23.1.09

como votaria Lídia Jorge?


Avaliação dos professores: Sócrates critica deputados do PS e acusa oposição de oportunismo.


Avaliação docente: Jaime Gama participou na votação do diploma do CDS-PP.


Alegre critica discurso do Governo mas também aponta o dedo aos professores.


Publiquei aqui, ontem, uma leitura do texto de Lídia Jorge sobre a educação e a excelência. Olhando para a forma como todas as oposições, do CDS ao BE, convergem hoje em dia em questões de educação - num tema que em tempos era de águas tão separadas em termos ideológicos - pergunto-me agora se a escritora se juntaria a esta "transversalidade". Será que as questões de "identidade" se tornaram, na escola pública portuguesa, mais importantes do que qualquer outra coisa: como no conflito israelo-palestiniano, em que ser "judeu" ou ser "árabe" é para muitos prioritário sobre qualquer juízo acerca de quem tem ou não tem razão?


a nova era Bush


Actuais actividades do ex-presidente G.W. Bush
(Clicar aumenta. Cartoon de Marc S.)

22.1.09

O racionalismo da acção enganou a humanista?

09:54

Lídia Jorge publicou no passado dia 9 de Janeiro, no Público, um artigo intitulado “Educação: os critérios da excelência”, que tem sido muito referido (mas muitas vezes mal citado) como espécime de fina análise ao actual momento vivido nas escolas portuguesas (ensino não superior). O respeito que a escritora nos merece sugere que não deixemos por considerar as suas palavras.

1. A escritora nunca se coloca no plano da oposição substantiva às reformas da Educação que estão em causa. Faz até o elenco parcial de alguns créditos deste governo nessa matéria: “iniciou reformas aguardadas há décadas, (…) conseguiu que o país discutisse a instrução como assunto de primeira grandeza, fez habitar as escolas a tempo inteiro, fez ver aos professores que o magistério não era mais uma profissão de part-time, arrancou crianças de espaços pedagógicos inóspitos”. Aceita a necessidade de distinguir a excelência entre os professores, nem sequer critica o princípio da titularização em si – critica a forma como foi aplicado. Não critica o princípio da avaliação docente, que considera, a par do anterior, outro “instrumento ao serviço da excelência”. Escreve mesmo que “Era preciso inaugurar nas escolas uma cultura de responsabilidade que até agora fora relegada para determinismos de vária ordem, menos os estritamente pedagógicos”. O que critica é o modelo que foi proposto. Portanto, a escritora denuncia fortemente vícios na aplicação de duas linhas de reformas fundamentais, mas fá-lo em nome dessas reformas. O que se estranha é que escreva como se ignorasse que muitos dos que lutam contra esta concreta forma de aplicar as reformas só tacticamente aceitam os princípios. Por exemplo, a maioria, quando diz que não está contra a avaliação, mas contra esta avaliação, está num exercício táctico. A maioria, quando critica as injustiças cometidas no processo de titularização, visa mais longe: está contra aquilo a que chamam “a divisão da classe”. Como é que podemos saber que isto é verdade? Não vou invocar o que ouço a professores, nem o que leio na blogosfera, nem o que vejo nas manifestações. Invoco o que os representantes dos professores propõem à mesa das negociações: o que realmente mostram aí, explicitamente, é que estão contra o próprio princípio de uma carreira diferenciada, que estão contra o princípio de uma avaliação com consequências relevantes. Uma parte do problema é essa “dupla linguagem”. Um equívoco fundamental do texto de Lídia Jorge é ignorar esse problema. Ignorar que ao ME faltaram os parceiros certos no terreno, é um grave erro de análise. Faltaram ao Ministério parceiros para uma negociação séria, parceiros que aceitassem responsavelmente que cabia ao Parlamento e ao governo definir os objectivos políticos centrais das reformas – e que usassem de boa fé na procura de soluções ajustadas à sua concretização.

2. No que toca à titularização, a escritora critica vários aspectos da sua concretização. Considera que foi um erro criá-lo de um momento para o outro – mas, quando escreveu antes que um dos méritos desta equipa foi iniciar reformas aguardadas há décadas, não percebe porque foi (e é) necessário andar depressa? Entende que a escola não estava preparada para esta diferenciação dual – mas nada sugere quanto à forma de preparar a escola para a mudança: não mudando? Ou mudando e corrigindo os erros? Ou o problema será o carácter dual da diferenciação – já seria melhor se houvesse três categorias em lugar de duas? Diz que se aplicaram critérios aleatórios: parece-me simplesmente falso – alguns critérios serão errados, não aleatórios. Acusar o ME de aplicar critérios aleatórios é pesado e grave; uma acusação dessas teria de ser substanciada, e não foi. Sugere que se aplicaram critérios administrativos e não se aplicaram critérios pedagógicos nem científicos (“em vez de”), o que, mais uma vez, carece de explicação. Cumulativamente, a acusação de que se usaram critérios aleatórios e a acusação de que não se usaram critérios pedagógicos ou científicos, que foram excluídos para se usarem critérios administrativos, constituem um libelo pesado – para quem, sendo escritora, sabe o que valem as palavras, a carecer de melhor fundamento.
Ainda no que toca à titularização, diz que ela foi negada a professores competentes. Suponho que sim. Quer porque nem todos os professores competentes serão excelentes, quer porque erros graves no processo impediram professores excelentes de serem titularizados. Essa é também a minha convicção. Contudo, a escritora diz mais: diz que foram titularizados professores maus e muito maus, e que “basta visitar algumas escolas” para se perceber isso. Lídia Jorge avalia professores por “visitas”? Acho estranho. Dos anos em que fui professor e tive responsabilidades de direcção pedagógica, lembro-me de pelo menos dois ou três casos de professores em que andei meses (anos?) para tentar perceber se eram excelentes ou péssimos, se eram extraordinários revolucionários ou perigosos desestabilizadores. E, comigo, outros hesitavam e se dividiam: depois de analisar detalhada e detidamente os seus métodos. Mas a escritora visita a escola e fica logo a saber. Acho estranho. E acho até perigosa a pretensão. Ou a ingenuidade.

3. Quanto à avaliação de desempenho, Lídia Jorge não avança muito contra o que o ME tem feito. Centra-se num argumento de infantilização dos professores, o qual aliás não é novo. Daniel Sampaio já escreveu que “a avaliação fomenta problemas interpessoais entre professores” (Pública, 16/11/08), como se eles fossem incapazes de fazer da avaliação um exercício profissional (como fazem tantos outros profissionais altamente qualificados) e só pudessem cair na armadilha de fazer da avaliação profissional uma questão de conflito pessoal. Lídia Jorge vai por caminho idêntico, acusando este modelo de avaliação de ser “um sistema que transforma cada profissional num polícia de todos os seus gestos, e dos gestos de todos os outros”. A confusão perniciosa entre relações profissionais e relações pessoais, misturada com uma concepção paternalista das relações de trabalho, alimenta o medo da avaliação rigorosa. Estamos no mesmo: os professores, apesar de constituírem uma classe altamente qualificada, e uma das que mais estão preparadas para avaliar, são ditos incapazes de uma cultura colectiva de avaliação exigente. O que me parece um insuportável atestado de menoridade aos professores.

4. O resto, lamento dizê-lo, não anda muito longe do insulto. Misturar a Ministra com a brincadeira do “Papá, sou ministro!”, e outros mimos, mostra falta de equidade no exercício. A escritora, cidadã, ao olhar para um problema público sem considerar a questão da partilha das responsabilidades, está a faltar às suas próprias responsabilidades. Não olha para os parceiros que faltaram neste processo (os professores que recusam mudanças substanciais necessárias na sua carreira, os sindicatos que confundem o seu papel com o papel do poder político mandatado para cumprir um programa de governo aprovado pelo parlamento), não olha para a história (quais os mecanismos que foram usados, ME após ME, para deixar ficar o essencial sempre na mesma) – e fundamentalmente não olha para as alternativas. Emparceira, assim, no grande exército dos críticos sem visão: a sua grande ideia é parar. Desistir. Se desistirmos agora, desistimos por quantos anos? Décadas, como até agora – como sublinha a própria Lídia Jorge.

5. Afinal, o artigo da escritora enferma de um erro tão grande como a boa vontade que estamos certos a move: o hiper-racionalismo da acção.
Quem boicotou as estruturas de acompanhamento da concretização, quem evitou apresentar as dificuldades concretas de terreno nas estruturas vocacionadas para as resolver, quem impediu que implementação e revisão de processos andassem a par – fê-lo apoiando-se num mito. O mito hiper-racionalista da acção. De acordo com esse mito, primeiro analisamos exaustivamente a situação, elaboramos um detalhado modelo do mundo, definimos metas precisas, desenhamos planos e sub-planos de vária ordem até ao detalhe exacto – e, depois do planeamento, executamos. Executar seria, nesse mito, apenas aplicar o plano, se possível rigorosamente até ao movimento corporal mais básico. E se a coisa não funcionar impecavelmente, é porque o planeamento racional falhou em algum lado. A maior parte das críticas à avaliação de desempenho dos professores, pelo menos as que fazem as delícias da maioria, assentam implicitamente neste mito. Também a de Lídia Jorge.
Só que, uma vez que nenhum modelo é perfeito, tentar eliminar um modelo por ele não ser perfeito equivale a tentar matar antecipadamente todos os modelos que venham a ser tentados. Nenhum modelo pode ser aperfeiçoado apenas em teoria; é na prática que vão encontrar-se os ajustamentos necessários; nunca passando à prática, nunca chegamos a apurar nenhum modelo. (“Faz-se caminho caminhando.”) Não compreender isto é cair numa armadilha. A armadilha que Lídia Jorge projecta no passado (“reformas aguardadas há décadas”), mas em que volta a cair no presente. O seu texto é uma cedência de fundo ao errado e perigoso mito do hiper-racionalismo da acção. Com a infeliz consequência de levantar a sua respeitada voz para defender a desistência – por mais quantas décadas?

(Este texto publica-se aqui, e não em qualquer outra parte, porque às páginas nobres do Público só se tem acesso em condições que nós, normalmente, não reunimos.)



20.1.09

quem serão os próximos antiamericanos?


Barack Obama prepara uma ambiciosa primeira semana na Casa Branca.


Quando George W. Bush fazia disparates, e alguns protestávamos, uns tantos diziam que éramos antiamericanos. Quando os americanos se fartaram dos disparates do homem, não ficou claro se esses americanos também deviam ser apelidados de antiamericanos. Agora que chega Obama, estou para ver quem serão os próximos antiamericanos, pelo menos na Europa. A direita, assustada pelo anticonvencionalismo do afroamericano? Ou a esquerda, presa nos seus próprios atavismos e desiludida com as suas próprias doses excessivas de imaginação?

19.1.09

alguém me ajude, por favor


Paralisação dos professores. Tutela lamenta “intransigência” dos sindicatos e considera greve “bastante inferior”.


Eu devo ter perdido alguma parte da conversa. Onde é que posso encontrar a proposta dos sindicatos para uma avaliação alternativa, exigente, com consequências na carreira, com consequências no sistema, que não deixe todos iguais a todos, sem burocracias, e que demonstre que não querem ESTA avaliação mas querem uma avaliação justa? Alguém me pode indicar o link, se faz favor?


o sal do pão - ou, o Estado omni isto e omni aquilo

14:24
Numa recente reacção registada na caixa de comentários deste blogue, o suposto vasto controlo exercido pelo Estado no nosso país era exemplificado pelo controlo da quantidade de sal no pão.
Curioso. A merecer, assim de repente alguma breves observações.
Desde logo, que o Estado não controla a quantidade de sal no pão. Controla a quantidade de sal no pão que é colocado à venda no circuito comercial legal. Não controla o sal que uso no pão que faço em casa para consumir graciosamente com a família e os amigos, nem controla o sal que se ponha no pão que seja vendido nos circuitos da economia subterrânea (vasta e, provavelmente, admirada pelos anti-estatistas).
Mas, porquê controlar a quantidade de sal no pão?
Ou, numa variante: porquê controlar, digamos, a quantidade de veneno para ratos colocada no pão? Porque há-de ser ilegal colocar veneno para ratos no pão que compramos na padaria? Não deveríamos ter a liberdade de comprar na padaria pão condimentado com veneno para ratos? Ah, é porque esse veneno mata? Mas o sal em excesso, a mais longo prazo, também mata. Será uma questão de prazo? Então, a que prazo deve matar um veneno para poder ser incluído como ingrediente no pão? Um veneno que mate em dois dias deve ser proibido, um veneno que mate em cinco anos deve ser permitido. E um veneno que mate ao fim de uma semana de consumo? E ao fim de duas?
O "veneno" é uma questão de saúde. O sal também. Nada disto tem a ver com estatismo. Tem a ver com o facto de que eu não posso ser obrigado a distinguir entre um pão com veneno dos ratos e um pão sem veneno dos ratos. E de eu não ser obrigado a distinguir entre um pão com uma quantidade de sal que me faz mal à saúde e outro pão que não me faz mal nenhum.
Os teóricos da "liberdade individual contra qualquer mecanismo de regulação pelos poderes públicos" acham que eu é que devo arranjar-me para decidir se quero o pão com pouco ou muito sal. (Com ou sem veneno.) Mas como é que eu faço isso? Que tipo de maquineta devo levar comigo quando vou comprar pão para fazer as análises prévias? E como é que apuro o nível de sal que seja seguro: encomendo um estudo a uma universidade?
O facto de eu achar que me daria muito trabalho tudo isso, e de achar que tenho mais o que fazer, e de preferir que haja organismos idóneos que regulem essas coisas por vias institucionais, que usam o conhecimento disponível de forma razoável, enquanto eu me dedico ao que realmente me interessa ou me ajuda a ganhar a vida - esse facto demonstra, para alguns, que eu tenho uma mente doentiamente socialista.
Para mim demonstra que, no meu conceito de liberdade, a liberdade de todos passa pela organização do colectivo. Para que a liberdade seja daquilo que realmente conta, e não um chavão para gente fina. Ou ideológica. Afinal, uma questão de civilização, julgo eu.

18.1.09

a esquerda de Sócrates



Enki Bilal, A Caçada


Sócrates quer maioria absoluta, promete referendo à regionalização e defende casamento homossexual.



O Público não diz, mas pode ler-se, logo a abrir a moção de Sócrates ao próximo congresso do PS:
«O mundo acaba de assistir à clamorosa derrota do pensamento político neoliberal. A ideologia do mercado entregue a si próprio, sem Estado nem regulação capaz, e a especulação desenfreada nos mercados financeiros são os responsáveis principais pela profunda crise que se abateu sobre toda a economia mundial.
A doutrina neoliberal, que professou a sua fé no mercado e desprezou o Estado e as suas funções sociais, não foi o único pensamento político a reclamar para si o estatuto de pensamento único. Anos antes, tinha também tombado o pensamento comunista, e o seu projecto de uma sociedade totalitariamente determinada pelo Estado. Também ele ambicionara ser um pensamento único, com pretensa fundamentação científica, querendo substituir o pluralismo das ideias pelo império da ortodoxia.»


Juan Muñoz @ Serralves 2009





visões





Porto, 3 de Janeiro de 2009 (Foto de Porfírio Silva. Clicar aumenta.)