15.11.08

1/4 de quilo de razão?


Marcha de protesto de professores a caminho da Assembleia da República.


Sindicatos falam em 20 mil participantes, autoridades em sete mil.


Há uma semana, a manifestação dos professores foi gigantesca. Muitos disseram: "tanta gente não pode estar errada". É a via quantitativa para a razão: a razão está na ponta dos números.
A manifestação de 8/11 teve, diz-se, 120.000. A manifestação de hoje, vejo nos jornais electrónicos, teve umas centenas. Vá lá: uns milhares. Isso quer dizer, naquele raciocínio, que esta manifestação tem uma ínfima parte da razão da manifestação anterior. A manifestação de 8/11 teve toneladas de razão, a manifestação de hoje teve, digamos, 250 gramas de razão. 1/4 de quilo.
É claro que este raciocínio é idiota. A razão não resulta da quantidade de manifestantes. Nem hoje nem há oito dias. Mas aqueles que medem a razão pela quantidade dos desfilantes deveriam meditar na lógica intrínseca da sua tese.

14.11.08

BÓRGIA, de Manara e Jodorowsky - Parte 1


Juntas, a maestria de Milo Manara na erotização da imagem e a de Alejandro Jodorowsky na construção de ambientes esotéricos e simbólicos, dão um notável resultado na série Bórgia, série cujo primeiro volume saiu em francês em 2004 e teve tradução para português de Portugal em 2006. O segundo volume, que já saiu no Brasil, parece que ainda não apareceu por cá. Vamos aqui ler o primeiro volume, qualquer dia daremos conta do segundo.



Capa.
(Todas as imagens podem ser aumentadas clicando sobre elas.)


Este álbum retrata um tempo (final do século XV, princípio do século XVI) e um lugar (o Vaticano, cidade-estado no meio dos conflitos intrincados em que estavam atolados vários estados da mesma península) - tempo e lugar que eram de corrupção generalizada dos costumes, incluindo no meio do alto clero da Igreja Católica. Um tempo de desordem civil, de guerra e de insegurança, de instabilidade política. Um cenário onde o quartel-general da Igreja Católica é uma potência política podre por dentro, mais do que uma instância religiosa que reivindicava ser "a representante de Cristo na Terra".



O Papa Inocêncio VIII queixa-se da situação política.


Nesta Roma, personagens como o frade Savonarola, que entendem dever denunciar os podres da sociedade, são considerados fanáticos por se dedicarem a essa denúncia.



Savonarola pregando.


Além de um retrato de época, esta obra é também um retrato de papas. Claro, antes de mais, do Papa Alexandre VI, de seu nome Rodrigo Bórgia, espanhol (catalão), que foi o príncipe da corrupção sem limites, antes e durante o seu reinado papal, entre 10 de Agosto de 1492 e a sua morte em 18 de Agosto de 1503.
Contudo, a história começa com o seu antecessor, o Papa Inocêncio VIII, que ocupou "o trono de S. Pedro" entre 12 de Setembro de 1484 e a sua morte a 25 de Julho de 1492. Inocêncio VIII aparece aqui já às portas da morte - mas mesmo assim exibindo alguns dos seus traços característicos. A sua luta contra a doença e a morte, ainda assim, deram-lhe algum pioneirismo: foi a primeira pessoa a receber uma transfusão de sangue, embora não lhe tenha valido de nada. Mas alguém pagou essa inovsção...





Inocêncio VIII, beneficiário da primeira transfusão de sangue.


Esse mesmo Papa tinha mais ideias estranhas acerca das formas de se revitalizar...






De qualquer modo, mesmo os Papas morrem. Inocêncio VIII (os nomes que eles escolhiam) não foi, nisso, excepção. E quem estava decidido a tomar-lhe o lugar era o já mencionado cardeal Bórgia, que tinha, aliás, o apoio do seu antecessor. As pretensões do Bórgia não se deviam às suas particulares virtudes. Antes, à sua ambição. O facto de ter uma mulher/amante, com casa posta por ele e por ele publicamente protegida, não era impedimento.




É claro que a peste tinha de obedecer ao cardeal,
especialmente na função de protector da sua amante.



Está bem de ver que obra onde Manara ponha a mão explora o mais desbragadamente possível todas as pistas sexuais. É também assim o caso com a figuração do primeiro encontro entre o cardeal Bórgia e a sua amante especial nesta época: ele encontra-a estando ela a "sexualizar" com a estátua de um santo.




Tudo isto assentava na ideia de Deus como um instrumento dos poderosos da Igreja, como se exemplifica na fala do quadradinho seguinte.



"Se o ser misterioso a quem chamamos Deus não o impedir,
tornar-me-ei papa..."


É pois esta criatura virtuosa que parte à conquista do trono papal. Era por votos, mesmo assim. Havia, pois, que comprá-los. Isto já está muito pesado e, portanto, poupamos aos leitores alguns dos episódios desta fase da história... Mas, claro, o episódio de eleição do sucessor apostólico de Pedro, mete toda a política mais suja, incluindo a eliminação física de apoiantes dos adversários.





Seja como for, o cenário da eleição propriamente dita é grandioso...




E depois de algumas peripécias, está santamente eleito o Papa Alexandre VI.




Está assim no seu lugar, para a continuação da série, o respectivo "herói".
E, mais uma vez, onde Manara se mete a desenhar temos prometida exuberância. E já vimos noutras ocasiões que ele sabe escolher o material, de tal modo que mesmo aquilo que nos parece exagero da sua parte é, quando vamos a ver, rigor histórico e fidelidade aos materiais "sérios". É que a vida propriamente dita é tão bizarra que às vezes Manara até pode parecer um inocente desenhador...

(Nota: as imagens são da edição brasileira, e não da portuguesa.)

afirmativo!


Cavaco Silva apela à serenidade e desanuviamento na educação.


Para corresponder ao apelo de Cavaco Silva, vou deixar-me de polémicas e daqui a bocado vou publicar aqui uma matéria mais ligeira, divertida e, talvez, quem sabe, até bastante educativa. Espero que o PR aprecie o meu gesto - e, se não for sonhar demasiado alto, que aprecie também a matéria que servirei.

está aí algum professor a ouvir-me?


É que se está gostava de lhe fazer uma pergunta. Os cidadãos em geral, nem professores, nem alunos, nem membros do governo: temos direito a ter uma opinião sobre a vossa avaliação, e a vossa luta, e as vossas propostas? Ou não temos esse direito? Ou somos obrigados a esperar passivamente que "a batalha" entre professores e governo acabe de algum modo?
Explico porque faço esta pergunta. É que alguns comentadores (de caixa de comentários) parecem achar que, se não conhecermos todos os pormenores burocráticos da vossa vida avaliativa, só temos mesmo é de estar calados. É que parece que, como cidadãos, não temos o direito de ajuizar da árvore pelos frutos. Estou errado? E se estou, em que medida?
Obrigado pelo esclarecimento.Sindicatos de professores lamentam insinuações de manipulação de alunos.

sindicatos, associações, clubes, ou rua?


Dezenas de alunos começam a concentrar-se em frente ao Ministério da Educação .


Quando havia verdadeiro "movimento estudantil", as sucessivas equipas do Ministério da Educação, a começar pelo inefável Cardia, acharam que era perigosa a sua "politização" e julgaram que a "normalização" passava por domesticar a maralha. Uns fizeram isso diminuindo o papel institucional das associações de estudantes, outros deram a sua ajuda transformando as associações de estudantes em sociedades recreativo-desportivas. Depois, quando já não havia maneira de conversar, os "putos" começaram a mostrar os rabos. E, desde então, não há conversa nenhuma que não passe por manifestações "selvagens".
Desestruturar as organizações representativas, na esperança de que isso poupe aborrecimentos, só pode dar mau resultado.

o grande educador


Mário Nogueira apelou esta manhã em conferência de imprensa a que as escolas "elejam como acção prioritária a suspensão da avaliação".


Ainda pensei que, nas escolas, o prioritário fosse a educação...

O caos como método, portanto. O Estado de direito democrático, esse, fica ao nível do bloqueio das estradas pelos camionistas. Ou os camionistas, lá por não serem licenciados, têm menos direito a "contornar" a lei?

Mais: "Mário Nogueira revelou ainda que algumas escolas deram Excelente a todos os professores, sem fazerem diferenciação." Portanto, o Alberto João não estava tão longe da "razão" assim...

E ainda: "O entendimento acordado em Abril só serviu para desbloquear a relação com as escolas e iniciar o ano lectivo." Portanto, o entendimento foi uma farsa, um truque, uma falsificação, é isso? E depois ainda se queixam de o "diálogo" estar em crise...

PS e pais afirmam que alunos podem estar a ser instrumentalizados.


os professores, as eleições e a democracia


Educação: António Costa admite que descontentamento pode levar PS a perder a maioria .


Alunos faltam às aulas e protestam contra políticas educativas do Governo
.


Costa tem razão. Mas também não é preciso ser muito esperto para perceber isso. O que é inteligente nele é não negar uma evidência, quando negar evidências é uma especialidade do político "médio" português.
Mas a questão central permanece: deve um governo, por razões eleitorais, ceder numa questão que acha essencial ? Essa moeda tem duas faces. Primeira: os governos são para governar, não são para ganhar as eleições seguintes. Segunda: para muitas coisas que há a fazer, uma legislatura não chega - e isso justifica um esforço para ter nova maioria absoluta. O busílis está na dificuldade de meter essas duas faces na mesma moeda.
A meu ver, essa dificuldade assenta numa debilidade essencial da nossa democracia: temos fracas capacidades de concertação social. O que é concertação social: mecanismos que permitam tentar encontrar soluções viáveis para problemas que, existindo, não têm saída óbvia e dividem a sociedade quanto às opções a fazer.
Uma das debilidades centrais da nossa concertação social é que as partes são fracas. Por muitos motivos, mas centralmente por serem fracamente representativas. Por exemplo, muitos sindicatos são simplesmente ignorados pelos respectivos "representados". Mas, também do lado do governo, a intermitência é fragilidade: quando ministros sucessivos de um mesmo governo de um mesmo partido mudam de política como quem muda de camisa, os próprios governos tornam-se partes incertas e pouco confiáveis numa negociação. A luta em torno da avaliação dos professores ilustra esta fraqueza da nossa democracia - e não a "teimosia" ou o "autoritarismo" da ministra, como alguns insistem.
Então, como enfrentar esta crise? Repensando radicalmente as condições de negociação entre as partes. Valorizando a negociação, dando-lhe credibilidade: exigir e verificar a representatividade, se necessário ultrapassando os representantes desacreditados; fazer com que cheguem à mesa de negociação todas as "facções" ou "grupos" ou "propostas", e não apenas os actores do costume que representam bem o descontentamento mas não a capacidade propositiva; garantir uma negociação efectiva, isto é, que compare soluções e não ofereça apenas a possibilidade de criticar as propostas de uma das partes; incluir nos acordos as garantias da sua efectivação, o que passa por exigir compromissos explícitos acerca da implementação e dar-lhes publicidade adequada.
Mas tudo isto passa por reconhecer, politicamente, outro papel à negociação social em geral. Como aqui defendi anteriormente. Por exemplo: modernizar as relações laborais; reformar as instituições de diálogo social; Flexigurança, again. Só para que os apressados não digam que só agora me lembrei do assunto.

13.11.08

avaliação: por falar em modelos alternativos


Quando se trata de avaliação de professores o que se ouve mais falar é de modelos alternativos. Parece que estão disponíveis montanhas de boas ideias e só a ministra, por ser tola e teimosa, é que não quer nenhum deles e foi escolher uma bodega qualquer mesmo para embirrar com os pobres docentes. É, não é?
Sugiro, no blogue Defender o Quadrado, a posta o modelo alternativo. Já tem uns dias mas ainda não arrefeceu. É de Sofia Loureiro dos Santos, que não me encomendou o sermão mas pode ser lida com proveito.

o estado de sítio como estado de espírito

23:15

Leandro Erlich, Argentina, Piscina, 2004.

Kanazawa, Japão, 5 de Novembro de 2005.
Abertura da exposição Alternative Paradise, no Museu Século XXI de Arte Contemporânea.
Foto de Porfírio Silva. (Clicar para aumentar.)

terra queimada


Chuva de ovos recebe secretários de Estado da Educação à entrada de escola em Chelas.


Manifestamente, a vontade de diálogo e concertação está em marcha. Incrivelmente, o Ministério da Educação recusa participar na boa vontade geral. A propósito: é óbvio que não há ninguém a apostar na estratégia do caos nas escolas. E também é óbvio que a estratégia da terra queimada é coisa que ninguém conhece: nem nas escolas, nem nos sindicatos, nem nos partidos, nem nos movimentos alternativos. Em resumo: a Lurdes é que tem a culpa de tudo. Claro. Não são os ovos os culpados, ou são?

(Os grafitos de Lisboa, do post anterior, eram para desanuviar o tom. Mas durou pouco. Paciência.)

grafitos de lisboa







Fotos de telemóvel. Segundo semestre de 2008.

desafio

avante, camarada, avante !

aquela parte de Portugal de que Cavaco não se lembra


Parlamento regional revoga suspensão de deputado do PND-Madeira.


Os deputados do ditador fazem o que ele manda. É sabido. Levantam a mão, baixam a mão, até levantariam o pé se fosse necessário - mas sempre e só segundo os ditames do ditador. E os da oposição, o que fazem? Escreve o Público que «A Assembleia Legislativa do Funchal aprovou hoje por unanimidade um requerimento em que são revogadas decisões tomadas em sessões anteriores que suspendiam o deputado do PND José Manuel Coelho.» Isso quer dizer que todos votaram a coisa. Incluindo os deputados da oposição?! Mas votaram uma coisa que não devia, não podia ter sido votada. Porque o próprio acto de votar uma decisão ilegal, insconstitucional, é um acto absurdo, é fazer o jogo do ditador. Há votações em que simplesmente não podemos estar. Um deputado consciente não vota se pode ou não brincar com o mandato popular de outro deputado. Porque tem de partir do princípio de que não pode. Mesmo quando Luis Delgado vai à TV defender que sim, que pode... mas há caramelos para tudo, os Delgados deste país - mas os deputados democratas não podem deixar-se enganar por tais caramelos na hora de fazer essa parte importante do seu mandato que é votar.

Repesco, a propósito, o que escreveu há dias Vital Moreira no Causa Nossa, neste post:
E se o deputado fizesse queixa-crime contra quem proibiu e impediu a sua entrada na assembleia privando-o de exercer o seu mandato parlamentar, ou seja, o presidente da assembleia regional? Na verdade, o art. 10º-4 da lei dos crimes de responsabilidade política diz que quem impedir o exercício do mandato parlamentar regional incorre numa pena de prisão de seis meses a três anos. Nem se pode invocar o facto de o deputado estar "suspenso", pois essa decisão era nula e inexistente...

Para quê revogar uma decisão nula e inexistente?

12.11.08

os professores trabalham e não é pouco


Um grande blogue, Ciência ao Natural, e um post sobre um tema que aqui temos por vezes tratado: Treino diferente.
Aqueles que estimariam que eu discordaria do Luís Azevedo Rodrigues neste post, ainda não compreenderam o que eu penso sobre o assunto.

(Luís, "aquela coisa" não está esquecida... mas demora!)

"deixem-nos ser professores"



Shaun Tan, Tales From Outer Suburbia


"Deixem-nos ser professores" é um slogan muito batido na luta contra a avaliação dos professores. Quer dizer basicamente isto: o nosso trabalho é ensinar, não é avaliar os colegas, a avaliação é desperdiçar tempo que seria útil a ensinar por causa de coisas inúteis que são laterais à nossa função.
Ora, neste sentido, aquele slogan é aberrante. Faz de conta que o ensino é uma relação quase-fechada entre professor e aluno: desconsidera que a escola é uma organização, que o conjunto dos professores é uma equipa, que dentro de uma equipa ou de uma organização deve haver cooperação, que numa organização parte das tarefas essenciais são precisamente organizativas. É como se, numa empresa, se dissesse que todas as funções de gestão, coordenação, monitorização, controlo, ... são funções inúteis. Aquele slogan só faz sentido no quadro de uma concepção radicalmente individualista, anti-social, anti-organização, anti-cooperação, anti-coordenação.
Será que os professores são uma espécie de anarquistas radicais? Não me parece. Mas, mesmo que o fossem, deveriam, pelo menos, prezar a auto-organização. Essa, sim, poderia ser uma alternativa interessante. Mas mais trabalhosa...
Professores, por favor: entendam que defendem melhor a vossa causa se extirparem o oportunismo, o facilitismo e a demagogia do vosso seio. Essas infiltrações podem dar cabo do vosso edifício. E todos perderemos com isso. Porque os professores são, sem dúvida, parte da seiva de um país.

Avaliação vai continuar nos moldes acordados com sindicatos, garante Sócrates.

Ministra admite que alterações provoquem "desmotivação" aos professores, alegando, no entanto, que essas mudanças são necessárias.

Portas e a supervisão


Lê-se no Arrastão:

Paulo Portas esteve ontem a inquirir insistentemente Vítor Constâncio sobre o relatório da Deloite que, em 2003, já alertava para a existência de irregularidades no BPN. O Banco de Portugal conhecia o relatório e nada fez, diz Paulo Portas. Tem razão. Mas não contou a história toda. Em rigor deveria ter dito que, cumprindo a lei, a Deloite entregou uma cópia ao Banco de Portugal e outra seguiu para o ministério das Finanças. Em 2003, a responsável pela pasta dava pelo nome de Manuela Ferreira Leite. O número dois do Governo dava pelo nome de Paulo Portas. Há momentos em que mais vale a pena estar calado, não vá notar-se que tanta insistência na inoperância do polícia esconde uma notória condescendência pela forma criminosa como os gestores e accionistas do BPN levaram este banco à falência.

privatizar a escola pública: o fruto está quase maduro

14:30

Barbara Reid, Two by Two


Alguns sectores da direita, que querem fazer recuar o Estado até ao "mínimo" ("mínimo" quer dizer: que só defenda os interesses graúdos e não tenha meios nem vontade para defender os comuns), digo, esses sectores usam como estratégia política deixar degradar os grandes sistemas públicos para mais tarde venderem com facilidade a "urgente necessidade" de os privatizar. E, nessas alturas, invocam a qualidade do serviço, o alto preço que os contribuintes suportam, a necessária competitividade e tal e coisa.
Foi esse o dispositivo tentado, por exemplo, quando a direita portuguesa pretendeu uma substancial privatização da segurança social: a coisa está a caminho da falência, é preciso acautelar os interesses das pessoas, o melhor é privatizar, o mercado é que sabe.
A mais eficiente resposta a esse truque tem consistido em fazer as necessárias reformas nos sistemas em causa, de forma a que eles, continuando públicos, cumpram a sua função e se aguentem financeiramente. Foi o que aconteceu em Portugal, e isso deve-se aos governos do PS, contra os cantos de sereia do PSD, CDS e amigos. Hoje está à vista que, se tivéssemos ido pelo caminho do mercado a todo o custo, tínhamos comprado aborrecimentos - enquanto o sistema público, reformado, está a conseguir aguentar-se e até melhorar.
Entretanto, a estratégia privatizadora continua a manobra. E com inesperados aliados.
Tal como as coisas vão na escola pública, com uma estratégia de caos que a esquerda da esquerda da esquerda (como gosta de se ver) aplaude nas ruas, e que a direita aplaude nos salões excitada com a possibilidade do poder, a escola pública começa a estar madura. Madura para a grande solução. Privatizar a escola pública. Exportar os problemas para outras quintas. O Estado paga e os privados fazem, porque fazem melhor. E os privados sabem melhor como lidar com sindicalistas e activistas. E têm as mãos mais livres para os açoites que um Estado inábil a defender os trabalhadores não sabe impedir.
E assim se ajeita a escola pública a um projecto de grande liberalização que nunca conseguiu vingar - mas que talvez agora possa regressar triunfante, com a ajuda dos sindicatos e dos professores que pensam poder parar o mundo.

Adenda: SPRC admite que acusação da Fenprof à DREC não corresponde à verdade.

máscaras


Vítor Constâncio não se demite e defende que não houve falha de supervisão no BPN .


O ataque da direita ao governador do Banco de Portugal equivale a afirmar que "se se cometem crimes em Portugal, a polícia devia demitir-se toda". É que não há mecanismo nenhum de controlo que possa controlar efectivamente todos os pormenores do funcionamento da máquina do mundo. Por isso estes ataques são baixa política - e oportunidade para um truque populista que Paulo Portas muito aprecia: pronunciar publicamente o valor dos ordenados de certas pessoas/funções.
Especialmente porque esta é a direita que teria estado contra se o regulador tivesse pedido, antes, mais poderes para controlar os bancos. Porque teriam afirmado que mais controlo era mais Estado e menos respeito pela propriedade. Porque esta é a direita que supõe sempre a virtude dos privados e a maldade dos poderes públicos. Podia, contudo, evitar o descaramento de mudar de máscara com tanta pressa e facilidade.

Amatória e Invernosa



Eu não conhecia o blogue Amatória e Invernosa. Fiquei a conhecer porque o respectivo autor veio até à minha caixa de comentários dar uma picadela. Nem gostei particularmente do que me disse. Coisas dos debates acesos sobre professores, claro. Entretanto, seguindo-lhe o rasto, dei de caras com um blogue bastante interessante. Inteligente. Daqueles que falam de maneira oblíqua, de tal modo que os consumidores de "fast food" linguística se arriscam a não perceber nada. Mas, com tempo e gosto tira-se proveito. Aconselho a visita. Repito: Amatória e Invernosa
Estão a ver os benefícios da discordância?

11.11.08

agora os açores


Decisão do governo regional da Madeira: Jardim avalia professores com “bom” por portaria.


Correm rumores de que Carlos César, presidente do governo da região autónoma dos Açores, depois de ter lido isto, acaba de assinar uma portaria avaliando todos os professores em exercício na região com "Muito Bom". Grande ultrapassagem!

Última hora: Consta que Manuel Alegre vai exigir que Maria de Lurdes Rodrigues publique uma portaria avaliando todos os professores com "Excelente". Segundo o ex-candidato presidencial, o "Excelente" premiaria a magnífica capacidade de mobilização cívica que a grande maioria dos professores tem demonstrado, produzindo uma quantidade de manifestações "excelente", o que bem pode contar nas vezes do exercício de cargos de gestão e chatices pedagógicas que alguns acham que deviam ser ponderadas na avaliação docente.

Cautela: Nenhuma destas notícias se encontra confirmada, mas pareceu-nos que podiam ser boas notícias e por isso as damos em primeira mão.

dar educação


Ministra da Educação escapa a protestos e ovos em Fafe.


Afinal, a manifestação não era para intimidar. As agressões físicas é que são para intimidar. Isto faz parte do processo educativo: mostrar aos alunos a semântica do verbo "intimidar".
Ou será simplesmente educá-los para a cidadania?

O Harry Potter da avaliação


Jardim avalia professores com “bom” por portaria.


Assim não há burocracias, nem papeladas, nem nada. Aliás, basta um único papel: a portaria.
Assim não há desigualdades, nem "competição desenfreada": é a mesma nota para todos.
Assim não fazem intervir os professores titulares, porque Jardim funciona como titular para todos.
Assim a avaliação é mesmo externa.
Não se riam: o que alguns professores realmente querem é algo funcionalmente equivalente a isto. Ninguém melhor do que o "chefe de estado" da Madeira (o "chefe do estado a que as coisas chegaram") para compreender as verdadeiras motivações "populares". Por que razão ele ganha eleições há tantos anos, hein?

a terra a quem a trabalha?


Ministério apresenta ainda hoje nova proposta aos sindicatos. Avaliação de desempenho só vai contar para a colocação dos professores dentro de 4 anos.


Governo desafia Alegre a aplicar a sua teoria da cultura democrática aos sindicatos dos professores.


Professores e avaliação. Um argumento muito ouvido por estes dias é o seguinte: "tantos professores na rua, devem ter razão". Quer dizer: por uma classe ter por larga maioria uma determinada posição sobre um determinado assunto da comunidade nacional, essa posição deve ser correcta. E devemos aceitar essa posição. Ora, a quantidade não se transmuta em qualidade só por si. Um erro, por ser maioritário, não passa a coisa certa por alquimia.
Objecta-se: mas, como estamos em democracia, temos muitas vezes de aceitar o ditame da maioria, mesmo quando tenhamos razões para crer que a maioria está errada. Em democracia os iluminados não têm um lugar reservado. Certo. De acordo. Só que o problema não é esse.
O problema é que, sobre problemas da comunidade como um todo, a maioria que interessa é a dessa comunidade como um todo. É ao país que cabe decidir o que fazer no sistema público de educação. Não é aos profissionais do sector. Alguns escandalizam-se quando se acusam os professores de corporativismo. Ora, o corporativismo incorpora precisamente esse raciocínio: pensar que o grupo encarregue profissionalmente de um dado sector é que deve decidir como esse sector se organiza. Mas isso está errado. É à comunidade como um todo que cabe essa decisão. E, em democracia, isso faz-se escolhendo maiorias parlamentares e governos.
No tempos do PREC, quando estava na moda o slogan "a terra a quem a trabalha", eu tinha um professor (de História, lá em Aveiro) que uma vez disse numa aula: "a terra a quem a trabalha", não; "a terra a quem trabalha", sim. Aí estava a diferença essencial que continua em cima da mesa. A diferença que faz uma sociedade democrática onde as decisões políticas cabem ao conjunto da comunidade e não "a uma classe", qualquer que ela seja. Não é "quem está com a mão na massa" que decide que pão fazer - quando a massa e a fome é de todos.
E nada disto é contra a "concertação", "negociação", o que quiserem chamar-lhe. Porque não pode haver verdadeira negociação em bases conceptuais podres.

ouvir a rua


Política de educação: Manuel Alegre aconselha a "ouvir a voz da rua", acrescentando que "se tantos [professores] estão na rua, terão as suas razões".


Não há nada mais "alegrista" do que "ouvir a rua". Esse é o elemento onde Manuel Alegre sabe viver, cuja vida política sempre foi palavra e rua. Nos tempos em que isso era difícil, dando direito a perseguições, Alegre praticou. É louvável por isso. Hoje em dia terá de ser diferente a avaliação. Alegre, que reivindica sempre a condição de ex-candidato presidencial para dizer o que julga mais popular em cada momento, quer que se ouça a rua - mas, na condição de ex-candidato presidencial, porque esse parece ser agora o seu bilhete de identidade, devia ir mais longe. Deveria apresentar qualquer coisa de concreto. Propostas.
É que as "razões da rua", em democracia, não podem valer mais do que as "razões dos que estão em casa". A democracia não é o poder da rua. Uma comunidade política, porque não é um rebanho, tem de saber pensar no futuro, ter pensamento estratégico, avaliar as consequências das práticas correntes. E os futuros filhos da nação não se manifestam, ou porque ainda são muito novos ou porque ainda não existem. E, por vezes, pensar no futuro implica vencer as resistências do que já estão "no terreno". Vencer a rua.

terroristas


Vital Moreira critica "silêncio" de Cavaco Silva sobre caso de deputado do PND na Madeira.

Nós aqui também. O que falta é que "o sistema" tire ilações. Sim, porque lições já se vê que o sistema não é capaz de tirar.
Prejudica mais a vida democrática uma organização terrorista, como a ETA, acerca da qual nenhum democrata tem dúvidas (negociando com ela ou não, o objectivo é sempre derrotá-la), ou um Alberto João que faz com que os democratas se borrem todos face à ignomínia?

burocratas de serviço


(Cartoon de Marc S.)


A esquerda (seja lá isso o que for) parece estar muito contente porque a crise teria mostrado que ela (esquerda) tem razão em pontos essenciais do debate político e ideológico.
Talvez.
Mas também é certo que a esquerda (seja lá isso o que for) tem feito muito para não ser ouvida: quando se amarra a soluções que falharam acompanha bem com a direita. Por exemplo, quando defende o Estado pelo Estado, de maneira acrítica quanto ao carácter pernicioso dos interesses instalados nos mecanismos desse mesmo Estado, está cega de uma cegueira simétrica da que enfermam os que defendem que o mercado é que sabe.

10.11.08

racistas convenientes


António Ribeiro Ferreira escreve no "Correio da Manhã", de acordo com o respectivo site, o seguinte:
"A Europa anti-americana ainda não percebeu que, a partir de agora, só terá autoridade para exibir a sua arrogância quando eleger um negro para presidente ou primeiro-ministro de uma das suas repúblicas ou monarquias".

Engraçado. Até agora os que eram anti-Bush eram anti-americanos, nas palavras de certos comentadores vesgos. Agora a América elegeu um presidente anti-Bush - logo, os americanos deviam ser classificados como anti-americanos. Mas, como essa tirada seria demasiado estúpida mesmo para tais vesgos, inventam agora novas charadas.
Uma delas é supor que um negro tem de ser racista: a América presidida por um negro só veria parceiros com legitimidade se eles fossem também negros. A cegueira de alguns impede-os de reconhecer quando os tempos mudam. Será que a partir de agora consideram anti-americano criticar Obama? Ou será que, como temem que as políticas de Obama não confirmem os preconceitos dos auto-proclamados defensores da América-enquanto-for-conservadora, se preparam para falar da cor do homem para não ter de falar das suas ideias?

choque de gestão


Mariano Gago diz que maus gestores nas Universidades serão substituídos.


Há de certeza maus gestores nas universidades. Como em todo o lado. E onde estão maus gestores têm de passar a estar bons gestores. Especialmente onde se gastam dinheiros públicos.
Mas é preciso saber reconhecer que há muitos profissionais nas universidades que gastam parte significativa do seu tempo a responder às inúmeras burocracias associadas a qualquer tentativa de fazer alguma coisa para além dos mínimos. Os inovadores, os que querem fazer mais, os que querem sair da rotina, os que querem estar a par do melhor a nível internacional - esses são os que pagam cara a ousadia. Porque têm de fazer o trabalho científico, e o organizativo, e o financeiro, e... o de secretária, o de carregador de móveis, o de limpa vidros, ... Tudo coisas em que não têm que pensar os que apenas se deixam embalar pela rotina, à espera que quem venha depois feche a porta.
E que tal, para lá do "choque tecnológico", um "choque de gestão"? Quer dizer: dar condições ao ensino superior para modernizar a sua gestão, não à custa de "tempo de cientista" desperdiçado a gerir, mas com gestores pagos para serem gestores.

vai continuar a haver brancos na casa branca



(Cartoon de Marc S.)

9.11.08

prolongamento da linha vermelha (entranhas de lisboa)



























Rua António Augusto de Aguiar, obras do Metro junto à estação de S. Sebastião (prolongamento da linha vermelha). Fotos de telemóvel.