28.2.09

o teatro do cardeal


Louçã agradece "honra" ser sido transformado em principal adversário do PS.

O cardeal Prefeito da Congregação para as Causas da Esquerda está sensibilizado com o facto de o PS não lhe ter enviado chocolates e flores. Vê as convergências à esquerda como a sua quintarola, diz o que lhe apetece, sempre com aquele ar de "superioridade moral dos estalinistas-de-braço-dado-com-trotskistas" - mas ruboriza quando não o reverenciam. Quereria talvez que o PS lhe escrevesse uma carta de arrependimento? Que o PS abjurasse os seus pecados socialdemocratas e o fosse buscar para lhe entregar a virgindade perdida? Pachorra, eminência.

as esquerdas: a mínima, a máxima e a assim-assim


António Costa chama “parasita” ao Bloco de Esquerda.

O Bloco de Esquerda tem mostrado um notável desprezo pela crucial diferença entre, por um lado, dizer mal, coisa que algumas oposições acham suficiente, e, por outro lado, fazer melhor, coisa de que o país realmente necessita. Ao mesmo tempo, demasiados dirigentes socialistas parecem convencidos de que essa doença se cura tratando o BE com graçolas e piropos de mau gosto, em vez de tratarem de explicar seriamente ao país o que está em causa. Se calhar acham que o país não é capaz de compreender nada sem um módico de folclore à mistura. Ou então acham que o congresso precisa de animação, para parecer a festa de que falava Manuela. Até porque, vendo bem as coisas, se o PS não quer nada com o BE, por que se há-de importar com o facto de o BE não querer nada do PS? Incongruências da ladainha que se limita a repetir a reza pela maioria absoluta.


cuidar

(Japão, 2005. Foto captada e manipulada por Porfírio Silva. Clicar amplia)

iliteracia digital para totós


Computador de procurador do caso Freeport foi infiltrado por programa que permite controlo remoto .


Jogar com a ignorância. Neste caso com a ignorância de que o extraordinário evento narrado, podendo até ser grave (invasão das ferramentas de um procurador), não tem certamente nada a ver com o caso Freeport. Jogar com a ignorância, dizemos, por ser o caso que esses problemas de segurança digital são ubíquos, estão por todo o lado. E fazer de conta que isso deve ter a ver com este ou aquele caso, sugerir isso nas entrelinhas, é a cobardia do costume. E o caro leitor, que provavelmente já sofreu um ataque desse no seu computador, se calhar sem ter tido bem consciência disso, em que conspiração tenebrosa anda metido, hein?! O melhor é confessar já...

27.2.09

Louçã e Manuela, um par jeitoso


Bloco de Esquerda desvaloriza ausência do primeiro-ministro de cimeira europeia por esta ser "irrelevante".

Louçã, no fundo, está no mesmo tom de Manuela Ferreira Leite: desvalorizar as instituições. Cada um tem o seu cardápio de desprezos: MFL despreza os congressos partidários, Louçã despreza as instâncias comunitárias. (E não me venham com a desculpa de que se trata de uma cimeira informal: quem conhece o funcionamento da UE sabe bem que as reuniões "informais" são na realidade tão ou mais importantes do que as formais.) A "esquerda máxima" não precisa de se esforçar muito para convergir tacticamente com os discursos proto-facistas.

os erros do Público



Que o quotidiano Público está sempre cheio de gralhas, todos sabemos. Que o quotidiano Público até já publicou chaves erradas do euromilhões, talvez nem todos se tenham apercebido. Mas o Público hoje atingiu um novo máximo da sua inenarrável saga do disparate: estampa um preço errado para a venda da sua própria edição. Nesta sexta-feira "quase fim de semana", cada exemplar do Público custa 1,5 euros. Mas tem lá escrito que custa 1 euro e 40 cêntimos. Bravo, sr. Fernandes: atingiu mais um grau na sua experiência social designável "como transformar um jornal de referência num boletim paroquial". Os boletins paroquiais que me perdoem!


um discurso proto-fascista


Ferreira Leite diz que ausência de Sócrates na Cimeira Europeia será “inaceitável e escandalosa”.

Santos Silva acusa a líder do PSD de ter concepção “empobrecida” da democracia.

Manuela Ferreira Leite fala do congresso do partido que tem actualmente responsabilidades governativas nacionais como de "uma festa" a que Sócrates quer ir em lugar de ir a uma cimeira informal da UE. Como todos os proto-fascistas, MFL não tem o mínimo respeito pela função dos partidos em democracia. Mostra assim, também, uma parte do seu erro de método: tratou com ligeireza as suas responsabilidades partidárias, tratou os "seus" congressos do PSD como arraiais, com o resultado que se vê e que o país paga. Se se informasse antes de falar, saberia que nenhum líder europeu despreza desse modo as suas responsabilidades partidárias. E, além disso, MFL concebe as estruturas de poder da UE como "rodas de amigos", onde os "chefes dos índios" são indispensáveis, talvez por serem os únicos com o poder ritual de fumar o cachimbo da paz.
Os fascismos, no passado, não surgiram do nada. Surgiram de "dirigentes" que alimentaram os instintos básicos necessários ao desenvolvimento do fenómeno. Mas a contabilista não sabe disso, não quer saber, tem raiva de quem sabe - e continua a promover uma nova e mais perigosa versão do discurso da tanga.

26.2.09

Vergílio Ferreira e os robots


«Também tenho a minha parte de robot e não a nego. Mas sei que há outra coisa à minha espera e que só depois dessa é que não há mais nenhuma. Tenho apenas esta vida para viver, e seria quase uma traição que faltasse à sua entrevista – essa entrevista combinada desde toda a eternidade. Por isso eu a procuro à minha vida, em toda a parte onde sei que ela me espera com uma palavra a dizer. Os robots da loucura é que a ignoraram, porque o mundo deles é o da transacção imediata, um mundo táctil, de objectos, como o das crianças
Vergílio Ferreira, Carta ao Futuro, 1958
(consultada a 2ª edição, de 1966, na Portugália Editora, pp. 14-15)

É espantoso este comentário de Vergílio Ferreira, em dois sentidos. Primeiro, em 1958, uma certa compreensão de questões que poderiam ser suscitadas pela robótica. Em segundo lugar, e noutro sentido, e constituindo para mim algum desapontamento, uma certa incompreensão das crianças. Para dizer como seria pobre o mundo dos robots, compara-o ao mundo das crianças. Já se teria esquecido, nesse tempo, da sua meninice? Contudo, em certo sentido, quando deixamos a meninice - sim, talvez seja isso - perdemos certas coisas imediatas. Embotamos alguns sentidos. Mas sofisticamos outros, ou não? Ou o problema é mesmo esse: "sofisticar"?

Começa hoje o Ciclo de Conferências
Das Sociedades Humanas às Sociedades Artificiais.

25.2.09

apologia da crendice


Eu nem sequer sou um polemizador anti-religioso. Os ateus de hoje em dia até costumam achar que os agnósticos (que é o que sou em matéria de divindades) são uns moles, uns falhos de coragem, ou mesmo colaboracionistas. Pois, talvez. Mas não me excita a faca na liga dos ateus, nem a dos crentes. E sou contra tudo o que me parece excessivamente idiota.
A pérola que hoje vos proponho é uma citação do cardeal José Saraiva Martins, português que há muitos anos vive naquela quintarola ali no meio de Roma (não é a Avenida de Roma, é Roma mesmo), que foi até há pouco tempo Prefeito da Congregação para as Causas dos Santos. É da versão portuguesa do livro "Como se faz um santo". (Um grande título!)
E lê-se assim a páginas 41-42:
«Nas minhas orações dirijo-me com mais frequência, não aos santos, mas à Virgem Santíssima. Desde pequeno que a minha mãe me infundiu uma profunda e terna devoção por Nossa Senhora, de modo muito eficaz para uma criança. Mandava-me ajoelhar diante de um quadro mariano e dizia-me que, se eu rezasse com o coração, Ela me daria aquilo de que eu mais gostava. Era de rebuçados que eu mais gostava. E de facto, mal eu começava a rezar, caía-me uma mão cheia de rebuçados pela cabeça abaixo. Naturalmente, eu estava convencido de que era Nossa Senhora que os mandava, não a minha mãe, que estava atrás de mim. Como é maravilhosa e eficaz a pedagogia materna!»
É isto religião? Alguém me esclarece?



O senhor cardeal não devia comer tantos rebuçados.

24.2.09

porque insistimos que marcelo é aldrabão

aplaudo mas não sei porquê


BPP: PSD e PCP concordam com decisão do Governo mas pedem mais explicações.


Desde que esta "crise" se declarou, grande parte da oposição parece um frango com o pescoço cortado: dizem que sim, concordam, apoiam,... mas talvez não, talvez pouco, talvez muito, ... se calhar devia ser assim e ao contrário igualmente. Esta modalidade agora mostrada ao mundo (aplaudo mas não sei porquê) refina esse comportamento: concordam, mas querem perceber melhor. Mas se ainda não perceberam o que é que está em causa, por que concordam? Mas como é que concordam se ainda não perceberam o que se passa? É apenas uma variante de "não sei o que é, mas estou contra", que é o toque habitual das cornetas da oposição? Outras versões possíveis para esta oposição seriam: "isto é o que nós pedimos, mas estamos contra"; "isto é o único caminho possível, pelo que só a falta de imaginação do governo o leva por aí"; "não havia alternativa, pelo que o governo foi obrigado a agir assim e desse modo não tem nisso qualquer mérito". Ou então, na versão Marcelo das noitadas de domingo: acudam, que o governo quer a crise só para ele!


chamem a CEE




Gustave Courbet,A Origem do Mundo,1866


A Europa dá uma ajuda para resolver o problema.


Tanja Ostojic, Untitled, 2004



Para que não pensem que só há disto por cá.

«Tanja Ostojic / Statement

APA: your image has been called misogynist and sexist. can you imagine why? did you intend a reaction like that? why can't people stand to see the lower part of a woman's body?

T.O.: The Austrian tabloid Die Krone labeled this work pornographic despite the fact that there is no visible sexual organs on the picture nor has it been created to provoke an excitement of such kind, while the same yellow press paper is publishing images of naked women with an explicit erotic intention on a daily base. Die Krone could raise their edition with this superficial campaign and then moved on to new sensastions. A big part of the remaining press unintelligently overtook the media-scandal definition…

This work has been previousely published and on display already in Austria, but also in Canada, the U.K., Germany, the U.S. …in the form of being printed in Art Magazines, as a photography (46 X 55 cm) in art exhibitions, or as part of slide projections within my performance “integration impossible” and during lectures in Universities and public presentations. Several female and feminist theorists wrote on my work and a discourse of sexism was never brought into discussion in any of the above mentioned situations and I am sure that it doesn’t apply.»


o presidente da junta e os entrudos


Portugal contra decisões da UE tomadas apenas pelos grandes países.


«Os protestos da Bélgica, Polónia, Luxemburgo, Finlândia, Suécia e Portugal foram lançados, nesta ordem, numa reunião dos ministros europeus dos Negócios Estrangeiros. Estes seis países visaram a cimeira de líderes de outros seis Estados – França, Alemanha, Reino Unido, Itália, Espanha e Holanda – que decorreu domingo, em Berlim, para preparar a cimeira do G20 (formado pelos principais países ricos e emergentes) sobre a reforma do sistema financeiro internacional de 2 de Abril, em Londres.»

Que glória a de Portugal! Ser um português a abençoar a mais elementar traição àquele espírito comunitário que deu algumas realizações à "Comunidade Europeia"! Ser um português a dar um ar institucional aos grandes que aproveitam a boleia da crise para dividir a Europa entre potências e ajudantes! Os "grandes" da Europa, com Barroso convidado para os acepipes, não dão volta nenhuma à crise, mas aproveitam-na para mudar o poder na Europa mais a seu jeito - que é para isso que servem as crises, ora essa! E Barroso vai a todos os entrudos, não vá perder o seu lugarinho de presidente da junta de uma comuna belga qualquer.

22.2.09

ai ele é isso?


O aniversário de blogues diz que fazemos hoje dois anos. Obrigado pela informação. É um bocadinho irrelevante, mas sempre contribui marginalmente para o aumento do nosso auto-conhecimento.