29.10.08

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01:01


Olá! Chegou à caixa de correio do homem da máquina especulativa. Obrigado por ter ligado. De momento não estamos cá, pelo menos em corpo próprio e, sendo assim, não podemos atender. Depois do sinal, pode gravar a sua mensagem. E beijos e abraços aos que vieram por bem. Até daqui a mais três ou quatro dias, se a Passarola não descambar.

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28.10.08

a metrópole feérica / terra incógnita

Capa e primeira página de Manata - A Metrópole Feérica



"A Metrópole Feérica" é o primeiro volume de uma série, "Terra Incógnita", editada (e bem) pela Tinta da China .

José Carlos Fernandes escreve, Luís Henriques desenha. Os apreciadores de BD conhecem ambos, não vou estar aqui a tentar ensinar o que os outros sabem melhor do que eu. Limito-me, portanto, a dar opiniões.

Este volume inclui seis histórias: Manata, A Metrópole Feérica; Fílon, O Teatro do Mundo; Khamsin, A Inconstância da Vontade; Trabântia, As Fundações da Sociedade Perfeita; Tangaroa, O Umbigo dos Oceanos; Babel, Um Deus que nos Escute. Estas histórias traduzem uma estratégia narrativa que consiste em contar coisas acerca de cidades ou lugares que, embora não existam no mapa oficial, estão bem presentes nos nossos medos ou esperanças, ou nas diabruras que homens e mulheres com organização fazem a outros homens e mulheres mais desprevenidos. Estes lugares imaginários habitam a nossa inteligência. A inteligência que podemos ter das nossas patologias colectivas. O texto que aparece nas badanas (e que reproduzimos abaixo) dá, e bem, o programa. E é um magnífico programa, com muito espaço para a imaginação - mas também com muito lugar para dizer coisas sérias, pertinentes, intervenientes. As obras utópicas sempre serviram para dar força ao falar do que existe e do que deveria existir, utopia nunca foi delírio. E esta "terra incógnita" tem programa à altura dessa tradição que nasceu muito antes da BD.


pedaço de uma página de "Fílon - O Teatro do Mundo"


Os desenhos são magníficos. Eu diria metafísicos. Transmitem ambiente. Ambiência. Uma sensação de estar. Um estado de espírito. Uma ameaça específica em cada história. Sim, porque cada história tem um tipo de desenho muito próprio. O conjunto é um magnífico exercício de imaginação e arte.

O conjunto promete. Mas... e há tantas vezes um mas... mas é pena que esta obra denote, na escrita, uma certa pressa e uma consequente sensação de falha. Em geral as histórias assentam em excelentes ideias. Mesmo as que exploram linhas já muito batidas (Trabântia, como crítica das sociedades comunistas, a partir do nome do carro produzido na Alemanha da Leste antes da queda do Muro de Berlim, não é propriamente muito original). Provavelmente sem excepção, todas as histórias são geradas a partir de uma boa ideia para transmitir e de uma boa noção de como o fazer. Mas, também provavelmente sem excepção, ficam pelos aspectos mais corriqueiros dessa mesma ideia, ficam pela rama, desenvolvem pouco, não voam... e acabam por cair perto, com finalizações frouxas, banalizantes, decepcionantes. Será que os autores precisavam mesmo de publicar depressa? Não conheço as circunstâncias e pode haver explicações muito atendíveis. Mas este álbum faz lembrar o livro "A Caverna", de Saramago, que é um modelo de como uma ideia promete e depois falha, morrendo às mãos de um bom autor que se acomodou a um resultado muito inferior ao que se podia esperar dele.


Um recorte de "Trabântia - As Fundações da Sociedade Perfeita"


Dito isto, e dito sem dó nem piedade, cautela: a obra vale a pena, vale muito a pena. Lamentavelmente não atinge os cumes que, com o material que tem, prometia. Mas, mesmo assim, é um belo trabalho. Esperamos que os próximos volumes da "Terra Incógnita" sejam menos apressados e cumpram a promessa.


recanto de "Babel - Um Deus que Nos Escute"


No texto das badanas pode ler-se:


«Parece que um certo Thomas Kohnstamm, num misto ardiloso de arrependimento e oportunismo, deu à estampa um livro intitulado "Do travel writers go to hell?", em que confessa que nem sempre visitou os sítios sobre os quais escreveu para os prestigiados guias de viagens da "Lonely Planet". O guia da Colômbia terá sido escrito em São Francisco (EUA) a partir das informações veiculadas por uma namorada de Kohnstamm, que era funcionária no consulado colombiano na dita cidade californiana. Atendendo ao clima insalubre que reina na Colômbia e sendo a qualidade de gringo de Kohnstamm um atractivo que o tornaria num candidato a ganhar uma estadia vitalícia nas colónias de férias geridas por seitas narco-marxistas e a ter de passar o resto dos seus dias a aturar o zumbido dos mosquitos e as leituras em voz alta de textos programáticos de Lenine, a opção do escritor parece mais que atilada.
O director executivo da "Lonely Planet" declarou-se decepcionado com esta revelação, mas tentou salvar a reputação da empresa, afirmando crer que os restantes guias são credíveis e não são beliscados por esta fuga pontual à verdade.
Pois eu sonho com um dia em que todos os guias sejam escritos sem visitar os locais e os viajantes que os seguem se percam e frequentem restaurantes não recomendados, e comam o arranjo floral sobre a mesa julgando tratar-se de um prato típico, e contraiam doenças desconhecidas da medicina, e façam gestos com as mãos que poderão exprimir afecto no Ocidente Civilizado mas que noutras paragens podem querer insinuar que o interlocutor mantém relações íntimas e regulares com caprinos, e passem ao lado do rutilante Mausoléu do Rei do Poliuretano Expandido e dos urinóis públicos em que um Artista Pop Famoso foi surpreendido em relações contranatura e da gruta onde Pigres de Caria escreveu a peça "Batrachomyomancia", e se esqueçam de visitar a cidade natal do compositor Bohuslav Matěj Černohorský, e caminhem inadvertidamente de havainas, boné de baseball e iPod aos berros sobre o túmulo do profeta Al-nasdaq, e sejam perseguidos por uma turba enfurecida que os quer fritar em azeite como punição por tão inimaginável sacrilégio.
Tanto quanto sei, os autores do presente livro levam vidas apagadas, burguesas e recatadas num canto ensolarado da Europa meridional e são pouco viajados, pelo que não têm conhecimento directo dos sítios de que falam – é pois com entusiasmo que recomendo este livro.»

Thomas Hook, fundador da Agência de Viagens Estacionárias Couch Potatoe

a grandeza de portugal



Pesca ilegal: Greenpeace “acorrenta” quatro navios portugueses no porto de Aveiro.


A globalização não nos afogou! Os grandes deste mundo conseguem ver-nos no meio da confusão!
(E nesta altura de confusão sempre é menos arriscado fazer proselitismo num pequeno país do que, sei lá, na Líbia, em Angola, ou nalgum potentado com melhores serviços de informação.)

Dono dos navios que foram alvo de acção da Greenpeace nega pirataria.


uma oração



Morreu o realizador de “Garganta Funda”.


O filme é uma verdadeira porcaria, posso opinar. Mas não é por isso que o homem importa ou deixa de importar. O que conta é que ele é um dos exemplos mais notáveis de um ponto essencial: o valor político da acção de uma pessoa não tem nada a ver com o putativo valor moral dessa mesma pessoa. Gerard Damiano fazia filmes e revistas discutíveis, mas tinha razão quanto a questões de liberdade - quando a liberdade tem a ver com a possibilidade de se fazer aquilo de que eventualmente discordamos. Mesmo que isso não fosse de facto o que lhe interessava.
(Aos meus leitores que desconhecem o homem e a sua obra, por serem gente limpinha, peço que não se escandalizem demasiado com esta dedicatória. A fome é muito mais pornográfica do que a estética do "Garganta Funda".)

27.10.08

os trabalhadores que paguem a crise


Confederação da Indústria quer reunião de discussão sobre salário mínimo .


Sócrates falou sobre salário mínimo com “irresponsabilidade”, diz Ferreira Leite .


Associações patronais e sindicatos concordaram num aumento gradual do salário mínimo. Ele deveria chegar em 2009 a 450 euros. Sócrates disse que em 2009 o salário mínimo seria actualizado para... 450 euros. O patronato berra e pula que não pode ser. É a crise, dizem eles. Manuela Ferreira Leite diz que Sócrates foi irresponsável ao anunciar que... se cumpriria o acordado: salário mínimo a 450 euros.
Neste país a palavra já valia pouco. Mas agora há quem ache que mesmo os acordos firmados livremente, e formalmente, não devem valer de nada. É por causa da crise? Mas os trabalhadores não sofrem com a crise? São só as empresas? O que estão os patrões dispostos a dar a mais aos trabalhadores para os compensar da crise? Ou pretendem simplesmente que os trabalhadores sejam a única almofada, a parte mole do sistema que arca com todas as consequências?
É grande o descaramento.
A única coisa que tem piada nestes tristes episódios é que Ferreira Leite mostra que não percebeu nada: cai em todas as cascas de banana que o governo lhe estende. Deixou de estar sempre calada para estar sempre a dizer disparates.

sinal de trânsito



Adriana Molder (detalhe)

26.10.08

da pluralidade dos mundos


Não há muitos filósofos. Não há muitos filósofos em Portugal. Há um número considerável de professores de filosofia, mas isso não é bem a mesma coisa. Dos poucos filósofos que há, poucos se mostram como tal na "rede". Muito menos em Portugal. E, desses, raros são os que aguentam um mundo como a blogosfera. Que saibam escrever num blogue com aquele toque de quem olha para o mundo com olhos filosóficos. Muito menos em Portugal.
Pois, Pedro Galvão, e o seu Da Pluralidade dos Mundos, é um exemplo desses poucos. E bons. A visitar. Dêem-se tempo. E vão. Ao Da Pluralidade dos Mundos visitar, por exemplo, e por esta ordem, para começar com pouca escrita mas com muito que pensar, estes dois posts: primeiro este, depois este.