8.1.10

acabou o circo (os cristãos comeram os leões)

16:23


Rubens, Daniel na cova dos leões

«Acordo de Princípios para a Revisão do Estatuto da Carreira Docente e do Modelo de Avaliação dos Professores dos Ensinos Básico e Secundário e dos Educadores de Infância.» (versão integral, em pdf)

Agora já não se vê ninguém a brandir umas folhas de papel que supostamente mostram o carácter burocrático do modelo de avaliação. O que realmente interessava ficou agora mais claro. (Para quem, antes, não o tivesse vislumbrado.) Vale a pena ler o acordo (embora não seja fácil entendê-lo, devo admitir).


um abraço, tão só

14:34


Casamento entre pessoas do mesmo sexo aprovado pelo Parlamento.

Sobre este assunto tenho mantido, no essencial, o silêncio. Por achar que o debate público tem misturado, sem cuidado, coisas diferentes. Por pensar que se criou um clima de "politicamente correcto" que não permite debater sem acantonamentos. Por sentir que está errada a colagem destas questões às divisões esquerda/direita e religiosos/incréus. Por detestar o "legalismo" de certos debates e a tentativa, mais uma vez, de reduzir ao partidarismo um debate que é de civilização.
Não quero deixar, de qualquer modo, de enviar daqui um abraço a todos quantos sintam que este passo será para si uma libertação. Mesmo que, nesta questão, eu me sinta mais próximo de Cesariny do que de qualquer outro, quero reflectir-me na alegria das pessoas concretas que possam sentir que hoje é o primeiro dia do resto das suas vidas.

página 395

12:31


Mas o que os mundos de Naphta e de Joachim tinham em comum, sobretudo, era o seu sentimento em relação ao sangue derramado e o axioma de que não se devia impedir a mão de derramá-lo; nisso, sobretudo, concordavam estritamente, como mundos, como ordens e como estados e a um amigo da paz parecia notável o que Naphta contava dos monges-guerreiros da Idade Média, que, ascetas até ao esgotamento e, no entanto, ávidos de conquistas espirituais, não haviam poupado sangue no seu esforço de estabelecer a Cidade de Deus e o reino do sobrenatural; falava dos belicosos templários que julgavam mais meritório morrer na luta contra os infiéis do que morrer na cama e para os quais matar ou ser morto por amor a Jesus não era crime, mas a glória suprema. Ainda bem que Settembrini não estava presente quando Naphta expôs essas ideias!

Thomas Mann, A Montanha Mágica

a grande coligação (negativa)

11:15


Ainda não parecem muito claras as informações acerca do conteúdo do acordo entre Isabel Alçada e uma parte dos representantes dos professores. Contudo, se está correcto o que leio na imprensa, a coligação negativa é agora uma grande coligação que inclui o ME no leque dos que se dão as mãos para destruir o legado do anterior governo. A grande novidade da última ronda parece ter sido o recurso a reuniões simultâneas entre o ministério e diferentes organizações de professores. Especialistas em estratégia negocial identificam o recurso como um clássico. Só se esquecem de dizer que isso assinala que saiu de cena, entretanto, aquele que devia ser o principal interlocutor do ministério: o país. O interesse do país, que tem de ser tratado falando olhos nos olhos com o país, andou aos retalhos de sala em sala para compor a manta.
Se o que serve para a função pública não serve para os professores (quotas para as classificações de mérito); se a progressão na carreira não depende das necessidades do sistema educativo e do país (contingentação de vagas), como se já tivéssemos alcançado o socialismo utópico; se ser excelente ou muito bom deixou de ser assim tão importante para progredir na carreira e basta uma notinha mais ou menos (“bom”, apenas o terceiro nível na classificação, dá para fechar a carreira em general) – então, tenho dificuldade em compreender como serão efectivados os princípios básicos de premiar o mérito, de uma avaliação com reais consequências na carreira, de colocar acima de tudo as necessidades do país.
Vivemos na ilusão de que o país se resolve só com consensos. E, aparentemente, não estamos preparados para pagar o preço que custam as rupturas necessárias. Contrariamente ao que muitos julgam, isto não mostra que Maria de Lurdes Rodrigues estava errada, por ser possível um acordo. O que isto mostra é que MLR, apesar dos erros que cometeu, estava correcta no essencial: o que “a classe” queria não era desburocratizar a avaliação, mas sim vencer o Estado, derrotar um Ministério da Educação que pensasse no país e nas gerações futuras. “A classe” conseguiu.


(Permito-me lembrar o que escrevi a 17 de Novembro de 2008: 10 teses sobre a crise da avaliação docente.)

[Um produto A Regra do Jogo]

7.1.10

Pacheco / arquivo / vivo, digo eu

17:46






ir lá, ir lá. clicando, clicando.






não te incomodes; há coisas que não valem a pena



consensos e opções (entre o velho do Restelo e o Adamastor)



Ricardo Paes Mamede, no Ladrões de Bicicletas, publica hoje uma posta intitulada Não queremos consensos, queremos clareza nas opções. Devo anotar que discordo da alternativa: precisamos de consensos, tanto como precisamos de opções claras. Os consensos em algumas matérias limpam o terreno para que nos possamos focar nas diferenças relevantes, clarificando-as, depurando-as, dando-lhes o sentido que deve ter a política como arte de viver em comum: fazer escolhas colectivas. O que os consensos têm de ser é tão claros como as opções, em vez de nuvens de fumo para nos não vermos uns aos outros.
Contudo, descontada esta divergência, quero assinalar o interesse do texto de Paes Mamede. Para abrir o apetite:
O Governo deveria ser transparente e convincente na sua opção pelas grandes obras (TGV, aeroporto, auto-estradas) – incluindo no esclarecimento da aparente discrepância entre a defesa que tem feito do investimento público e os níveis de execução previstos a este nível. A oposição de Direita deveria deixar claro, justificando devidamente as suas posições, (1) se discorda que o investimento público é indispensável nesta fase, (2) se considera que os grandes investimentos previstos pelo governo deveriam ser cancelados (o que nunca se atreveu a fazer) e (3) se defende que a situação orçamental é tão crítica que exige um programa de ajustamento (não obstante as implicações dessa opção em termos de desemprego) e qual a natureza desse ajustamento. A oposição de Esquerda, que tem deixado clara a defesa do reforço do investimento público na fase actual, deveria esclarecer se se revê ou não nalgum programa de exigência no que toca às despesas e receitas do Estado (reconhecendo que as más decisões nestes domínios contribuem para acelerar a destruição de um Estado capaz de intervir no padrão de desenvolvimento económico e social).

Ler tudo em Não queremos consensos, queremos clareza nas opções.

página 256

09:00

«Hans Castorp foi ver o defunto. Fê-lo por antipatizar com o sistema estabelecido, que consistia em ocultar tais acontecimentos, porque desprezava o desejo egoísta de ignorar, não ver e não ouvir essas coisas e desejava contrariá-lo activamente. À mesa fizera uma tentativa no sentido de mencionar o óbito, mas houvera em face do assunto uma repulsa tão unânime e tão obstinada que Hans Castorp sentira vergonha e indignação. A srª Stohr mostrara-se até agressiva. Que ideia era essa de falar daquelas coisas? – perguntara. Que espécie de educação recebera ele? O regulamento da casa protegia cuidadosamente os hóspedes contra o contacto com tais histórias e agora vinha um novato e metia-se a falar disso em voz alta, justamente na hora do assado e ainda em presença do Dr. Blumenkohl, que, de um dia para o outro, podia ter a mesma sorte (isto acrescentado em voz baixa). Se isso se repetisse, queixar-se-ia.»

Thomas Mann, A Montanha Mágica

6.1.10

Homens que são como lugares mal situados

22:53


Catherine Woskow, Head Series - 1, 2009


Homens que são como lugares mal situados
Homens que são como casas saqueadas
Que são como sítios fora dos mapas
Como pedras fora do chão
Como crianças orfãs
Homens sem fuso horário
Homens agitados sem bússola onde repousem

Homens que são como fronteiras invadidas
Que são como caminhos barricados
Homens que querem passar pelos atalhos sufocados
Homens sulfatados por todos os destinos
Desempregados das suas vidas

Homens que são como a negação das estratégias
Que são como os esconderijos dos contrabandistas
Homens encarcerados abrindo-se com facas

Homens que são como danos irreparáveis
Homens que são sobreviventes vivos
Homens que são como sítios desviados
Do lugar


Daniel Faria (1971-1999)


Córtex Frontal

Albergue Espanhol



Os blogues valem pelo que lá se escreve (ou mostra, ou dá a ouvir). Do novíssimo Albergue Espanhol (que, diga-se de passagem, está com uma apresentação cativante) respigo uma posta de António Figueira, O Menino falou de mais:
A recente vaga de panos vermelhos com um retrato barroco do Menino Jesus que se abateu sobre as janelas de meia Lisboa (e imagino que outras localidades do país) teve um efeito perverso...
O resto, mais os comentários, por lá se encontram. Vale a visita.

anúncio

11:23



Para saberem ao que vão, uma amostra:



inventário


Aquelas lojas que anunciam que estão fechadas para inventário - estão a inventar o quê?


Et l'homme créa dieu






5.1.10

o drama da enxada no Homem do Farol

16:50

Viram o filme Torre Bela, de Thomas Harlan, que se passa no já longínquo país que é o Portugal de 1975? A nota de divulgação, aquando da reposição (salvo erro em 2007), rezava assim: «Documento único e extraordinário sobre a ocupação da Herdade da Torre Bela no Ribatejo no pós-25 de Abril. A 23 de Abril de 1975, cinco semanas depois do 11 de Março e dois dias antes do aniversário da revolução dos cravos, ex-trabalhadores agrícolas, prisioneiros políticos libertados e rufias invadem a herdade, propriedade do duque de Lafões, numa acção rara por decorrer no Ribatejo (quando a maioria das ocupações se passavam no Alentejo e o Ribatejo permanecia refúgio da Direita) e por não estar, ao contrário das outras, ligada ao Partido Comunista. Realizado por Thomas Harlan e produzido por Paulo Branco, é um acutilante olhar político sobre uma época, uma utopia e as suas contradições.»

Ora, esse filme tem um diálogo de antologia, que parece ser acerca da propriedade de uma pequena ferramenta agrícola, mas que é afinal sobre os mais complicados recantos da mente humana, da luta entre o que sonhamos ser e o que tememos que o mundo realmente seja. Um diálogo entre utopia e realismo. (Abaixo fica um excerto.)

Agora, o Homem do Farol está a dar o episódio em novela ilustrada. Começa aqui. Vamos vendo.




missiva


O ministro dos Assuntos Parlamentares enviou hoje uma carta aos partidos para aferir da sua disponibilidade para dialogar previamente com o Governo sobre a proposta de Orçamento de Estado para 2010.

Caro Ministro,

A fim de considerarmos a possibilidade de aceitação de alguma proposta sua, mas não querendo precipitar-nos na mera colocação da hipótese de essa possibilidade ter algum sentido, gostaríamos de saber se está a ponderar o cenário de vir a fazer-nos alguma proposta propriamente dita. Não está em causa, de momento, o conteúdo de qualquer avanço: o procedimento para uma eventual aproximação dessa fase superior da batalha não está sequer ainda à vista no nosso horizonte. Tão-só desejamos saber se fará sentido da nossa parte declarar uma disposição de princípio favorável a ouvir o que tem para nos dizer, já que não podemos, sem perder a face, declarar uma disposição para ouvir quem não tenha explicitado uma intenção de falar. Imagino que, da sua parte, Senhor Ministro, também existirá alguma relutância em se dispor a falar para quem de todo não admita querer ouvir. Para que isto não caia num impasse, sugerimos que o Senhor Ministro declare que, ao nível de um pensamento estratégico ainda apenas informal (que não informe), concebe a possibilidade de vir a falar com quer queira ouvir, desde que quem quer ouvir admita, ainda que num estado inicial de apreciação da questão, que não é de todo surdo. Isto seria, e digo isto apenas como ilustração, assim como aquela cena do "Vexa sabe que eu sei que Vexa sabe que eu sei". (A vantagem desta ilustração é que há já vários partidos que dispõem dos recursos humanos capazes de a interpretar, uma vez que os pertinentes "recursos humanos" viajam assiduamente de candidatura para candidatura.)
Em alternativa, Senhor Ministro, se isto lhe parecer muito complicado, poderia simplesmente cada um dizer ao que vem e depois falarmos.
Seu,
(assinatura ilegível)

Da Literatura



Caro Eduardo Pitta,

Chego sempre atrasado às festas. Às festas dos dias 1 de Janeiro de cada ano, mais do que atrasado: meio entorpecido. Não pela excitação do réveillon, que não tem sobre mim esse poder, mas meio entorpecido precisamente pela estranheza de não perceber bem onde está a magia do momento (Thomas Mann põe muito bem no pensamento de Hans Castorp a imagem de que o ponteiro dos segundos avança sem por qualquer modo distinguir quaisquer marcas especiais no mostrador) e de nunca ter dominado aquela técnica de combinar doze passas com doze badaladas. Em suma, o atraso às festas de 1 de Janeiro é um atraso gordo, sempre.
Neste caso, chego atrasado à festa dos cinco anos do Da Literatura, o blogue que agora é só para lavoura das tuas mãos e artes, um blogue colectivo de um conjunto de um só elemento (pouca matemática basta para saber que isto é correcto, independentemente de ser ou não politicamente correcto, coisa que não te importará muito), um blogue que não podemos facilmente guardar numa gaveta definida. Um blogue desintoxicante. O órgão pouco oficial de (terás de que desligar esta expressão do título do livro, porque não quero aqui misturar nenhuma hermenêutica) - dizia eu, o órgão pouco oficial de um exército de um homem só. (Não é o homem que é só; é o exército que é de um homem só.)
Chego atrasado à festa, mas não perco a festa. A festa continua. No Da Literatura. Agora, oficialmente, "o blogue de Eduardo Pitta".
Um abraço, também de parabéns, Caro Eduardo.



constitucionalistas de emergência

10:31

Segundo Rui Crull Tabosa, no Corta-Fitas, «o referendo não é apenas um instrumento de democracia directa, mas sim a mais nobre e autêntica manifestação da soberania popular no processo de formação da vontade política nacional a respeito de um determinado assunto concreto».
Pelos vistos, a democracia representativa deve ser para "assuntos não-concretos". Assuntos abstractos, provavelmente. O resto devia ser por referendo.
A conversa ali é sobre casamentos gay. Mas não está, para mim, em causa a diversidade de opiniões acerca dessa matéria concreta. O que me interessa aqui é a capacidade para torcer toda a argumentação, qualquer argumentação, em nome de qualquer interesse de momento. Falar do referendo como resposta universal aos problemas da formação de decisões colectivas numa democracia representativa, deixando de fora apenas os "assuntos abstractos", seria facilmente entendido como uma piada de café, nunca como uma proposta reflectida - não fora o espírito do "vale tudo, incluindo arrancar olhos, para defender o nosso ponto de vista". Espírito que, infelizmente, se tornou muito popular. Ou popularucho?

4.1.10

monstros antigos

19:11

Cunhal e Camus, ou o século XX que teima em persistir



A 3 de Janeiro de 1960, Álvaro Cunhal e outros presos políticos fugiram de Peniche, ridicularizando o salazarismo e devolvendo à militância anti-ditadura vários "quadros" de valor. Passaram ontem 50 anos. Como lembrou Irene Pimentel, no Jugular, neste post.

A 4 de Janeiro de 1960, Albert Camus morreu vítima de um desastre de automóvel, um homem que «defendeu, acima de tudo, a liberdade contra todas as formas de totalitarismo», como escreve o incansável camusiano Eduardo Graça, no Absorto, neste post e em outros que se lhe seguem.

Parte importante da tragédia do século XX, o confuso cruzar de cruzadas liberticidas que se reclamavam de libertadoras, viria ao de cima na forma de uma peça dramática se Álvaro Cunhal se pudesse ter cruzado com Camus no dia a seguir ao da fuga de um e dia da morte do outro. Para ajudar a lembrar o enredo, é útil esta cronologia de Camus, que agradecemos ao Eduardo Graça.

Útil para actualizar as nossas perplexidades.

3.1.10

Ágora, o filme

23:52

aqui escrevemos anteriormente sobre o filme Ágora, que está nas salas agora. O trailer é fácil de encontrar por aí. Aduzimos hoje mais um incentivo a ir ver: uma entrevista com o realizador, Alejandro Amenábar, num excerto legendado em português.



Podendo entender espanhol, vale a pena ver a peça mais completa, em três partes a seguir.









a morte da literatura


Ensaio literário de M. S. Lourenço, em Os Degraus do Parnaso(*)

A MORTE DA LITERATURA

A reflexão sobre a cultura está conspicuamente a tomar a forma de uma necrofilia. Esta já tem uma tradição centenária, se pensarmos que a primeira morte foi anunciada há um século quando Zarathustra anunciou então a morte de Deus e nos anunciou a visão do homem do futuro, o super-homem para além do bem e do mal, o qual representa uma transcendência ao mesmo tempo do humano e do divino.

A segunda morte teve lugar já no nosso século [XX], após a Segunda Guerra Mundial, ao ser anunciada a morte do homem e, eo ipso, a inexequibilidade do projecto do super-homem. Estas duas mortes estão entre si relacionadas, uma vez que a morte de Deus foi causada pela ciência e a morte do homem foi causada por um produto da ciência, a máquina. Assim, enquanto a ciência levou à eliminação da percepção mágica do mundo, a máquina eliminou o comportamento mágico do homem e transformou-o num autómato.

Somos contemporâneos da terceira morte, a morte da Literatura, tal como ela é anunciada no ensaio de Hans Magnus Enzensberger com o depressivo título Mediocridade e Loucura. Os algozes da Literatura não são uma entidade abstracta, como a ciência, ou um objecto material, como máquina, eles são antes os consumidores dos meios de comunicação de massas, para os quais Hans Magnus Enzensberger adopta a designação hierárquica de «analfabetos secundários». Estes distinguem-se dos analfabetos primários sobretudo pelo facto de, além de saberem ler e escrever (com erros), estarem limitados a imitar a linguagem dos meios de comunicação de massas.

Assim, enquanto a contradição entre a magia e a ciência dá origem à morte de Deus, e a contradição entre a alma e a máquina dá origem à morte do homem, agora a contradição entre a linguagem da imaginação e a dos meios de comunicação de massas dá origem à morte da Literatura.

Mas a morte da Literatura não pode ser exclusivamente imputada aos analfabetos secundários, e a injustiça desta imputação torna-se mais óbvia se considerarmos os géneros literários tradicionais.

O fim da poesia épica tem de ser atribuído a causas alheias à cultura da audiência a quem o poeta épico se dirige. O sentido do poema épico consiste essencialmente em apoiar a configuração de uma concepção de Estado, já realizada ou a realizar. Mas como os fins que os Estados actualmente propõem aos seus súbditos não podem ser sublimados, porque são manifestamente imorais ou porque são simplesmente mercenários, a degradação da figura do Estado arrasta consigo a obsolescência da poesia épica.

A morte da poesia trágica é também independente da incultura das massas. Ao contrário, é um produto da cultura que está na origem do desaparecimento do género trágico. Este produto da cultura é a doutrina ética conhecida pelo nome de «voluntarismo», uma doutrina segundo a qual a vontade precede e determina a acção. Mas é óbvio que num mundo onde eu só faço aquilo que quero, deixo também de ter qualquer experiência trágica.

Enfim, no que diz respeito à poesia lírica, os temas do sujeito lírico e da sua união com a natureza são inconciliáveis com a catástrofe ecológica. Para o poeta lírico, o mundo não só deixou de ser mágico como se tornou repugnante: os rios, as florestas e a lua já o são, em breve seguem-se os planetas do sistema solar e o espaço cósmico em geral.

É preciso tornar cristalinamente óbvio em que é que consiste a minha diferença em relação às teses de Enzensberger. Sem dúvida que a constituição de uma plebe audiovisual, com um número sempre crescente de participantes, torna a Poesia impossível, uma vez que deixa de haver interlocutor para a asserção poética. Simplesmente a plebe audiovisual, que representa a negação da cultura, está paradoxalmente associada com alguns produtos da cultura, os quais também podem ser vistos como a causa eficiente da morte da Literatura.

Deixando agora de lado os factores de carácter político e económico que estão na origem da decadência da poesia épica e da poesia lírica, voltemo-nos uma vez mais para os factores endógenos da cultura. Além do voluntarismo, a que já aludi acima como responsável pela obsolescência da tragédia, a doutrina de estética literária conhecida pelo nome de «funcionalismo» produz efeitos em tudo idênticos aos do analfabetismo secundário.

Para o escritor funcionalista, o fim da obra literária é a comunicação de uma ideia. E tal como numa comunicação telefónica a forma está subordinada à informação a transmitir, assim também na obra de arte literária a forma é função da mensagem. Nestas circunstâncias, o valor de uma obra de arte literária é o valor da ideia nela representada. Enquanto para Auerbach a narrativa do Novo Testamento é responsável pela queda da doutrina clássica dos estilos, em virtude de uma mesma pessoa ser ao mesmo tempo uma reencarnação do sublime e do vulgar, agora estamos perante uma doutrina para a qual o estilo e a forma deixam de ser o fim da obra de arte literária.

Não é assim de surpreender que ao funcionalismo se viesse juntar aquela forma de cepticismo estético que é representada pelo relativismo, o ponto de vista da estética literária segundo o qual tudo tem igualmente o mesmo valor: não há fronteiras entre o literário e o não-literário, e é indiferente se se lê uma crónica da Bolsa ou uma página de Proust. Mas evidentemente se tudo é igual a tudo, então também não vale a pena dizer nada, e é esta genuinamente a morte da Literatura.

A consequência prática desta doutrina é a abolição da diferença entre o escritor e o analfabeto secundário, caminhando ambos para uma legitimação recíproca e sem conflitos. Os escritores legitimam a plebe audiovisual escrevendo sem estilo e sem forma, sem exigências para consigo ou para com o seu público, o qual, por sua vez, legitima o escritor não fazendo perguntas, porque nem autor nem leitor sabem o que é o ramo de Eneias, o que é que Ariana faz na ilha de Naxos.

Entretanto, cem anos de perplexidade chegaram para mostrar que Deus não morreu, uma vez que a todo o momento os deuses ressuscitam. A segunda prognose também ainda não se realizou e, embora pendurado à beira de um abismo, o homem ainda não morreu. Ambos, Deus e o homem, são uma criação da Literatura, do Logos, que é o princípio por meio do qual as coisas passam a ser. Assim a morte da Literatura é o Apocalipse.


(*) A primeira edição d' Os Degraus do Parnaso é de 1991, por O Independente. A segunda edição, integral, coube à Assírio & Alvim, em 2002. Foi republicada em O Caminho dos Pisões, em 2009, pela Assírio & Alvim, que assim nos dá acesso à obra poético-literária reunida de M.S. Lourenço.
M.S. Lourenço, filósofo, ensaísta e poeta, morreu a 1 de Agosto de 2009, aos 73 anos. É um Professor de que tenho saudade; devia ter aprendido mais com ele, mas é preciso saber muito para aprender com os grandes.

Página de M.S. Lourenço como filósofo da matemática.

carta de amor de Rosa Luxemburgo para Leo Jogiches, 6 de março de 1899



I kiss you a thousand times for your dearest letter and present, though I have not yet received it […] You simply cannot imagine how pleased I am with your choice. Why, Rodbertus is simple my favorite economist and I can read him a hundred times for sheer intellectual pleasure. […] My dear, how you delighted me with your letter. I have read it six times from beginning to end. So, you are really pleased with me. You write that perhaps I only know inside me that somewhere there is a man who belongs to me! Don’t you know that everything I do is always done with you in mind: when I write an article my first thought is – this will cause you pleasure – and when I have days when I doubt my own strength and cannot work, my only fear is what effect this will have on you, that it might disappoint you. When I have proof of success, like a letter from Kautsky, this is simply my homage to you. I give you my word, as I loved my mother, that I am personally quite indifferent to what Kautsky writes. I was only pleased with it because I wrote it with your eyes and felt how much pleasure it would give you.

[…] Only one thing nags my contentment: the outward arrangements of your life and of our relationship. I feel that I will soon have such an established position (morally) that we will be able to live together quite calmly, openly, as husband and wife. I am sure you understand this yourself. I am happy that the problem of your citizenship is at last coming to an end and that you are working energetically at your doctorate. I can fell from your recent letters that you are in a very good mood to work […]

Do you think that I do not fell your value, that whenever the call to arms is sounded you always stand by me with help and encourage me to work – forgetting all the rows and all my neglect!
[…] You have no idea with what joy and desire I wait for every letter from you because each one brings me so much strength and happiness and encourages me to live.

I was happiest of all with that part of your letter where you write that we are both young and can still arrange our personal life. Oh darling, how I long that you may fulfil your promise […] Our own little room, our own furniture, a library of our own, quite and regular work, walks together, an opera from time to time, a small – very small – circle of intimate friends who can sometimes be asked to dinner, every year a summer departure to the country for a month but definitely free from works! […] And perhaps even a little, a very little, baby? Will this never be permitted? Never? Darling, do you know what accosted me yesterday during a walk in the park – and without any exaggeration? A little child, three or four years old, in beautiful dress with blond hair; it stared at me and suddenly I felt an overpowering urge to kidnap the child and dash off home with him. Oh darling, will I never have my own baby?

And at home we will never argue again, will we? It must be quite and peaceful as it is with everyone else. Only you know what worries me, I feel already so old and am not in the least attractive. You will not have an attractive wife when you walk hand in hand with her through the park – we will keep well away from the Germans. […] Darling, if you will first settle the question of your citizenship, secondly your doctorate and thirdly live with me openly in our own room and work together with me, then we can want for nothing more! No couple on earth has so many facilities as you and I and if there is only some goodwill on our part we will be, must be, happy.

Róża


(sobre Rosa Luxemburgo, por exemplo aqui ou aqui)