.

13.10.10

uma pergunta provavelmente ingénua


Escrever isto é pura ignorância, má-fé ou um cocktail de ambas?
(A coisa explicada tintin-por-tintin aqui.)


há por aí uma esquerda da esquerda que se ouça?

16:55

Vejo algo de bizarro quanto à ideia de que é "inevitável" que o PSD deixe passar o orçamento. Como expliquei anteriormente. Isso não mostra um bloqueio dos mecanismos constitucionais, mas sim um bloqueio da política. A politica não quis ver que não estávamos em tempo de "piloto automático" e que o piloto a sério não podia ficar à espera que limpassem a cabina. E, estranhamente, parece que ninguém se preocupa em perguntar à esquerda da esquerda em que condições poderia viabilizar o orçamento. Parece que o país já assumiu que o PSD pode eventualmente mostrar-se responsável e negociar a sério, mas que o BE e o PCP estão fora desse círculo. Se calhar, estão. Nesse caso não servem para nada, neste momento, como possível solução. O que é pena, já que neste momento não chega contestar.
Agora, a esquerda da esquerda não teria nada a ganhar em mostrar que poderia fazer parte da solução? Se fosse "melhorista" (ou reformista, se quiserem) não poderia, apesar das dificuldades, mostrar que pode fazer a diferença? Isso poderia ser alcançado concentrando-se em obter uma mais justa distribuição do esforço que a crise pede - dentro da estreita margem que a cena internacional nos deixa.
Consideremos as seguintes questões.
Neste texto: Os números oficiais mostram que o Programa de Estabilidade e Crescimento (PEC) anunciado está mal repartido entre grupos sociais, João Ramos de Almeida lembra algumas coisas. A tributação do património é muito deficiente. Os assalariados e pensionistas já pagam 92 por cento de todo o IRS, deixando uma magra fatia para os independentes, agricultores, industriais, comerciantes, donos de prédios, de capitais e mais-valias. Mais de metade das empresas não paga IRC. O recurso aos sinais exteriores de riqueza para combater a fuga aos impostos continua praticamente inoperacional. Os métodos indiciários para corrigir a fuga estão na lei - mas só na tinta. Continua a haver benefícios fiscais que só são benefícios para grandes grupos. O tabu dos sigilos (bancário e fiscal) continua a servir os que deixam para nós a carga de pagar. E todas estas coisas têm histórias políticas onde muito poucos estão isentos de figuras tristes.
A esquerda da esquerda não poderia, sem fazer exigência megalómanas (que esquecem que não vivemos isolados do mundo), colocar em cima da mesa uma solução para este imbróglio político que não desse esta imagem triste de que o PSD é a única salvação possível para o país? Ou essa esquerda continua a não ser capaz de mais, no plano político, do que ser a voz do descontentamento imediato?

a crise portuguesa


O The Economist publica um relatório especial de 18 páginas sobre Portugal?! Gaita, que isto está mesmo muito mau. A Senhora MFL e o o Senhor PPC é que têm razão: esta coisa da crise é tudo da maluqueira do Sócrates!
Ei, espera lá: os tipos escrevem "the world economy"... Então, isto afinal não é uma coisa doméstica? O suplemento sobre as desgraças do mundo não é dedicado exclusivamente a Portugal?! Estou espantado. Bem me parecia que o tipo da capa não era parecido com o Sócrates.


Roubado ao Domingos Farinho, do jugular.

arejar, que bem preciso

12.10.10

um país pária, como Portugal, tem coisas inexplicáveis


Portugal eleito para o Conselho de Segurança da ONU.

Bom, quem não sabe o que isto representa (o que custa lá chegar, o que vale lá estar) nem vale a pena estar a aborrecer-se com miudezas.

O Público noticia assim: «Portugal conseguiu um lugar como membro não-permanente do Conselho de Segurança, a partir de Janeiro de 2011, depois de obter uma maioria de 150 votos dos outros países-membros das Nações Unidas. Mas só à terceira ronda, e depois de o Canadá retirar a sua candidatura. A Alemanha confirmou que partia como candidato favorito: foi eleita na primeira ronda, com 128 votos, deixando Portugal e o Canadá disputarem o lugar que restava.»

O Público faz tudo para menorizar a coisa. Primeiro, que Portugal só conseguiu depois de o Canadá ter retirado a sua candidatura. E por que terá o Canadá retirado a sua candidatura? Será que Sócrates ameaçou cortar o vencimento do Chefe de estado, que "por acaso" é a Rainha Isabel II? Ou terá o Canadá retirado a sua candidatura por estar a recolher muito menos votos do que Portugal e ser uma questão de tempo até isso produzir a eleição de Portugal? Foi só à terceira ronda! Pois foi: não foi contra Barbados, foi contra o Canadá, a quem nunca tinha passado pela cabeça ser fintado por uma província da Ibéria. Mas foram eles que tiveram de sair, não fomos nós. E estava a Alemanha em liça, Alemanha que muitos entendem que devia ter um lugar permanente, não apenas rotativo. Mas o Público não diz que a Alemanha foi eleita à tangente do número de votos necessários para o efeito, já que, claro, no caso da Alemanha isso não interessa nada.

Claro, muita gente acha que isto não interessa nem em Rabo de Peixe. Vivem cá dentro, ponto final, nada a dizer. Já alguns dos que sabem que isto é importante tentam disfarçar: é que não cola nada com a sua (deles) tese peregrina de que Portugal tem uma péssima imagem internacional. Também se pode fazer como o Presidente Cavaco: «Para o Presidente da República, "esta eleição reflete o reconhecimento por parte da comunidade internacional do firme compromisso do nosso país com os valores e objetivos das Nações Unidas"». Será que ao Canadá faltava esse "firme compromisso"? A alguns parece sempre difícil de engolir que Portugal tenha êxitos. Por isso arranjam sempre explicações que excluem o nosso mérito activo. E depois ainda dizem que a crise é (só) económica.

eu, tal como o Jesus Cristo de Fernando Pessoa, ...


... não percebo nada de finanças.
Por isso me permito perguntar: se o Estado português tem de pagar juros de mais de 6% nos mercados para se financiar, não poderia pedir emprestado aos portugueses e pagar-lhes, digamos, 5% de juro? Era mais do que os bancos dão aos clientes e menos do que o Estado tem de pagar aos bancos. Bom para (quase) todos, não era?
Vá, expliquem-me lá onde está o rabo de fora do gato escondido nesta pequena adivinha - e, do mesmo passo, explicarão aos inocentes o que é o mundo de hoje (lá fora e cá dentro, também.)

10.10.10

ainda a liberdade de expressão no PS

12:50

A dar uma volta pelos jornais em linha constato que, nas eleições para as mais importantes estruturas intermédias do Partido Socialista, as "distritais", houve "surpresas", que resultaram de disputas (mais do que uma candidatura para a mesma distrital), tendo sido "renovadas" sete federações, em alguns carros correspondendo a mudanças de "sensibilidade". Tenho visto, nos últimos tempos, na blogosfera e nas chamadas redes sociais, muitos militantes do PS a discutir as suas preferências na praça pública. Algumas das eleições foram decididas por uma unha negra, não com maiorias tipo Coreia do Norte.
Nada disto é extraordinário, tudo isto é normal. Tudo isto acontece também em outros partidos portugueses - mas não em todos! Mesmo assim, há comentadores que dizem que há falta de liberdade de expressão no Partido Socialista. Pode haver, até pode: se houver quem se cale para melhor gerir a sua carreira. Mas disso não sei nada. E quem se cala pela carreira não me merece nenhuma simpatia - embora, pelos vistos, sejam esses quem merece a simpatia dos que andam muito preocupados com a liberdade de expressão no PS (por vezes os mesmos que, ao mesmo tempo, não vêem nenhuma problema de liberdade de expressão, digamos, no PCP).