8.6.09

bengaladas, pois


Aparentemente, António Ribeiro Ferreira terá escrito hoje no "Correio da Manhã" o seguinte: "Como Constâncio não pede desculpa, é legítimo que alguém lhe diga que tão ladrão é o que vai à horta como o que fica à porta". Ou o senhor ARF é suficientemente burro para não perceber o ditado popular que refere, ou está a acusar Constâncio de cumplicidade activa nas fraudes cometidas em instituições bancárias portuguesas. Num país decente levaria bengaladas - ou pela ignorância, ou pelo insulto sem qualquer espécie de fundamento.
Como estava a precisar de me esclarecer, hoje gastei umas largas horas da minha vida a ouvir a audição de Constâncio na Comissão Parlamentar que investiga o funcionamento da supervisão. E percebi como se constrói a trama de aldrabices que por aí anda: basicamente deturpando o que os outros dizem e cometendo erros de lógica que levariam ao chumbo qualquer estudante universitário de lógica matemática. E também exigindo da nossa supervisão que ela fosse capaz de fazer aquilo que nenhuma supervisão consegue fazer em nenhum país do mundo.
E depois ouvem-se os telejornais e pergunta-se o que andaram os jornalistas de serviço a fazer durante toda a tarde, se não perceberam nada. Ou nada quiseram perceber.

Constâncio afirma que não tinha razões para duvidar de Oliveira Costa até 2008

finalmente MFL aponta um rumo ao país







lama

derrota, claro



Votos são votos, claro. São factos. Mas os factos não elidem as opções. Caso contrário, Berlusconi teria passado a ser gente de bem e recomendável só por ter ganho as eleições. Portanto, o debate não acabou aqui. E não estou assustado, acreditem.

(Esta é uma mensagem com destinatários anónimos, que são muito valentes mas não furam as minhas protecções electrónicas.)


derrota e troco

11:20


Alberto Savinio, Objectos na Floresta, 1928



(1) Para mim hoje é dia de digerir a derrota política de ontem. O que acho sobre isso a nível europeu já aqui escrevi ontem - e não precisei de esperar pelos resultados. Mas acho que ainda me apetece dizer mais qualquer coisa sobre este ponto na sua dimensão nacional.

(2) Esclareço, para quem tenha dúvidas, que nada disto me afecta nada em termos pessoais - não tenho coisa nenhuma e não faço coisa alguma que dependa de quem mande. Nem preciso de anonimamente insultar blogueiros em caixas de comentários para tirar partido da vida e sentir-me recompensado. Quer dizer: é a coisa pública, exclusivamente, o que me interessa neste tipo de guerras.

(3) Não acho boa coisa tentar disfarçar a derrota. Pesada. A peregrina ideia de tapar a derrota nas urnas com uma sondagem desactualizada pela própria dinâmica dos acontecimentos - pode ser interessante como produto comunicacional, mas é uma insensatez política.

Posto isto, ...

(4) A principal preocupação que me acompanha, agora como antes, é a da governabilidade. Portugal é um país pobre, com falta de qualificação das pessoas e das organizações, com um Estado fraco e insuficiente, em que a falta de sentido da responsabilidade é larvar - e não sairemos desse estado se cedermos por sistema a toda a colecção de egoísmos de grupo que continuam a ser a matriz básica da nossa vida colectiva. E há uma fatia grande do "povo de esquerda" que não compreende isso. E não será possível dar uma resposta política a essa situação se não se compreender o fenómeno de fragmentação da esquerda que levou ao estado lastimoso (por exemplo) da esquerda francesa. Aqueles que pensam que sairão vencedores desta situação varrendo os socialistas da cena - serão os arquitectos de uma paisagem política à francesa, com uma direita instalada e sem verdadeiro contraponto.

(5) "Modernizar" Portugal não é compaginável com uma falta de empenho suficiente em fazer de nós um país mais justo, com mais equidade. O capital continua a valer mais do que o trabalho - não marginalmente mais, mas escandalosamente mais. E não haverá "progresso" nenhum que não passe por uma transformação radical e acelerada deste quadro. Essa bandeira é uma bandeira de esquerda que tem de ser assumida por quem queira governar o país à esquerda - mas essa bandeira só pode mobilizar uma base de apoio forte se acompanhar um programa de desenvolvimento que não nos condene às visões assistencialistas da esquerda.

(6) Para o principal partido da esquerda portuguesa, o PS, isto implica mais do que meramente insistir na necessidade de uma maioria absoluta. Até porque, agora, essa insistência pode virar o feitiço contra o feiticeiro. Para o PS isto implica: manter em cima da mesa as grandes orientações do governo nesta legislatura (até porque ninguém compreenderia, e ninguém compensaria, cambalhotas apressadas) e, ao mesmo tempo, abrir um novo tipo de diálogo com os sectores políticos que têm o apoio dos grupos sociais que, no entender do PS, deveriam ser os beneficiários da política que tem seguido no governo. Em suma: a "esquerda moderna" não pode ser uma espécie de terceira via, a "esquerda moderna" tem de ser uma nova proposta para revitalizar a esquerda. A esquerda toda. É que não há soldados a mais nesta batalha.

José Sócrates não resistiu à escolha dos eleitores

europeias: para memória futura

11:15



Conservadores e Verdes foram os grandes vencedores da eleição do Parlamento Europeu, os socialistas averbaram uma pesada derrota.
O principal grupo conservador, o Partido Popular Europeu (PPE), será o maior bloco no Parlamento: 267 lugares resultando de 36,3% dos votos. Essa percentagem, quase igual à da última eleição, em 2004, representa uma vitória clara sobre os Socialistas Europeus (PSE), o segundo maior grupo, que deverá ter 159 lugares devidos a 21,6% dos votos, contra 27,6% na última legislatura.
É impossível comparar directamente a distribuição de lugares nas legislaturas 2004 e 2009, uma vez que a assembleia cessante tinha 785 assentos, enquanto a nova terá 736. Mas a vitória da direita é ainda mais pronunciada do que o que parece à primeira vista, porque o PPE enfrentou esta eleição sem o Partido Conservador da Grã-Bretanha, que pretende criar um bloco eurocéptico no PE. Se os Tories votarem com o PPE, o que acontecerá muitas vezes, as forças conservadoras no PE contarão com 296 lugares, um avanço ainda maior do que em 2004.
Enquanto a noite pertenceu ao centro-direita, os Verdes da Europa também celebram, com a sua quota a subir de 5,5 % e 43 lugares antes para 6,9 % e 51 lugares a partir de agora. Eles são o único grupo a ter aumentado votação e lugares desde 2004.
O terceiro maior grupo, a Aliança dos Democratas e Liberais pela Europa, viu a sua votação cair de 12,7% para 11%.
A eleição registou também ganhos significativos para a extrema-direita e eurocépticos em alguns Estados-Membros, incluindo a Áustria, Dinamarca, Hungria e Países Baixos. O abertamente racista Partido Nacional Britânico ganhou lugares pela primeira vez. Mas o principal grupo de eurocépticos e nacionalistas no PE perdeu terreno: a União para a Europa das Nações viu os seus lugares cair de 5,6% para 4,8%, enquanto o grupo eurocéptico Independência e Democracia escorregou de 2,8% para 2,7%.
A abstenção, por seu lado, registou novo recorde. Em contra-mão com o aumento dos poderes do PE, um facto nos últimos anos, que deve acentuar-se no futuro próximo, a abstenção atingiu 56,45%, contra 54,6% em 2004 (valores provisórios anunciado pelo Parlamento).



7.6.09

a decadência da esquerda europeia (3)



Os partidos socialistas que, sendo governo, nestas eleições para o Parlamento Europeu, apoiaram o inimigo - apoiaram Durão Barroso para presidente da Comissão Europeia - foram os principais perdedores. Grandes exemplos: Reino Unido, Espanha, Portugal. E ainda faltará escrever a história do apoio do gabinete de Durão Barroso ao candidato Rangel em Portugal.

Sócrates admite resultado “decepcionante” mas diz que Governo vai manter rumo

a decadência da esquerda europeia (2)

21:02

Reitero o que disse esta tarde, o que escrevi antes das projecções. Dito de outra forma: se os socialistas não fazem a diferença, e insistem em ser parecidos com a direita, tornam-se irrelevantes. E nada justificará votar neles. Quem, simplesmente, queira votar contra, votará nos extremos.

Direcção do PSD já reclama "vitória clara"

a decadência da esquerda europeia

15:13

Antes que as eleições de hoje para o Parlamento Europeu se decidam, fechem as urnas com os votos de alguns de nós lá dentro e comecem a fazer-se as contas, contas de que as esquerdas provavelmente sairão atrasadas face às direitas, mas principalmente contas de que essas contas não irão mudar nada na vida de ninguém, sendo essa a verdadeira desgraça - antes disso quero dizer aqui uma coisinha.
Morro de vergonha, ou pelo menos de tédio, por verificar que, à escala da Europa, ser de esquerda ou de direita é qualquer coisa que tem um significado que, para a esmagadora maioria das pessoas, se aproxima do enigma esfíngico. Nada que se entenda como tendo um impacte no rumo concreto das nossas vidas. Pelo menos que se veja e se compreenda. A direita francesa é muito mais "de esquerda" (à velha maneira) do que a esquerda inglesa, por exemplo. Sim, no que toca ao "Estado social" ou à "grandeza do Estado", essa é a verdade. Alguém, entre os que costumam andar de autocarro ou de metro nas cidades europeias, faz uma sombra de uma ideia de que real diferença faria ganhar o Partido Popular Europeu ou ganhar o Partido Socialista Europeu nestas eleições? As instituições europeias transformaram-se na caricatura da vazia grandiloquência: onde está o debate político europeu? onde estão as diferenças e as alternativas? onde está a negociação aberta e clara entre interesses diferentes, capazes de assumir essa diferença e de assumir ou que querem a guerra ou que querem a concertação, e porquê? Quem (quantos por cento do eleitorado) sabe hoje realmente o que passa pela Europa?
O tédio é o coveiro da democracia. E assim da Europa. Talvez aqueles que julgam serem a esquerda da esquerda da esquerda pretendam fugir a isso misturando todos os descontentamentos, todos os deserdados e todos os que anseiam liderar os deserdados, todas as utopias de trazer por casa, todos os facilitismos anticapitalistas. Mas não fogem a isso por não serem portadores de alternativa nenhuma, por continuarem a laborar no erro revolucionário de que se alcança uma sociedade nova pelo mero procedimento de virar esta que temos de pernas para o ar. Mas não alcança. Concedo: temos não apenas tédio, mas uma mistura de tédio e deste desespero radical. Mas dá o mesmo, a receita não melhora por causa disto.
A América tem o seu Obama, que não é um milagreiro (como sempre dissemos) mas está a tratar de tentar esse mínimo básico: criar um pólo de esperança positiva, a ideia de que é possível fazer diferente, tentar outros caminhos, mobilizar outras energias. E a esquerda europeia? Se a esquerda europeia tivesse de apresentar um rosto, uma face visível para mostrar como é capaz de pensar e fazer diferente, como pode ousar mover-se noutra direcção, como pode imaginar a viabilidade de progresso para todos numa base de maior equidade - quem mostraria? Quem?
Caro leitor, a sua resposta explica o resultado destas eleições europeias.



leituras



O muita terra é um objecto estranho. Devo confessar que teria provavelmente dificuldade em articular uma justificação nítida para continuar tão regularmente a visitá-lo. É que nada lá se serve em bandeja. É preciso espreitar os cantos das imagens a ver se compreendo, ler as breves anotações como falas de um filme que por vezes acontece ao longo dos dias num encadeamento de que dificilmente se suspeita. Não me arrependo, de todos os modos, já por causa de algumas imagens, já por causa de por lá se lerem de vez em quando umas palavras, como que descuidadamente deixadas, que afinal se atravessam no nosso caminho. Como estas, aqui:

«Toda a paisagem vem para dentro do meu peito, todas as casas, todos os bosques e pessoas e todas as praias. De tão grande que ele está, por causa da espera - esse bicho corrosivo.»