28.11.09

Melo Antunes e os anões

18:52

Vasco Lourenço lamenta ausência de Cavaco na homenagem a Melo Antunes.

A incapacidade pessoal de Cavaco Silva para compreender a estatura de Melo Antunes não me espanta. Mas não tenho nada a ver com isso: a sua pessoa privada não me interessa nada.
O crescente desplante com que Cavaco Silva dá sinais de ser presidente apenas de alguns portugueses, isso já me diz respeito. As teorias de Cavaco acerca do PREC, supondo-se que ele sabe o que isso seja, não me interessam. (Como se vê, quase nada no senhor me interessa.) Mas já me diz respeito que ele não se mexa quando se trata de fazer justiça a pessoas que representaram muito para este país. Mesmo que este país não saiba. Por exemplo, que esteve para haver uma guerra civil e que, se ela foi evitada, não foi uma bênção da Nossa Senhora de Fátima. Foi o fruto da acção de certas pessoas. Como Melo Antunes.
Mas Cavaco Silva não quer saber de nada disso. Fica lá sentado no seu Pulo do Lobo permanente. Talvez porque os demasiado pequenos não gostam de se perfilar ao lado dos gigantes. Fica-lhes pior submeterem-se à comparação ou fugirem a ela?

27.11.09

ele há democratas assim

23:40

the fun theory


O conceito: «something as simple as fun is the easiest way to change people’s behaviour for the better.»
Eis um exemplo:




The Fun Theory site


eles não sabem nem sonham...


... que nem tudo os seus poderes podem confiscar.

Este título do Público
Irão: autoridades confiscaram prémio Nobel da Paz da activista Shirin Ebadi.

é enganador.

A mesma notícia é, noutro passo, mais compreensível:
«A activista iraniana dos direitos humanos Shirin Ebadi revelou que as autoridades de Teerão lhe confiscaram a medalha e o diploma recebidos quando foi premiada com o Nobel da Paz em 2003. Os objectos foram retirados de um cofre pessoal num banco em Teerão há cerca de três semanas, no que a Noruega – país sede do comité do Nobel da Paz – avaliou como um acto “chocante e inacreditável”.»

As autoridades iranianas podem roubar certos objectos, uma medalha e um diploma, e isso tem o efeito chocante de representar a falta de respeito dessas autoridades pelo símbolo e pelo simbolizado. Mas as autoridades iranianas não podem roubar o prémio, pelo facto de não serem elas quem tem o poder institucional de atribuir o Nobel. Nem sequer de o tirar. E os humanos, além de serem uma espécie simbólica, são também uma espécie institucional. E, para uma espécie institucional, nem tudo o que parece estar à mão - efectivamente o está. Tal como não retiro a proibição de circular de carro num certo sentido de uma rua por roubar o sinal de trânsito que lá estava a assinalar essa proibição. Vai ser preciso repor o sinal, por razões pragmáticas e por questões de implementação da proibição - mas o sinal e a proibição são coisas diferentes.

Será que as autoridades iranianas percebem isto?

umas perguntas futuras a Cavaco presidente, acho que ainda


«Código contributivo adiado, fim do PEC e mudança no IVA. A oposição parlamentar impôs hoje a aprovação, na generalidade, de 11 dos 13 diplomas com medidas “anti-crise” do PSD, CDS-PP e PCP, vencendo a maioria relativa do PS, que votou contra.» (Diário de Notícias online)

«O ministro das Finanças, Teixeira dos Santos afirmou hoje que as medidas aprovadas hoje pelos partidos da oposição em relação ao Pagamento Especial por Conta e ao Código contributivo "terão complicações muito lesivas", considerando mesmo que "não há condições para poder levar por diante correcções das contas públicas".» (Jornal de Negócios online)

«Governo acusa oposição de ameaçar gerar desequilíbrio de 2300 milhões de euros ao Estado.» (Público)

«Ou trata-se apenas de tentar criar a ideia de que acabou a diferença entre governo e parlamento, estando o país à beira de ser governado em regime de soviete?»

«Sócrates alerta para “Governo da Assembleia”.» (Económico online)

A procissão ainda vai no adro, já que estas votações ainda foram "na generalidade", mas há desde já uma pergunta a fazer: Cavaco Silva, um PR que no que vai de mandato não se tem coibido de vetar diplomas do Parlamento, tomará que atitude quando lhe chegarem às mãos os resultados deste governo de soviete? Se o Presidente se tornar cúmplice desta forma de "governo da Assembleia", isso não será por força do destino. Será por opção política. Cá estaremos para avaliar essas opções.


26.11.09

a verdade é mais forte que as algemas

18:26

Só agora, pela mão do Rogério da Costa Pereira, do jugular, cheguei aos cinco minutos que José Pacheco Pereira dedicou na televisão ao Câmara Corporativa. Basicamente, JPP está aborrecido por o Câmara Corporativa ser eficaz a divulgar informação favorável ao governo. Na enchurrada, JPP chama vários nomes ao Câmara Corporativa, por exemplo dizendo que é um blogue "bizarro". Pena é que, no seu exercício, JPP não tenha indicado um único exemplo - um único exemplo - de uma informação falsa veiculada pelo Câmara Corporativa. O que dói, numa blogosfera dominada pelo ódio primário a Sócrates, ao PS e ao governo, é que haja quem publique verdades como punhos que tantos tratam de tentar ocultar.
Obrigado, Câmara Corporativa, Miguel Abrantes incluído, por combaterem a desinformação. A isso chamo serviço público. Cidadania. Democracia a funcionar. Contra os que prefeririam que os factos fossem escamoteados, marchar! marchar!

há gente que sabe cada coisa

18:00

Associação Sindical dos Juízes repudia acusações de “espionagem política” no caso Face Oculta.

Porquê?

«Os dirigentes da ASJP consideram não ter havido “qualquer coincidência temporal entre os actos eleitorais de Setembro e as operações policiais de Outubro.» É suposto eles saberem essas coisas?

«Os subscritores deste comunicado salientam o “infundado da imputação da violação do segredo de justiça aos elementos da investigação ou às autoridades judiciárias da comarca de Aveiro”.» Como é que eles sabem? Só contaram p'ra eles? Ou será que sabem quem não foi por saberem quem foi?

«O comunicado lembra ainda que contrariamente ao que foi noticiado, “as escutas autorizadas pelo juiz de Instrução de Aveiro nunca tiveram por alvo o primeiro-ministro, mas sim os arguidos no inquérito”.» Contrariamente ao que foi noticiado? Onde é que eles andam a ler notícias? Tanta confusão será de propósito? Será?!



o que é realmente uma coisa terrível?



Gwenda Maree McDougall, Oh Baby, 2006

f,rol

13:22


O f-world, da Fátima, é provavelmente o blogue que mais prazer me dá ler. E ver. E ouvir. (É por isso, pelo ouvir, que é dos que normalmente não visito quando estou no gabinete, que é partilhado com um colega.) Por razões que nem vale muito a pena explicar, é um objecto diferente. (Eu não conheço a Fátima de lado nenhum, note-se - a não ser da bloga.) É ir lá, ler, ver e ouvir. Se não gosta, não vou tentar explicar-lhe nada. Se gosta, apareça para conversarmos: alguma coisa havemos de ter em comum.
A forma que o f-world toma faz com que não tenha um rol como os demais. Calha, agora, ter um. Tirando a vaidadezinha deste Machina lá constar, é lista que vale a pena verificar. É o que vou fazer para um ou outro caso que constitui para mim novidade absoluta.

o Estado como empregador de última instância



«O combate ao desemprego e às suas consequências tem de ser a prioridade orçamental. Nenhum desempregado pode estar sem rendimento, nem que para isto seja preciso puxar pela imaginação política e encontrar forma de fazer do Estado o empregador de última instância» - lê-se, propõe-se, aqui.

Como ilustração do conceito, João Rodrigues aponta para um artigo cuja versão integral não estou a conseguir descarregar, mas em cujo resumo se faz uma ligação directa entre a ideia do "Estado como empregador de última instância" e a ideia do "desemprego zero". A ligação entre essas duas ideias é dada, nesse resumo, pela possibilidade de o Estado garantir uma taxa de desemprego zero, definindo-se "desemprego zero" assim: todos os que estão prontos, dispostos e capazes de trabalhar pelo salário que se oferece terão um emprego; "apenas" aqueles que não querem (ou não podem) trabalhar com os salários oferecidos ficariam sem trabalho (e esses normalmente já não são contados como desempregados).

Além da confusão que me faz, como ideia de sociedade, pensar no Estado como empregador de última instância - mas, manifestamente, isso não faz confusão a toda a gente -, esta proposta deixa-me outra dúvida. Aquela noção de desemprego zero faz-me lembrar aquelas teses segundo as quais quem quer trabalhar apanha o que há, seja o que for. Segundo essas teses, só merece ser realmente considerado desempregado quem não se recusa a vender a sua força de trabalho nas condições que o mercado permite, sejam elas quais forem. Quem é esquisito e não vende a sua força de trabalho a qualquer preço, paga as favas: nomeadamente, não tendo direito a protecção no desemprego. Ao mesmo tempo, essas teses convivem mal com "distorções" na formação dos salários, por exemplo com salários mínimos.

Será que a proposta de João Rodrigues passa por aceitar esta noção de desemprego zero? Estranho, porque isso seria a absoluta mercantilização do humano trabalhador, esquecendo que na condição de trabalhador (empregado ou desempregado) não conta somente a possibilidade de ser "factor de produção". Nem tudo aquilo que é "economicamente" aceitável é aceitável, humanamente. Acredito piamente que JR pensa como eu neste ponto. Deve, então, haver qualquer coisa que não percebi - e sobre isso gostava de ser esclarecido. Ou talvez não: talvez até haja experiências históricas concretas do verdadeiro significado do "Estado como empregador em última instância". São as experiências históricas do "eles fingem que nos pagam, nos fingimos que trabalhamos". Safa! como dizia o outro.

[Um produto A Regra do Jogo]


por que não passamos à democracia electrónica?


Governo: entre recuos e o fantasma da coligação negativa.Segundo executivo de José Sócrates posto à prova quando completa um mês.

Tal como as coisas estão, ou nem estão nem deixam de estar, aproxima-se a hora de testar a democracia electrónica. À hora do jantar toda a gente se senta em frente ao botão e vota sim/não/abstenção ao cardápio de "decisões" que tenham sido postas à "consideração" nesse dia. Votando cada dia umas quatro ou cinco "magnas questões", é um ver se te avias. Toda a minha gente "participa", acaba-se com os "intermediários políticos" (essa bagunça dos partidos) e só é preciso o tipo que junta cada noite as perguntas a fazer e as anuncia na televisão. E tudo se torna muito mais célere.
Com este jogo do "não governo nem deixo governar", aproximamo-nos do conceito da "democracia" electrónica. É que ter rumo não é bem a mesma coisa que ter uma molhada de rumos à compita. Já para admitir que podemos chamar "rumos" a certas coisas.

o monstro precisa de amigos

corpo traço corpo / criação artística / encontro

25.11.09

coisas que realmente contam

sócrates, vital moreira, portas o paulo, moderna a universidade

a minha comemoração do 25 de Novembro

14:34


Clicar na imagem para mais informação.

estas coisas são mais simples do que parecem




Tem toda a razão o Eduardo Pitta, do Da Literatura.
Estas coisas são mais simples do que parecem.
Tão simples como isto: os apoiantes - sejam fervorosos apoiantes, simpatizantes moderados, companheiros de estrada, militantes do mal menor, ou qualquer outro grau na escala - dizia eu: os apoiantes deste governo deviam ser proibidos de expressar opiniões em público. Passados à clandestinidade, não, já que convém que continuem a mourejar e estejam bem à vista para melhor identificação e controlo. Mas deviam ser silenciados. Aquilo que é permitido, e aplaudido, e premiado, em qualquer escriba que jure por alma de sua mãe que Sócrates é um filho de p***, é, pelo contrário, um crime de lesa-pátria se ocorrer na pena de qualquer desgraçado que não cumpra o ritual diário de cuspir em cima da "mãozinha". Esta é a cultura que muitos andam por aí a plantar, por variadas vias: desde conversas em família para intelectuais comprometidos em televisões simpáticas, até militantes do insulto soez em caixas de comentários.
À sombra dessa "cultura" medra uma nova classe de pidezinhos de meia tigela: aqueles tipos que googlam o teu nome e depois, pensando que te toparam, à falta de compreensão do que lêem implicam com coisas que não perceberiam nem que comessem enciclopédias ao pequeno almoço. São como aqueles pides que deixavam passar textos retintamente oposicionistas por nem lhes passar pela cabeça o que aquilo queria dizer. E, em geral, fazem isso a coberto de identidades manhosas, nem isso os inibindo de atacar com pedras e ferros os que escrevem sob pseudónimo. Mas, do fundo da sua caverna escura, mostram ter resolvido, afinal com facilidade, o problema da avaliação de desempenho de todas as classes profissionais: qualquer tolo que tenha um ódio cego a Sócrates, ao PS ou a este governo é, apenas por isso, o mais competente avaliador universal de qualquer distraído que ainda não se tenha convertido à mesma religião.

Ah, já me esquecia: isto tem tudo a ver com a minha política de aprovação de comentários aos meus posts. É só para que não venha ninguém ao engano.


uma pergunta a dois ilustres Ladrões de Bicicletas



Médicos vão receber mais 750 euros para ir para o interior, noticia o jornal i.

E acrescenta: «Os médicos que queiram ir trabalhar para o interior vão receber uma bolsa mensal de 750 euros, durante os anos de formação da especialidade que se seguem à faculdade (internato). Em troca, comprometem-se a ficar nos hospitais e centros de saúde que se ressentem da falta de profissionais pelo mesmo tempo que dura a formação (entre cinco e sete anos, consoante a especialidade médica). Caso contrário, têm de devolver o dinheiro. (...) Este incentivo representa um aumento de 69% sobre o ordenado base de um interno a partir do segundo ano de formação.»

A propósito disto, disto, disto , disto e disto, gostava, para continuar um debate que me parece útil, de perguntar ao João Rodrigues e ao José Castro Caldas, dois ilustres Ladrões de Bicicletas, o seguinte: esta medida, acima mencionada, também é mercantilização da saúde?


auto-retrato



Auto-retrato. Hong-Kong, Novembro de 2006.

24.11.09

eu nem peço muito



As notícias são boas: as coisas estiveram para ser piores. O que quer dizer que as notícias são más. O desemprego, a actividade, as expectativas, a confiança, a ideia de que se pode alimentar a família e pagar o aquecimento com umas poucas centenas de euros por mês, as caixas de comentários nos jornais on-line e as praças públicas nas televisões a mostrar que toda a gente acha tudo e o seu contrário sobre qualquer magno assunto e sempre com a máxima arrogância e certeza, os partidos todos no parlamento entrincheirados cada um na sua bancada à espera que algum deputado da outra banda ponha o nariz de fora para lhe atirar com um balde de merda, o juiz que vai à televisão e pediu para ser o último a falar por ter um estatuto diferente dos outros e não se ter ouvido nesse instante uma gargalhada nacional que até acordasse os espanhóis do seu sono reparador, os pobres que são sempre culpados de serem pobres e portanto merecem que lhes chamemos politicamente nomes feios por o Estado lhes dar umas esmolas que estariam de certeza muito melhor empregues a dar subsídios às piquenas e médias empresas, as piquenas e médias empresas que merecem a atenção de toda a gente pela simples razão de que são na sua esmagadora maioria tão mal geridas que deviam mesmo era desaparecer e deixarem o seu lugar ser ocupado por empresas a sério com salários a sério e produção a sério, o desemprego, a actividade, as expectativas, a confiança, está tudo pintado de cinzento. De negro, não; nós por cá nunca vemos nada negro. Cinzento é que vai bem connosco.
Eu nem peço muito. Só queria que arranjassem um governo que não estivesse obrigado a fazer-se de morto para tentar fazer alguma coisa pela calada da noite ou a coberto do nevoeiro. Um governo que não estivesse permanentemente a contar deputados pelos dedos. Um governo que pudesse colocar as cartas na mesa e deixar-se de palavrinhas mansas. Eu só queria que este país não fosse governado por uma coligação negativa, ainda por cima coadjuvada pela reunião de todos os ódios numa federação bizarra de vale tudo. Se esse governo tiver que ser PCP+PSD+BE+CDS, que seja. Mas não nos obriguem a ficar dois anos com os pés de molho a ler edições antigas do Tarzan, à espera das próximas eleições.

[Primeiro-ministro afasta aumento de impostos em Portugal.]

os argumentos pró-referendo

11:31

andamos todos a perder a candura


Houve um tempo próprio dos que eram verdes por fora e vermelhos por dentro, e quando esse partido-melancia, encomendado para fins bem estabelecidos, era a própria imagem da política que não era corrupta por dinheiro mas o era pelo vale-tudo de quantos têm sempre tudo muito justificado haja o que houver e faça-se o que se fizer.
Nesse tempo, nós, em vez de verdes por fora e vermelhos por dentro, éramos mais do feitio vermelhos por fora e verdes por dentro. Democratas radicais por fora, ingénuos até à medula por dentro, gozávamos ainda de uma certa candura.
A tragédia é que não há candura que resista a tanta miséria.
Andamos todos a perder a candura.


Graz (Áustria), Julho de 2009 (Foto de Porfírio Silva)

23.11.09

instintos e instituições

recomendação

aos leões, aos leões

18:44

BPN: Juiz mantém Oliveira e Costa em prisão domiciliária.

Assim à partida não temos meios para julgar correcta ou incorrecta tal decisão. Entretanto, indo por um aspecto que alguns talvez considerem lateral, um jornal escrevia no fim de semana que Oliveira e Costa, por ter as suas contas bancárias "bloqueadas", foi impedido de pagar uma dívida ao Fisco e, por acréscimo, foi para a lista negra dos que passam cheques carecas (o cheque não pôde ser honrado por não ter sido autorizada a movimentação da conta). E, segundo a mesma notícia, o tribunal nem sequer respondeu ao requerimento de Oliveira e Costa sobre essa matéria. E o mesmo terá acontecido ao requerimento para cessar o impedimento de acesso do homem à sua pensão de 2500 euros. Bom, tudo isto pode ser mentira. Vendo pelo mesmo preço que li. Mas, a ser verdade, é uma vergonha. E maior a vergonha se estes procedimentos são legais. Isso significaria que uma espécie de estado kafkiano faz as delícias de alguns em Portugal. E não só da populaça.

Design

12:15


O que sempre me atraiu no design: as coisas devem ser bonitas (são uma forma de arte), mas têm de funcionar (cumprir o fim a que as destinam). Nisso, uma qualquer peça de design é um magnífico representante das muitas coisas que na vida aguardam uma correcta série de decisões da nossa parte. Os utensílios que desempenham o seu papel no meio da maior fealdade: vai havendo quem o consiga. As peças bonitas que em absoluto se recusam a colaborar com a vida prática: entopem as casas tanto como os remorsos das utopias mal pensadas. Ideias com pés para andar que façam algo pela suavidade dos contornos: é mais raro. Também assim é em muitos departamentos da nossa complexa colmeia. Na filosofia, por exemplo. Em todas as filosofias abundam as abstracções (e algumas virão a tornar-se assassinas). E na política. Em todas as políticas. No dia a dia. Em todos os dias de todos nós há pecados que estão no desprezo do concreto. Contra essa maré, proponho a seguinte paráfrase do que dizia o outro: "a minha política é o design". Ou será antes "o meu design é a política"?