22.1.10

o que eu tenho tentado apanhar um defeito neste blogue

18:33

direitos humanos / olhares / oportunidades

18:05

as causas dos terremotos

17:19
«E eis-nos chegados ao momento de dizer algo acerca das causas dos terramotos.
Não é difícil para um investigador da Natureza simular os seus fenómenos. Peguemos em vinte e cinco libras de limalha de ferro, noutras tantas de enxofre, e misturemo-las com água vulgar. Em seguida, enterremos esta massa a um pé ou pé e meio de profundidade e calquemos bem a terra que a cobre. Decorridas algumas horas, poderemos observar a libertação de um fumo espesso, a terra estremecerá e chamas irromperão do solo. Não há que duvidar que as duas primeiras matérias se encontram frequentemente no interior da terra e a água que se infiltra pelas fendas e frinchas das rochas pode pô-las em fermentação.»

Immanuel Kant, Escritos sobre o Terramoto de Lisboa, Coimbra, Almedina, 2005, p. 47 (primeiro artigo, datado de 1756, neste particular seguindo as teorias de vários cientistas, entre os quais o químico Lémery)





Earthquake House. US Patent Issued In 1995.
De Totally Absurd Inventions.

(Publicado anteriormente neste blogue a 25-09-07)

página 613

15:36

Vendo Settembrini aproximar-se, Naphta continuou:
-(...)
Quando, na nossa função de educadores, suscitamos a dúvida, uma dúvida mais profunda do que jamais sonhou a vossa modesta civilização, sabemos perfeitamente o que fazemos. Só do cepticismo extremo, do caos moral, nasce o absoluto, o terror sagrado de que carece o nosso tempo. Digo-lhe isso para justificar-me e para seu governo, o resto decidir-se-á depois. Receberá notícias minhas.


Thomas Mann, A Montanha Mágica


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Haiti e Lisboa, perguntas diferentes

09:00

O terremoto, seguido de maremoto, de Lisboa, em 1755, desencadeou uma crise tremenda no pensamento teológico e filosófico da época. A questão estava na dificuldade de compreender como pode acontecer o mal num mundo bem ordenado criado por Deus. Como pode Deus deixar que aconteçam coisas más? Como pode Deus, ainda por cima, deixar que sejam vítimas dessas coisas más aqueles que são bons, tais como as criancinhas e demais inocentes? Se Deus é benevolente, se Deus é todo-poderoso, como poder haver todo este mal no mundo?

Não foi fácil, nesse tempo, identificar onde estava o defeito do raciocínio. Ou pelo menos admitir onde tinha obrigatoriamente de levar a resposta: ou Deus não existia, ou não era todo-poderoso, ou não era benevolente. Resolver o problema passava por considerar outros factores que não o "culpado óbvio" com os poderes "óbvios" e a psicologia "óbvia".

Para lá do sofrimento humano que o Haiti representa e lembra, podemos ajuizar quanto o mundo mudou, pelo menos intelectualmente, por não nos ocorrerem já, a propósito do tremer da Terra no Haiti, as mesmas perguntas que atormentaram o mundo culto europeu sobre o terremoto e maremoto de Lisboa. As perguntas, hoje, haveriam de ser talvez mais acerca da prudência humana e da sabedoria colectiva. Ou da sua falta.





21.1.10

perguntem ao titular

14:46

«O texto de Fernando Lima, A minha verdade, repete a atitude de soberba irresponsabilidade do actual Presidente da República».
Esta frase de Valupi no Aspirina B, diz algo essencial: não é aos criados que se deve pedir contas; é aos titulares. É uma vergonha quando os eleitos se escondem atrás de biombos.

pérolas naturais / jornais / i i i i i

14:33



Maria João Pires, no jugular:
«Em cinco décadas, o número de crianças no pré-escolar cresceu 40 vezes, a taxa de escolaridade no ensino secundário escalou de 1,3% para 60% e o acesso das raparigas ao ensino subiu 15%. Este é o retrato do ensino português publicado nos "50 Anos de Estatísticas da Educação", que ontem o Instituto Nacional de Estatísticas (INE) divulgou. Os dados mostram que o país deu um salto gigante entre 1960 e 2008 mas, para os especialistas, essa evolução significa que Portugal está exactamente no mesmo ponto de partida de há 50 anos. "Fartámos de correr, mas não conseguimos ainda apanhar o pelotão da frente", avisa o sociólogo do Instituto de Ciências Sociais Manuel Villaverde Cabral. (...) Ora bem, perante esta descrição, (...) que título decidiu o jornal i dar à notícia? Ensino. Portugal está no mesmo ponto de partida de há 50 anos, perfeito, QED!»
Ler o mais: Pérolas do jornalismo português.

(imagem do filme Blindness / Ensaio sobre a cegueira, de Fernando Meirelles)

notícia: jornalista da RTP está consciente

14:21

ler

13:43

os pequenos leões

11:04


Sá Pinto já não é director desportivo do Sporting.
«Ricardo Sá Pinto terá abandonado já esta manhã o cargo de director desportivo do Sporting, na sequência dos desentendimentos com o avançado Liedson no balneário de Alvalade, logo após o jogo com o Mafra.» Alguns falam de murros, em lugar de desentendimentos.

Quem provou uma vez o sangue não lhe esquece o gosto.

novo mapa da europa

09:09




(recebido por email)

20.1.10

Pedro Santana Lopes



Parece que já está a acalmar o vozeirão por causa de uma medalha que Cavaco deu a PSL. Não vejo o ponto. PSL foi mesmo primeiro-ministro deste país, podem convencer-se disso. E, disso, a culpa não foi só dele. E os demais com parte na coisa estão bem. Em altos cargos.
Lá que o primeiro magistrado da nação tenha andado à espera que PSL morresse para a política para o condecorar, descobrindo agora que isso só acontecerá em caso de verdadeira morte física do homem, é outra coisa. Quanto ao resto, só vejo em tanta excitação o habitual querer que os culpados das nossas tolices colectivas sejam bodes expiatórios na forma particular deste ou daquele indivíduo.


página 514

19:30

– Bem, um jogo da natureza! – disse Hans Castorp. – Mas não é apenas isso, não é apenas uma ilusão. Porque desde que esses homens são actores, devem ter talento, e o talento é superior à estupidez e à inteligência, constitui, ele mesmo, um valor vital. Também Mynheer Peeperkorn tem talento, por mais que o senhor proteste e, graças ao seu talento, mete-nos a todos num chinelo. Coloque o Sr. Naphta num canto da sala e deixe-o fazer uma conferência do mais alto interesse sobre Gregório Magno e a Cidade de Deus. No outro canto, encontra-se Peeperkorn com sua boca estranha, erguendo as rugas da testa e que diz apenas: “Absolutamente! Permita-me... Basta!” O senhor vai ver que as pessoas se reunirão em torno de Peeperkorn, todas, sem excepção, e que Naphta ficará sozinho com a sua inteligência e a sua Cidade de Deus, ainda que se exprima com tanta clareza que nos penetre até a medula.


Thomas Mann, A Montanha Mágica


Merci! (contágios bons)

aprender a ler

16:20


Com José Ames:
Hoje li em "O Público" a crónica dum médico psiquiatra que observa, como outros já o fizeram antes, uma certa infantilização na nossa sociedade, pelo facto de, nas últimas décadas, só ouvirmos falar em direitos e nunca da outra face dos direitos que são os deveres e as obrigações. "E, mesmo que sejam dadas todas as oportunidades, se porventura houver alguém que não alcança uma aspiração, isso raramente é atribuído a um fracasso pessoal, mas a uma discriminação, mesmo que muitas vezes nem sequer tenha havido qualquer esforço para se obter sucesso." O resultado é uma "baixa tolerância à frustração".

Para ler tudo, Renúncia.


poema repetitivo


Ana Paula Sena Belo escreveu, para nosso proveito que lemos. Chama-lhe "poema repetitivo". E vale a pena ler. Começa assim:

As mãos de vidro fino
no ar translúcido indolente e raro
prendem o tempo nas palavras ditas
e nisso movem-se subtis
pois quando dizem escrevem
e é só no papel que são gentis

Deve ler-se na íntegra, aqui.

19.1.10

«Of Wolf And Man»


by Metallica and San Francisco Symphony Orchestra



figuras



Laureano Gisca, El Elegido, 2009
(na Arte Lisboa, 2009)



página 476 (*)

17:33

É, portanto, à imagem destes sonhos alienados que a narração pode proceder com o tempo; é à sua semelhança que ela pode tratá-lo. Mas se ela o pode então “tratar”, é óbvio que o tempo, como elemento da narração, também se pode converter em seu objecto. E se soa exagerado afirmar que se pode “narrar o tempo”, não parecerá, contudo, uma perfeita loucura, como se nos afigurava de início, querer narrar acerca do tempo, de modo que o epíteto de “romance do tempo” se pode revestir de um duplo sentido, singular e mágico. Na realidade, levantámos a questão acerca da narração do tempo com o único propósito de confessar que era isso precisamente que tínhamos em mente com a história que aqui apresentamos (…) Este é um aspecto que faz parte do (…) romance [de Hans Castorp], que é um romance sobre o tempo, independentemente do ponto que vista que adoptemos.

Thomas Mann, A Montanha Mágica

(*) As citações que anteriormente fizemos desta obra, bem como as demais que se seguirão, são retiradas da tradução feita para a edição do Círculo de Leitores, Lisboa, 1981 (tradução brasileira de Herbert Caro, revista para português de Portugal por Maria Manuela Couto e Maria Helena Morbey). Essa edição, esgotada há muito tempo, tem agora uma sucessora, na D. Quixote, 2009, com tradução directamente do alemão a cargo de Gilda Lopes Encarnação. A presente citação é retirada desta tradução mais recente, aparecendo nas páginas 612-613; o texto correspondente na outra edição aparece à página 476.