10.1.09

ménage à trois


Era um curioso par de senhoras.
Uma, que em certo sentido era a linha da frente desse pequeno conjunto, era super controlada. Podia perfeitamente esconder o que lhe ia na alma retirando-o da sua expressão na face, podia perfeitamente sorrir quando queria chorar, podia perfeitamente chorar quando queria sorrir, podia perfeitamente mostrar desinteresse quando estava interessada, podia perfeitamente mostrar desinteresse quando estava distraída, e o desinteresse e a distracção são coisas diferentes, podia perfeitamente mostrar simpatia quando apenas sentia pena, e a simpatia e a pena são coisas diferentes, podia portanto mostrar deliberadamente uma aparência não coincidente com o seu real estado de espírito. Essa senhora era a linha da frente, a vanguarda, desse pequeno conjunto de duas senhoras.
A fraqueza da camuflagem desse pequeno grupo de duas senhoras era a outra senhora. Era a senhora que constituía a retaguarda. Na melhor das hipóteses, o grosso da coluna, por assim dizer. Essa segunda senhora era mesmo a senhora segunda: nunca por ela mesma tinha interesse e, portanto, nunca por ela mesma não mostrava o seu interesse. Nem tão-pouco desinteresse. Nunca por ela mesma sentia hostilidade face aos outros, e portanto também não mostrava hostilidade. Nem sentia inveja e portanto não mostrava inveja. Nem sentia desejo e portanto não mostrava desejo. Por ela mesma nada mostrava e camuflava perfeitamente, porque não tinha nada para camuflar, porque nada sentia por si mesma, para si mesma, em relação aos outros. Ou, ao menos, tinha aprendido a esquecer esses desvarios.
Mas quando este pequeno conjunto de duas senhoras, constituído por uma vanguarda e por uma retaguarda (ou por uma vanguarda e o grosso da coluna, e em todos os casos é sempre o grosso que suposta o mundo) – dizíamos, quando este conjunto de duas senhoras era exposto ao sexo oposto, esta dupla perfeita funcionava maravilhosamente mal. Porque a senhora de vanguarda não mostrava nada do que não queria mostrar e mostrava só aquilo que queria que se visse, mas a senhora de retaguarda era um espelho, um espelho límpido, não da sua própria alma, que não tinha, mas da alma da sua vanguarda. Como ela sabia o que a sua vanguarda, a outra senhora, queria, saber que lhe advinha do constante convívio amigável, ela reagia, de forma completamente despudorada, isto é, sem qualquer protecção, sem qualquer disfarce, sem qualquer filtro, ela reagia de acordo com o que sabia serem os interesses profundos da sua vanguarda, da outra senhora. Se a outra senhora estava perante um homem que ela queria hostilizar, essa senhora da vanguarda podia não o hostilizar, mas a outra senhora, a senhora segunda, hostilizava mesmo sem querer, porque expressava com todo o seu ser tudo aquilo que ia na alma que ela conhecia, a alma da senhora primeira, a única que verdadeiramente dispunha de uma alma. Se a senhora primeira estava perdidamente apaixonada pelo homem que tinha em frente, mas queria, por subtileza, por táctica, por estratégia, por decoro, por educação, por pudor, queria evitar mostrar a sua louca paixão por aquele homem que tinham em frente, a senhora segunda, completamente consciente da louca paixão, mas paixão com pudor, da primeira senhora, a segunda senhora mostrava-a à transparência. Não mostrava a sua própria alma, mostrava a alma da senhora primeira. A senhora segunda não mostrava a alma da segunda senhora. A senhora segunda mostrava a alma que tinha, a alma da primeira senhora, completamente reflectida nas suas águas. Se o homem pelo qual a primeira senhora se sentia ora apaixonada aparecia e as olhava, a segunda senhora não sentia nada por esse olhar, mas mostrava em toda a largueza da sua face, em toda a liberdade da sua boca, na evidência dos seus gestos corporais, o que sabia estar na alma da senhora primeira. Essa paixão. Nesse sentido, neste pequeno conjunto de senhoras, de suas senhoras, uma vanguarda e uma retaguarda, uma estava permanentemente traída, a primeira, enquanto outra estava permanentemente traidora, a segunda. Porque a primeira senhora escondia tudo, maravilhosamente, isto é, com uma eficácia admirável, e só deixava transparecer aquilo que queria que entrasse na sua verdade oficial, e normalmente queria que a verdade oficial estivesse para a verdade como a razão de Estado está para a razão. Mas a segunda senhora, que não aspirava nem deixava de aspirar a transmitir de seu o que quer que fosse, por si própria não encontrando dentro nada de assinalável, ignorando com valentia o problema do reflexo facial do mundo interno de dramas íntimos que não reconhecia, espelhava inteiramente o interior da outra senhora na sua própria face.
E perante este cenário, sendo eu o terceiro nesta relação desigual, sendo eu o homem à conversa com aquele conjunto de duas senhoras, eu falava com a senhora da vanguarda com os olhos postos na cara da senhora da retaguarda, guiando os meus passos exploratórios, os meus avanços e recuos, dispondo as minhas interpretações e recolhendo as minhas pistas, não pela cara, pela fala ou pela disposição corporal da senhora que me interessava compreender, mas pela cara, face e disposição corporal da acompanhante. Porque a acompanhante me mostrava, em toda a magnífica transparência da sua candura, se as minhas recentíssimas falas à primeira senhora eram do seu agrado ou não eram. E isso eu via-o na cara da segunda senhora. Se uma frase minha tivesse tocado a carne da primeira senhora, que era a senhora que eu queria tocar, eu podia avaliar o alcance desse toque ou o seu fracasso, não na cara da carne tocada, mas na cara da carne intocada. Involuntariamente assustando o carácter incerto da primeira senhora, obtinha uma retracção no corpo da segunda senhora, e pura impassibilidade em toda a região da primeira senhora. Obtinha medo na intocada, e intocabilidade na assustada, numa perfeita correspondência entre uma alma e um corpo, embora de dois seres diferentes.

(Os nomes dos personagens são fictícios.)

9.1.09

a piada privada do mês


[Nada do que se segue deve ser lido: não merece o esforço. Mas não pude impedir-me de o fazer...]



Vasco Pulido Valente escreve hoje, na sua crónica no Público, que António Costa é "um antigo apoiante de Alegre".
Isto, para a generalidade das pessoas, não quer dizer nada.
Para uns milhares, é um erro factual (espera-se, por isso, que VPV venha zurzir, já amanhã, na ignorância de VPV).
Para mim, conhecendo os personagens, é uma piada das boas. A piada do mês.
(Eu avisei que era uma piada privada. Mas posso traduzir: isto é mais ou menos, salvaguardadas as distâncias devidas por respeito, como dizer que Mário Soares é um antigo apoiante de Cavaco.)
Rebolo-me a rir só de pensar na cara de António Costa...

6.1.09

obviamente


Banco de Portugal e BPN recusaram enviar documentação ao Parlamento, alegando segredo profissional e sigilo bancário.


Obviamente. Democracia não é só eleições. Um Estado de Direito também é um Estado onde cada um faz a sua parte. Separação e equilíbrio de poderes. E de funções. O Parlamento meteu-se por esta trapalhada por demagogia. O próprio partido maioritário não pôde resistir à onda, porque já o acusavam de "querer esconder alguma coisa". Um dia destes alguém quererá que brigadas parlamentares façam buscas domiciliárias em substituição da PJ. Razão pela qual é saudável que haja instituições que defendam as suas funções próprias e recusem alinhar na confusão. O Parlamento tem muito que fazer, se souber, sem atrapalhar as demais instituições.

a entrevista: agora a sério: 2- o entrevistado

09:56

Sócrates esteve como de costume. Explicou bem o que anda a tentar fazer, concentrou-se no que interessa e deixou os pormenores de lado. Não se percebe muito bem qual é a diferença entre este socialismo e uma democracia-cristã socialmente avançada - mas esse é outro problema. Manifestamente, a uns meses de muitas eleições, o secretário-geral do PS não está interessado em sublinhar ainda mais os sacrifícios que se fizeram e terão de continuar a ser feitos - mas isso é compreensível, porque passou os últimos anos, na prática, a exigir esforço aos portugueses. Aqueles que, dizendo que Sócrates não fala verdade acerca das dificuldades, sugerem que ele pratica demagogia, deviam ter vergonha - não há, pelo menos desde o governo Mário Soares/Mota Pinto, um executivo tão pouco eleitoralista como este.
Alguns dizem que Sócrates não é humilde, porque não confessa os erros. Estará nessas cabeças que o exercício governativo é um exercício intelectual de "consideração teórica do que poderia ter sido se..."? Governar é fazer. Haverá de existir oposição para mostrar como se devia ter feito diferente. Esse é o contraditório que pede a democracia. Não se pode pedir ao governo que governe e ainda faça oposição também. Falta contraditório porque faltam alternativas. E a prova do pudim é comê-lo (apresentar alternativas a julgamento). Mas que isso falte não é culpa de Sócrates. Para desgosto dos que apreciariam o exercício estalinista das "confissões de culpa" para expiação, não é assim que as coisas funcionam em democracia.

Entrevista à SIC. Sócrates: “Tudo aponta para um cenário cada vez mais provável de recessão”.

a entrevista: agora a sério: 1- os entrevistadores

09:47


Acerca da entrevista de Sócrates, ontem, à SIC.

Primeiro, os entrevistadores. Gomes Ferreira fez perguntas que eram mais simpáticas do que pareciam, porque davam a Sócrates a possibilidade de se explicar sobre nuvens que por aí pairavam. Na maior parte dos casos, Sócrates não percebeu isso. Quanto a Ricardo Costa: o reguila mal educado. Parecia demasiado excitado com a presença do PM em sua casa, parecia pensar que estava num debate com o PM (não estava, estava numa entrevista), parecia achar-se infalível (o que Sócrates dizia eram opiniões, o que ele diziam eram verdades definitivas), parecia confundir o interesse dos espectadores em ouvir o PM com o seu próprio interesse pessoal em dizer a Sócrates o que ele podia abordar, cavalgou os temas mais demagógicos como um puto que está a roubar o berlinde ao vizinho (e foi engraçado ver Gomes Ferreira a fazer-lhe sinais discretos com a mão a tentar acalmá-lo para se poder perguntar alguma coisa de jeito). Numa entrevista destas os entrevistadores estão tão ou mais pressionados do que o entrevistado, porque serão julgados pela sua classe profissional: Gomes Ferreira, muito sólido como sempre, não acusou o toque; Ricardo Costa, pelo contrário, pareceu estar mais concentrado na plateia do que no seu trabalho.

Entrevista à SIC. Sócrates: “Tudo aponta para um cenário cada vez mais provável de recessão”.


a entrevista

5.1.09

retrato de portugal


Aquela que poderia ser uma das mais impressionantes casas barrocas do país é... só fachada. A Casa das Obras, também conhecida por Obras do Fidalgo, fica em Vila Boa de Quires, próximo de Marco de Canaveses, e se é verdade que não passa de uma dramática e imponente ruína, não deixa também de fazer adivinhar o ambicioso projecto pensado para o local há 250 anos.






(Fotos de Porfírio Silva. Janeiro de 2009)




Tivesse sido concluído e, hoje, não haveria grandes dúvidas em considerar o palácio mandado edificar pelo fidalgo António de Vasconcelos Carvalho e Menezes em Vila Boa de Quires, por volta de 1750, como uma das mais belas e imponentes casas construídas em Portugal durante o período barroco. Ficou-se, no entanto, pela fachada. Monumental. Grandiosa. Cenográfica...Mas, mesmo tendo em conta que nos encontramos perante “uma das mais impressionantes construções barrocas do país”, é dramática e inverosimilmente apenas uma fachada...

Conhece-se pouco sobre a história deste insólito monumento. As suas características artísticas, entre as quais se salienta a riquíssima decoração rocaille das portas e janelas, não deixam grandes dúvidas quanto ao arranque da construção em meados do século XVIII. Sabe-se, de resto, que aquando do terramoto de 1755 já decorria a construção.

O fidalgo responsável pela edificação da mansão pensou, seguramente, numa construção de dimensões consideráveis. Tal é evidente não só no impacto que ainda hoje a frontaria transmite, mas também na invulgar espessura das paredes que não raramente atinge os sete palmos. Adivinha-se, portanto, com alguma facilidade o ambicioso projecto pensado para o palácio. A verdade porém é que a edificação se ficou pela fachada.

Mas, que motivos terão levado António de Vasconcelos Carvalho e Menezes, Fidalgo da Casa Real, a suspender a construção?

Não há também respostas para esta questão e as explicações misturam muitas vezes factos reais com outros que possuem já o estatuto de lendários.

Afastada está a hipótese das obras terem terminado por morte do fidalgo uma vez que este faleceu apenas em finais de 1799 numa altura em que a construção há muito estaria parada. Popularmente conta-se que o promotor da obra se teria desinteressado do projecto quando, culminando uma série de acidentes que se vinham registando na construção (e há, de facto, referências à morte de pelo menos um operário por queda “abaixo das obras”), é o próprio arquitecto que, durante uma visita, perde a vida na sequência também de uma queda. Não há, no entanto, qualquer prova histórica da ocorrência deste episódio.

Outra possibilidade muitas vezes apontada é a do projecto se ter revelado bastante dispendioso, abalando os recursos financeiros de António Carvalho e Menezes. É possível que esta hipótese tenha algum fundamento. Mas não explica tudo. Pensamos, de resto, que a explicação residirá provavelmente numa conjugação de vários factores onde se deverá ter também em linha de conta o facto do fidalgo não ter tido filhos legítimos “nem ilegítimos”, como salienta o seu testamento. Sem descendentes directos a quem deixar o seu sonhado palácio, ter-se-á desinteressado do projecto deixando a fachada ao seu irmão.

O facto de nenhum dos proprietários seguintes ter equacionado a hipótese de completar o palácio fez com que a ruína se tenha perpetuado no tempo como uma obra inacabada estando, de resto, na origem do nome pela qual é tradicionalmente conhecida: Casas das Obras ou Obras do Fidalgo – uma das mais imponentes e belas construções barrocas do país, mas também um dos seus monumentos mais inverosímeis e patéticos. O suficiente para há algumas décadas um milionário norte-americano ter querido comprar a fachada para a desmontar e erguer, posteriormente, numa sua propriedade na América.

(Excertos do texto, de Joel CLETO e Suzana FARO, "A Casa das Obras em Vila Boa de Quires: É só fachada", in O Comércio do Porto. Revista Domingo, 6 Junho 1999, p.21-22.)