8.11.08

crescer atrás da cortina de ferro, de Peter Sís


O álbum que hoje nos faz falar é de Peter Sís, que escreve e desenha The Wall, Growing Up Behind the Iron Curtain, no título do original norte-americano de 2007, publicado pela Frances Foster Books. A edição que possuo é italiana, de Setembro de 2008, na editora Rizzoli.





Peter Sís cresceu na Checoslováquia comunista e apresenta-nos mais uma obra da vaga de obras de BD que pensam e divulgam a história contemporânea recente a partir dos olhos de uma criança. Em 1982, Peter Sís foi a Los Angeles para trabalhar num filme para o governo checo e, uma vez lá, optou pelo exílio - como muitos outros foram fazendo ao longo da história.





A história que nos conta, apesar de tentar partir do olhar de uma criança, é densa - e o autor faz alguma coisa para nos levar para mão, fornecendo vários elementos de contexto. Não é, contudo, história que um adolescente desprevenido possa compreender cabalmente como quem lê "histórias aos quadradinhos" ...





Graficamente, o que temos como elemento básico são desenhos a preto e branco, sugerindo uma atmosfera cinzenta - política, cultural e socialmente cinzenta. Muitos dos desenhos têm pormenores a uma única cor, o vermelho - funcionando o vermelho quase sempre como marca do poder comunista, por exemplo nas bandeiras, nos símbolos (foice e martelo, estrela), no lenço ao pescoço da "farda" dos pioneiros. Dado este ponto de partida, os poucos elementos fortemente coloridos são marcas de ruptura, normalmente festiva ou pelo menos "agitada", de momentos em que a contestação às normas imperantes é vivida como um gozo suplementar da vida. A cor é o outro lado da vida (do muro): "tudo o que vem do Ocidente parece colorido". A cor é também o que distingue os desenhos que Sís faz desde miúdo.





As duas páginas inteiras que reproduzimos de seguida, constituindo uma única imagem, aparecem na narração da Primavera de Praga. A Primavera de Praga foi, em 1968, uma tentativa do partido comunista local para seguir uma via democrática para o socialismo, afastando-se da ortodoxia soviética. Esta imagem, com esse colorido pop, e por contraste com o preto e branco com pormenores de vermelho do grafismo dominante, dá uma conotação fortemente festiva a essa possibilidade de liberdade, possibilidade que foi frustrada pela invasão dos tanques do Pacto de Varsóvia, o bloco militar do leste comunista da Europa liderado pela União Soviética.





A representação dessa invasão segue o plano gráfico dominante: preto e branco com o vermelho do poder a salpicar: neste caso os elementos vermelhos são os tanques invasores espalhados pela cidade como um vírus que toma conta de um corpo.





Esta obra de BD não é de leitura imediata para quem esteja demasiado alheado do contexto da época e de algumas referências históricas. Vemos abaixo a referência a um concerto dos Beach Boys, de uma pequena tournée que fizeram por aquelas bandas alguns meses depois da invasão antidemocrática, a qual teve o condão de ainda dar um pequeno sopro à esperança de que talvez não se tivessem fechado todas as portas.





Nos desenhos que se seguem, que são parte de uma sequência um pouco maior, há uma luta entre o preto e branco do grafismo dominante, representando o cinzentismo do regime, e a cor como representante da expressão que alguns tentaram que fosse livre. Os grafitos que os anónimos tentam pintar nas paredes são coloridos e as peripécias do confronto com a polícia - entre pintar e apagar, e voltar a pintar - são um ir e vir entre a sobrevivência e a extinção da cor.










A queda do Muro de Berlim, datada de 9 de Novembro de 1989, é o fim desta história. Uma história que, neste álbum, passa pela insurreição popular na Hungria em 1956, esmagada pelos "aliados" soviéticos; pela construção do próprio Muro em 1961; pela crise dos mísseis em Cuba em 1962; pela visita do Presidente Kennedy dos EUA a Berlim em Junho de 1963 e pelo assassinato desse mesmo presidente em Dallas mais tarde nesse mesmo ano; pelo papel de Alexander Dubcek, líder do partido comunista checoslovaco em 1968 e verdadeiro herói da Primavera de Praga, quando "tudo parecia possível"; depois do fim, ou depois do princípio do fim, pelos estudantes checos Jan Palach e Jan Zajic que se imolaram pelo fogo no centro de Praga "para despertar a nação da letargia"; pela Carta 77, o grupo dissidente formado em 1977 e que contaria com alguns dos heróis da futura revolução democrática. A queda do Muro de Berlim é o fim desta longa e amarga história, um fim que não é só uma data, mas um conjunto de datas para várias revoluções no leste europeu, assinaladas junto a estes desenhos (mas aqui não visíveis). É um fim apropriado para uma narrativa que não é só uma história da Checoslováquia recente - mas uma história de uma parte importante da Europa e das suas vicissitudes num período de cerca de meio século.

É um pouco pena que a narrativa seja, do ponto de vista ideológico, um pouco unilateral - como se todas as desgraças do mundo tivessem a cor vermelha. Por exemplo, logo no início dá-se como definição de "comunismo": um sistema de governo em que o Estado controla toda a actividade social e económica. Mas o regime fascista nazi também era isso, pelo que a definição não faz o trabalho de uma definição. Além disso esquece-se que a história do leste europeu é também a história das derrotas que sofreram certos sectores dos partidos comunistas que tentaram a via democrática. A "insurreição popular" na Hungria de 1956 tinha a cumplicidade da liderança comunista, que foi afastada por pressão e acção soviética. E o mesmo aconteceu na própria Checoslováquia com a Primavera de Praga. E, se é para fazer história, mesmo aos quadradinhos, talvez fosse bem não ver só certas coisas e esquecer sempre outras. Por outro lado, certas coisas que se denunciam como se fossem exclusivas das ditaduras comunistas - não o são. Ser obrigatório fazer parte da organização de juventude do regime, nós por cá também sabemos o que isso é (foi). O mesmo para as actividades da polícia política, da censura. Certas coisas até existem ou existiram em países democráticos, como a obrigatoriedade de hastear a bandeira nas festas oficiais (eu já vivi num país onde isso era assim e ninguém considerava repressivo).
Mas será justo fazer este tipo de críticas a uma obra de BD? Porque não, pergunto eu. A BD é coisa séria. Às vezes, como neste caso, está a apresentar uma visão da história recente, de uma história que ainda interessa muito à compreensão do presente. E, nesse caso, o rigor que se pode exigir é o que se exige a qualquer obra séria.





Como o autor escreve no posfácio: alguns terão dificuldade em compreender que as coisas eram mesmo assim. Estamos a falar de história recente, mesmo muito recente, e muito próxima geograficamente. É também por isso que livros destes são um serviço prestado à memória cívica. Mas parece que não têm muito público em Portugal... Ou há por aí edições que eu desconheça (o que não seria de estranhar, porque sou um mero leigo curioso)?

7.11.08

matar saudades

falou o assessor de Cavaco, agora fala Manuela


Ferreira Leite quer suspender avaliação dos professores e criar novo modelo de avaliação externa sem quotas administrativas.


"Sem quotas administrativas" quer dizer: todos podem chegar ao topo da carreira. Ou seja, por esse critério noutros sectores: o exército pode ser constituído só por generais (ou será só marechais?), a marinha pode ter só almirantes, as empresas podem ter só administradores, as universidades podem ter só catedráticos, as igrejas podem ter só papas, os países podem ter só ministros... E sabe-se como esse paraíso "sem quotas" pode ser conseguido: todos podem ter a nota máxima na avaliação. Como era tradição na administração pública, todos tinham essa nota máxima, pelo que a avaliação não servia para nada. Era um pro forma. E deu no que deu. Todos sabemos disso. Até Manuela Ferreira Leite sabe disso. Mas ela está disposta a tudo para dar a ideia de que pode ser alternativa. Compreende-se: foi isso que ela e o seu amigo Cavaco Silva fizeram quando por lá passaram: fizeram de conta que resolviam e não resolveram nada que, sendo estrutural, fosse impopular. Ela diz que concorda com a avaliação, mas não com esta. Concorda com qual? Com a que foi proposta pelos sindicatos?

O que era desejável é que os sindicatos, ou alguns professores, ou os "alternativos", fizessem uma verdadeira proposta para outro método de avaliação - mas que fosse realmente de avaliação, e não para encanar a perna à rã. E assim mostrassem ao país que estão a falar a sério quando dizem que querem ser avaliados. E que essa avaliação fosse efectiva e tivesse consequências e distinguisse os melhores dos razoáveis e dos piores. Mas ninguém parece querer correr esse risco: porque sabem que o que move as manifestações não são os que querem ser avaliados mas querem discutir o como. O que move as massas é mesmo o desejo de que não se metam com eles. Mas num país democrático as funções públicas não são corporações auto-regidas: têm de se conformar ao interesse geral. Não seria melhor que fosse claro para toda a gente que os professores querem participar no apuramento desse interesse geral e no desenho das soluções que lhe podem dar satisfação? Isso não seria melhor também para os professores?

(Mas foi bonita a manobra conjunta: o assessor de Cavaco falou e Manuela aproveitou... a deixa ou a autorização?)

estudo de impacte ambiental da expulsão de Adão e Eva do paraíso


(Cartoon de Marc S.)

o professor Cavaco


Assessor de Cavaco diz que a educação está a ser “demasiado fustigada”.


Cavaco também vai à manifestação? É que ter membros da sua Casa Civil a deitar lenha para a fogueira nas vésperas de uma manifestação, só pode significar uma de duas coisas: ou em Belém cada um faz o que lhe dá na bolha sem dar cavaco a Cavaco; ou Cavaco está interessado em "falar directamente para o povo" em matérias de governação. Em qualquer dos casos, estamos atentos às prioridades de Belém: mesmo quando hipoteticamente Cavaco até tem simpatia pela Ministra em causa, a tentação da popularidade, e de ajudar o PSD (ou o PPD/PSD?), fala mais alto.

e Cavaco calado?



Manuel Monteiro vai pedir ao Presidente e ao procurador que reponham legalidade na Madeira.


E que tal o PS decidir adiar as sessões da Assembleia da República até... sei lá, por exemplo, até acabar o julgamento da Casa Pia (já faltou mais)?

Há demasiado quem fale de Estaline, mas pelos vistos há poucos que sejam capazes de reconhecer o que ele fez quando o vêem repetido entre nós. E que tal estudar um bocadinho de história?
E Cavaco calado. O PR preocupa-se ao extremo por o obrigarem a consultar uns órgãos quaisquer das regiões autónomas antes de dissolver esses órgãos, e faz uma barulheira danada por causa disso, com comunicações televisivas estivais apressadas e vetos atrás de vetos - mas fica calado que nem um rato quando a democracia é suspensa às ordens do Bokassa (nos termos do antigo Jaime Gama) numa parte do território nacional.
E nós fingimos que não vemos?!

6.11.08

Obama e os ideólogos



Jorge Almeida Fernandes escreve hoje no Público um artigo de opinião sobre as presidenciais americanos, intitulado O Presidente global , que vale a pena ler.
Eu sublinho o seguinte: quem pensa o papel das ideologias na comunidade humana, que tem de ser comunidade política para ser humana (política porque nela têm de se fazer escolhas acerca de como viver em comum), tem de evitar o erro dos ideólogos.
Ser ideólogo, pela positiva, é assumir que precisamos de um ponto de vista para compreender o mundo. Uma ideologia é um ponto de vista, mais ou menos objectivo, mais ou menos ajustado às nossas condições limitadoras. Precisamos desses pontos de vista, e que sejam variados, para, colectivamente, explorarmos melhor as diferentes possibilidades de nos organizarmos no mundo.
Ser ideólogo, pela negativa, é ter um ponto de vista tão completo e tão fechado, tão auto-protegido, que não nos deixa olhar para a realidade. Que não nos deixa ter nenhum senso comum, nenhuma ingenuidade, nenhuma pureza. Ser ideólogo, pela negativa, não é ter um ponto de vista: é confundi-lo com "o olho de Deus".
Tanto à esquerda como à direita os grandes líderes evitam o sentido mau de ser ideólogo e, num momento ou noutro, percebem que é preciso tentar que vários pontos de vista possam convergir. Pontes. Construir pontes.
Não sei bem o que pensa Obama sobre muita coisa que importa. E isso é um pouco assustador. Não sou, nunca fui, um entusiasta de Obama. Mas reconheço que ele compreendeu que a capacidade de estabelecer pontes é essencial à preservação da comunidade humana como comunidade política. Como comunidade civilizada. Coisa que a América estava a pôr em risco. Lá dentro e no mundo todo. No sentido em que Obama veio abrir uma oportunidade para evitar essa desgraça global, ele pode ser visto como um presidente global.

não nos faz falta um Obama?


O presidente da Assembleia da República, Jaime Gama, advertiu os deputados socialistas: se quiserem ser reeleitos terão de fazer o trabalho de casa com o partido e com os seus eleitores.


Vindo de quem vem, temos aqui um disparate descarado. A presença de Jaime Gama no Parlamento nunca foi o resultado de qualquer "trabalho com os seus eleitores". Talvez o resultado do "trabalho de casa com o partido". Infelizmente, há muitos deputados assim, porque o sistema não exige que os deputados tenham propriamente "os seus eleitores". Porque nenhuma reforma nesse sentido conseguiu ainda furar. A maior parte dos deputados, talvez conscientes disso, calam-se sobre o assunto para não dar nas vistas. A diferença específica de Gama é o descaramento: não cora quando fala do "trabalho com os eleitores".
Não nos faz falta um Obama? Viram o que ele fez na vida antes de chegar onde chegou?

McCain


O discurso do candidato derrotado nas presidenciais americanas obriga-me aqui a uma nota. Excelente. McCain perdeu o norte a certo momento da sua campanha, dizendo coisas que não colavam com o seu passado, com o seu perfil e política. Cedendo aos radicais para tentar salvar a eleição. Mas o discurso da derrota mostrou o seu valor, o seu patriotismo, a sua inteligência. Coisas que para muitos dos seus seguidores valem menos do que o partidarismo. Mas no discurso final mostrou, arrisco mesmo, alguma genuína admiração por Obama. E um sentido das prioridades que muitos na política esquecem. Um discurso da derrota que, ao contrário de muitos discursos nessas circunstâncias, foi um discurso útil e um discurso para o futuro.

esperamos que chegue a nossa vez?


Segurança do Parlamento da Madeira impede entrada de deputado que exibiu bandeira nazi.


Constitucionalistas consideram ilegal suspensão de deputado madeirense que exibiu bandeira nazi.



Deixemo-nos de hipocrisia: na Madeira vive-se uma situação ditatorial, na melhor das hipóteses uma situação pré-ditatorial, uma situação onde as liberdades formais são só isso: apenas formais. E quando um deputado usa uma forma exuberante de chamar a atenção para isso, critica-se esse gesto de denúncia em vez de criticar o que ele justamente denuncia. E alguns hipócritas até o criticam pelo uso "inconstitucional" de símbolos nazis, quando ele não expressou a ideologia desses símbolos, mas sim uma crítica ao que ele considera ser a realidade desses símbolos vivida naquela região. E, se faltasse alguma coisa, a agora anunciada repressão "quase administrativa" de um deputado (um segurança é que dá a cara pelo acto de impedir um deputado de entrar no Parlamento), mostra o que realmente se vive naquela terra.
Não, não me venham com debates académicos acerca do que é o fascismo. "Cientificamente" o salazarismo se calhar também não foi um fascismo. Mas essas subtilezas semânticas interessam pouco a quem realmente se confronta com uma ditadura. Pior: com uma ditadura suportada e financiada por um país democrático.

5.11.08

o mito da bezerra


PME vão cumprir ameaça de não renovar contratos a termo, como retaliação pela subida do Salário Mínimo Nacional para 450 euros no próximo ano - coisa acordada e calendarizada pelos parceiros sociais, precisamente neste montante e momento, há bastante tempo.


Há muitos anos que as PME cumprem sistematicamente a ameaça de serem o principal símbolo do subdesenvolvimento do país. As míticas PME, que são na verdade, por todos os critérios menos os portugueses, minúsculas empresas, são o grosso da falta de visão da esmagadora maioria dos patrões portugueses. A larga maioria delas já devia ter sido comprada, aglutinada, fundida, qualquer coisa que fizesse delas menos unidades mas realidades com maior racionalidade económica. Menos mas maiores e melhores. Outra via seria falirem mais para darem lugar a melhores empresas, empregando os mesmos trabalhadores. Mas não: ajoelhamos todos à frente desse símbolo da apagada e vil tristeza da nossa vida colectiva: falta de garra, de profissionalismo, muito amadorismo - mesmo quando acompanhado de muito trabalho árduo - para resultados parcos. É o mito da bezerra bizarra: parece que está a caminho de ser um grande bovino adulto, mas é uma anã a encolher cada vez mais.

os recantos do regime


Caso BPN: PS rejeita proposta do Governo para alterar artigo sobre indemnizações na lei das nacionalizações .


Isto não é uma trapalhada, nem uma santanada, como alguns preferem dizer por reduzirem sempre tudo a cenas cómicas. Isto é um problema do regime.
E o problema, tal como o vejo, é este: confundem-se sistematicamente as matérias em que as propostas devem ser apresentadas pelo governo ao Parlamento e as propostas que devem ser da iniciativa dos próprios deputados.
Não estou a falar de regularidade constitucional, estou a falar de sentido político: o governo deve propor os instrumentos de execução, os actos necessários à sua função de governar; os parlamentares devem pensar nos enquadramentos vastos para áreas largas da vida nacional, para classes de problemas, enquadramentos que o governo deve depois respeitar na sua acção.
No caso vertente: uma lei geral das nacionalizações deveria ter sido pensada independentemente (e antes) de uma nacionalização concreta, estipulando as regras de aplicação em todo esse domínio de situações. (Cabe perguntar, por assim dizer a talhe de foice, por que é que a esquerda que se julga mais esquerda do que as outras nunca pensou nisso - ou pensou e eu não me lembro?)
Já uma nacionalização em concreto deveria respeitar um quadro geral anteriormente definido e dar-lhe moldura concreta apropriada às circunstâncias particulares.
Contudo, não é nada assim que as coisas se passam. Mas ninguém parece preocupar-se com a confusão de planos, sistemática, entre o papel do governo e o dos parlamentares. O que todos parecem apreciar é o lado ridículo da questão. Há gostos.

o novo selo do Presidente dos EUA

Antes era assim:



Agora vai passar a ser assim:


(Cartoon de Marc S.)

a américa mais próxima


Barack Obama foi hoje eleito o 44.º Presidente dos Estados Unidos da América, de acordo com as projecções avançadas pelas televisões americanas.


Parece que sim. Fico contente. Apesar de as minhas preferências irem para uma certa senhora que ficou pelo caminho. Mas é importante que uma minoria chegue onde os afro-americanos agora chegaram. Coisa que talvez não fosse possível no Portugal convencido de ter brandos costumes, nem talvez em nenhum país europeu. Um pequeno ajuste de contas político: os cegos que temos por cá só perceberam a desgraça que era a Administração ainda em funções quando já só meia dúzia de americanos ainda acreditava nela. São os mais papistas que o papa. O que me preocupa: não estou certo de que a esperança tenha muitas consequências no actual estado do mundo e da própria América. É que a confiança é uma crença como qualquer outra: tende a diluir-se quando os factos remam muito contra ela. Mas, quem sabe.

3.11.08

Cadilhe e o capitalismo de Estado


Miguel Cadilhe acaba de falar. O homem, à frente do BPN, não vê razões para a nacionalização. E avança com um discurso político para tapar as desgraças comerciais. Este é o estado do capitalismo: os resultados não contam, o que conta é a imagem mediática e o discurso. Pensa ele, a tentar tapar o sol com a peneira. Alguém lhe explica que o seu lugar actual não é o de ministro? Alguém lhe explica que um banco não são as jornadas parlamentares de um partido da oposição? Alguém lhe explica que o Estado tem de pensar primeiro no interesse geral? Alguém lhe mostra que há momentos em que a arrogância é deslocada?

Cadilhe critica nacionalização do BPN e coloca lugar à disposição

palavras trocadas


PSD acusa PS de ter como projecto o “capitalismo de Estado”.


Seria mais pertinente o PSD preocupar-se com o estado do capitalismo. E, para isso, podia convidar para darem o seu testemunho alguns dos actores principais, em anos passados, da novela BPN. Designadamente os que costumavam frequentar as reuniões do mesmo partido.

filosofia, novidades, coisas para fazer

o canivete suíço e o pensamento único


(Cartoon de Marc S.)


Estava eu ali abaixo a elogiar os canivetes suíços... mas a União Europeia é uma espécie bizarra de canivete suíço.
Fala-se muito, a propósito da crise em curso, da diferente abordagem dos americanos e dos europeus à situação. Ora, os EUA são um único país e, por isso, não parece estranho que se fale da sua abordagem única. Mas os europeus da UE são 27 países e, mesmo assim, fala-se da "abordagem europeia". Isso quer dizer, por exemplo, que os governos de direita, que são maioria na UE, e os governos social-democratas e socialistas, que são muito minoritários, têm aparentemente, grosso modo, a mesma abordagem "europeia". Não será isso um tanto estranho? As putativas diferenças ideológicas são apenas diferença de "cor"? E que "cores" são essas?
É claro que, para lá das diferenças ideológicas, podia haver uma abordagem europeia. Como houve no tempo de Delors como presidente da Comissão Europeia, quando se tentou desenhar uma "bissectriz" que aproveitasse o melhor da dinâmica da direita política e o melhor da dinâmica das esquerdas. Mas, quando o Sr. Barroso é o canivete suíço da UE, a "abordagem europeia" não passa do mínimo denominador comum: um pensamento único tão estreito, tão estreito, que não passa dos mínimos nas actuais circunstâncias. Uma não existência perigosa. Pouco mais do que um corredor de passagem para saber o que se passa antes de aparecer nos jornais. Um canivete suíço ideológico.

Economia portuguesa entra em recessão técnica este ano.

os ideólogos e o canivete suíço



Chamo ideólogos a quantos usam uma grelha rígida de interpretação da realidade e só vêem nos acontecimentos aquilo que consola a respectiva ideologia, a quantos sabem sempre de antemão para onde vai o mundo e quais as ferramentas a usar para o tornear, a quantos já aprenderam nas respectivas "escolas" tudo o que há a fazer quando chove e quando faz sol. (Eu não tenho o velho preconceito contra a "ideologia": tenho um sempre renovado preconceito contra as cabeças duras.)
Chamo oportunistas aos que só pensam no seu próprio interesse directo e, em vez de simplesmente fazerem por ele com desvergonha, estão sempre a arranjar teorias para justificar os seus actos de acordo com a moda mais recente. No fundo, sentem-se em pecado e, em vez de se confessarem, fazem o teatro dos comentadores: alinham na onda mais colorida em cada momento, certos de que daqui a duas horas já ninguém se lembra da sua anterior diatribe.
Chamo "canivetes suiços" aos que têm princípios mas, não acreditando que dos princípios se deduzam automaticamente todas as soluções para a espantosa imaginação da realidade, querem poder dispor de vários instrumentos e usá-los consoante a situação, atendendo ao concreto e aceitando que os valores centrais têm por vezes de ser defendidos de formas que não fomos capazes de antecipar. Estes são frequentemente criticados por "falta de rumo" - por parte daqueles que, embora só tenham um rumo possível, e ele não vá a lado nenhum, estão descansados porque não têm de fazer, apenas de criticar.
Isto tudo a propósito desta nacionalização do banco BPN. Alguns estão a favor ou estão contra "porque sim", porque se trata de uma profecia que a sua ideologia manda ler nas estrelas (por exemplo, o PCP parece ser a favor desde que a medida não seja transitória e o banco não volte a ser privatizado). Outros estão a favor porque lhes salva a pele, apesar de isso pintar de lama todos os seus preceitos políticos. O ministro das finanças, que parece ver-se a ele mesmo mais como um avô ajuizado do que como um revolucionário na economia, parece apenas querer que o seu canivete suíço seja tão diversificado quanto possível para poder usá-lo o mais eficientemente possível na maior diversidade de desafios que apareçam pela frente. Mesmo que isso implique usar ferramentas "malditas" para os ideólogos da direita. E sem que isso implique usar certas ferramentas na forma prescrita nas "receitas" dos ideólogos da esquerda. Ainda bem. Porque o tempo que vivemos precisa muito de canivetes suíços. E pouco de ideólogos. Caso contrário, quem se safa são os oportunistas.

Comissão Europeia prevê menor crescimento que Governo nos próximos dois anos .
Estado falha venda do BPN e avança com nacionalização.
Clientes do BPN tentam obter garantias dos depósitos junto do banco.
Economia portuguesa entra em recessão técnica este ano.

grafitos de milão


O que diz mais sobre a vida de uma cidade do que os seus grafitos?


(Foto de Porfírio Silva. Milão, Novembro de 2008.)


(Foto de Porfírio Silva. Milão, Novembro de 2008.)


(Foto de Porfírio Silva. Milão, Novembro de 2008.)


(Foto de Porfírio Silva. Milão, Novembro de 2008.)